Arquivo mensais:abril 2020

A Cólera, uma Pandemia Imperialista

Estamos vivendo uma nova pandemia. A cada pandemia, nossos recursos e nossa capacidade de reagir tem aumentado sensivelmente. Mas os nossos problemas, entretanto, ainda s√£o os mesmos: desigualdade, infraestrutura prec√°ria, pouco comprometimento das autoridades p√ļblicas. E, da mesma forma, em meio √† loucura coletiva que se instala, h√° muito esfor√ßo da popula√ß√£o e da sociedade para superar e vencer estes momentos t√£o dram√°ticos.

Doente de Cólera (~1880)

Nosso exerc√≠cio aqui √© discutir e trazer alguns dados destas pandemias antigas no mundo e no Brasil. √Č um esfor√ßo para que, atrav√©s do conhecimento hist√≥rico trazido por estas outras pandemias, nos ajude um pouco na compreens√£o do conturbado momento em que vivemos. Conhecer a hist√≥ria, neste caso um pouco de Hist√≥ria da Ci√™ncia, √© necess√°rio para que este conhecimento possa nos ajudar e ‚Äď por que n√£o? –  nos guiar neste mar revolto que estamos atravessando.

A primeira pandemia da modernidade

No rol das grandes pandemias que assolaram a humanidades nos √ļltimos duzentos anos, as pandemias de c√≥lera merecem um lugar de destaque. (adoto aqui c√≥lera, seguindo a professora Raquel Lewinson, pois, segundo ela, a palavra n√£o √© masculina). Sua virul√™ncia e sua letalidade, assim como a rapidez com que se espalhou por todos os continentes habitados fez dos diversos surtos de c√≥lera que tem nos assaltado ate hoje (!) momentos de grande sofrimento e apreens√£o.

A c√≥lera √© causada por uma bact√©ria, o vibri√£o col√©rico. Em meados do s√©culo XX, al√©m do vibri√£o col√©rico ‚Äúcl√°ssico‚ÄĚ, os biotipos El Tor e El-Tor-Inaba surgiram para complicar o quadro. Entretanto, o vibri√£o col√©rico n√£o tem outros hospedeiros al√©m do homem. Por outro lado, n√£o existem hospedeiros animais conhecidos. O vibri√£o se encontra nas fezes, tanto de doentes quanto de pacientes assintom√°ticos. A contamina√ß√£o das pessoas se d√° por ingest√£o de √°gua ou alimentos contaminados.

Depois de deglutido, se conseguir sobreviver √† acidez do estomago, o vibri√£o chega ao trato digestivo humano. L√° instalado, o vibri√£o causa muita diarreia e v√īmitos, al√©m de c√≥licas abdominais e espasmos musculares violentos. Quando infectada pela c√≥lera, a pessoa fica rapidamente desidratada e com uma colora√ß√£o azulada, a pele murcha. Assim, a morte se d√° pela violenta perda de √°gua, assim como dos eletr√≥litos nela dissolvidos. Isto causa desidrata√ß√£o, queda do volume de sangue circulando, hipertens√£o arterial e arritmias card√≠acas, bem como fal√™ncia das fun√ß√Ķes de circula√ß√£o do sangue e dos rins.

A C√≥lera e o Imp√©rio Brit√Ęnico

A c√≥lera √© originaria da √ćndia, onde ela √© uma doen√ßa end√™mica, principalmente na regi√£o de Bengala. Existem not√≠cias desde 500 a.C., escritas em s√Ęnscrito e em grego, relatando doen√ßas parecidas com a c√≥lera. Gaspar Correa, que participou da viagem de Vasco da Gama √† √ćndia, anotou a ocorr√™ncia de uma fulminante doen√ßa na regi√£o do Malabar. Desta forma, Gaspar Correa descreveu uma doen√ßa fulminante, uma forte dor de barriga que matava as pessoas em oito horas.  

Entretanto, quem mais fez para que a c√≥lera virasse uma pandemia foi o Ex√©rcito Ingl√™s. Pode-se dizer que a c√≥lera foi a primeira grande pandemia imperialista. Viajando em modernos vapores, os soldados ingleses, os ‚Äúred coats‚ÄĚ, espalharam a doen√ßa a partir da √ćndia para quase todos os portos em que fizeram escala no Oceano √ćndico, at√© que chegaram √†s ruas sujas e f√©tidas da Londres oitocentista. De Londres, a c√≥lera pegou o trem e espalhou-se rapidamente por todo o Reino Unido. De l√°, o vibri√£o col√©rico atingiu toda a Europa e, pouco mais tarde, as Am√©ricas.

A Pandemia seus tent√°culos

Assim, a c√≥lera se espalhou por todo o mundo no s√©culo XIX. Os diversos surtos epid√™micos ocorreram principalmente entre os anos 1817-1823, 1826-1837, 1846-1862, 1864-75 e 1881-1896, chegando mesmo aos dias de hoje. Em sua nova forma, com o vibri√£o El-Tor, a doen√ßa voltou a reocupar algumas √°reas da √Āsia, √Āfrica e Am√©ricas, de onde parecia ter sido extinta. No Brasil, os anos 1990 foram anos de epidemias muito intensas de c√≥lera do tipo el-Tor-Inaba.

Durante a grande pandemia do c√≥lera, que experimentou v√°rios pequenos surtos de mais alta intensidade, as popula√ß√Ķes expostas a sua a√ß√£o ficavam apavoradas e desnorteadas. N√£o era para menos. Entretanto, as autoridades p√ļblicas respons√°veis por este enfrentamento, embora tomassem diversas medidas, n√£o sabiam exatamente o que fazer. Desta forma, havia uma certa no√ß√£o que a higiene era importante. Mas n√£o se sabia como a c√≥lera se transmitia. Nem qual seria o tratamento mais adequado.

Pacini e o vacilo de Koch

Os governos e dos cientistas de todos os países durante este tempo gastaram muito tempo e dinheiro na busca de uma solução para se descobrir as causas da transmissão e também a cura da doença.

Filipo Pacini, anatomista italiano, descobridor do Vibrião da cólera em 1854
Filipo Pacini, anatomista italiano, descobridor do Vibrião da cólera em 1854

O vibri√£o col√©rico foi descrito pela primeira vez em 1854 pelo m√©dico italiano Filipo Pacini (1812-1883). O trabalho de Pacini, apesar de muito bem feito e com descri√ß√Ķes muito boas do pat√≥geno, foi praticamente ignorado pelos patologistas europeus. Algum tempo depois, pelo alem√£o Robert Koch (1843 – 1910) que fez o an√ļncio da descoberta do ‚Äúcomma bacillus‚ÄĚ em 1883. Motivo pelo qual o vibri√£o ficou durante muito tempo conhecido como o ‚Äúbacilo de Koch‚ÄĚ.

(A gente não aprende que um dos princípios da ciência é a prioridade nas descobertas? Por este singelo motivo, o vibrião devia se chamar Bacilo de Pacini. No entanto, a questão, como mostraram vários pesquisadores da História das Ciências, é que a ciência não é neutra. Ela tem cara, etnia, gênero definidos. A comunidade médica Italiana tanto protestou contra o injusto esquecimento do excelente trabalho de Pacini. Tanto que, em 1965, o Comitê Internacional de nomenclatura Bacteriológica reconheceu a anterioridade de Pacini e o bacilo foi renomeado como Vibrio colerae Pacini 1854.)

Vibri√£o colerico, descrito por Pacini, 1854

Robert Koch e a bacteriologia

O bacilo (na verdade um vibri√£o) da c√≥lera foi, portanto, (re)descoberto em 1883-84 pelo Dr Robert Koch (1843 – 1910) e sua equipe. A descoberta do vibri√£o foi um esfor√ßo dos cientistas que constru√≠am a ‚Äúteoria dos germes‚ÄĚ, ou teoria contagionista. Esta teoria pressupunha que as doen√ßas seriam transmitidas atrav√©s do contato entre as pessoas, que transmitiram os ‚Äúgermes‚ÄĚ de uma a outra, provocando o cont√°gio. Entretanto, a aceita√ß√£o desta explica√ß√£o, como tudo em ciencia, n√£o era unversal. Existia uma outra teoria, a teoria miasm√°tica, que pressupunha que a doen√ßa se espalharia pelo ar contaminado, os ‚Äúmiasmas‚ÄĚ. Voltaremos a este assunto em outro post.

Robert Koch, bacteriologista alemão, foi importante na descoberta dos bacios da difteria, antraz, tuberculose e cólera
Robert Koch, bacteriologista alemão, foi importante na descoberta dos bacios da difteria, antraz, tuberculose e cólera

Robert Koch, a partir de seu laboratório em Berlim fez várias descobertas importantes, como as bactérias que causam o antraz, a difteria e a tuberculose. Trabalhando em paralelo com Louis Pasteur e outros, foi um dos criadores da moderna bacteriologia. Desta forma, seu laboratório em Berlim foi um dos primeiros no mundo a desenvolver as técnicas de cultura de bactérias que usamos até hoje.

Ilustração do vibrião num periódico cientifico do seculo XIX
Se√ß√£o de submucosa intestinal de uma mulher vitima de c√≥lera quatro dias ap√≥s o √≥bito, com comunidades de bact√©ria s em forma de bast√£o (vibri√Ķes?)

Koch conseguiu isolar o seu ‚Äúcomma bacilus‚ÄĚ numa viagem que fez ao Egito e √† √ćndia, para acompanhar dois surtos importantes da doen√ßa. A carta que escreveu em 1884 de Calcut√° foi importante como o in√≠cio de novas formas de entender e trabalhar coma doen√ßa.

Entretanto, n√£o foi um caminho f√°cil. Koch ainda teria que provar que o seu ‚ÄúBacilo‚ÄĚ era o transmissor da c√≥lera. Seu embate com o famoso m√©dico alem√£o Max von Pettenkofer, que defendia uma teoria que mesclava emana√ß√Ķes miasm√°ticas a partir de intera√ß√Ķes entre o solo e o len√ßol fre√°tico, foram debates importantes neste per√≠odo.

Pandemias e Sociedade

Entretanto, o desenrolar de uma pandemia, como estamos vendo muito bem no presente, n√£o se resume a contendas de ideias ente cientistas. A for√ßa da doen√ßa e os impactos na sa√ļde das pessoas tamb√©m acaba por provocar grandes como√ß√Ķes sociais e pol√≠ticas. Assim, √© desta intrincada rela√ß√£o que temos que escolher os fios que guiam a hist√≥ria destes eventos.

A c√≥lera, juntamente com as outras doen√ßas end√™micas como a tuberculose, a difteria, a febre amarela e tantas outras foi respons√°vel por um grande n√ļmero de respostas dadas pelas diferentes sociedades para sua erradica√ß√£o. Entretanto, depois da Pandemia de c√≥lera, a humanidade n√£o seria mais a mesma. Por outro lado, a pandemia n√£o envolveu somente cientistas em seu trabalho de laborat√≥rio, por mais importante que este fosse. Envolveu m√©dicos, mas tamb√©m envolveu engenheiros, arquitetos e pol√≠ticos.

Desta forma, a c√≥lera, como qualquer outra epidemia/pandemia,  quando ataca uma sociedade, e tornou evidentes as suas contradi√ß√Ķes, principalmente as quest√Ķes de desigualdade social. Assim, as pestes, por mais democr√°ticas que pare√ßam, tem uma especial predile√ß√£o pelas popula√ß√Ķes mais pobres e, portanto, mais vulner√°veis. Por isso, pandemias tamb√©m s√£o quase sempre misturadas aqui e ali por numerosos protestos e revoltas populares.

N√£o √© √† toa que em representa√ß√Ķes mais antigas a peste esteja sempre associada as suas irm√£s, a guerra e a fome.

Temos muita coisa a discutir.

Para saber mais:

Lewinsohn, Rachel. “Tr√™s epidemias: li√ß√Ķes do passado.” Ed Unicamp, 2003: 318 p.

Coleman, William. “Koch’s comma bacillus: the first year.” Bulletin of the History of Medicine 61, no. 3 (1987): 315-342.