Arquivo mensais:maio 2018

As glossopetras dão com a língua nos dentes

Olá! Nós somos as glossopetras!

um selfie de glossopetras, mostrando como algumas de n√≥s s√£o bem grandinhas…

Somos f√≥sseis pequenos, de mil√≠metros a dec√≠metros de tamanho. Somos encontrados em abund√Ęncia nas melhores camadas sedimentares pr√≥ximas de voc√™. No entanto, somos mais comuns em alguns lugares espec√≠ficos do mar Mediterr√Ęneo, de onde somos extra√≠das

em grande quantidade. Um dos lugares mais famosos de ocorrência de glossopetras é a Ilha de Malta.

O nome glossopetra é um nome greco-romano. Reparem: glossós, ou língua, é uma palavra grega. Língua em latim é língua mesmo. E petra é pedra em latim, como até as pedras sabem. Glossopetra, portanto, é um nome greco-romano, que significa Língua de Pedra. Porque parecíamos com pequenas línguas.

Nós somos conhecidas em praticamente todas as línguas e culturas do Velho Mundo.

AMULETOS PARA “SOLTAR” A L√ćNGUA…

Para os romanos, n√≥s, as l√≠nguas de pedra, √©ramos amuletos importantes. Segundo se acreditava, n√≥s poder√≠amos fazer ‚Äúdesatar‚ÄĚ a l√≠ngua das pessoas. Poder√≠amos tamb√©m fazer com que as pessoas confessassem os crimes os mais secretos. Da mesma forma, nos usavam tamb√©m para tornar as pessoas mais suborn√°veis e colaborativas. Por outro lado, era tamanho nosso poder que alguns romanos mais desabusados usavam n√≥s glossopetras para seduzir pessoas castas para os atos mais inconfess√°veis!

No entanto, sábios com Plínio, o Velho, eram mais céticos. Segundo Plínio, os mágicos diziam que as glossopetras caiam dos céus durante os eclipses da Lua. Já imaginaram, uma chuva noturna de pequenas linguinhas de pedra? No entanto, segundo Plínio, isso parecia não ser verdade.  Assim como ele também não compartilhava a crença antiga que as glossopetras acalmavam os ventos.

Monddrache, o Dragão da Lua. Gravura antiga atribuídas pelo astrólogo, nigromante e alquimista Agripa de Netesheim

Além disso, algumas glossopetras maiores  (ver figura acima) eram também chamadas de línguas de dragão. Tinham cerca de dez centímetros de comprimento ou mais. Existia uma lenda, que vinha do cultura nórdica, que atribuía a diminuição da Lua em alguns momentos de seu ciclo à ação de um dragão, o Monddrache, o Dragão da Lua. Essas glossopetras maiores, quase da palma de uma mão humana,  eram chamados de Dentes do Dragão da Lua (Zähne der Monddrache).

SÃO PAULO E AS GLOSSOPETRAS
Selo comemorativo do naufr√°gio de S√£o Paulo na ilha de Malta. Depois desse naufr√°gio, n√≥s glossopetras passamos a s√≠mbolos do cristianismo…

Na ilha de Malta, onde somos abundantes, há a lenda de que São Paulo, ao naufragar na ilha, teria sido picado por uma víbora. O Santo não se fez de rogado, e atirou a serpente ao fogo. Como resultado, todos os dentes e olhos das cobras de Malta foram petrificados. Por isso, em alguns lugares, somos também chamadas de línguas de serpente. As serpentes que hoje existem na ilha de Malta não são venenosas, confirmando assim, empiricamente, a ação milagrosa do apostolo. Essa lenda também aparece na Irlanda, com São Patrício. Aqui nós já comentamos sobre Santa Hilda de Whithby e os amonites.

Há uma outra lenda, muito posterior, dizendo que São Paulo transformou a sua própria língua em pedra, com numerosas propriedades medicinais. Por outro lado, os cavaleiros Normandos, que conquistaram Malta em 1090 AD, logo se aproveitaram dessa lenda e logo vendiam para toda a Europa as famosas (e milagrosas!) línguas de São Paulo. Com muito lucro, diga-se.

UM PODEROSO ANT√ćDOTO CONTRA QUASE TUDO
Natterbaum, ou “arvore das serpentes”, pe√ßa em prata sobredourada representando a genealogia de Cristo. Esta pe√ßa era usada como prote√ß√£o para venenos. No centro em cima h√° uma enorme L√≠ngua de Drag√£o.

Existiram, tamb√©m, diversas as aplica√ß√Ķes medicinais das glossopetras. Durante a Idade M√©dia, acreditava-se que n√≥s, glossopetras, √©ramos poderosos antivenenos. Poder√≠amos detectar a presen√ßa de veneno mudando de cor ao sermos mergulhadas numa ta√ßa de vinho. Desta forma, √©ramos usadas como contraveneno de cobra, para acelerar o parto e como poderoso talism√£ na prote√ß√£o contra bruxarias.

Durante a Renascença, o geografo holandês De Laet (1581-1649) enviou algumas glossopetras para serem usadas para males bucais. Entre os usos registrados estão a dor de dentes e para aliviar as dores da dentição em crianças.

Os usos das glossopetras como medicamento foi muito difundido. A ‚ÄúTerra de S√£o Paulo‚ÄĚ , como era conhecido o material contendo as glossopetras maltesas, era comercializada como rem√©dio at√© fins do s√©culo XIX. Um vasto mercado, como dir√≠amos hoje. No entanto, a ocorr√™ncia de falsifica√ß√Ķes levou muitos governos desde o s√©culo XVII a realizar verifica√ß√Ķes e autua√ß√Ķes em materiais tidos como Terra de S√£o Paulo.

Nós, glossopetras, poderíamos contar muitas mais histórias e lendas, meninxs.

DENTES DE TUBARÃO?

No entanto, temos que confessar uma coisa: somos, na realidade, dentes de tubar√£o. Sim, dentes de tubar√£o. Boa parte de n√≥s glossopetras somos simplesmente dentes de tubar√Ķes lamniformes. Contudo, as maiores glossopetras s√£o provenientes do gigantesco Charcharodon megalodon, uma esp√©cie extinta de um tubar√£o gigante que viveu entre o Mioceno at√© o fim do Plioceno (para voc√™s humanos que n√£o tem no√ß√£o de tempo, significa um per√≠odo entre 23,3 at√© 3,3 milh√Ķes de anos atr√°s).

Uma estimativa do tamanho prov√°vel do Charcharodon megalodon (cinza e vermelho) com o tubar√£o Baleia, o tubar√£o Branco e um ser humano;

Como foi que mudou a ideia de que nós éramos pedras singulares com poderes mágicos e medicinais e nos tornamos meramente dentes de grandes bestas pré-históricas? Esta discussão, por mais simples que pareça, está na base da moderna Geologia.

BRINCADEIRAS DA NATUREZA

voc√™s podem n√£o acreditar, mas nem sempre os f√≥sseis foram aceitos como hoje: restos de organismos preservados por algum processo. Durante o Renascimento, a utiliza√ß√£o de alguns conceitos aristot√©licos, como a petrifica√ß√£o, levou alguns¬† s√°bios a aceitar que os fosseis poderiam ser objetos gerados espontaneamente nas rochas. Seriam as “virtudes plasticas” defendidas, entre outros, pelo sabio veneziano Girolamo Fracastoro (1476-1553). Seriam meras “brincadeiras da natureza”.

Outros sábios, entretanto, achavam que os animais e plantas petrificados eram realmente restos de organismos. Entre estes estavam, por exemplo, o famoso medico modenesi Gabrielle Falllopio (1523-1562).  Mas quais organismos seriam esses? existiriam realmente ou eram seres já extintos? Isso levava a uma outra questão: se os seres eram extintos, era sinal que eram seres imperfeitos? Deus, por acaso, fazia coisas imperfeitas? Essa era a grande discussão das ciências naturais nestes período.

FABIO COLLONA E AS GLOSSOPETRAS
o sabio neapolitano Fabio Collona (1567-1640), autor de importante estudo sobre nós, glossopetras!

N√≥s, as glossopetras, estivemos ativas neste debate. Um dos trabalhos mais imortantes sobre n√≥s foi realizado pelo naturalista napolitano Fabio Collona (1567 – 1640), da¬†Academia dei Lincei (dos linces, animal que enxerga mais longe) e amigo de Galileu. Collona estabeleceu que eramos restos de organismos. Para isso, ele calcinou algumas de n√≥s (ui!) e viu que √©ramos formadas por mat√©ria org√Ęnica. Por outro lado, a terra que nos envolvia n√£o tinha a mesma origem. Logo, segundo Collona, as glossopetras eram restos org√Ęnicos.

a semelhan√ßa com os dentes de tubar√£o tamb√©m chamou a aten√ß√£o de Collona. Assm, ele sugeriu que pudessemos representar restos de antigos tubar√Ķes, e n√£o pedras magicas ou antivenenos. Mas era necess√°rio mais algum debate para poder afirmar isso com seguran√ßa.

NICOLAU STENO E OS DENTES DE TUBARÃO

Foi Nicolau Steno quem estabeleceu a rela√ß√£o dos tubar√Ķes com as gloss√≥petras. Para

tubar√£o glossopetras
Cabeça de tubarão estudada por Steno e as glossopetras

tanto, ele estudou a carca√ßa de um tubar√£o capturado ao longo da costa de Livorno em 1666 e confirmou a semelhan√ßa entre as glossopetras e os dentes dos tubar√Ķes. Para isso, Steno usou de suas habilidades como anatomista e fez uma compara√ß√£o usando o m√©todo da anatomia forense. Assim, tim-tim por tim-tim, ele explicou as semelhan√ßas entre as duas.¬† Desta forma, ficou bem claro, para bons e maus entendedores, que as glossopetras eram dentes de tubar√£o.

Contudo, a polêmica ainda durou mais alguns anos. Somente em meados do seculo XVIII é que os fósseis foram aceitos como restos de organismos e tomaram o sentido que tem hoje. Para tanto, nós, glossopetras, tivemos um papel fundamental.

COM A L√ćNGUA NOS DENTES

Assim sendo, hoje nós não somos mais fósseis, e sim uma parte deles. Desta forma, não somos mais tão importantes e procuradas como no passado, empobrecendo talvez alguns mineradores. Contudo,  nós somo muito orgulhosas de nossa participação. De fato, nossa presença nestes debates serviu para que os fósseis fossem reconhecidos como hoje são. Mais que isso, houve uma mudança na maneira como as pessoas enxergavam as camadas de rocha.

Assim, o que era s√≥ brincadeira da natureza passou a significar tamb√©m testemunhos da hist√≥ria terrestre. O grande livro da natureza podia afinal ser lido. A hist√≥ria da natureza, com o tempo, passou a ser maior que a hist√≥ria humana. Por um lado, a hist√≥ria natural pode ser lida em milh√Ķes e mesmo bilh√Ķes de anos. Por outro lado, outras preocupa√ß√Ķes vinculadas com esta historia natural passaram a ocupar o centro da vida das pessoas.

Entretanto, quest√Ķes como evolu√ß√£o das esp√©cies, mudan√ßas clim√°ticas, grandes extin√ß√Ķes, etc s√≥ fazem sentido num tempo longo. E est√£o nas agendas das pessoas e dos governos de hoje. Contudo, nada disso seria poss√≠vel sem entender que pequenas linguinhas encontradas nas rochas possam ser dentes de tubar√Ķes.

Nada mal, n√£o?

PARA SABER MAIS:

Hsu, K.T., 2009. The path to Steno’s synthesis on the animal origin of glossopetrae. The Revolution in Geology from the Renaissance to the Enlightenment. Geological Society of America, Boulder, CO, Memoirs, 203, pp.93-106.

Rosenberg, G.D. ed., 2009. The Revolution in Geology from the Renaissance to the Enlightenment (Vol. 203). Geological Society of America.

O problema não é o 13, é o 14! O mito do Carbono 14 na Paleontologia

H√° quem diga que o treze √© um n√ļmero da sorte.¬†E h√° tamb√©m aqueles que n√£o gostam das sextas-feiras 13‚Ķ¬†

Mas como professora de paleontologia j√° h√° alguns anos eu tenho dificuldades com o 14. Na verdade, com o Carbono 14 (C14).

Em algum momento da vida de voc√™s, meus queridos alunos e/ou leitores, algu√©m lhes falou sobre ele. E eu n√£o sei bem os motivos da m√≠dia e de alguns livros de conte√ļdo b√°sico sobre geoci√™ncias enfocarem a data√ß√£o por carbono 14 como sendo a resolu√ß√£o de todos os problemas na vida de um paleont√≥logo; mas, claro, essa t√©cnica n√£o √© tudo isso.

A simplificação que normalmente vejo nos textos sobre o assunto passa uma ideia errada de como a datação de materiais fósseis realmente funciona.

Mas vamos começar do início…

Datação de quê? Idade do organismo ou há quanto tempo ele viveu/morreu?

Para obtermos a idade de algum material, necessitamos de alguma técnica que meça a quantidade de anos que aquele material tem, ou que nos indique uma idade aproximada do material em questão. Com isso eu quero dizer o seguinte: se um organismo viveu durante 30 anos, no período Triássico (250-200 M.a.), a idade que iremos obter com algum método de datação é a idade triássica. A idade do organismo (se era jovem, adulto ou idoso) também pode ser obtida, de forma aproximada, com nossos conhecimentos sobre o desenvolvimento ontogenético do grupo ao qual aquele organismos pertence; mas não é sobre isso que iremos tratar aqui, ok?

O que é necessário para datar?

O m√©todo Carbono 14 necessita de mat√©ria org√Ęnica para ser utilizado.

Os f√≥sseis, como n√≥s j√° falamos por aqui no blog, nada mais s√£o que restos ou vest√≠gios de vida pret√©rita transformados (em algum grau) em rocha (litificados). Existem, sim, casos onde h√° preserva√ß√£o de material org√Ęnico original. Mas na maioria das vezes, esse material √© perdido no processo de litifica√ß√£o. Ent√£o, na maioria das vezes, n√£o h√° Carbono para ser datado nos f√≥sseis.

Quais as premissas da técnica?

Toda técnica utilizada pelos cientistas segue algumas premissas e possui alguns limites.

Uma das premissas é que o material tenha Carbono, como falamos antes. Então, se quisermos saber a idade de uma rocha (que não tenha C), o método de C14 não pode ser aplicado.

Is√≥topos s√£o elementos qu√≠micos (isto √©, t√™m pr√≥tons, n√™utrons e el√©trons) que possuem n√ļmero at√īmico igual (n√ļmero de pr√≥tons) mas um n√ļmero de massa diferente (m√©dia ponderada das massas dos is√≥topos, isto √© pr√≥tons + n√™utrons). No caso da Carbono, encontramos na natureza v√°rios is√≥topos, e os mais comuns s√£o C12, C13 e o famoso C14. A abund√Ęncia natural desses is√≥topos √© diferente, sendo o C12 o mais est√°vel e mais comum dentre todos. Sendo o mais comum (e tamb√©m por outros motivos) os organismos utilizam-se mais do C12. No entanto, o C14, apesar de raro, tamb√©m √© incorporado pelos organismos.

O C12 com 6 prótons e 6 neutrons. Fonte.

O C14 n√£o √© t√£o comum quanto o 12 basicamente por dois motivos: porque ele se forma na alta atmosfera pela a√ß√£o de raios c√≥smicos e descargas el√©tricas em nitrog√™nios (eventos aleat√≥rios), e porque o C14 √© um is√≥topo inst√°vel de Carbono, isto √©, ele se transforma em nitrog√™nio novamente, para alcan√ßar sua estabilidade. Esse fen√īmeno √© muito bem explicado no v√≠deo que coloquei nas refer√™ncias deste texto.

No princ√≠pio do desenvolvimento da t√©cnica de C14, uma premissa importante para o estudo era que a forma√ß√£o do C14, apesar de rara, ¬†seria constante para os √ļltimos s√©culos. Hoje sabe-se que houve varia√ß√£o e uma tabela j√° foi constru√≠da para adequa√ß√£o das an√°lises.

O quadro abaixo mostra os diversos is√≥topos de Carbono e a dura√ß√£o de suas meias-vidas na natureza ( em segundos “s” ou minutos “m”. Fonte):

Simb % natural Massa Meia vida
9C 0 9,0310 0,127 s
10C 0 10,0169 19,3 s
11C 0 11,0114 20,3 m
12C 98,93 12,0000 Est√°vel
13C 1,07 13,0034 Est√°vel
14C 0 14,0032 5715 a
15C 0 15,0106 2,45 s
16C 0 16,0147 0,75 s
17C 0 17.0226 0,19 s

Como o C14 chega a fazer parte da matéria de um carnívoro?

As plantas, por meio de fotossíntese, utilizam os CO2 produzidos pelas descargas elétricas e impactos de raios cósmicos nos N; seguindo a cadeia alimentar, os animais que predam plantas, incorporam esse C instável, e por conseguinte, o C14 chega aos carnívoros que predam estes herbívoros.

Todo paleontólogo usa esta técnica?

Nem todo o paleont√≥logo sabe dizer a idade exata (em n√ļmeros absolutos) do material com que trabalha. Eu, por exemplo, nunca datei absolutamente nenhum f√≥ssil com que j√° trabalhei. O C14 √© usado para datar materiais de at√© 50 ou 60 mil anos. Eu trabalho com f√≥sseis de 400 milh√Ķes de anos!

O limite do método se dá por um viés analítico. Como o C14 é muito raro em proporção na matéria a ser analisada, após 10 decaimentos suas porcentagens são tão pequenas que ele fica quase impossível de ser detectado. Após 10 decaimentos o material tem cerca de 50 mil anos, uma vez que a meia-vida do C14 tem 5.730 anos.

Como se conta o C14?

O primeiro a realizar a contagem de C14 foi o pesquisador Libby, utilizando um contador Geiger. Ao se desintegrar, um C14 emite uma part√≠cula beta; essa part√≠cula √© detectada pelo referido equipamento. Ao colocarmos 1 grama de C atual (de algum ser vivo), temos 13,6 contagens por minuto. Sabendo disso, usamos da matem√°tica para saber quanto 1g de alguma amostra f√≥ssil pode indicar em termos de idade. Se a contagem for de 6,8, significa que uma meia vida j√° passou, isto √©, o organismo em quest√£o morreu h√° 5.730 anos. Outras t√©cnicas mais recentes e precisas j√° foram desenvolvidas, utilizando, por exemplo, a contagem dos √°tomos em si e comparando-se suas propor√ß√Ķes. Mais detalhes sobre isso podem ser lidos aqui.

√Č fato que a maioria das pessoas, quando questionada sobre data√ß√£o, lembra do C14. Mas veja, para o estudo paleontol√≥gico de materiais mais antigos que 50 mil anos, a t√©cnica n√£o pode ser utilizada! Lembrando que o planeta tem 4,5 G.a., o C14 n√£o √© o principal m√©todo de data√ß√£o em paleonto‚Ķ! Outros m√©todos s√£o muito mais comuns, como a data√ß√£o relativa das camadas e tamb√©m as data√ß√Ķes absolutas de rochas √≠gneas + data√ß√£o relativa das camadas de rochas sedimentares.

Como datar absolutamente uma camada?

Quando temos rochas √≠gneas, podemos usar m√©todos de data√ß√£o como Rub√≠dio-Estr√īncio, Chumbo-Chumbo, Ur√Ęnio-Chumbo, Pot√°ssio-Arg√īnio, entre outros. Neste caso, esses elementos qu√≠micos inst√°veis foram formados ¬†quando houve a gera√ß√£o dos minerais que comp√Ķem as rochas, por isso, assim que eles solidificam, seu decaimento inicia e a contagem do tempo atrav√©s das suas meias-vidas pode ser obtida. Cada rela√ß√£o is√≥topo-pai/is√≥topo-filho tem uma longa s√©rie de intermedi√°rios que se formam e possibilitam a data√ß√£o absoluta.¬†

E agora... você já sabe quais métodos mais usamos?
Por isso o C14 não é uma técnica utilizada em materiais mais antigos que 50 mil anos, e portanto, não é muito utilizado em Paleontologia. Observe, portanto, a imagem abaixo e me diga o que poderia ser melhorado nela?!

 

decaimento radioativo do C14
Ilustra√ß√£o que mostra o decaimento radioativo do C14… mas que induz as pessoas a achar que √© poss√≠vel datar um f√≥ssil de dinossauro com C14. Fonte.

 

Referências

http://www.deboni.he.com.br/dic/quim1_006.htm

https://manualdaquimica.uol.com.br/quimica-geral/isotopos.htm

http://www.seara.ufc.br/donafifi/datacao/datacao5.htm

Um outro post nosso sobre o tempo geológico, pode ser lido aqui.

Abstrato e concreto: as duas caras de uma concreção

As concre√ß√Ķes s√£o aquelas bolas, bolinhas, etc. que est√£o presentes em muitos locais, associadas a camadas de rochas. Em geral elas s√£o produto da cimenta√ß√£o diferencial de minerais como c√°lcio, s√≠lica, ferro, pirita, etc. ao redor de um n√ļcleo, por efeito de varia√ß√Ķes no meio circundante, que podem ser consequ√™ncia de mudan√ßas no pH, por exemplo. Caso do n√ļcleo ao redor do qual acontece a deposi√ß√£o seja um resto org√Ęnico, poder√° ocorrer a preserva√ß√£o e, por conseguinte, a fossiliza√ß√£o. Tamb√©m podem ser formadas concre√ß√Ķes nos rins ou c√°lculos renais, mas a√≠ √© bem mais doloroso que no caso das fossil√≠feras. Um tipo muito famoso de concre√ß√Ķes s√£o aquelas que cont√™m os f√≥sseis de peixes da Forma√ß√£o Romualdo, do Cret√°ceo da bacia do Araripe. Nelas, o concreto s√£o os f√≥sseis e o abstrato, a interpreta√ß√£o de quando, como e por que. A maioria dessas concre√ß√Ķes possui no seu interior oste√≠ctes (peixes √≥sseos), em muitos casos com todo o corpo e at√© com m√ļsculos, como o cora√ß√£o, e a √ļltima refei√ß√£o ainda a meio digerir dentro do est√īmago. No caso das concre√ß√Ķes (ou icti√≥litos) da Forma√ß√£o Romualdo, o mineral associado a elas √© o carbonato de c√°lcio. Uma das explica√ß√Ķes acerca da sua forma√ß√£o e abund√Ęncia refere-se a epis√≥dios de mortandade em massa, como consequ√™ncia de varia√ß√Ķes na salinidade, temperatura e oxig√™nio. Neste caso, muitos dos peixes teriam sido preservados devido √† libera√ß√£o de gases produzidos pela sua decomposi√ß√£o (principalmente metano), gerando mudan√ßas do pH, o que que criou um micro ambiente ao redor deles, dentro de um lago hipersalino, propiciando a deposi√ß√£o do carbonato sobre os organismos, o que favoreceu a sua r√°pida preserva√ß√£o. A deposi√ß√£o do carbonato s√≥ parou na medida em que a emiss√£o de metano cessou.

Trincheira para coleta de concre√ß√Ķes na Forma√ß√£o Romualdo, as setas vermelhas indicam a localiza√ß√£o das concre√ß√Ķes no meio das camadas de rocha

Em diversas pedreiras de carbonatos da Forma√ß√£o Irati, aqui no estado de S√£o Paulo, √© poss√≠vel encontrar, entre as camadas rochas calc√°rias, concre√ß√Ķes de s√≠lica cujas dimens√Ķes variam de cent√≠metros a metros. Neste caso, as camadas de rocha correspondem √† deposi√ß√£o de carbonato num ambiente de sedimenta√ß√£o marinho raso dentro um clima semi-√°rido. Assim, o sil√≠cio que estava dissolvido nessas √°guas alcalinas (pH acima de 7) foi sendo depositado na forma de um gel em momentos de n√≠vel do mar mais baixo, ou de pH mais √°cido devido √† decomposi√ß√£o da mat√©ria org√Ęnica, que libera CO2. Podendo ser encontrados n√≠veis mais ricos em concre√ß√Ķes de s√≠lica do que outros ou mesmo camadas completamente silicificadas. Algumas concre√ß√Ķes crescem em formatos mais alongados, tocando concre√ß√Ķes vizinhas, formando o que denominamos ‚Äúbonecas de s√≠lica‚ÄĚ. No meio delas muitas vezes tem microf√≥sseis, como p√≥lens, fragmentos de carv√£o de queimadas, cianobact√©rias etc.

Outras concre√ß√Ķes podem ser ferruginosas, ou seja, compostas por camadas sucessivas de ferro e associadas a locais com climas muito √ļmidos e quentes, caracter√≠sticos de regi√Ķes equatoriais, com a Amaz√īnia. Outras concre√ß√Ķes, mais familiares a n√≥s, s√£o os c√°lculos renais ou biliares, que tanto fazem sofrer aos seus donos para serem expulsos …enfim, o conte√ļdo e a composi√ß√£o s√£o a cara concreta das concre√ß√Ķes.

Agora, qual seria o lado abstrato das concre√ß√Ķes? O lado abstrato est√° associado √†s interpreta√ß√Ķes que s√£o realizadas sobre o conte√ļdo e os elementos que a formam as concre√ß√Ķes, ou seja, interpreta√ß√Ķes sobre a idade dos f√≥sseis envolvidos nas camadas, qual era o clima reinante na √©poca da deposi√ß√£o, a causa da morte etc.

Concre√ß√Ķes de osteites expostas no museu de Santana Ana do Cariri, CE

O mesmo acontece quando somente empilhamos e descrevemos camadas de rochas levando em considera√ß√£o s√≥ a parte concreta, ou seja, apenas o que vemos na rocha, como minerais, f√≥sseis etc., enquanto que outra vis√£o, abstrata, diz respeito √† interpreta√ß√£o do que a forma, ou seja, as infer√™ncias acerca do significado do seu conte√ļdo que pode variar conforme a ci√™ncia avan√ßa… e se refere a uma abstra√ß√£o… Assim, temos o tempo rocha ou litoestratigr√°fico, que √© o lado concreto, e o cronoestratigr√°fico, que abarca concreto e abstrato… e por fim as unidades geocronol√≥gicas que s√£o totalmente abstratas e que tratam das divis√Ķes do tempo geol√≥gico: (i) √Čons (por exemplo Arqueano, Fanerozoico, etc.);

(ii) Eras (por exemplo Paleozoica, Mesozoica, etc.); (iii) Per√≠odos (como Cambriano, Cret√°ceo, Quatern√°rio, etc.) e (iv) dos seus limites, que est√£o relacionados a eventos geol√≥gicos/biol√≥gicos como extin√ß√Ķes, orogenias, etc

 

**texto de autoria da Profa. Frésia

O sólido dentro do sólido: Nicolau Steno, o cientista que virou santo

Nicolau Steno
Retrato de Nicolau Steno, pintado em Florença

Nicolau Steno foi um dos homenageados no Congresso Internacional de Geologia de 2004, realizado em Firenze. L√°, os cientistas inauguraram uma placa, onde faziam men√ß√£o √†s suas imorredouras contribui√ß√Ķes para a Mineralogia, a Paleontologia e a Estratigrafia. Boa parte delas havia sido realizada no tempo que que Nicolau Steno morou ali, na Toscana.

No entanto, alguns anos antes, em 1988, o Papa Jo√£o Paulo II o proclamou como ‚Äúbem-aventurado Nicolau Steno‚ÄĚ. Sabemos que, quando morreu, Nicolau Steno era um bispo cat√≥lico, que trabalhava no norte da Alemanha. Seus √ļltimos anos lhe deram aura de Santo. E quase santo ele √©. Hoje ele √© um Beato e a festa lit√ļrgica em seu nome ocorre no dia de sua morte, em 5 de dezembro.

Quem era, afinal, Nicolau Steno? O cientista ou o beato?

NIELS STENSEN, O SOBREVIVENTE

Nicolau Steno é uma latinização de seu nome dinamarquês, Niels Stensen. O pequeno Niels nasceu e foi batizado em Copenhagen em 1638. Era o filho do ourives que prestava serviços para o rei Cristiano IV da Dinamarca. O pequeno Niels, que era muito doente a ponto de não poder brincar com as outras crianças, cresceu numa família fervorosamente luterana. Na falta dos brinquedos, brincava com os objetos de ourives de seu pai.

O pequeno Niels, no entanto, era mais forte do que se supunha. Na escola que frequentou, mais de duzentas crianças morreram entre 1654-1655 por causa de uma peste. Contudo, Niels Stensen sobreviveu. E tomou interesse por estudar os corpos humanos. Seu interesse era a Anatomia.

A Anatomia era uma febre (!) na época. Aulas de Anatomia eram disputadas ferozmente pelos acadêmicos. Tudo fervilhava de curiosidade de conhecer melhor o corpo humano.  Aos 19 anos, Niels Stensen entrou para a universidade de Copenhagen, para estudar medicina. Em seus estudos acadêmicos, revelou-se um promissor anatomista. E Copenhagen começou a ficar pequena para seu talento.

NICOLAU STENO, ANATOMISTA

A partir daí, Niels Stensen passou a viajar. E nunca mais parou. Inicialmente, esteve em várias cidades da Europa, estudando anatomia. Em Amsterdam estudou com Gerard Blasius, que estava estudando o sistema linfático. Da mesma forma, em Amsterdam, Stensen também conheceu o filosofo e polidor de lentes Baruch de Spinoza. O que será que eles devem ter conversado?

O jovem estudante Niels Stensen era apaixonado pela filosofia de Ren√© Descartes. No entanto, mais tarde, ele renegou a teoria cartesiana. Muito cedo, Steno percebeu algumas contradi√ß√Ķes na obra do mestre. Descartes, por exemplo, afirmou que a gl√Ęndula pineal era a sede da alma humana. Steno, com base em suas observa√ß√Ķes, mostrou que Descartes estava errado.

Steno descobriu, entre outras coisas, que existe um duto que leva saliva at√© a boca, os dutos parot√≠deos ou¬†dutos de steno. Por outro lado, Steno descobriu tamb√©m que o cora√ß√£o era um m√ļsculo. E que os c√°lculos eram pedras que se formam por ac√ļmulo nos √≥rg√£os. Descobertas not√°veis, por certo.

O CARTESIANO ANTI-DESCARTES

Um a um, Steno acabou por desmentir diversos postulados anat√īmicos de Descartes. Com o tempo, tornou-se violentamente anti-cartesiano, negando qualquer rela√ß√£o de suas descobertas com o pensamento do filosofo franc√™s. N√£o obstante, com o perd√£o do trocadilho, pode-se dizer que Steno n√£o descartou Descartes.

Efetivamente, ao apreciar a obra de Steno, percebe-se o quão cartesiano ele era.  Quando se vê o mundo de idéias construído por Steno, o que se vê é um universo mecanicista, tipicamente cartesiano. Por outro lado, neste universo stenoniano,  a matéria sólida e particulada se movimentava segundo leis físicas determinadas, como um grande mecanismo.  Logo, tudo se movia no universo de Steno de acordo com a filosofia de Descartes.

A “REP√öBLICA DAS LETRAS”

Em suas viagens Steno acabou por conhecer o seu conterr√Ęneo Ole Borch, importante anatomista da √©poca e um s√°bio relacionado com as Academias de Ci√™ncia que ent√£o surgiam. Esse movimento de acad√™micos de v√°rios pa√≠ses em constante comunica√ß√£o formaram o que se chamou de “Rep√ļblica das Letras“.¬† Era o embri√£o do moderno sistema de academias e peri√≥dicos cient√≠ficos que se formava. N√£o por acaso, muitos peri√≥dicos modernos ainda ostentam em seu nome a palavra “Letter“. Pois n√£o eram mais que isso: cartas enviadas para as diferentes associa√ß√Ķes cientificas, que eram lidas nas sess√Ķes ordin√°rias destas academias e discutidas por seus membros.

Todavia, uma vez que Ole Borch, como membro destacado da Republica das Letras,¬† tinha muitas liga√ß√Ķes com a Royal Society de Londres. Foi atrav√©s de Borch que Steno teve contato com a teoria atom√≠stica de Robert Boyle. Esta foi outra das grandes inspira√ß√Ķes de Steno. Por meio da leitura de Boyle e sua obra, Steno come√ßa a se interessar por uma Ci√™ncia que ainda n√£o existia, a Geologia. Foi neste ponto de sua carreira que ele foi convidado por Ferdinando II, Gr√£o-Duque da Toscana, a ser o anatomista da corte. Em Firenze, sua vida iria mudar. De novo.

L√°, Nicolau Steno vai desfrutar do ambiente da Corte e, principalmente, dos s√°bios reunidos na “Academia Del Cimento“. Essa academia, fundada pelos M√©dici, reunia alguns dos mais importantes pensadores italianos da √©poca. Steno torna-se amigo de Marcello Malpigui, Vicenzo Viviani, Francesco Redi, entre outros.

¬†PEDRAS EM FORMA DE L√ćNGUA

Em 1666, um tubar√£o foi pescado na costa de Livorno. A cabe√ßa deste tubar√£o foi enviada √† Firenze para que Steno pudesse disseca-lo. Steno notou que os dentes do tubar√£o eram muito parecidos com as glossopetras. Estas glossopetras, as “L√≠nguas de pedra”, eram f√≥sseis muito comuns no mediterr√Ęneo. Eram conhecidas desde os tempos romanos. Havia muito tempo que Outros s√°bios haviam reivindicado que as glossopetras eram dentes de tubar√£o. Entre eles, destaca-se F√°bio Colonna. no entanto, a pericia anat√īmica de steno foi muito importante para que estes objetos fossem reconhecidos como restos de animais, ou no sentido moderno, f√≥sseis.

tubar√£o glossopetras
Cabeça de tubarão estudada por Steno e as glossopetras

Em seguida, Nicolau Steno, de anatomista, passou a naturalista. Fez diversas viagens pela Toscana, onde juntou material para escrever sua grande obra. Aparentemente,¬† essa obra seria muito grande. T√£o grande que Steno come√ßou a escrever o principio, ou o “pr√≥dromo”. E assim surgiu uma das grandes obras da Ci√™ncia moderna.

PR√ďDROMO DE UM SOLIDO CONTIDO EM OUTRO SOLIDO

No Pródromo, Steno procura explicar que haviam varias formas distintas de sólidos contidos nas rochas. Alguns destes sólidos eram fragmentos que eram depositados junto com as rochas, como os fósseis. Um sólido dentro de um solido. Assim ele justificava a existência de diversos materiais parecidos com organismos vivos encontrados nas rochas. como , por exemplo, as glossópetras.

Por outro lado , haviam substancias que cresciam no interior das rochas, os cristais. Steno prop√īs que os cristais de uma mesma especie teriam o mesmo √Ęngulo entre as faces. E que os cristais poderiam crescer dentro das rochas. Um s√≥lido, um outro s√≥lido, dentro de outro solido. Com esta proposi√ß√£o, a moderna mineralogia come√ßa a existir.

Al√©m disso, Steno tamb√©m prop√īs uma evolu√ß√£o geol√≥gica para as rochas da regi√£o da Toscana. Segundo se pode ler no pr√≥dromo, as rochas sofriam eros√Ķes internas, com intensos abatimentos de blocos. estes blocos abatidos eram ocupados por outras rochas, mais novas e assim por diante. Com isso, ele explicou diversas sucess√Ķes estratigr√°ficas, alem de enunciar o principio de superposi√ß√£o de camadas que hoje leva o seu nome.

Steno
Assim Steno explicou os ciclos sedimentares que ele observou nos arredores de Firenze
PADRE STENO ? BISPO STENO?

No entanto, uma outra mudança se operava com Nicolau Steno. Influenciado por seus amigos da academia Del Cimento, Steno acabou por se converter ao catolicismo em 1671. Mais do que isso: praticamente abandonou seus estudos de Anatomia e Geologia e passou a dedicar-se aos estudos teológicos. Assim, em 1675 ordenou-se padre católico e em 1677, bispo.

Nicolau Steno, vestido como Bispo Católico

Movido pela religiosidade, no entanto, Steno devotou cada vez mais tempo para sua f√©. Sua energia e seu entusiasmo o levaram a ser evangelizador cat√≥lico no norte da Alemanha, uma terra ferrenhamente protestante. E foi isso que Steno foi em seus √ļltimos anos de vida. Desta forma, andando de cidade em cidade, tentando converter as pessoas ao catolicismo romano, Steno empregou todas as suas for√ßas. Adquiriu fama de santo.

UM M√ĀRTIR CAT√ďLICO

Steno trabalhou inicialmente em Hanover, onde conheceu Leibniz, de quem se tornou amigo. Depois, foi para a cidade de Schwerin. L√°, em meio hostil, Steno trabalhou incansavelmente. Contudo, sua sa√ļde come√ßou a fraquejar. Muito doente, acamado, Steno morreu em 5 de dezembro de 1686 cercado por seus paroquianos.

Sua fama de evangelizador foi intensa. Desta forma, o caráter de sua conversão do luteranismo para o catolicismo de um sábio destes porte o transformou num herói católico. por conta de um processo de beatificação que durou mais de 50 anos recolhendo provas, Steno foi beatificado pelo para João Paulo II em 1988.

BEATO  OU CIENTISTA?

A vida de Nicolau Steno, entretanto, nos deu mostras do intenso ambiente intelectual do

seculo XVII. Como filosofo natural (a palavra cientista ainda n√£o existia), Steno fez algumas afirma√ß√Ķes interessantes e duradouras. Contudo, haviam ainda um grande caminho pela frente. Nada do que disse ou escreveu mudou instantaneamente a historia da Ci√™ncia ou da humanidade. Por um lado, muitos fil√≥sofos naturais continuaram a obra de Steno, e foram elaborando as bases da nova Ci√™ncia que s√≥ foi surgir, afinal, no seculo XIX, a Geologia.

Por outro lado, Steno e sua convers√£o, sua vida de Beato, foram exemplos para muitas pessoas que tinham preocupa√ß√Ķes religiosas. N√£o foi √† toa que seu processo de beatifica√ß√£o foi levado a efeito no s√©culo XX, um s√©culo t√£o esmagadoramente dominado pela Ci√™ncia. Como que para provar para n√≥s todos que mesmo um grande cientista pode ter preocupa√ß√Ķes de natureza religiosa.

Sem d√ļvida, o m√©todo cartesiano do experimento e da d√ļvida foi o grande marco na vida de Steno. A d√ļvida fez com que ele fosse cada vez mais rigoroso em suas observa√ß√Ķes e seus experimentos, do lado cientifico. Entretanto, do lado religioso, a d√ļvida fez com ele ele perdesse sua f√© e se iniciasse numa outra, numa f√© nova. E isso n√£o √© trivial.

Santo ou cientista, contraditório e paradoxal, Nicolau Steno foi um baita ser humano.

para saber mais:

Yamada, T., 2009. Hooke‚ÄďSteno relations reconsidered: Reassessing the roles of¬† Ole Borch and Robert Boyle.¬†The revolution in geology from the renaissance to the enlightenment,¬†203, p.107.

Vai, G.B., 2009. The ScientiÔ¨Āc Revolution and Nicholas Steno‚Äôs twofold conversion.¬†The Revolution in Geology from the Renaissance to the Enlightenment,¬†203, p.187.