Arquivo mensais:novembro 2017

Calendário fóssil; corais, e os tempos passados

Mais de 24 horas por dia? Calendário com menos de 365 dias? isso é coisa do futuro!

Final de ano na Unicamp sempre me faz pensar em um pedido especial ao Papai Noel. Um pouco mais de tempo, por favor… isto √©, dias com mais de 24 horas. Um calend√°rio diferente.

A situa√ß√£o por aqui √© quase como no seriado “24h”. A saga pela disponibiliza√ß√£o de notas, avalia√ß√Ķes para corre√ß√£o, bancas de todos os n√≠veis (IC, TCC, MSc. e PhD), relat√≥rios, comiss√Ķes e as previs√Ķes para as atividades do pr√≥ximo semestre. A narrativa √© tensa por que todos os envolvidos demandam sua aten√ß√£o. Um passo em falso, um dia sem trabalho e… caos. N√£o podemos nos permitir ao erro.

Estamos t√£o acostumados com as 24 horas dos dias que mesmo o Spock e o capit√£o J. Kirk usam estes intervalos de tempo tel√ļricos para situar o tempo envolvido nas suas miss√Ķes. Aqui na Terra, cada volta completa do planeta ao redor do seu eixo produz os dias com suas 24 hs. Na Enterprise essa refer√™ncia se perde.

se você pudesse voltar no tempo, qual data do calendário escolheria?
O rel√≥gio do filme “De volta para o futuro”

No entanto, se algum dia tivermos a oportunidade de voltar ao passado, vamos ter que tomar cuidado. Já ouvi físicos debatendo sobre todos os cálculos necessários para que a volta ao passado não seja um triste fim: aparecer em ponto qualquer do espaço, em que, um dia o planeta se encontrava, mas naquela data do passado, a posição era outra, naquele momento. Não basta ajustar a data, a posição de tudo que está envolvido também deverá ser calculada, não é?

Saber a posi√ß√£o exata do planeta em rela√ß√£o ao sol, do sol na gal√°xia e da gal√°xia no universo s√£o alguns dos pontos levantados pelos f√≠sicos. Mas, e o tempo? sim, vamos falar do tempo de novo. Mas esse √© um questionamento novo…. na forma de calend√°rios f√≥sseis!

No Período Devoniano (419 à 358 M.a.) os corais rugosos (um tipo de coral que já não vive mais) viviam por mares rasos, límpidos e quentinhos. Eles eram felizes e cresciam depositando camadas finas de carbonato de cálcio no seu esqueleto. Todos os dias eram iguais, cada um, com uma camadinha a mais.

Essa √© mais uma das hist√≥rias que os f√≥sseis podem nos contar (veja outra aqui). Existem algumas esp√©cies de organismos marinhos que produzem um pouco de sua “concha” todos os dias. Corais e alguns moluscos podem ser usados portanto, para este data√ß√£o. Uma data√ß√£o dos dias, meses e anos do passado, assim como do tempo em que cada organismo prosperou.

Coral rugosa e sua ornamenta√ß√Ķes que nos fornecem detalhes de um calend√°rio do passado
Coral rugosa usada para datar os meses do ano no Devoniano.

Em corais funciona assim: as linhas mais finas representam crescimento di√°rio. As bandas (conjuntos das linhas finas) representam meses e os an√©is, estruturas mais largas, representam os anos. De acordo com os especialistas, em esta√ß√Ķes secas os corais crescem mais que nas esta√ß√Ķes chuvosas. Esse empilhamento de camadas tamb√©m relaciona-se, portanto, com o ciclo lunar.

Assim, se você quiser saber quantos dias aquele organismo viveu, é relativamente fácil: depois de saber como observar seu esqueleto, é só dar a sorte de encontrar esses fósseis e voilà, nada mais simples que contar os dias de um calendário, neste caso, um calendário que já foi vivo. E para contar meses e anos? com vários exemplares temos uma medida média de quantos dias e meses, cada organismo guardou em seu calendário biológico.

E o que estes calend√°rios dizem?

Com o estudos de fósseis de corais do Devoniano, conseguimos descobrir que, neste tempo (Devoniano, um dos períodos do Paleozoico) os anos eram compostos por cerca de 400 dias. Isso implica em algumas coisas importantes: os dias eram mais curtos, e o movimento de rotação terrestre era mais rápido.

Hoje temos anos com cerca de 365 dias… como o planeta desacelerou? Sup√Ķe-se que a Terra tem seu movimento de rota√ß√£o desacelerado pelo movimento das mar√©s (a velocidade diminui dois segundos a cada 100 mil anos!), al√©m do afastamento da Lua (explica√ß√£o f√≠sica para o processo de desacelera√ß√£o da rota√ß√£o do planeta, ligada √†s leis de Newton). Portanto, al√©m de ter dias mais curtos, a lua estava mais pr√≥xima de n√≥s, no Devoniano e antes.

Uma lua mais pr√≥xima, seria maior. Os dias mais curtos… talvez fossem mais agitados? se pensarmos que eram os peixes os reis dos mares naquele tempo, junto com uma profus√£o de invertebrados, dentre eles trilobitas e afins, talvez sim, houvesse alguma agita√ß√£o nos oceanos. Mas n√£o podemos dizer o mesmo dos continentes. Al√©m da vida vegetal e dos invertebrados terrestres, os primeiros tetr√°podes deixaram seus primeiros registros por volta desse tempo. Eles estavam come√ßando a sair da √°gua para conquistar os continentes.

Fato que foi um mundo completamente diferente.

Se voc√™ pudesse voltar no tempo… o que gostaria de ver?

Veja aqui um texto sobre como contar os dias e anos de corais paleozoicos.

O Dinamarquês das Cavernas

Um fim de tarde no interior
A praça central de Lagoa Santa (MG) no inicio do seculo XX

Est√°vamos em 1878, 56¬ļ ano da independ√™ncia do Brasil. Fazia j√° 38 anos do Reinado de sua alteza Imperial, D Pedro II.

Era um fim de tarde quente na pequena vila de Lagoa Santa, no interior de Minas Gerais. As nuvens se acumulavam atr√°s da Serra da Piedade. Era um prenuncio de chuva para amenizar o calor abafado. Uma banda de m√ļsica se fazia ouvir, l√° para os lados da pra√ßa central.

O som da m√ļsica ia aumentando, a medida em que nos aproximamos. A cidade era uma rua, com as casas dispostas em amplos quintais cheios de arvores de todos os tipos: pequizeiros, umbuzeiros, mangueiras. Os buritizeiros eram muito comuns, assim como outros tipos de coqueiro. O contraste das outras arvores e os coqueiros davam um recorte especial √†s casas da pequena cidade.

As casas eram simples, com cercas de madeira na frente. a grande maioria era de telhado simples, mas as maiores tinham até quatro águas. Eram caiadas de branco, com portas e janelas de madeira. Algumas janelas, nas casas maiores, eram de vidro, com duas guilhotinas. A madeira das janelas era pintada de azul ou vermelho. Muitas possuíam amplas varandas, onde se viam redes, cadeiras de descanso e vasos de plantas.

Quando cessa a m√ļsica, os m√ļsicos come√ßam a se dispersar. Um velhinho, que parecia ser o maestro da banda, come√ßa a descer a rua acompanhado de um menino. Quando entram na grande casa da esquina, pode se ver as luzes sendo acesas.

O velhinho que cuidava da banda de Lagoa Santa era ningu√©m menos que Peter Wilhelm Lund. O famoso paleont√≥logo dinamarqu√™s, que havia chegado ali na pequena vila havia uns trinta e cinco anos. Agora, j√° com quase oitenta anos, era uma figura p√ļblica do lugar. Da varando de sua casa dava conselhos, emprestava dinheiro e cuidava da pequena banda da cidade.

A Banda Santa Cecilia
O Paleontologo Dinamarques Peter Wilhelm Lund (1801-1880), em foto de 1868

A banda Santa Cec√≠lia era um dos xod√≥s de Peter Lund. Ele havia dado o dinheiro para comprar os instrumentos e tamb√©m participava dos ensaios. Lund era conhecido na cidade como um bom m√ļsico e havia sido, na juventude, um bom p√©-de-valsa.

Naqueles dias, entretanto, sentindo-se cansado, Lund deixava-se ficar em casa. Reclamava muito de reumatismo, e deixava-se ficar na rede, descansando. Só raramente ia aos ensaios, acompanhado de seu afilhado Nereo. O garoto era filho de Luís Cecílio, seu colaborador no trabalho de escavação das grutas calcárias da região.

A exploração das cavernas de Lagoa Santa

Durante cerca de dez anos, entre 1835 e 1845, desde que ali chegara, Lund havia escavado quase todas as cavernas da região na procura de fósseis. Era um trabalho duro. Lund contratou dezenas de pessoas, comprou muitas mulas e construiu equipamentos para retirada do material das cavernas e para a obtenção dos fósseis e esqueletos.

Quase todas as grutas da região foram escavadas. Durante o período de intensa exploração, dezenas de toneladas de material eram escavados, numa operação que muito similar a uma exploração mineira convencional. O trabalho era tão gigantesco que Lund gastou nele praticamente um quinto de sua fortuna.

Lund era um homem rico, herdeiro de um prospero comerciante dinamarquês.  Ao morrer, o velho Henrik Lund deixou para cada um de seus filhos o suficiente para que não se preocupassem com dinheiro ou trabalho. Seus irmãos dedicaram-se as finanças. Lund estudou e virou um renomado naturalista. Mas a família era cheia de talentos. Um primo famoso de Peter Lund foi o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard.

O “priminho Soren”

O famoso fil√≥sofo precursor do existencialismo moderno era treze anos mais mo√ßo que Lund. Nas cartas e correspond√™ncias com a fam√≠lia via-se que Peter Lund o tratava como ‚Äúo priminho Soren‚ÄĚ. Aludia a ele como um adolescente imaturo e autocentrado. Para Kierkegaard, por outro lado, ele era o primo Peter, naturalista. Certa vez, numa pol√™mica com Hans Christian Andersen, citou os formigueiros brasileiros, na certa derivados de observa√ß√Ķes de Lund.

Soren Kierkegaard (1813 – 1855), o “priminho Soren” de Lund e uma dos maiores fil√≥sofos da Modernidade

Numa carta que nunca enviou a Lund, Kieerkegaard mostra-se entusiasmado com as ci√™ncias naturais. No entanto, imagina que a ‚Äúmonstruosa dedica√ß√£o‚ÄĚ do naturalista a pequenos detalhes impede a compreens√£o de coisas maiores. Enquanto isso, no outro lado do mundo, Lund embrenhava-se

com dedicação monstruosa para resolver os problemas paleontológicos das cavernas de Lagoa Santa.

Lund, o Catastrofista

As pesquisas de Peter Lund em Lagoa Santa foram um marco para a paleontologia. N√≥s j√° falamos sobre os in√≠cios do conhecimento sobre a fauna pleistoc√™nica de Minas, com o trabalho de Sim√£o Sardinha, no seculo XVIII. No s√©culo XIX Lund preencheu importantes lacunas do conhecimento sobre a fauna do Pleistoceno. Pregui√ßas Gigantes, Megat√©rios, Gliptodontes e outros mam√≠feros extintos foram encontrados em suas escava√ß√Ķes. Com base nestes f√≥sseis, Lund escreveu diversos trabalhos, publicados nos mais importantes peri√≥dicos cient√≠ficos da √©poca.

Lund e o Tigre de dentes de sabre, num documentário dinamarquês sobre o cientista e seu trabalho nas cavernas de Minas Gerais (https://www.dr.dk/nyheder/viden/naturvidenskab/fem-ting-du-boer-vide-om-danskeren-der-fandt-sabeltigeren

Neles, Lund explicava sobre as faunas extintas devido as ‚Äúgrandes Revolu√ß√Ķes do Globo‚ÄĚ, como havia aprendido com seu professor em Paris, Georges Cuvier. Cuvier, de quem n√≥s j√° falamos aqui, era um dos maiores expoentes da teoria chamada ‚Äúcatastrofismo‚ÄĚ. O catastrofismo propunha que as diferencia√ß√Ķes entre as faunas eram devidas a diversos tipos de cataclismos. O grande problema do catastrofismo era que ele n√£o propunha uma boa alternativa para a mudan√ßa das diferentes esp√©cies animais e vegetais que eram encontradas.

Diferentemente, ao correr do s√©culo, as teorias sobre a mudan√ßa dos seres vivos eram explicadas pela mudan√ßa gradual das esp√©cies pelos diferentes mecanismos de evolu√ß√£o. Lund, em seu ref√ļgio de Lagoa Santa, n√£o participou destes embates. No entanto, dada a qualidade de seu trabalho, sua pesquisa chegou a ser citada elogiosamente por Charles Darwin n¬īA Origem das Esp√©cies, de 1859.

Um naturalista “aposentado”
A casa de Lund em Lagoa Santa;

Quando isso aconteceu, Peter Lund j√° se encontrava ‚Äúaposentado‚ÄĚ. Depois de publicar seus artigos mais importantes, ele tratou de despachar sua cole√ß√£o para a Dinamarca. Hoje, sua cole√ß√£o est√° no museu de hist√≥ria natural de Copenhague. Muitos hoje veem como uma atitude imperialista. No entanto, parte das atividades de Lund fora parcialmente financiada pela Coroa dinamarquesa. O desenhista de Lund, Peter Andreas Brandt, era pago com uma bolsa fornecida pela academia dinamarquesa de ci√™ncias.

Desenho de P.A. Brandt mostrando o trahalho nas cavernas. os homens almoçando dentro da caverna e os jumentos usados para carregar a terra retirada fazem contraste com a bela cortina calcária ao fundo.

Brandt, assim como Lund, nunca voltou para a Dinamarca. Seus desenhos das escava√ß√Ķes e as ilustra√ß√Ķes dos esqueletos encontrados foram muito importantes para o trabalho de Lund. O tra√ßo de Brandt ligou-se ao texto de Lund. Mesmo passando com sua fam√≠lia passando por diversos percal√ßos na Escandin√°via, Brandt ficou em lagoa Santa at√© morrer em 1862.

Viver e morrer em Lagoa Santa

Lund estivera pela primeira vez no Brasil entre 1825 e 1829. Nesta primeira viagem, ele ficou principalmente no interior da província do Rio. Tratou de voltar em 1834, quando fez uma viagem que atravessou o Rio, São Paulo e Goiás, terminando em Minas. Em São Paulo, visitou a fábrica de ferro de São João de Ipanema, grande centro industrial da época. Esteve também na Vila de São Carlos, a atual Campinas, antes de partir para o cerrado dos Goiás.

Quando chegou a Minas, entretanto, Lund deixou-se ficar. Escolheu a pequena Lagoa Santa como seu ponto de apoio. Quando terminou suas escava√ß√Ķes, deixou-se ficar na pequena vila. Dizia a fam√≠lia que estava doente, e que temia retornar ao frio do inverno dinamarqu√™s. Arrumou mil desculpas. Foi ficando, ficando e ficou. Incorporou-se e foi incorporado √† pequena Lagoa Santa. Era, como vimos, um pacato e benquisto cidad√£o. No tempo em que ali viveu, Lund colocou a pequena vila no mapa da ci√™ncia.

Lund faleceu em 1880, aos 79 anos. Toda a população da pequena cidade seguiu o enterro. Em seu funeral a banda Santa Cecília tocou desde sua casa até o cemitério. O velho Lund havia deixado ordens em seu testamento que em seu enterro ninguém deveria chorar.

Peter Lund, o cientista

Peter Lund foi muito importante para a Paleontologia. Seus achados de animais consolidaram a questão das faunas de mamíferos pleistocênicos. Suas descobertas foram importantes para os debates sobre a teoria da evolução das espécies, embora Lund tenha permanecido sem criticar o catastrofismo de seu mestre Cuvier.

Os esqueletos humanos encontrados em lagoa Santa s√£o os mais antigos at√© hoje descobertos no continente americano. Lund, ao comparar os esqueletos humanos e a fauna pleistoc√™nico concluiu afirmativamente pela sua grande antiguidade. Era o famoso ‚Äúhomem de Lagoa Santa‚ÄĚ. No entanto, hoje mais famosa √© uma mulher. Foi nestas cavernas que foi encontrado, no inicio deste s√©culo, o esqueleto de Luzia. Trata-se do mais antigo esqueleto humano das Am√©ricas, descrito pela equipe do arque√≥logo Walter Neves.

A reconstrução do cranio chamado de Luzia: a mais antiga americana até hoje conhecida.

Lund tamb√©m se correspondeu com os cientistas brasileiros do Instituto Hist√≥rico e Geogr√°fico brasileiro. Embora nunca tivesse sa√≠do de Lagoa Santa, ele acabava por atrair diversos pesquisadores para a pequena vila. Seu mais ass√≠duo visitante foi JT Reinhardt, bot√Ęnico dinamarqu√™s, que fez importantes observa√ß√Ķes e descri√ß√Ķes das plantas do cerrado. Outro visitante ilustre foi outro bot√Ęnico, Eugene Warming.

O “Pai” da Paleontologia Brasileira?

Quando se pensou numa hist√≥ria das ci√™ncias geol√≥gicas no Brasil, o nome de Lund n√£o p√īde deixar de ser citado. Entretanto, os historiadores mais envolvidos com teorias positivistas resolveram simplificar:¬† Lund foi proclamado o ‚Äúpai‚ÄĚ da paleontologia brasileira.

A ci√™ncia n√£o tem pais. Nem m√£es. A ci√™ncia √© uma atividade da cultura humana com outra qualquer. Apesar de sua imensa contribui√ß√£o, Peter Lund n√£o √© nosso ‚Äúpai‚ÄĚ, na medida em que n√£o nos deixou ‚Äúfilhos‚ÄĚ. N√£o h√° uma tradi√ß√£o, uma maneira de pensar, uma sequ√™ncia de paleont√≥logos criados a partir de Peter Lund.

O homem de Lagoa Santa era tudo isso. Complexo e contraditorio. Um grande cientista que queria viver só e pacatamente no interior da Brasil. Em Minas Gerais, quem não quer?

Para saber mais:

Holten, Birgitte, and Michael Sterll. Peter Lund e as grutas com ossos em Lagoa Santa. Editora UFMG, 2011.