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20 de novembro e a Origem dos Hominídeos

Domingo passado foi o Dia da Consciência Negra, 20 de Novembro. Neste dia, além de ser relembrada a morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares e símbolo da luta contra a escravidão dos negros no Brasil, também é o dia de refletirmos o valor da cultura do povo africano no país e seus legados. Eu estava procurando algum tema para escrever para o blog quando, a partir de uma reflexão a respeito de alguns questionamentos por parte de pessoas quanto a manutenção ou não desta data como feriado, me fez chegar à conclusão de que seria oportuno e ideal aproveitar para escrever sobre algo muito importante: a Evolução dos Hominídeos e o quanto o racismo pesou na pesquisa científica a respeito.

Uma breve história da evolução dos hominídios

Ao contr√°rio do que o senso comum tende a levarmos a crer, a hist√≥ria evolutiva humana n√£o segue uma evolu√ß√£o linear, partindo de um primata ancestral e chegando no ser humano atual. Muitas descobertas f√≥sseis revelaram que v√°rias esp√©cies de homin√≠deos tiveram sua origem e chegaram a coexistir. √Č estimado que entre 6 a 8 milh√Ķes de anos atr√°s surgiram os primeiros homin√≠deos, grupo geral a qual as esp√©cies que divergiram dos macacos se encontram. Os mais antigos homin√≠deos pertencem ao g√™nero Ardipithecus, grupo ainda muito semelhante aos macacos, principalmente com rela√ß√£o √† postura n√£o ereta. Em seguida, surgiram os Australopithecus aferensis, esp√©cie a qual pertence a famosa Lucy, o f√≥ssil mais completo e bem preservado j√° encontrado at√© agora. As esp√©cies pertencentes ao g√™nero Australopitecus, em compara√ß√£o com os Ardipithecus, possu√≠am a postura mais ereta e a caixa craniana um pouco maior. Seguindo estas modifica√ß√Ķes fenot√≠picas, segue o g√™nero Homo, sendo a esp√©cie mais antiga a Homo habilis, da qual, sim, linearmente se seguiu at√© chegar a n√≥s diretamente (ou seja, s√£o nossos ancestrais diretos). O Homo habilis, de cerca de 2,5 milh√Ķes de anos atr√°s, alcan√ßou dois grandes feitos para a linhagem: o uso de ferramentas e a conquista de novos continentes (foi o primeiro que saiu da √Āfrica). Seu sucessor, o Homo erectus, de sobrecenho mais protuberante e cr√Ęnio menor do que o atual, j√° possu√≠a maior habilidade manual, trabalhava com utens√≠lios utilizando o que encontrava na natureza, fazia uso do fogo e alcan√ßou continentes como √Āsia e Europa. Estudos revelaram a coexist√™ncia entre o Homo habilis e o Homo erectus. Mais para o final do Pleistoceno, surgiram os Homo neanderthalensis, os neandertais, cujas caracter√≠sticas f√≠sicas se aproximavam ainda mais do homem atual, por√©m ainda possu√≠am membros mais curtos e sobrecenho protuberante. Os Homo sapiens surgiram na √Āfrica e logo alcan√ßaram a Europa e a √Āsia, e quando foi poss√≠vel atrav√©s da diminui√ß√£o do n√≠vel do mar, atravessaram o estreito de Bering e alcan√ßaram o continente americano.

√Ārvore filogen√©tica dos homin√≠deos (Museu de Hist√≥ria Natural de Londres)
√Ārvore filogen√©tica dos homin√≠deos (Museu de Hist√≥ria Natural de Londres)

Existe raça?

Por muitos anos, principalmente no s√©culo passado, a ci√™ncia era bastante influenciada por pol√≠ticas e ideologias dominantes na sociedade. O pensamento racista tinha forte influ√™ncia em pesquisas com rela√ß√£o √† evolu√ß√£o do homem, existindo desde vertentes que negavam a origem comum africana at√© estudos que tentavam comprovar por meios emp√≠ricos a ‚Äúsuperioridade da ra√ßa branca‚ÄĚ. Exemplos variam desde o franc√™s Joseph-Arthur Gobineau, com sua obra Ensaio sobre a Desigualdade das Ra√ßas Humanas, que se aproveitou equivocadamente da classifica√ß√£o hier√°rquica das esp√©cies de Carlos Lineu (em Portugu√™s) para inaugurar o ‚Äúracismo cient√≠fico‚ÄĚ; desde aqueles que se aproveitavam da hip√≥tese multirregionalista da evolu√ß√£o humana para tentar justificar que o homem branco teria uma origem diferente dos outros. Hoje, gra√ßas aos avan√ßos tecnol√≥gicos, as pesquisas paleoantropol√≥gicas s√£o muito bem respaldadas por evid√™ncias moleculares e gen√©ticas, que geraram provas por enquanto irrefut√°veis para a origem da esp√©cie humana, que est√° se tornando cada vez mais refinada. O que se sabe hoje, gra√ßas √†s an√°lises de DNA mitocondrial de esp√©cimes f√≥sseis, por exemplo, √© que, sim, tivemos a mesma origem comum: na √Āfrica, entre 140 a 300 mil anos atr√°s.

Systema Naturae, de Carlos Lineu (Carolus Linnaeus), no qual as espécies são classificadas hierarquicamente.
Systema Naturae, de Carlos Lineu (Carolus Linnaeus), no qual as espécies são classificadas hierarquicamente.

Por√©m, a descoberta da origem comum n√£o foi suficiente para conter debates a respeito da separa√ß√£o do ser humano em ra√ßas. √Č importante salientar e valorizar os estudos gen√©ticos, principalmente a respeito das muta√ß√Ķes que geram fen√≥tipos t√£o variados e conferem a adapta√ß√£o a condi√ß√Ķes ambientais diferentes. A variabilidade gen√©tica entre popula√ß√Ķes √© o que faz com que o ser humano tenha caracter√≠sticas t√£o diferentes entre si em v√°rias regi√Ķes do mundo, mas n√£o tem significado biol√≥gico para a separa√ß√£o em ra√ßas. Uma das mais recentes tentativas est√° no best-seller¬†A Troublesome Inheritance¬†(Uma Heran√ßa Inc√īmoda), do brit√Ęnico Nicholas Wade, publicado em 2014, no qual o autor utiliza dos estudos de Lineu e at√© de avan√ßados estudos de varia√ß√£o gen√©tica para defender a separa√ß√£o dos humanos em ra√ßas, defendendo at√© que a desigualdade entre os humanos, inclusive no √Ęmbito socioecon√īmico, se daria por conta de uma sele√ß√£o natural nos genes. √Č claro que esta obra tamb√©m foi recebida com cautela e descr√©dito por uma grande parte da comunidade cient√≠fica, mas a quest√£o √© que ainda √© necess√°rio quebrar correntes como estas.

Aproveitando as reflex√Ķes do dia 20 de Novembro, uma das conclus√Ķes que consigo tirar √© que, mesmo com tantos avan√ßos na Ci√™ncia, √© necess√°rio tamb√©m termos avan√ßos no senso de humanidade e na maneira com que lidamos com o conhecimento. Numa sociedade moderna onde haja bom senso para se lidar com a Ci√™ncia, n√£o pode haver espa√ßo para confundir o pensamento cient√≠fico com a defesa de posi√ß√Ķes pessoais, sejam pol√≠ticas, ideol√≥gicas ou mesmo de religi√£o, para tentar impor na sociedade ideologias de determinados grupos. Isto n√£o deixa de ser uma tentativa de se perpetuar a pseudoci√™ncia e o preconceito. Por essas e outras quest√Ķes que acho mais do que justo dias como o da Consci√™ncia Negra, para que um dia, quem sabe, haja avan√ßos na consci√™ncia humana.

Quando a tragédia vira registro

Who has dressed you in strange clothes of sand?
Who has taken you far from my land?
Who has said that my sayings were wrong?
And who will say that I stayed much too long?
Clothes of sand have covered your face
Given you meaning, taken my place
Some make your way on down to sea
Something has taken you so far from me
Does it now seem worth all the color of skies?
To see the earth through painted eyes
To look through panes of shaded glass
See the stains of winter’s grass
Can you now return to from where you came?
Try to burn your changing name
Or with silver spoons and colored light
Will you worship moons in winter’s night?
Clothes of sand have covered your face
Given you meaning but taken my place
So make your way on down to the sea
Something has taken you so far from me

Clothes of sand, Nick Drake

 

De modo geral, o destino final das part√≠culas sedimentares √© o fundo de uma bacia sedimentar, que pode ser o fundo do mar, por exemplo… E neste processo lento e incessante cada ciclo de soerguimento transforma essas part√≠culas e as coloca novamente para o ‚Äúrein√≠cio‚ÄĚ do ciclo. O ciclo mencionado aqui √© o das rochas, que forma n√£o s√≥ as sedimentares mas tamb√©m √≠gneas (magm√°ticas, do magma dos vulc√Ķes) e metam√≥rficas (transformadas por grandes press√Ķes e temperaturas). A m√ļsica de Nick Drake acima fala um pouco sobre este ciclo, voc√™ percebeu? ūüėÜ (√Č uma das poucas m√ļsicas com conte√ļdo de geologia que conhe√ßo… )√Č este ciclo um dos grandes respons√°veis pelas mudan√ßas geogr√°ficas/geomorfol√≥gicas que vemos na Terra e que n√£o ocorrem em Marte nem na Lua, por exemplo; a Lua de Dante Alighieri (1265-1321) √© a igualzinha a que voc√™ v√™ hoje.

Voltando ao ciclo… s√£o tamb√©m partes dele (junto com a tect√īnica de placas e outros processos geol√≥gicos) que levam a grandes trag√©dias humanas. Terremotos t√™m seus mais antigos registros em documentos chineses (1177 a.C.)*, avisos sobre o perigo de tsunamis no Jap√£o tem pelo menos 600 anos **, e atividades vulc√Ęnicas intensas j√° deixaram suas marcas por diversas vezes na hist√≥ria humana (veja no link as maiores trag√©dias associadas a esses eventos) ***.

Os f√≥sseis, isto √©, restos ou vest√≠gios de vida ou de sua atividade, com mais de 11.000 anos, t√™m sua origem ligada ao ciclo das rochas. Em especial, as rochas sedimentares s√£o as que normalmente cont√™m os f√≥sseis. Isso porque o resto de um organismo tamb√©m √© transportado e depositado como uma part√≠cula sedimentar. √Č um peda√ßo de vida que se une aos processos de forma√ß√£o da rocha sedimentar que, ao longo do tempo geol√≥gico se transforma em rocha. Em outros posts j√° comentamos que o tempo geol√≥gico √© bastante distinto do tempo que percebemos como humanos. A pergunta que estamos tratando hoje √© se todo resto ou vest√≠gio de vida fica preservado… ser√°?? ¬†Os f√≥sseis que encontramos s√£o na verdade a exce√ß√£o √† regra. A maioria dos organismos se decomp√Ķe; al√©m disso, a forma√ß√£o do registro fossil√≠fero √© epis√≥dica. Grandes eventos como enchentes, tsunamis, vulcanismos, desmoronamentos √© que preservam. Se pensarmos na hist√≥ria recente de desastres naturais no Brasil podemos dizer que h√° grandes chances da trag√©dia do Rio Doce (2015) e dos deslizamentos no interior do Rio de Janeiro (2011) formarem um registro fossil√≠fero daqui a pelo menos 11.000 anos. Na nossa escala de tempo esses eventos s√£o incomuns, mas na escala do tempo geol√≥gico eles ocorrem (n√£o com periodicidade, mas com frequ√™ncia); e por envolverem grandes √°reas, enormes quantidades de sedimentos e pouco tempo, t√™m maiores chances de preservar. Enfim, s√£o registros de eventos catastr√≥ficos que perfazem a maior parte do material de estudo dos paleont√≥logos e tamb√©m dos ge√≥logos que trabalham com rochas sedimentares.

Preciso salientar aqui que a ocupa√ß√£o desordenada da margem de rios e encostas, e no caso do Rio Doce, a represa de sedimentos, s√£o a√ß√Ķes antr√≥picas, e o homem √© a primeira esp√©cie a alterar o ambiente em larga escala. O que quero dizer √© que os registros que temos s√£o resultado de eventos naturais, e o registro f√≥ssil do futuro ser√° bem diferente. Vamos torcer para que existam paleont√≥logos at√© l√°…!

 

Visite os links abaixo para maiores dados nas atividades geológicas citadas.

*http://pubs.usgs.gov/gip/earthq1/history.html

**http://historyofgeology.fieldofscience.com/2011/03/historic-tsunamis-in-japan.html

*** http://volcano.oregonstate.edu/deadliest-eruption

Escute aqui a m√ļsica de Nick Drake na vers√£o de Renato Russo

 

NO FINAL DO √öLTIMO SEGUNDO DO TEMPO GEOL√ďGICO: O QUATERN√ĀRIO

O Quatern√°rio √© dividido em duas √©pocas: o Pleistoceno, que vai de 2 Ma at√© 10.000 anos antes do presente e o Holoceno, que chega at√© hoje. A tend√™ncia, que levou ao resfriamento geral do planeta iniciado no Mioceno, se intensificou durante o Pleistoceno. Assim, o clima foi caracterizado por intervalos glaciais com momentos mais amenos como o que atualmente vivemos. Segundo as evid√™ncias indicam (registros de mudan√ßas na distribui√ß√£o da vegeta√ß√£o, altera√ß√Ķes no registro sedimentar observadas em testemunhos retirado do oceano Pacifico e Atl√Ęntico, etc.) esses ciclos podem se ter repetido de 10 a 20 vezes com uma periodicidade de 100.000 anos nos √ļltimos 2 Ma. Durante os intervalos glaciais o clima a n√≠vel global foi frio e seco, com o desenvolvimento de extensas calotas de gelo que cobriram aproximadamente 30% da superf√≠cie do planeta, especialmente nos continentes do hemisf√©rio norte, enquanto que nos continentes do hemisf√©rio sul o clima foi muito mais frio, seco e com glaciares de montanha extensos nos Andes.

As mudan√ßas clim√°ticas est√£o associadas a v√°rios fatores influenciados por deriva continental, orog√™neses, altera√ß√Ķes nas concentra√ß√Ķes do CO2 da atmosfera, correntes oce√Ęnicas, etc. No caso da deriva continental uma das causas foi o isolamento do continente ant√°rtico, iniciado com o rompimento do Gondwana e que levou √† instala√ß√£o da corrente marinha fria subant√°rtica no hemisf√©rio sul, hoje conhecida como corrente de Humboldt, respons√°vel por serem t√£o geladas as √°guas da costa do Chile e do Peru. As mudan√ßas na deriva continental tamb√©m influenciaram na forma√ß√£o dos extensos len√ß√≥is de gelo continentais, no isolamento do oceano √°rtico e na forma√ß√£o de mares congelados no hemisf√©rio norte. As orogenias, como a dos Andes e particularmente da √Āsia central, com o soerguimento dos planaltos dos Himalaias e Tibete produziram um ac√ļmulo de √°reas elevadas a partir do Mioceno. Por outro lado, a consequ√™ncia da explosiva expans√£o das florestas dominadas por angiospermas acontecida durante o Paleogeno incrementou o sequestro de carbono nos continentes na forma de jazidas de carv√£o, o que levou a uma redu√ß√£o na concentra√ß√£o do principal g√°s do efeito estufa da atmosfera. Todas essas altera√ß√Ķes repercutiram de forma consider√°vel nos ecossistemas que passaram a ser muito din√Ęmicos, e a nossa esp√©cie surgiu nesse contexto de mudan√ßas clim√°ticas dr√°sticas e r√°pidas, claro considerando a enorme dimens√£o do tempo geol√≥gico.

Pois bem, no sudeste do Brasil, embora n√£o se tenha not√≠cias de calotas de gelo dessa √©poca, o clima tamb√©m oscilou, alternando per√≠odos muito secos e mais frios do que o atual, com momentos mais c√°lidos e √ļmidos como os de hoje. Os registros de vida no estado de S√£o Paulo s√£o mais abundantes para o final do Pleistoceno, onde s√£o encontrados, por exemplo, no Munic√≠pio de Iporanga, dentro das cavernas e abismos do Parque Estadual Tur√≠stico do Alto Ribeira (PETAR), ossadas relacionadas √† megafauna. Os registros s√£o bastante abundantes embora a maioria dos esqueletos se apresentem desarticulados e misturados. Nesses h√° ossos, entre outros, de tigres dente de sabre (Smilodon), pregui√ßas gigantes (Eremotherium, Lestodon, Ahytherium, Nothotherium; Figura 1), parentes dos elefantes conhecidos como Stegomastodon, tatus gigantes ou Glyptodon, e perissod√°ctilos como o Toxodon (Figura 2, end√™micos de Am√©rica do Sul, de tamanho semelhante a um rinoceronte). Uma vez que os conjuntos de ossos se encontram muito misturados, podem ter correspondido a v√°rias comunidades diferentes, mas representam uma composi√ß√£o da megafauna caracter√≠stica da regi√£o intertropical e, sem lugar a d√ļvida, muito diferente da fauna atual da regi√£o. O mesmo podemos comentar acerca da vegeta√ß√£o que, pelo tamanho da megafauna e pelos registros conhecidos, principalmente correspondentes a polens, era uma vegeta√ß√£o mais aberta que a atual.

Diferentes vistas do esqueleto de uma preguiça gigante, exemplar exposto no Museu de Ciências Naturais - PUC Minas, Belo Horizonte, MG.
Figura 1 РDiferentes vistas do esqueleto de uma preguiça gigante, exemplar exposto no Museu de Ciências Naturais РPUC Minas, Belo Horizonte, MG.

Da vegeta√ß√£o tamb√©m temos registros a partir aproximadamente do final do Pleistoceno. Um dos mais extensos, inclusive para a Am√©rica do Sul, foi encontrado ao perfurar a cratera deixada pelo impacto de um meteoro, fato acontecido possivelmente durante o Neogeno na regi√£o de Parelheiros, pr√≥xima √† cidade de S√£o Paulo. A cratera, conhecida como de Col√īnia, tem um di√Ęmetro de 3,6 km e se calcula que esteja preenchida por cerca de 300 metros de sedimentos. Os testemunhos rasos estudados possuem uma extens√£o m√©dia de 8,5 m devido √† dificuldade de se realizar a perfura√ß√£o mais profunda e recuperar os sedimentos preservando o empilhamento original das camadas de forma manual. Para se obter um testemunho completo de todo o registro sedimentar presente na cratera seria necess√°rio contar com uma estrutura de perfura√ß√£o semelhante √†quelas utilizadas para prospec√ß√£o de petr√≥leo, o que envolve um custo muito elevado. O estudo desses registros, principalmente utilizando estudos de conjuntos de microf√≥sseis, como polens e esporos, mostraram a evolu√ß√£o da vegeta√ß√£o no local nos √ļltimos 50.000 anos, que alternou de uma floresta com arauc√°rias nos intervalos mais frios para a Mata Atl√Ęntica nos momentos de clima mais ameno como o de hoje, embora com diferentes esp√©cies em cada um dos interglaciares identificados, sendo o √ļltimo acontecido no Holoceno. Dessa forma, chegamos aos dias de hoje onde est√£o sendo inclu√≠dos dentro do registro sedimentar os restos de vida que vir√£o nos pr√≥ximos milh√Ķes de anos dever√£o tornar-se f√≥sseis.

 

Vamos deixar o mamute extinto

H√° poucos anos se v√™m noticiando mundo a fora tentativas mirabolantes de trazer animais j√° extintos de volta √† vida, como o grandioso mamute. Este grande animal pleistoc√™nico √© o maior alvo desta ideia por raz√Ķes diferenciadas, dentre elas, a facilidade de encontrar seus corpos mumificados extremamente bem preservados devido ao aparecimento de diversos esp√©cimes por conta do derretimento do gelo em regi√Ķes como a Sib√©ria. N√£o √© de se estranhar que, vendo-os assim t√£o bem preservados, a ideia de ‚Äúreviv√™-los‚ÄĚ fica extremamente atraente, seja pelo fasc√≠nio que estes grandes animais despertam, seja pela ambi√ß√£o de ser dono de um grande feito como este.

Bebê mamute mumificado. Créditos: Martin Meissner
Bebê mamute mumificado. Créditos: Martin Meissner

Mas será que a interferência nos caminhos que foram traçados naturalmente pela história do nosso planeta seria realmente uma boa ideia? O que seria do pobre mamute, que fora adaptado para os períodos glaciais da Terra, a habitar grandes espaços, correr atrás de suas presas e se defender de seus predadores, bem ao modo da Era do Gelo? Os tempos eram outros, as características físicas e ambientais de nosso planeta eram outras.

O surgimento de novas tecnologias na √°rea da biologia molecular tende a agu√ßar a mente dos pesquisadores mais ambiciosos, o que √© excelente para novas descobertas, chances de desenvolvimento de cura e tratamento de doen√ßas, e principalmente, um maior dom√≠nio e possibilidade de manipula√ß√£o do genoma de in√ļmeras esp√©cies, incluindo o ser humano. E por que n√£o os mamutes?

Em meados de 2015, o geneticista George Church, de Harvard, e seus colaboradores, anunciaram que utilizaram uma t√©cnica de ‚Äúedi√ß√£o de genes chamada CRISPR (do ingl√™s¬†Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, ou seja, Repeti√ß√Ķes¬†Palindr√īmicas¬†Curtas Agrupadas e Regularmente Interespa√ßadas) para inserir genes de mamute em elefantes. Estes genes inseridos seriam os respons√°veis pela express√£o de alguns caracteres dos mamutes, como tamanho das orelhas mais reduzido, cor e comprimento dos pelos e a presen√ßa de gordura subcut√Ęnea. √Č claro que pesquisadores como estes t√™m em mente que, apesar da ideia soar simples, h√° muitas quest√Ķes em jogo, como a rea√ß√£o das c√©lulas √† express√£o desses genes, se de fato conseguiriam dar origem √† tecidos especializados, etc.

Pensando em um futuro n√£o muito distante, e se por acaso um experimento como este tivesse sucesso? E se nascesse um mamute de um elefante vivo? Outra quest√£o importante a se pensar √© com rela√ß√£o aos efeitos do meio externo ao fen√≥tipo (caracter√≠sticas f√≠sicas do organismo que t√™m origem da express√£o dos genes). Seria um h√≠brido com caracter√≠sticas t√£o semelhantes assim aos mamutes pleistoc√™nicos? S√£o in√ļmeras quest√Ķes a serem pensadas al√©m do experimento em laborat√≥rio. Pensando em um sucesso ainda maior (que √© com rela√ß√£o √† sobreviv√™ncia desses h√≠bridos), at√© quanto tempo viveriam? Ou seriam saud√°veis por quanto tempo? E penando na manuten√ß√£o desses animais, teriam eles, obviamente, que ficarem restritos √† ambientes polares, com alimenta√ß√£o fornecida e especializada, etc.

Quero deixar claro que n√£o estou querendo levantar somente os aspectos negativos deste tipo de pesquisa, at√© por que acho que a ousadia √© um est√≠mulo para mover a Ci√™ncia, e nela h√° espa√ßo para qualquer experimento, desde que esteja de acordo com as quest√Ķes √©ticas. Mas o objetivo deste post √© levantar as implica√ß√Ķes √† longo prazo e gerar uma reflex√£o do quanto valeria a pena realizar tal fa√ßanha. Apenas sou mais adepta da ideia de se utilizar t√©cnicas como esta, por enquanto, para tentar auxiliar na luta contra a extin√ß√£o de esp√©cies atuais devido √†s a√ß√Ķes antr√≥picas, por exemplo.

Como diz a famosa express√£o, a natureza sabe o que faz. ¬†Os eventos de extin√ß√£o que ocorreram ao longo da hist√≥ria da vida na Terra, sejam eles por causa da pr√≥pria evolu√ß√£o da geosfera (por exemplo, o movimento das placas tect√īnicas e vulcanismo, que expeliram enormes quantidades de gases na atmosfera), ou por intera√ß√Ķes ecol√≥gicas (competi√ß√£o entre esp√©cies, preda√ß√£o, etc), ou como obra do acaso (como os impactos de corpos celestes), apesar de terem sido catastr√≥ficos para os seres que viviam nestes per√≠odos, foram respons√°veis pela ‚Äúreciclagem‚ÄĚ da vida na Terra, ou seja, possibilitaram o surgimento de novos organismos, de novos nichos, at√© a vida se moldar ao que conhecemos hoje. Estamos aqui devido √†s extin√ß√Ķes ocorridas? Provavelmente elas t√™m grande parte nisso.

A evolu√ß√£o da vida tende a acompanhar as mudan√ßas que a Terra vai sofrendo com o passar do tempo geol√≥gico, mas o tempo sentido pelo homem √© curto demais, tem uma escala muito, mas muito menor. Ent√£o tendemos a n√£o enxergar os benef√≠cios causados por eventos catastr√≥ficos ou mudan√ßas naturais, quanto menos ainda perceber os efeitos que o ambiente causa, √† longo prazo, no sucesso ou ‚Äúfracasso‚ÄĚ da sobreviv√™ncia de uma esp√©cie. Pensando desta maneira, apesar de tamb√©m sermos agentes causadores de mudan√ßas, nossas a√ß√Ķes est√£o causando um preju√≠zo √† biodiversidade do planeta muito mais al√©m da conta para a recupera√ß√£o natural dessas extin√ß√Ķes provocadas. Mas isto seria uma discuss√£o para outro post.

Quanto aos mamutes? Por mim é melhor deixá-los extintos, para o bem deles, e para o bem do nosso planeta. Sim, a natureza sabe o que faz, e às vezes o acaso faz bem também!