Arquivo mensais:janeiro 2017

Como ser√° o nosso futuro? Que f√≥sseis descrever√£o em milh√Ķes de anos √† frente?

Por conta da virada do ano e o in√≠cio de 2017, fiquei pensando em fechar as cr√īnicas da vida no passado do estado de S√£o Paulo, aproveitando para comentar acerca de qual √© o registro da vida que atualmente est√° sendo incorporado √†s camadas de sedimentos que se est√£o depositando. Como a Carolina j√° descreveu no post¬†dela, a inclus√£o de restos org√Ęnicos (folhas, galhos, carca√ßas, conchas, etc.) nas camadas depende do tempo envolvido e da oportunidade, sendo que a parte da Paleontologia que estuda esse processo √© conhecida como Tafonomia.

Mata de galeria, no rio Mogi-Guaçu, SP

Ent√£o, qual por√ß√£o do que hoje apreciamos nas matas de galeria ser√° preservado? E dos manguezais? Da Mata Atl√Ęntica? Do Cerrado? Ser√° poss√≠vel reconstruir a sua diversidade, ou ter uma ideia dela ao menos, com base no que hoje est√° sendo incorporado nas camadas sedimentares em forma√ß√£o?

 

Coleta de uma camada de folhas nas margens do rio Mogi-Guaçu, SP

¬†Uma das formas para responder a essas inquietudes, e ao meu modo de ver a mais simples, √© pesquisar diretamente nos locais onde esses novos registros est√£o acontecendo, como por exemplo nas florestas ciliares ou tamb√©m conhecidas como de galeria ou rip√≠colas, que se desenvolvem √† beira dos rios, especialmente naqueles com muitas curvas ou meandros. Pela migra√ß√£o lateral do canal do rio, as curvas acabam se fechando e isolando o bra√ßo do rio. Pelo geral, a por√ß√£o isolada somente recebe √°gua durante as cheias. Assim, v√£o se formando pequenas lagoas rodeadas por vegeta√ß√£o, nas quais caem folhas, galhos, sementes, polens, esporos, insetos, etc. Nesse processo de ac√ļmulo de restos org√Ęnicos, os vegetais s√£o os que aportam a maior quantidade de biomassa e podem chegar a formar verdadeiras camadas de restos, por vezes bastante espessas, com mais de 20 cm, que ao ser soterrados e prensados entre v√°rias camadas de sedimentos (areia, lama, etc.) poder√£o se transformar em f√≥sseis de folhas, galhos e sementes na forma de compress√Ķes e/ou impress√Ķes. A forma de acessar esses ac√ļmulos pelo geral se faz abrindo uma trincheira.

 

Coleta do registro sedimentar utilizando um tubo de alumínio de dois metros.

Nos manguezais ou mesmo nas lagoas associadas aos meandros, por exemplo, se enfiarmos um tubo oco e resistente de uns dois metros de comprimento e a seguir tampar a extremidade superior, poderemos retira-lo da lama, com bastante esfor√ßo, e abri-lo de comprido, de forma a observar um registro ordenado da sucess√£o da deposi√ß√£o dos sedimentos em camadas, pelo geral com camadas de v√°rias cores. As camadas mais escuras ter√£o maior quantidade de mat√©ria org√Ęnica preservada e, por conseguinte, maior probabilidade de preserva√ß√£o. Nesse registro as amostras da base corresponder√£o aos sedimentos mais antigos e as mais recentes ser√£o as do topo. Uma vez que os sedimentos dos manguezais s√£o bem finos, a deposi√ß√£o ser√° lenta, ou seja, para formar uma camada de 1 cm de espessura ser√° necess√°rio mais tempo envolvido do que em uma camada de areia grossa. Voltando ao registro retirado com o tubo, poderemos ter registrado algumas centenas de anos de deposi√ß√£o e nessas camadas estrar√£o preservadas assembleias de microrestos (p√≥lens, esporos, diatom√°ceas, etc.) como tamb√©m folhas, sementes, galhos entre outros.

Altern√Ęncia de camadas de areia (em tons de cinza) e de restos vegetais (mais escuras)

Assim, utilizando essas acumula√ß√Ķes mais ‚Äúmodernas‚ÄĚ de restos org√Ęnicos n√£o fossilizados e que poder√£o se tornar f√≥sseis um dia, √© poss√≠vel adquirir conhecimento acerca das varia√ß√Ķes na vegeta√ß√£o que foram produzidas como consequ√™ncia de mudan√ßas clim√°ticas, ou de varia√ß√Ķes no n√≠vel dos mares ou induzidas pelo homem em escalas menores de tempo, como o √ļltimo mil√™nio, os √ļltimos s√©culos, etc.

Conhecer e entender como acontece a entrada dos restos org√Ęnicos no registro sedimentar tamb√©m ajuda na hora de interpretar jazimentos f√≥sseis pret√©ritos, para se ter uma ideia de onde provem os f√≥sseis, como chegaram at√© o local de deposi√ß√£o, como foram fossilizados… entre outras coisas… e se o futuro tamb√©m ter√° f√≥sseis da vida que hoje vemos no nosso planeta, pelo menos no pr√≥ximo um bilh√£o de anos… mas essa √© outra hist√≥ria relacionada com a evolu√ß√£o do Sol.

Sobre drag√Ķes e f√≥sseis

Como amante da paleontologia e, mais recentemente, praticante e apreciadora¬†de wushu, a inspira√ß√£o deste post surgiu como um desafio de tentar relacionar os dois temas de alguma forma. Me parece que¬†alguns mitos s√£o criados a partir de ‚Äúverdades‚ÄĚ…distorcidas, ou, com um toque de imagina√ß√£o, digamos assim.

Drag√£o do quadrinho Zen pencils

Na arte marcial que conhecemos por ‚Äúkung fu‚ÄĚ, aqui no ocidente, existem diversos estilos de luta. Norte e Sul da China s√£o conhecidos por estilos diferentes. O estilo do drag√£o √© um estilo imitativo do Sul; neste, os movimentos devem ser compreendidos, internalizados¬†(em contraposi√ß√£o, o advers√°rio do drag√£o √© o tigre e seu estilo √© fundamentado¬†em movimentos de¬†for√ßa e memoriza√ß√£o). Como o drag√£o, para os chineses,¬†simboliza a √°gua e a terra, no kung fu suas a√ß√Ķes¬†combinam for√ßa e leveza em¬†movimentos¬†que unem opostos, como: circular/reto, ou para cima/para baixo, por exemplo.

O drag√£o √© uma figura comum na mitologia chinesa, desempenhando v√°rios pap√©is como regular as chuvas, proteger os deuses (e o imperador), e ser a fonte da verdadeira sabedoria e da boa sorte. √Č, portanto, considerado um animal auspicioso, n√£o mal√©volo. Por isso s√£o extremamente comuns na arquitetura e ornamenta√ß√£o da antiga China. N√£o √© √† toa tamb√©m que, por mais de uma vez na hist√≥ria, imperadores chineses regularam o uso das imagens de drag√£o em suas sedas e outros ornamentos, para que somente eles pudessem us√°-las e, assim, demonstrar sua pot√™ncia.

Hist√≥ria “Never give up!” do quadrinho Zen Pencils

Apesar de ser um estilo imitativo no kung fu, n√≥s todos sabemos que drag√Ķes (i.e., r√©pteis serpentiformes voadores que cospem fogo) nunca existiram. Neste caso, a ‚Äúimita√ß√£o‚ÄĚ vem das hist√≥rias e lendas passadas de gera√ß√£o em gera√ß√£o, sobre os supostos movimentos destes animais. Se, por um lado, a forma como se mexiam vem da imagina√ß√£o das pessoas, de outro, a figura do animal em si tem uma origem interessante. F√≥sseis de dinossauros, ou de outros grandes r√©pteis serpentiformes, ou at√© mesmo f√≥sseis de baleias s√£o, provavelmente, a fonte de inspira√ß√£o para os mitos dos drag√Ķes (assim como de outros animais, lendas e deuses que existem mundo afora). Imagine os antigos chineses encontrando ossos de grandes propor√ß√Ķes, com a forma de um lagarto, espalhados pelo ch√£o… e mais, ossos duros como pedras! Na breve pesquisa que fiz para escrever este post eu li (aqui) que o fato de os ossos serem feitos de pedra (resultado do processo de fossiliza√ß√£o) provavelmente levou as pessoas a pensar que era um animal que cuspia fogo, pois seus ossos resistiam a ele! Interessante, n√£o?

Os mais antigos adornos chineses contendo imagens de drag√Ķes datam de cerca de 4700-2900 a.C. (Cultura Hongshan). Ent√£o √© bem prov√°vel que antes disso os f√≥sseis de grandes animais j√° tivessem sido descobertos naquela regi√£o do mundo. Naquela √©poca n√£o se tinha o conhecimento cient√≠fico que temos hoje sobre f√≥sseis e fossiliza√ß√£o, extin√ß√Ķes e da vastid√£o do tempo geol√≥gico, e estes restos eram interpretados como restos recentes de animais fant√°sticos, ou seja, como os drag√Ķes; hoje chamamos a eles de dinossauros (e afins).

Se voc√™ sabe mais sobre os diferentes estilos de wushu, sobre paleontologia, sobre drag√Ķes, ou simplesmente gostou do post, deixe-nos um coment√°rio!!

Veja aqui um document√°rio sobre a rela√ß√£o entre drag√Ķes e dinossauros.
Entre aqui para apreciar a arte do Zen Pencils.

 

 

 

 

Micro/Macro: a união faz a força!

Imagem de micro e macro-organismos do quadrinho “Mikromakro” de Jens Harder

Com um telesc√≥pio n√≥s conseguimos observar corpos celestes imensos que est√£o muito distantes, mas que mesmo assim nos causam assombro. J√° com um microsc√≥pio √© poss√≠vel observar a -abundante- vida min√ļscula que nos cerca, mas que passa despercebida pela maioria de n√≥s…

Escalas.

Para quem viaja: a escala é um ponto de parada.

Na m√ļsica: √© um grupo de notas musicais.

Na matem√°tica: √© uma raz√£o entre grandezas que permitem uma compara√ß√£o; e √© exatamente esse conceito, matem√°tico, que iremos usar neste post. Isso porque vamos falar de organismos que, se tivessem lemas, seriam: ‚Äútamanho n√£o √© documento‚ÄĚ e “a uni√£o faz a for√ßa”, uma vez que seu tamanho √© insignificante perto da dimens√£o do planeta Terra (comparando os tamanhos estamos usando o conceito matem√°tico!), e que unidos eles s√£o extremamente imporntantes para a manuten√ß√£o de ciclos globais .

Imagem de bact√©rias do quadrinho “Mikromakro” de Jens Harder

Micro-organismos. Apesar de serem pequenos (menores que 1-2 mm), s√£o muito abundantes. Abund√Ęncia aqui significa que temos muitos indiv√≠duos, do mesmo tipo de organismo (em biologia existe uma grande diferen√ßa entre abund√Ęncia e diversidade. Mas esse √© um tema para um pr√≥ximo post.) E √© a abund√Ęncia que os torna extremamente significativo¬†na manuten√ß√£o de diversos ciclos do nosso planeta, como o ciclo do Carbono, por exemplo. N√£o faz muito tempo se dizia, inadvertidamente, que a Floresta Amaz√īnica era o pulm√£o do planeta; j√° ouviu isso alguma vez? Pois √©, e deve ter ouvido tamb√©m que n√£o √© bem assim que a coisa funciona… que a raz√£o O2/CO2 √© mais controlada por micro-organismos fotossintetizantes extremamente abundantes que vivem nas √°guas do mar (lembrando que o mar recobre cerca de 70%¬†da superf√≠cie do nosso planeta, o que sugere que estes organismos min√ļsculos tem um ambiente ‚Äďbastante‚Äď espa√ßoso para viver) e que o CO2 produzido na Amaz√īnia tamb√©m √© consumido por ali mesmo, n√£o tendo tanto efeito mundial quanto se pensava.

Bom, por mais que eles sejam pequenos, eles est√£o sujeitos aos mesmos processos sofridos por¬†qualquer outro organismo na superf√≠cie terrestre, o que significa que a maioria, ao completar seu ciclo de vida, √© decomposta e seus constituintes retornam ao sistema, como aquela famosa frase de Lavoisier (1743-1794): ‚Äúna natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma‚ÄĚ. Mas, claro, alguns acabam escapando a esta norma, passam por processos f√≠sicos e qu√≠micos que os preservam nas rochas e formam o que chamamos de microf√≥sseis. Os microf√≥sseis podem ser organismos inteiros de tamanho diminuto (como foramin√≠feros, radiol√°rios, dinoflagelados, algas), ou ent√£o, s√£o partes pequenas de organismos maiores. Para exemplificar este √ļltimo caso, pense que o p√≥len (micro) produzido por algumas plantas (macro) s√£o partes pequenas (c√©lulas reprodutivas) delas. P√≥lens f√≥sseis s√£o extremamente comuns no registro (de determinado per√≠odo em diante, neste caso do Devoniano¬†at√© os dias atuais) e seu estudo se chama paleopalinologia.

Você pode pensar que achar microfósseis deve ser extremamente difícil pois eles são muito pequenos. Mas, na realidade, como são -em geral- abundantes, os paleontólogos que trabalham com microfósseis são muito sortudos e não precisam levar grandes quantidades de rochas para o laboratório. Um pouco só (algumas gramas) já é o suficiente para se observar algumas centenas de indivíduos, utilizando um microscópio, claro.

Bem, j√° falamos que os micro-organismos s√£o importantes pois s√£o abundantes e que podem gerar f√≥sseis. Pense sobre essas duas propriedades (abund√Ęncia + f√≥sseis) e misture-as com o tempo geol√≥gico: milhares de micro-organismos ao longo de centenas de ambientes diferentes que se sucederam ao longo das centenas de milhares de anos do tempo geol√≥gico. Pronto. √Č bastante material¬†para que os micropaleont√≥logos trabalhem, n√©? As varia√ß√Ķes ambientais ocorridas ao longo do tempo podem ser detectadas pelo estudo de microf√≥sseis, cada grupo estudado fornecendo um dado importante sobre o paleoambiente em que viveu.

Vamos aproveitar que este é o primeiro post de 2017 e aplicar o lema dos microfósseis em nossos dias daqui pra frente... a união faz a força! 
Que consigamos nos unir para melhorar nosso país; cada um fazendo a sua parte, para o bem de todos. E que a ciência no Brasil não esmoreça. Feliz 2017!