Arquivo da categoria: para refletir

Você já viu um fóssil de verdade? (será que não?)

Voc√™ provavelmente j√° ouviu falar em amadorismo, especialmente quando se trata de esportes, certo? Segundo o dicion√°rio, amadorismo √© regime ou pr√°tica oposta ao profissionalismo; ou ainda: falta de t√©cnica adequada √† realiza√ß√£o de um trabalho. Pois vou lhes contar que existem por a√≠ paleont√≥logos amadores*… e tentar fazer de voc√™, um deles!

Voc√™ j√° viu algum f√≥ssil real**? Caso j√° tenha ido em algum museu de ci√™ncias ou hist√≥ria natural, √© poss√≠vel que tenha. Mas, e na sua casa? no caminho para o seu trabalho? (n√£o vale contar que o seu chefe √© um dinossauro, ok?) naquela loja que voc√™ sempre vai para tomar um caf√©?… existem f√≥sseis ali? j√° reparou nas rochas que adornam esses lugares? sim…elas podem conter f√≥sseis!!

Mapa do Brasil com sítios fossilíferos. As bolinhas representam locais em que ocorrem fósseis. Fonte.

Bem, dependendo de onde voc√™ morar, f√≥sseis podem aparecer no quintal da sua casa, na constru√ß√£o de um pr√©dio, na abertura de uma rodovia… Apesar de o processo de fossiliza√ß√£o ser uma exce√ß√£o (j√° falamos sobre isso antes, lembra?), ainda sim, o tempo geol√≥gico √© t√£o longo e a diversidade de vida pret√©rita, t√£o grande, que existe por a√≠ um bom n√ļmero de rochas que apresentam f√≥sseis. Veja aqui uma pequena lista de locais com f√≥sseis, pelo mundo.

E tem mais! Mesmo que voc√™ n√£o more literalmente em cima dessas rochas, muitas constru√ß√Ķes s√£o feitas (em geral, ornamentadas) com rochas fossil√≠feras! isso significa que a parede externa de uma loja, uma pia, ou mesmo a cal√ßada de alguns locais podem ter f√≥sseis. Vamos aos exemplos:

  • Se voc√™ for ao Shopping Eldorado ou ao Shopping Ibirapuera, ambos em S√£o Paulo, por exemplo, poder√° observar estromat√≥litos nos m√°rmores do piso; estromat√≥litos s√£o estruturas formadas pelas atividades de cianobact√©rias; as estruturas t√™m a forma de colunas laminadas facilmente observadas nas rochas desses shoppings; cada l√Ęmina, em geral, representa um ciclo de vida de uma col√īnia. Essas rochas t√™m cerca de 2 bilh√Ķes de anos de idade, e foram retiradas de lavras localizadas em Minas Gerais. Veja aqui uma not√≠cia sobre esse assunto.
Rastros fósseis do varvito de Itu. Fonte.
  • Em muitas cal√ßadas de Itu (SP), ou de cidades pr√≥ximas, como Campinas por exemplo, tem alguns de seus pavimentos constru√≠dos com rochas que apresentam marcas de ondas e tra√ßos f√≥sseis! as marcas de onda s√£o iguais √†s que podemos observar na parte mais rasa das praias de hoje… e esses tra√ßos s√£o pegadas de antigos animais (invertebrados) que rastejavam pelo fundo de um lago gelado. Essas rochas t√™m cerca de 250 milh√Ķes de anos de idade, e prov√™m de afloramentos de Itu e regi√£o. Saiba mais aqui.

 

  • Nas cal√ßadas de S√£o Carlos, Araraquara (cidades de SP) e mesmo dentro do Zool√≥gico de S√£o Paulo, √© poss√≠vel observar rochas formadas por areia (arenitos) que apresentam pegadas de dinossauros, mam√≠feros e invertebrados (entre outros). Todas s√£o retiradas de Araraquara e regi√£o e representam os vest√≠gios de um grande deserto que cobriu parte do Brasil h√° 140 milh√Ķes de anos atr√°s. Ser√° que voc√™ j√° n√£o pisou em uma pegada f√≥ssil?? Veja mais aqui.

Abra seus olhos e comece a observar. E se algum dia você encontrar um fóssil? Será que isso irá despertar em você uma vontade de conhecer que só vai crescendo com o tempo? Pois foi provavelmente dessa forma que muitos paleontólogos amadores iniciaram, na busca insaciável pelo conhecimento. Muitos desses paleontólogos amadores foram responsáveis por grandes descobertas! Mas isso já é uma história para um próximo post

*Existem algumas defini√ß√Ķes diferentes para “paleont√≥logo amador” mas me refiro aqui √†quelas pessoas que coletam f√≥sseis, por qualquer raz√£o, mas que n√£o subsistem da paleontologia.

**Aqui s√≥ gostaria de desabafar… Sempre que levo alguma r√©plica de f√≥ssil para aulas pr√°ticas de paleontologia meus alunos mostram certam desprezo com a tal amostra. E eu sempre argumento que aquilo, em geral, √© um molde do original, ou seja, n√£o tem diferen√ßa alguma em rela√ß√£o ao f√≥ssil encontrado; simplesmente n√£o faz sentido n√£o gostar de uma r√©plica.

A emoção da Montanha Russa: respire fundo e um passo à frente

Oba, oba, oba que felicidade: a not√≠cia que finalmente o artigo no qual trabalhamos nos √ļltimos anos foi aceito para ser publicado finalmente, depois de idas e vindas!

Fonte: alearned.com/roller-coasters/ e MiNiBuDa/montaa-rusa

Neste texto quero falar acerca de uma das partes mais delicadas de trabalhar com pesquisa: publicar a nossa pesquisa ou conseguir publicar, pois existem as duas caras dessa atividade. Nem todos os artigos pelos quais trabalhei, pesquisei, dei o melhor de mim, foram aceitos para serem publicados e menos ainda aceitos sem corre√ß√Ķes, sugest√Ķes e at√© devolvidos com coment√°rios terr√≠veis. Outros em contrapartida, ap√≥s algumas idas e vindas, foram aceitos com muitos elogios. Quem n√£o passou por isso?. Contudo, meu sonho continua sendo ter um artigo aceito sem nenhuma corre√ß√£o ou sugest√£o de mudan√ßa. Como √© esse processo? Na minha opini√£o poderia ser mais simples. Come√ßa, claro, quando voc√™ tem uma ideia ou uma inquietude acerca de um f√≥ssil ou um conjunto deles e a sua pesquisa se inicia. Pode ser necess√°rio ir ao campo e procurar, coletar, descrever, fotografar, desenhar… voltar novamente ao local, verificar os seus dados de campo, ir com as suas amostras e exemplares ao laborat√≥rio, prepar√°-los, descrever de novo, interpretar e por fim produzir um dado e sua interpreta√ß√£o e come√ßar a escrever…pensar….pensar…escrever, ler artigos relacionados ou n√£o…discutir com um colega, alunos, acordar a noite e ficar pensando…matutando e ter a ideia de como explicar! Mudar o que se escreveu para melhor ou pior, tentar e tentar e no fim chegar a um texto que descreva o que voc√™ pensou e que transmita a sua Ideia para outras pessoas. Claro, n√£o √© s√≥ texto nas pesquisas em paleontologia em geral os artigos tem umas figuras muito lindas e bem feitas do seu material, ali√°s, esta √© uma das partes mais importantes do texto: as prova do que voc√™ est√° falando. Figuras feias s√£o um passo para o abismo, texto confuso √© o pr√≥ximo. Mas com todo o seu esfor√ßo por fazer o melhor poss√≠vel, o sucesso n√£o √© garantido. N√£o tem, para mim, coisa mais dif√≠cil que abrir aquela mensagem da revista cient√≠fica, em resposta ao artigo que voc√™ enviou h√° alguns meses e no qual trabalhou por alguns anos. Ler a mensagem do editor, que n√£o tem como saber quais foram as dificuldades, problemas, etc. e ter seu artigo avaliado por relatores an√īnimos, que podem ou n√£o acabar com todo esse esfor√ßo… o sistema de avalia√ß√£o por pares. V√™m os coment√°rios e o veredito, que voc√™ l√™ com o cora√ß√£o saindo pela boca e batendo acelerado, como ir a uma montanha russa a toda velocidade, e que fala: ‚Äúaceito‚ÄĚ, ‚Äúnegado‚ÄĚ, ‚Äúpode ser aceito caso voc√™ mude‚ÄĚ, ‚Äúnem mudando daria para aceitar‚ÄĚ ou ‚Äúque artigo mais legal, contudo voc√™ ainda n√£o chegou l√°‚ÄĚ, ‚Äútemos o prazer de informar que seu artigo est√° aceito‚ÄĚ, etc. Um conhecido meu falava que √†s vezes, ap√≥s algumas idas e vindas, voc√™ n√£o quer nem escutar falar mais do seu artigo, ou em outras vezes, at√© tem vontade de emoldurar. Pois bem, n√£o √© f√°cil trabalhar com ci√™ncias; tem que estar preparado para ser constantemente questionado, arguido e n√£o tem como escapar. Mas ainda assim, na maioria das vezes quando estudo f√≥sseis, penso que n√£o gostaria estar fazendo outra coisa nesse momento e que afortunada que sou por poder trabalhar com um desafio constante que me estimula e faz ter uma vida pouco rotineira, onde posso ajudar a outros a descobrir essa maravilha e a desfrutar do seu trabalho.

N√£o acredito que tenha colegas que nunca tiveram um artigo negado como eu, inclusive at√© grandes cientistas j√° tiveram as suas maiores contribui√ß√Ķes n√£o publicadas em v√°rias ocasi√Ķes. Pelo menos n√£o estou sozinha. O que fazer quando seu esfor√ßo n√£o tem √™xito? Quando a sua decep√ß√£o ficar menor, pegue os coment√°rios, leia, pense, mude o que achar que deve, defenda o que n√£o √© razo√°vel e submeta de novo, e de novo, e de novo… Embora n√£o seja f√°cil, pense que em cada retomada fica melhor, ou parta para outra pesquisa e experimente o infinito, pode ser que esta vez o sucesso seja seu e, quem sabe, ent√£o pegue seu artigo rejeitado mexa nele mais uma vez e submeta a outro peri√≥dico e ele seja aceito e se torne a sua melhor contribui√ß√£o. Vai ver que o mundo ainda n√£o estava pronto para ele..

Reflex√Ķes de um dia-a-dia sob a √≥ptica paleontol√≥gica

Cada √°rea do conhecimento possui seus jarg√Ķes e influencia no modo em que as pessoas enxergam o mundo. Eu tenho contato com profissionais cientistas de v√°rias √°reas do conhecimento; desde aqueles engenheiros que se divertem indo em um congresso ‚Äús√≥‚ÄĚ sobre t√ļneis, at√© aqueles que, apesar de trabalharem o tempo todo, acham que atividades como ministrar aulas ‚Äún√£o √© trabalho‚ÄĚ. Longe de mim questionar qualquer um desses pontos de vista (que tenho como exc√™ntricos) a verdade √© que me divirto muito observando e convivendo com pessoas de pontos de vista t√£o diferentes do meu.

Pensando sobre isso imaginei que algumas (ou todas?) das observa√ß√Ķes que fa√ßo ao longo de um dia podem/devem ter muita influ√™ncia da minha forma√ß√£o paleobiol√≥gica. Vamos aos exemplos!

Nas férias, ao caminhar na praia, percebo que a zona intermarés carrega e deposita sedimentos e corpos de organismos que viviam por ali, e também daqueles que viviam

Diferentes organismos (ou restos de organismos) num mesmo ambiente deposicional. Viviam ali ou foram trazidos?

mais longe (no mar mais profundo), mas que foram trazidos pelas correntes, neste caso, ap√≥s a sua morte, e ali depositados. Esse conjunto de restos de organismos de diferentes ambientes misturados num mesmo local √© bastante comum no registro fossil√≠fero. √Č o que chamamos de ‚Äúgrau de autoctonia‚ÄĚ do registro (o quanto ele representa organismos que viviam naquele ambiente, ou, ao contr√°rio, o qu√£o longe eles foram transportados de seu ambiente de vida original). No registro temos que observar os restos dos organismos para saber se s√£o ou n√£o aut√≥ctones. O que observamos? Se o organismo est√° inteiro ou fragmentado (o que pode indicar transporte), arredondado, se ele tem adapta√ß√Ķes morfol√≥gicas para viver em determinado ambiente (forma da concha, por exemplo), entre outras fei√ß√Ķes. A mistura de organismos de diferentes ambientes numa praia atual pode parecer √≥bvia (como na foto, em que h√° mistura de conchas, galhos e medusas, cada uma de um ambiente espec√≠fico), mas no registro isso n√£o √© t√£o f√°cil de se perceber. Pelo menos n√£o t√£o imediato. Isso porque n√£o temos mais o ambiente original, s√≥ evid√™ncias de qual era esse ambiente. Tamb√©m n√£o temos os organismos, mas sim f√≥sseis deles. N√£o √© de se estranhar, portanto, que uma das ferramentas mais usadas na paleontologia √© o atualismo: observar o que ocorre hoje para compreender o passado, que √© representado pelo registro fossil√≠fero.

E no meio urbano? √Č poss√≠vel ter um olhar paleontol√≥gico?

A icnologia (o estudo dos tra√ßos f√≥sseis, ou seja, o estudo das marcas deixadas pela atividade de algum organismo) √© relativamente constante nas minhas observa√ß√Ķes. Ao passear com cachorros numa pra√ßa que tenha areia, deixamos nossas pegadas, que s√£o rapidamente apagadas ou deformadas pelo caminhar de outros (possibilitando a forma√ß√£o de um registro palimpsesto, caso aquilo ali fosse rapidamente recoberto); ou, ao observar patinhas de diversos animais que foram pintadas em frente a um restaurante vegano, adentrando o local, percebo que elas deveriam tamb√©m estar saindo ali, se a ideia √© de que os animais s√£o bem-vindos e podem circular livremente…pra mim, vest√≠gios de animais somente entrando um lugar podem significar que eles n√£o sa√≠ram, pelo menos n√£o pelo mesmo local de entrada.

Ou ainda, como explicado no √ļltimo post da profa. Fr√©sia, as queimadas geram fragmentos de plantas carbonizados que podem virar registro tamb√©m… quem nunca olhou para aquela ‚Äúsujeirinha‚ÄĚ preta e pensou sobre sua import√Ęncia para os paleont√≥logos do futuro? ūüôā

E, claro, o exemplo cl√°ssico. Seja aonde for, praia, cidade, interior, ao olhar para o c√©u noturno estrelado n√£o podemos deixar de pensar que observar as estrelas √© olhar para o passado. E como Carl Sagan costumava dizer: ¬†“N√≥s somos, cada um de n√≥s, um pequeno universo”. Mas a√≠ j√° entramos em outra √°rea do conhecimento, n√£o?

A perspectiva paleontológica está por toda a parte!

Conheça mais sobre o trabalho de Sagan lendo este post.

 

 

Paleontologia: como compreendê-la em 5 passos

Quase todos os an√ļncios de reportagens e chamadas que recebemos incessantemente em nossos celulares, todos os dias, trazem n√ļmeros. Talvez seja a nossa avidez por conhecimento ‚Äúrapidamente absorv√≠vel‚ÄĚ que tenha promovido esta prolifera√ß√£o de textos com t√≠tulos que trazem o n√ļmero exato (ou inexato, alguns enganam a gente) de conte√ļdo. Se d√° certo (se a gente absorve mais r√°pido, ou se √© simplesmente uma quest√£o de marketing/publicidade…), eu n√£o sei; fato √© que resolvi aderir √† moda e tentarei explicar o que √© a paleontologia em 5 itens; ou pelo menos, irei tentar apontar as principais problem√°ticas envolvidas quando se trata de paleontologia para e com aqueles que n√£o sabem bem o que esta ci√™ncia significa. Vamos l√°?

1 ‚Äď O termo ‚ÄúPaleontologia‚ÄĚ significa ‚Äúo estudo dos seres antigos‚ÄĚ. J√° falamos em posts anteriores que antigo em Geologia ‚Äď e em Paleontologia ‚Äď tem conota√ß√£o diferente daquele utilizada no nosso dia-a-dia. Restos de organismos s√£o considerados recentes, ou pouco antigos (e denominados de sub-f√≥sseis, por exemplo) se tiverem por volta de 10.000 anos por exemplo. Al√©m da quest√£o do tempo, temos o termo ‚Äúseres‚ÄĚ aqui… n√£o s√£o somente dinossauros (!!!). Nem somente plantas. Lembrem-se, temos todos os filos de possibilidades; todos os tamanhos e toda a variedade de vida que j√° existiu ao longo dos √ļltimos 4,5 G.a. √Č coisa pra caramba :mrgreen: .

2 ‚Äď Paleontologia e Arqueologia s√£o ci√™ncias que usam m√©todos de estudo parecidos, mas cujo objeto de estudo √© diferente. O enfoque da paleo que eu falei no item 1 (acima), √© a vida, em geral, ao longo do tempo geol√≥gico; o enfoque da arqueologia s√£o as civiliza√ß√Ķes humanas e sua cultura (que, ali√°s, √© algo beeeem recente….). √Č muito comum a confus√£o entre as duas ci√™ncias, talvez por exigirem um perfil de pesquisador de campo, aventureiro, que vive √† procura de segredos escondidos em rochas ou locais remotos…. mas as similaridades ficam por a√≠. Agora voc√™ sabe que o Indiana Jones √© um arque√≥logo, n√£o um paleont√≥logo, ok ūüėÜ ?

3 ‚Äď Sendo a vida antiga o objeto de estudo da paleo, ela se baseia, portanto, no estudo dos f√≥sseis. F√≥sseis s√£o restos ou vest√≠gios de vida com mais de 11.000 anos. Quanto mais antigo √© um f√≥ssil, maior a probabilidade de que ele tenha se transformado em rocha; mas ainda assim √© um vest√≠gio de algo que j√° foi vivo. Por este motivo √© que a Paleontologia √© a uni√£o entre a Biologia e a Geologia. Em geral (n√£o √© uma regra) s√£o bi√≥logos ou ge√≥logos que estudam os f√≥sseis. Isso porque os conhecimentos exigidos para as an√°lises tem que vir tanto da bio quando da geo. Como eu disse antes: restos de vida- conhecimentos biol√≥gicos-, que se tornaram ou ir√£o se tornar rochas ‚Äď conhecimentos da geo. Mas a realidade √© que conhecimentos de qu√≠mica, f√≠sica, matem√°tica, computa√ß√£o, (etc…) al√©m da biologia e da geologia, s√£o usados nos estudos paleontol√≥gicos. Uma vis√£o integrada dos fen√īmenos da natureza e de diferentes t√©cnicas de an√°lise dos materiais f√≥sseis faz um bom paleont√≥logo/cientista…

4 ‚Äď N√£o √© s√≥ de petr√≥leo (nem s√≥ de dinossauros ūüėą ) que se faz a Paleontologia. Talvez este item acabe repetindo o que j√° foi dito no item 1, mas tenha paci√™ncia. Isso √© importante. Toda a vida, que se desenvolveu ao longo da hist√≥ria geol√≥gica da Terra, pode ser estudada por um paleont√≥logo (tudo aquilo que vive hoje e que voc√™ conhece, e tamb√©m aquelas formas de vida bizarras, que… pode ser que voc√™ nunca tenho ouvido falar).

O petr√≥leo √© famoso por sua import√Ęncia na economia mundial, e os f√≥sseis (microf√≥sseis, neste caso; f√≥sseis de seres que precisamos de microsc√≥pio para enxergar) ajudam, de modo geral, a mostrar onde o petr√≥leo tem mais chance de ocorrer. √Č uma das formas de aplica√ß√£o da paleontologia.

J√° os dinossauros s√£o famosos por fazerem parte do imagin√°rio popular: eram grandes (nem todos n√©?), assustadores (com exce√ß√Ķes…) e… verdes! (ou coloridos? ou ainda…cobertos por penas?). Veja… as generaliza√ß√Ķes acabam fornecendo uma vis√£o distorcida n√£o √© mesmo? Deve ser por isso que quanto mais se estuda (e se especializa numa √°rea) mais a gente se d√° conta de que sabe quase nada de tudo, e muito pouco sobre alguma coisa ūüėĮ .

5 ‚Äď A Paleontologia √© uma ci√™ncia pura. Calma, n√£o significa que ela seja inocente ūüôĄ , n√£o √© isso… √© uma ci√™ncia que tem como objetivo principal o conhecimento. Sim, ela pode ser aplicada. Algumas vezes √© utilizada como uma ferramenta para compreender outros fen√īmenos, tendo assim, aplica√ß√£o (no item 4 eu falei do petr√≥leo, n√£o √©?). Mas, sob o meu ponto de vista, o seu objetivo mais imediato √© o conhecer por conhecer; e, claro, o conhecimento gerado vai influenciar em outras √°reas da ci√™ncia, gerar discuss√Ķes, promover debates e levar ao progresso do conhecimento cient√≠fico. Muito do que se sabe hoje foi inventado ou observado por algum cientista que teve a vontade de observar, descrever, conhecer, explicar algo. Independentemente de ser pura ou aplicada a ci√™ncia leva ao progresso a humanidade!

Para uma leitura interessante e aprofundada sobre o tema ciência e seus impactos, clique aqui.

 

Quando a tragédia vira registro

Who has dressed you in strange clothes of sand?
Who has taken you far from my land?
Who has said that my sayings were wrong?
And who will say that I stayed much too long?
Clothes of sand have covered your face
Given you meaning, taken my place
Some make your way on down to sea
Something has taken you so far from me
Does it now seem worth all the color of skies?
To see the earth through painted eyes
To look through panes of shaded glass
See the stains of winter’s grass
Can you now return to from where you came?
Try to burn your changing name
Or with silver spoons and colored light
Will you worship moons in winter’s night?
Clothes of sand have covered your face
Given you meaning but taken my place
So make your way on down to the sea
Something has taken you so far from me

Clothes of sand, Nick Drake

 

De modo geral, o destino final das part√≠culas sedimentares √© o fundo de uma bacia sedimentar, que pode ser o fundo do mar, por exemplo… E neste processo lento e incessante cada ciclo de soerguimento transforma essas part√≠culas e as coloca novamente para o ‚Äúrein√≠cio‚ÄĚ do ciclo. O ciclo mencionado aqui √© o das rochas, que forma n√£o s√≥ as sedimentares mas tamb√©m √≠gneas (magm√°ticas, do magma dos vulc√Ķes) e metam√≥rficas (transformadas por grandes press√Ķes e temperaturas). A m√ļsica de Nick Drake acima fala um pouco sobre este ciclo, voc√™ percebeu? ūüėÜ (√Č uma das poucas m√ļsicas com conte√ļdo de geologia que conhe√ßo… )√Č este ciclo um dos grandes respons√°veis pelas mudan√ßas geogr√°ficas/geomorfol√≥gicas que vemos na Terra e que n√£o ocorrem em Marte nem na Lua, por exemplo; a Lua de Dante Alighieri (1265-1321) √© a igualzinha a que voc√™ v√™ hoje.

Voltando ao ciclo… s√£o tamb√©m partes dele (junto com a tect√īnica de placas e outros processos geol√≥gicos) que levam a grandes trag√©dias humanas. Terremotos t√™m seus mais antigos registros em documentos chineses (1177 a.C.)*, avisos sobre o perigo de tsunamis no Jap√£o tem pelo menos 600 anos **, e atividades vulc√Ęnicas intensas j√° deixaram suas marcas por diversas vezes na hist√≥ria humana (veja no link as maiores trag√©dias associadas a esses eventos) ***.

Os f√≥sseis, isto √©, restos ou vest√≠gios de vida ou de sua atividade, com mais de 11.000 anos, t√™m sua origem ligada ao ciclo das rochas. Em especial, as rochas sedimentares s√£o as que normalmente cont√™m os f√≥sseis. Isso porque o resto de um organismo tamb√©m √© transportado e depositado como uma part√≠cula sedimentar. √Č um peda√ßo de vida que se une aos processos de forma√ß√£o da rocha sedimentar que, ao longo do tempo geol√≥gico se transforma em rocha. Em outros posts j√° comentamos que o tempo geol√≥gico √© bastante distinto do tempo que percebemos como humanos. A pergunta que estamos tratando hoje √© se todo resto ou vest√≠gio de vida fica preservado… ser√°?? ¬†Os f√≥sseis que encontramos s√£o na verdade a exce√ß√£o √† regra. A maioria dos organismos se decomp√Ķe; al√©m disso, a forma√ß√£o do registro fossil√≠fero √© epis√≥dica. Grandes eventos como enchentes, tsunamis, vulcanismos, desmoronamentos √© que preservam. Se pensarmos na hist√≥ria recente de desastres naturais no Brasil podemos dizer que h√° grandes chances da trag√©dia do Rio Doce (2015) e dos deslizamentos no interior do Rio de Janeiro (2011) formarem um registro fossil√≠fero daqui a pelo menos 11.000 anos. Na nossa escala de tempo esses eventos s√£o incomuns, mas na escala do tempo geol√≥gico eles ocorrem (n√£o com periodicidade, mas com frequ√™ncia); e por envolverem grandes √°reas, enormes quantidades de sedimentos e pouco tempo, t√™m maiores chances de preservar. Enfim, s√£o registros de eventos catastr√≥ficos que perfazem a maior parte do material de estudo dos paleont√≥logos e tamb√©m dos ge√≥logos que trabalham com rochas sedimentares.

Preciso salientar aqui que a ocupa√ß√£o desordenada da margem de rios e encostas, e no caso do Rio Doce, a represa de sedimentos, s√£o a√ß√Ķes antr√≥picas, e o homem √© a primeira esp√©cie a alterar o ambiente em larga escala. O que quero dizer √© que os registros que temos s√£o resultado de eventos naturais, e o registro f√≥ssil do futuro ser√° bem diferente. Vamos torcer para que existam paleont√≥logos at√© l√°…!

 

Visite os links abaixo para maiores dados nas atividades geológicas citadas.

*http://pubs.usgs.gov/gip/earthq1/history.html

**http://historyofgeology.fieldofscience.com/2011/03/historic-tsunamis-in-japan.html

*** http://volcano.oregonstate.edu/deadliest-eruption

Escute aqui a m√ļsica de Nick Drake na vers√£o de Renato Russo

 

Quanto tempo demora?

‚ÄúQuanto tempo demora um m√™s pra passar? A vida inteira de um inseto, um embri√£o pra virar feto, a folha do calend√°rio, o trabalho pra ganhar um sal√°rio… mas daqui a um m√™s, quando voc√™ voltar, a lua vai estar cheia, e no mesmo lugar…‚ÄĚ

Biquini cavad√£o ‚ÄúQuanto tempo demora‚ÄĚ

Independentemente de seu gosto pela banda, estilo musical ou por esta canção em específico a questão aqui é o tempo.

A quantidade de tempo percebida pelas pessoas √© bem diferente daquela que ge√≥logos e paleont√≥logos trabalham. Nesse meio √© comum ouvir a express√£o: ‚Äúpoucos milhares de anos…‚Ä̬†Como assim, ‚Äúpoucos milhares?‚ÄĚ voc√™ deve estar se perguntando; 100 anos j√° √© muito, n√£o?…

Vamos voltar um pouco: pense em sua inf√Ęncia. Um ano para cada anivers√°rio, Natal, P√°scoa entre outras festividades, n√£o parecia muito tempo? Um m√™s sem aulas e voc√™ j√° n√£o queria mais voltar… n√£o √© mesmo?

Bem, o que quero dizer √© que mesmo ao longo de nossas vidas, a percep√ß√£o de tempo muda. J√° li em algum lugar que, pelo fato de aprendermos muitas coisas diferentes ao longo de um √ļnico dia, quando somos crian√ßas, nossa no√ß√£o de ‚Äúdia‚ÄĚ √© expandida. Talvez por isso o ano levasse ‚Äúmais tempo‚ÄĚ para passar, apesar de contar os mesmos 365 dias. E, claro, para cada pessoa, que vive uma experi√™ncia di√°ria diferente e percebe o mundo de forma diferente, a no√ß√£o de tempo tamb√©m muda.

Se para cada pessoa temos percep√ß√Ķes diferentes de tempo, imagine agora o que acontece entre diferentes esp√©cies. Um camundongo vive em torno de 2 anos. Acha pouco? Existe um inseto (efem√©rides) que, em sua fase adulta, vive somente um dia. Em 24 horas ele eclode de sua fase larval, tem sua adolesc√™ncia pela manh√£, torna-se um adulto a tarde, se reproduz e morre √† noite.

Baseando‚Äďse no fato de que n√≥s, mam√≠feros primatas, estamos acostumados com intervalos de tempo menores do que s√©culos, as amplitudes de tempo envolvidas, na concep√ß√£o das outras esp√©cies biol√≥gicas, s√£o curtas ‚Äď quando envolvem segundos, minutos e dias¬†‚Äď, ‚Äúnormais‚ÄĚ ‚Äď quando de dura√ß√£o semelhante a nossa expectativa de vida ‚Äď e longas¬†¬†‚Äď algumas esp√©cies vivem centenas de anos. Por√©m, para a escala c√≥smica… as coisas mudam. Como diz a m√ļsica, a lua permanece em sua mesma posi√ß√£o, com a passagem de um m√™s. Assim como a Terra e os demais planetas do sistema solar, seguindo sua √≥rbita e girando em torno de seu pr√≥prio eixo. Mas ser√° que foi sempre assim? Nos √ļltimos 100 anos, sim. Mas, e nos √ļltimos 3 bilh√Ķes de anos? Em rela√ß√£o √† lua sabemos que ela est√° se afastando do nosso planeta… h√° 4,5 bilh√Ķes de anos atr√°s ela e o sistema solar simplesmente ainda n√£o haviam se formado.

Tr√™s esp√©cies e tr√™s percep√ß√Ķes de tempo diferentes
Tr√™s esp√©cies e tr√™s percep√ß√Ķes de tempo diferentes

O registro contido nas rochas representa eventos de dura√ß√£o diferenciada. Pode ter ocorrido em poucos segundos ou mesmo ter levado s√©culos para se formar. Cabe aos Ge√≥logos e Paleont√≥logos analisar os diferentes vest√≠gios e tentar descobrir de que forma foram produzidos, e tamb√©m tentar investigar qual o tempo envolvido em sua cria√ß√£o. Olhar para as rochas, estrelas e planetas √© olhar para o passado. Os processos envolvidos em suas forma√ß√Ķes s√£o muito complexos e escapam de nossas no√ß√Ķes cotidianas. E √© isso que mais me fascina! E voc√™? o que te fascina?

Réptil permiano

Quando foi a √ļltima vez que voc√™ fez algo pela primeira vez?

Este √© o primeiro posto deste blog. √Č tamb√©m o meu primeiro post em um projeto de extens√£o, com objetivo de divulgar, difundir e discutir sobre Ci√™ncias, Geoci√™ncias e Paleontologia.

Como uma feliz coincid√™ncia este blog surge quase um ano ap√≥s a divulga√ß√£o do resultado que me fez entrar para o corpo de docentes da UNICAMP. E quase seis meses ap√≥s a primeira ‚Äúpalestra‚ÄĚ que assisti, j√° como docente, dentro da Institui√ß√£o. Uma apresenta√ß√£o que est√° muito relacionada ao blog, a minha ideia sobre o papel da ci√™ncia e tamb√©m sobre o papel de um professor universit√°rio, na minha vis√£o.

A palestra a que me refiro era sobre o livro ‚ÄúA utilidade do in√ļtil, um manifesto‚ÄĚ do professor e fil√≥sofo italiano Nuccio Ordine. Por coincid√™ncia eu j√° havia ouvido falar do livro, e j√° estava interessada quando soube que ele ministraria a aula magna de abertura da UFRGS, este ano. Senti orgulho por ter sido aluna da UFRGS (onde fiz toda a minha p√≥s-gradua√ß√£o) na ocasi√£o. E foi por pura conting√™ncia que acabei descobrindo que no mesmo dia da aula Magna, o prof. Nuccio viria √† Unicamp para falar sobre seu livro. E apesar da chuva, est√°vamos, eu e mais umas 40-50 pessoas, ansiosos por ouvi-lo. Com maestria, o professor Nuccio foi capaz de transmitir sua paix√£o sobre arte, cultura e, em especial para mim, sobre as ci√™ncias puras, aquelas que n√£o tem aplica√ß√£o direta, ou que tenham como produto imediato uma aplica√ß√£o ou o lucro. A paleontologia √© uma ci√™ncia pura. Quando usada para prospec√ß√£o de petr√≥leo e g√°s natural tem a sua aplica√ß√£o. No entanto, grande parte dos estudos paleontol√≥gicos no Brasil e no mundo, s√£o puros.

‚ÄúA √ļnica coisa que n√£o se pode ser comprada √© o saber‚ÄĚ diz Nuccio quando fala sobre sua produ√ß√£o.

Qual o motivo para se estudar algo que n√£o d√° lucro? Por que algu√©m teria interesse em saber sobre paleontologia? Perguntas comuns para quem resolveu viver estudando paleonto, em meio a uma sociedade que est√° tomada pela l√≥gica utilitarista. A discuss√£o apresentada pelo prof. Nuccio trata tamb√©m de justi√ßa, solidariedade, toler√Ęncia, direito √† cr√≠tica e at√© mesmo de amor. Mas a sua rela√ß√£o com as ci√™ncias n√£o aplicadas e tamb√©m com as artes √© inquestion√°vel: o conhecimento, e n√£o o lucro, √© a base para uma sociedade que valoriza a cultura, a igualdade e a √©tica; ele constr√≥i os nossos valores.

Acredito que todos os profissionais que trabalham com ci√™ncias puras t√™m em si um grande amor e dedica√ß√£o pelo que fazem. Alguns conseguem extrapolar esta extrema rever√™ncia pelo conhecimento para al√©m dos termos cient√≠ficos e se transformam em grandes divulgadores de ci√™ncias, tais como Carl Sagan, S.J. Gould, Neil de Grasse Tyson… a maioria, por√©m (como eu) vivem da ci√™ncia e realizam a difus√£o do seu conhecimento para pessoas de sua pr√≥pria √°rea; constroem o que o fil√≥sofo da ci√™ncia, Thomas Kuhn, considera ‚Äúci√™ncia normal‚ÄĚ. Divulgando ci√™ncia ou n√£o, criando dados dentro de paradigmas ou derrubando-os, as ci√™ncias puras, a paleontologia e a paix√£o por se fazer o que se gosta andam lado-a-lado. A constru√ß√£o do conhecimento, a descoberta do novo, a explica√ß√£o de fatos cotidianos ou rar√≠ssimos est√° no √Ęmago dos estudos cient√≠ficos. √Č como quando fazemos algo pela primeira vez. A repeti√ß√£o √© algo mon√≥tono. Tente experimentar pequenos h√°bitos diferenciados e perceba o qu√£o prazeroso √© aprender algo novo, conhecer algu√©m diferente, criar algo √ļnico, e que te simplifique a vida. A ci√™ncia est√° a√≠ para isso. E √© a paix√£o por ela e seus desdobramentos que me move.

Sejam bem-vindos ao Paleomundo. Toda semana teremos um post diferente. Conhe√ßa mais sobre os colaboradores do blog na aba ‚Äúcolaboradores‚ÄĚ.

Fique à vontade para comentar e compartilhar.