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O BIFE DETETIVE E O REFOGADO LAVOISIER

Lavoisier no bandej√£o

Quando eu escuto falar de Lavoisier, imediatamente lembro do refogadinho de legumes do bandej√£o. Sim, l√° em priscas eras, no s√©culo XX, costum√°vamos dizer que o tal refogadinho, em geral servido nos jantares do bandeco, eram o reaproveitamento das sobras do dia. Logo, eram a mais perfeito tradu√ß√£o do ‚Äúnada se perde, nada se cria, tudo se transforma‚ÄĚ que hav√≠amos aprendido nos bancos escolares. Em geral, o tal ‚ÄúRefogado Lavoisier‚ÄĚ era servido juntamente com o sempre presente ‚ÄúBife Detetive‚ÄĚ ‚Äď duro, frio e com nervos de a√ßo.

No entanto, o que sabemos de Lavoisier?

Retrato de Antoine-Laurent Lavoisier (1743 – 1794)

Quando pensamos nele para al√©m do refogado do bandeco, o significado de Lavoisier √© mais dif√≠cil, retirado a f√≥rceps da mem√≥ria. Por exemplo, Lavoisier negou a no√ß√£o de ‚Äúflogisto‚ÄĚ, uma no√ß√£o meio primitiva e esquisita sobre a composi√ß√£o das subst√Ęncias. Com isso, estabeleceu as bases da Qu√≠mica Moderna. Descobriu o oxig√™nio? Foi guilhotinado durante o per√≠odo do terror na Revolu√ß√£o Francesa?

Em resumo: conhecemos pouco de Lavoisier.

 

 

O “Pai” da Quimica?

A discussão como o ele venceu o debate sobre o flogisto é interessante. Vez ou outra, esta narrativa vem com uma afirmação de que Lavoisier trouxe racionalidade para um debate obscuro e primitivo. Apesar de ser parcialmente verdade, esta afirmação traz um pouco a noção de uma ciência que trazia a Luz contra as Trevas.

Na verdade, a discuss√£o sobre o flogisto foi um debate entre dois paradigmas importantes do s√©culo XVIII. Entretanto, nenhum dos lados era ‚Äúirracional‚ÄĚ ou obscuro. Lavoisier tem culpas (e responsabilidades) pela Qu√≠mica Moderna, mas ele n√£o foi o ‚ÄúPai‚ÄĚ da Qu√≠mica, como muitos tentam entender.

Da mesma forma, Lavoisier tamb√©m fez in√ļmeras proposi√ß√£o de temas e discuss√Ķes que n√£o tiveram vida longa no arcabou√ßo da Qu√≠mica. Muitos de seus trabalhos e id√©ias tamb√©m foram abandonadas por obsoletos.

Da mesma forma, a sua execu√ß√£o em 20 Floreal Ano II da Revolu√ß√£o (8 de maio de 1794) √© tida por alguns como uma prova de que a Revolu√ß√£o Francesa era anticient√≠fica. √Č um debate posterior, dos s√©culos XIX e XX, durante o qual diferentes correntes pol√≠ticas disputaram o significado da Revolu√ß√£o Francesa. Lavoisier, entretanto, foi executado menos por ser um cientista, e mais por ter sido um funcion√°rio do Antigo Regime, cumprindo o odiado papel de coletor de impostos.

Entretanto, Lavoisier foi isso, nada disso e muito mais.

A inf√Ęncia e a juventude de Lavoisier

Antoine-Laurent de Lavoisier nasceu em Paris em 26 de agosto de 1743. Pertencia a uma família rica, que fazia parte da chamada noblesse de robe (em português nobreza de toga). A nobreza de toga eram grupos de funcionários do governo francês do Antigos Regime, que ocupavam cargos na administração ou na justiça. Não eram nobres, mas sim burgueses enriquecidos, que eram acolhidos pelos governantes na administração do Estado.

Por outro lado, sua m√£e, √Čmilie Punctis, era filha de uma abastada fam√≠lia de a√ßougueiros parisienses. Os Lavoisier n√£o eram parisienses, mas sim da pequena Villiers-Cotterets, distante cinquenta milhas a noroeste de Paris. O pai de Antoine, Jean-Antoine Lavoisier, embora de fam√≠lia enriquecida, era um forasteiro em Paris. ¬†Na √©poca, as rela√ß√Ķes familiares eram tudo. Foi gra√ßas aos esfor√ßos do um tio, que Jean Antoine alcan√ßou o cargo de procurador do parlamento.

√Čmilie Punctis morreu quando o pequeno Antoine tinha cinco anos. Com a heran√ßa recebida da m√£e, o menino se tornou uma pessoa rica. Com isso, dedicou-se a estudar: estudou no College des Quatre Nations, tamb√©m conhecido como Col√©gio Mazarin, em Paris. Finalizados seus estudos iniciais, Lavoisier primeiro estudou leis, como seu pai. Ingressou¬† na ordem na Ordem dos Advogado com a idade de vinte e um anos. No entanto, n√£o tinha a menor inten√ß√£o de seguir a carreira, embora soubesse da import√Ęncia do t√≠tulo de advogado na sociedade de seu tempo.

Todavia, seu interesse estava noutro lugar. Seu desejo não estava na carreira de advogado de seu pai, mas sim numa carreira na ciência. E aqui o jovem Antoine inicia sua carreira para se tornar um ícone da ciência moderna. E nome de Refogado.

(continua)

 

O ILUMINISMO E AS TRILHAS NO ALTO DO MORRO

(Este texto é dedicado a Gabriela Medero e Georges Goussetis)

No ver√£o de 1776, Adam Ferguson (1723 ‚Äď 1816) estava intrigado com algumas coisas que havia verificado ao andar pelo morro de Arthur¬īs Seat, em Edimburgo.

O morro Arthur¬īs Seat, em Edimburgo

Arthur¬īs Seat √© uma pequena eleva√ß√£o urbana na parte leste de Edinburgo, pr√≥xima ao centro da cidade. As rochas que formam o topo do Arthur¬īs Seat s√£o de composi√ß√£o bas√°ltica, provenientes do resfriamento de uma antiga c√Ęmara magm√°tica. No entanto,¬† embora essa hist√≥ria respire geologia, n√£o √© de basaltos que vamos falar aqui, e sim de Iluminismo.

Um trio de peso
Professor Adam Ferguson, Filosofo e historiador escocês

Adam Ferguson, filosofo e historiador escoc√™s, adorava caminhar no Arthur¬īs Seat. Nestas caminhaadas deve ter tirado alguma inspira√ß√£o para sua vasta obra. Nela, Ferguson mostrava seu apre√ßo pelas sociedades tradicionais, como os cl√£s das Highlands, em contraste com os habitantes da cidades, que considerava mais “fracos. Entretanto, neste ver√£o especifico, ao caminhar pelo Arthur¬īs Seat, Ferguson observou algumas manchas esbranqui√ßadas formando “trilhas” com formatos diferentes na vegeta√ß√£o do morro. Intrigado, Ferguson chamou alguns de seus amigos para verificarem o curioso fen√īmeno.

Os amigos chamados por Ferguson foram os medicos Joseph Black e James Hutton. O trio √© um dos mais importantes do chamado Iluminismo Escoc√™s.¬† Joseph Black (1728 ‚Äď 1799), como Ferguson, era professor da Universidade de Edimburgo, m√©dico e um importante nome da qu√≠mica moderna. Foi ele quem descobriu o di√≥xido de carbono, em 1754. Entre seus feitos tamb√©m se destacam a inven√ß√£o de balan√ßas de precis√£o e a descoberta do calor latente das subst√Ęncias.

Dr Joseph Black, um dos maiores nomes da Química no seculo XVIII

James Hutton (1723 ‚Äď 1799), m√©dico e cavalheiro escoc√™s, por outro lado, √© tido como um dos fundadores da geologia moderna. Tendo estudado medicina na Holanda, Hutton foi sobretudo um fazendeiro. De sua experiencia arando as terras das Lowlands escocesas, Hutton percebeu a rela√ß√£o que existia entre eros√£o, transporte e deposi√ß√£o de sedimentos.

Assim, Hutton estabeleceu claramente o conceito de ciclos de deposi√ß√£o e eros√£o, os quais formariam as rochas dos continentes e oceanos. Sua obra mais importante nos dias de hoje, Theory of the Earth, foi inicialmente lida por Joseph Black na Real Society of Edinburgh em 1785. Em 1797, ap√≥s in√ļmeras revis√Ķes, ela foi finalmente publicada.

As “Trilhas” no Arthur¬īs Seat
O medico e Naturalista James Hutton, um dos pioneiros da geologia no seculo XVIII

Neste ver√£o de 1776, entretanto, os tr√™s amigos estavam ainda pelo morro, verificando as marcas na vegeta√ß√£o, e interrogando diversas pessoas das redondezas. James Hutton, dois anos mais trade, escreveria um pequeno texto, publicado nos anais da Real Sociedade Cientifica de Edimburgo.¬† O texto se chama¬†“Of certain Natural appearances of the ground of the Hill of Arthur¬īs Seat”.

Este texto, embora n√£o tenha import√Ęncia na obra de Hutton, √© bastante interessante como um exerc√≠cio de utiliza√ß√£o do m√©todo cient√≠fico. Nele, Hutton inicia a introdu√ß√£o com uma breve descri√ß√£o do problema. Tratava-se de ‚Äútrilhas‚ÄĚ no morro, formada por plantas mortas e esbranqui√ßadas. De longe, parecia uma trilha, mas n√£o estava relacionada com as trilhas dos caminhantes. Logo, teria outra origem, e que deveriam ser entendidas.

Ver, analisar, estudar

Por outro lado, as explica√ß√Ķes de que tais marcas eram devidas a raios n√£o pareceu suficiente. Hutton ent√£o, passa a descrever as marcas: elas ocorriam sobretudo nas partes mais altas do morro, e existiam marcas recentes e marcas mais antigas. As marcas mais recentes eram esbranqui√ßadas, enquanto as mais antigas eram enegrecidas, causadas pelo apodrecimento das plantas.

Assim, Hutton descreve que as marcas eram compridas, mas poderiam também ocorrer marcas com larguras similares aos comprimentos. As marcas eram paralelas umas às outras, e Hutton examinou algumas marcas de um verde intenso, crescendo junto com as marcas dos anos passados. Assim, lhe pareceu que estas marcas mais antigas eram agora cobertas pela vegetação nova, formando faixas de verde mais intenso.

Contudo, ao estabelecer tal sucess√£o, Hutton indaga: ‚Äúquantas trilhas sucessivas poderiam ser detectadas pela observa√ß√£o de suas apar√™ncias?‚ÄĚ. Depois de suas atentas observa√ß√Ķes no Arthur¬īs Seat, Hutton estabelece que ‚Äúno m√≠nimo‚ÄĚ cinco sucess√Ķes de trilhas poderiam ser detectadas. Deveria haver mais, mas estas s√£o as que se possui evid√™ncias concretas, afirma.

Insetos ou Raios?

Depois de descrever as trilhas, Hutton come√ßa a discutir suas causas. Parece evidente que tal fen√īmeno ocorreu ali no m√≠nimo, nos √ļltimos oito ou nove anos. Embora muitos naturalistas tenham atribu√≠do estes fen√īmenos aos trov√Ķes, Hutton observa que muitas das fei√ß√Ķes s√£o formadas na primavera, quando n√£o h√° tempestades el√©tricas na regi√£o. Tamb√©m observa que as descargas tem dire√ß√Ķes variadas, o que contrasta com a similitude das trilhas, com sua disposi√ß√£o paralela umas as outras.

Hutton tamb√©m considera a possibilidade da a√ß√£o dos insetos na forma√ß√£o das trilhas. Da mesma forma, considera as possiblidades de col√īnias de insetos constru√≠rem as trilhas paralelas. ¬†Mais uma vez, rejeita, com base nas suas observa√ß√Ķes, tal possiblidade.

Ao discutir estas possibilidades, Hutton observa: nos m√©todos de investiga√ß√£o do meio natural, √© preciso muito cuidado ao considerar causas e efeitos e suas conex√Ķes: ambas as prov√°veis causas do fen√īmeno (eletricidades, insetos) est√£o longe de serem consideradas suficientes para uma adequada explica√ß√£o do fen√īmeno.

Ciencia e Causalidade

Assim, Hutton termina o texto sem propor uma explica√ß√£o para a trilhas de diferente colora√ß√£o na vegeta√ß√£o do Arthur¬īs Seat. ¬†Entretanto, √© importante sua observa√ß√£o sobre a causalidade dos fen√īmenos. Quantas vezes atribu√≠mos causas sem levarmos em conta uma correta leitura dos fen√īmenos? Quantas vezes sa√≠mos a dizer nossas verdades ‚Äúcientificas‚ÄĚ penduradas em interpreta√ß√Ķes parciais e (muitas vezes equivocadas) sobre as rela√ß√Ķes de causa e efeito dos fen√īmenos que estamos observando?

Contudo, podemos observar que o texto de Hutton tem uma estrutura parecida com nosso atuais papers: introdu√ß√£o, formula√ß√£o do problema, descri√ß√£o dos fen√īmenos, discuss√£o das causas, conclus√Ķes.

Era um tempo de profundo questionamento. Intrigados, os tr√™s amigos andam pelo Arthur¬īs Seat procurando respostas. Estas respostas est√£o vinculadas a quest√Ķes de causa e efeito (qual √© o agente causador das ‚Äútrilhas‚ÄĚ?). No entanto, as respostas dispon√≠veis n√£o s√£o suficientes. N√£o se pode ir adiante com estas observa√ß√Ķes. E fim. Encerra-se uma pesquisa, com dicas e questionamentos para os pr√≥ximos, a subir nos ombros dos gigantes.

Ah, o Iluminismo!

Neste tempo de ‚Äúautoproclamados‚ÄĚ s√°bios, de terraplanismo social e de fake News, que falta que voc√™ faz…

Para saber mais:

Buchan, James. Capital of the mind. Birlinn, 2012.

Playfair, John. “Biographical account of the late Dr James Hutton, FRS Edin.”¬†Earth and Environmental Science Transactions of the Royal Society of Edinburgh¬†88.S1 (1997): 39-99.

A visão da terra como um disco achatado girando no espaço

NOT√ćCIAS DE UMA TERRA PLANA (1)

A TERRA PLANA VENCEU?
Capa de livro com a figura do planeta como se fosse um plano, com o Polo Norte no centro;
Capa do Livro Astronomia Zet√©tica: a terra n√£o √© um globo (1¬™ edi√ß√£o 1878), de Samuel Rowbothan; hoje √† venda nos melhores sites da internet…

Sim, a Terra é plana. Um a um, os argumentos científicos que tentam mostrar que a terra é redonda vão sendo contestados. Cientistas e pesquisadores falham na sua tentativa de convencer os que defendem a Terra Plana e são derrotados. Lacrados, como se diria hoje nas redes sociais.

A partir destas mesmas redes sociais, os grupos que defendem a ideia de uma Terra plana conquistam milhares de adeptos e se tornam influencers na internet.

(Este é o primeiro de uma série de textos que foram elaborados de maneira coletiva. Sua origem foi a partir de uma atividade desenvolvida no segundo semestre de 2018 na disciplina História das Ciências Naturais, do Instituto de Geociências da Unicamp. Neste texto vamos apresentar, primeiramente, alguns conceitos envolvidos na teoria terraplanista.)

NASCE A TERRA PLANA

A origem da mais famosa teoria terraplanista se deve ao ingles Samuel Rowbothan (1816‚Äď1884). Rowbothan publicou em 1878 escreveu o livro Zetetic Astronomy: Earth Not a Globe.

foto P/B de Samuel Rowbothan, o pai da Astronomia Zetética,
Samuel Rowbothan (1816-1884), o criador da “Astronomia Zet√©tica”

A ‚ÄúAstronomia Zet√©tica‚ÄĚ de Rowbothan foi adotada pela mais prestigiosa organiza√ß√£o terraplanista da atualidade, a Flat-Earth Society. Fundada em 1959, esta sociedade em seu site prop√Ķe que a Terra seria plana, com centro no polo norte, de maneira semelhante √† Proje√ß√£o Polar.

Para os terraplanistas, o Sol seria um corpo 50km em cima da terra e n√£o ao seu redor. Os eclipses lunares seriam causados por ‚Äúobjetos escuros‚ÄĚ que se interp√Ķe entre o Sol e a Terra. Estrelas seriam como l√Ęmpadas de led presas no domo que circunda a Terra Plana.

OS DIAS E NOITES DA TERRA PLANA

Portanto, o Sol e a Lua seriam semelhantes a esferas com tamanhos aproximados de uma cidade. Por outro lado, os dias e as noites seriam definidos a partir do local até onde é possível o alcance dos raios solares na circunferência terrestre.

Seguindo esta mesma perspectiva, as esta√ß√Ķes do ano seriam variantes de acordo com o distanciamento do Solar sobre o “plano” terrestre. Os astros seguiriam um movimento espiralado, com o inverno correspondendo √† maior distancia entre o Sol e a Terra. O ver√£o, por consequ√™ncia, corresponderia √† maior proximidade.

A visão da terra como um disco achatado girando no espaço
A terra vista do espaço segundo a Teoria da Terra Plana

O magnetismo terrestre seria causado por uma montanha magnética, que ficaria localizada próxima ao Polo Norte.

UMA TERRA SITIADA PELA CONSPIRAÇÃO

Os militares americanos est√£o por toda a borda da Terra, segundo a teoria terraplanista. Esta ocupa√ß√£o se d√° para que os cidad√£os comuns n√£o possam observar que a Terra √©, na verdade, plana. Por esta causa √© que a Ant√°rtida, onde essas provas existiriam, n√£o seria ocupada sen√£o por militares ou cientistas. No entanto, esta condi√ß√£o de ocupa√ß√£o militar (ou cientifica) secreta n√£o √© aleat√≥ria. Afinal, como toda boa teoria de conspira√ß√£o, ningu√©m pode saber desta ocupa√ß√£o militar. Ningu√©m, a n√£o ser as c√ļpulas dos governos envolvidos na conspira√ß√£o.

Por causa desta grande conspira√ß√£o √© que, para os terraplanistas, a Ant√°rtida seria um grande pared√£o de gelo que “segura” toda a √°gua da Terra.¬† Segundo¬† a teoria terraplanista, por conta da neblina austral e de uma limita√ß√£o do olho humano, n√£o conseguimos ver a borda do planeta. No entanto, podemos argumentar, avi√Ķes poderiam ver de cima a esfericidade da Terra. Mas, para os terraplanistas, a esfericidade da Terra que vemos nos aeroplanos √© uma ilus√£o dada pela curvatura das janelas.

NEWTON, SOCORRO!

 Contudo, se voce achou tudo até aqui estranho, se segure. Vai piorar.

Para a Flat-Earth Society, a gravitação universal, que é responsável pela atração de todos os corpos para o centro da Terra, simplesmente não existe. Os terraplanistas justificam que os objetos só se encontram juntos ao chão em decorrência de uma força indefinida. Esta força tem a capacidade de atrair a Terra em um movimento vertical de subida, podendo ser comparada a um elevador infinito. Essa mesma força apresentaria o valor idêntico ao da força gravitacional, isto é, uma aceleração correspondente a 9,8m/s².

Newton e a maçã: a gravitação não existe?

 

Dessa forma, as explica√ß√Ķes f√≠sicas sobre os corpos, as quais s√£o justificadas pela Ci√™ncia que se embasa na exist√™ncia da for√ßa da gravidade¬†¬†s√£o negadas pelos terraplanistas. Estes acreditam que os corpos seriam¬† o local onde se encontram os corpos s√£o explicados segundo a densidade dos objetos. Ou seja, os corpos mais leves encontram-se acima e os mais pesados embaixo.

E n√£o adianta argumentar, mostrar provas. Voce ser√° “lacrado” pelos terraplanistas.

AFINAL, √Č PLANA OU N√ÉO √Č?

Entretanto, se você chegou até aqui, é justo perguntar: vocês, autores, acham que a Terra é plana ou redonda? Estaria redondamente enganado (com o perdão do péssimo trocadilho!) quem afirmasse ser a Terra plana. No entanto, neste nosso mundo tão cercado de informação e tecnologia, como existem pessoas que acreditam que a Terra é plana? Afinal, por que os argumentos da Ciência não as convencem?

Nesta s√©rie de posts (este √© o primeiro) vamos conversar quais seriam as explica√ß√Ķes para como chegamos nesta estranha situa√ß√£o.

Se at√© l√° os terraplanistas n√£o nos convencerem que a Terra √© plana…

nota sobre os autores:

(este texto foi elaborado por  Marcela Moretti, Natasha Marques De Paula Santos, Gabriel Suzuki, Lucas Rios, Artur Dani, Maria Luiza de Oliveira, Jéssica Aparecida Santos Rodrigues e Jefferson de Lima Picanço)

As duas mortes de Luzia

Oi! Quer saber meu nome? A minha tribo me chamava de Loo-dj-ahn. Mas isso foi há muito tempo atrás, antes mesmo de minha primeira morte. Hoje, pelo que sei, me chamam de Luzia. Acho que é como entendem meu nome. Como soa aos ouvidos das pessoas de hoje. Ou é uma coincidência. Sei lá.

O ENIGMA DA CAVERNA
Este √© meu Cranio de verdade; atras, est√° como voc√™s imaginaram que eu fosse…

Desculpe se sou confusa, se meu raciocínio é meio falho. De fato, tenho problemas em entender o que é a verdade e o que não é. Sei, pelos relatos que escuto, que hoje vocês também estão com dificuldades de entender o que é verdade e o que é mentira. Escutei estes dias um termo que deixou confusa: Fake News, ou noticia falsa. Vocês acreditam em noticia falsa?

Eu vivi boa parte de minha primeira morte numa caverna. Onze mil anos, se minhas contas estiverem certas. N√£o sei se voc√™s sabem, mas quando se vive em cavernas a realidade √© meio confusa. N√£o sabemos ao certo se as sombras que vemos s√£o fantasia ou s√£o realidade. Por muito tempo, achei que as sombras que v√≠amos eram a verdade. Contudo, hoje, sei que eram somente proje√ß√Ķes na parede da caverna. Soa meio confuso, mas √© assim. √Č um enigma da caverna. Uma alegoria, como dizem alguns de voc√™s.

A MORTE DE LOO-DJ-AHN

De qualquer forma, meu nome √© Loo-dj-ahn, e eu perten√ßo aos Humanos. Minha tribo representa os melhores ca√ßadores de nosso lugar. Em nosso falar, humano √© “Croovijz“. Por isso talvez voc√™s outros nos chamem de povos de Clovis. Mas, pensando bem,¬† pode ser tamb√©m coincid√™ncia.

Não me lembro ao certo como morri. Fui ficando doente, tinha dores de barriga, dor de cabeça, não conseguia mais acompanhar as mulheres. Entretanto, minha tribo tentou me curar com ervas e rezas. Meus olhos foram turvando, turvando, e depois não ouvi mais nada. Quando dei por mim eu já estava dentro da caverna, onde me sepultaram. Meu corpo foi coberto por tintas mágicas para avisar os espíritos ancestrais dos Humanos. No meu funeral, devem ter me virado para o norte, que era de onde haviam vindo nossos ancestrais.

Como j√° disse, minha primeira morte durou onze mil anos. H√° uns poucos anos atr√°s, o que restou de mim foi encontrado por um povo estranho que tirava seu sustento de desencavar gente de seu tumulo ancestral. Mas, antes disso eu soube que¬†um senhor chamado Peter Lund havia come√ßado a explorar as grutas na nossa √°rea. Ele retirou milhares de metros c√ļbicos de terra e achou milhares de ossos, de animais e de humanos, que ele remeteu para seu pa√≠s natal, a Dinamarca.

NUM LUGAR CHAMADO MUSEU

Muitos outros foram resgatados por estes povos escavadores. Entretanto, dos humanos, os Croovijz, só eu. Dos outros povos que habitavam nossa região, como os Larga-ossos, os Bárbaros do sul e os Pega-peixe (esses eram os nomes que nós dávamos a eles), vários foram resgatados.

Fomos levados para um lugar escuro, muito longe da caverna onde me acharam. Lá, fomos iluminados, apalpados, medidos. Contudo, quando começaram a me chamar de Luzia, a principio achei que sabiam minha língua. Mas sabem nada. Falam muita bobagem sobre nós, tentam adivinhar o que éramos e o que fazíamos somente olhando nossos ossos e vendo os utensílios que fazíamos.

Depois, tentaram adivinhar como era meu rosto…erraram feio. Tentaram de novo…erraram de novo. Por que eles querem saber tanto do mim?

A MORTE DE LUZIA

No entanto, eu estava tranquila nesta minha nova vida. Pensavam que, como Luzia, estaria tranquila. Foi quando, numa noite dessas eu vi o fogo. Estava muito quente e podia-se escutar as madeiras do teto estalando. Muita fumaça na sala onde estávamos. Foi quando ouvimos um grande estrondo e o teto desabou. Essa foi minha segunda morte.

Esse lugar que voc√™s chamam Museu, pegando fogo…essa foi minha segunda morte!

Contudo, minha segunda morte foi mais curta. Cerca de um mês depois, eu comecei a ouvir barulhos, movimento acima de mim. Estavam escavando atrás de meus restos de novo? Que obsessão é esta?

Depois de um tempo, me acharam ali, soterrada sob as cinzas do incêndio. Nunca vi tanto alvoroço. Os caras que estavam escavando gritavam. Alguns choravam de alegria. Eu estava de volta.

O MUSEU E A TRIBO

Soube que o lugar onde estava tinha um nome de Museu. Era um prédio grande e bonito. Mas sempre ouvia falar de problemas. O povo que cuidava de mim sempre reclamava que o prédio estava em perigo. Perigo de quê? eu pensava: de um ataque de bárbaros inimigos? De grandes animais selvagens?

No entanto, parece que eles n√£o tinham recebido muito recurso para manter o Museu. Faltavam recursos para o pr√©dio ser seguro, para evitar inc√™ndios. Depois, os chefes da tribo de voc√™s n√£o estavam interessados nessa hist√≥ria de Museu. Ouvi que um dos chefes havia reclamado: ‚ÄúJ√° pegou fogo, quer que eu fa√ßa o qu√™?‚ÄĚ.

Preciso dizer que achei esta fala típica de bárbaro, desses bem primitivos. Eles nunca assumem a responsabilidade do que fazem, como crianças grandes. Falam alguma coisa, depois voltam atrás. Querem deixar tudo confuso. Ou não sabem direito o que estão fazendo. Minha segunda morte tem a ver com essa confusão dentro da tribo que me resgatou da caverna.

A VIDA √Č CURTA…

Agora, estou esperando ser reconduzida à minha sala tranquila. Lá, dezenas de pessoas passavam admirando meu esqueleto e vendo o modelo de meu rosto. Contudo, eu sei que ele não é meu verdadeiro rosto. Eu também bem sei, no entanto, que nunca vão adivinhar como era o meu verdadeiro rosto. Mas eu sinto um certo orgulho deste rosto eu virei.

√† direita, o paradigma antigo; √† esquerda, o paradigma atual…voc√™s continuam errando…

Os barbaros que me desencavaram  dizem que sou um dos humanos mais antigos do país deles. Me admiram. Os bárbaros que cuidam de mim me tratam muito bem. Entretanto, os chefes da tribo deles, não ligam para ossos de gente. Ouvi dizer que eles gostam de uma coisa chamada dinheiro. Por esse tal de dinheiro brigam o tempo todo. Algumas vezes, se matam.

Contudo, n√£o sei o que aconteceu com minha tribo. Sinto saudades deles. Mas ao mesmo tempo admiro esta tribo barbara que tanto empenho tem de cuidar de mim. Apesar dos chefes que eles escolhem para eles mesmos. Podem me chamar de Luzia. Loo-dj-ahn j√° morreu uma vez. Luzia, outra. Espero ainda durar mais um pouco, ver mais algumas coisas, aprender.

Mas o que se pode esperar mais de uma curta vida de onze mil e poucos anos?

 

PS Рagradeço à Gustavo Teramatsu por me alertar sobre o novo paradigma do rosto de Luzia

Política e Ciência: Newton morde a maçã

N√£o se pode pensar Ci√™ncia sem Pol√≠tica. Ci√™ncia pressup√Ķe pesquisa, busca, inven√ß√£o. Politica significa antes de mais nada fazer escolhas. No mundo em que vivemos, uma convive com a outra, se interconecta com a outra. No Brasil tamb√©m sempre foi assim, com as suas peculiaridades. Existem muitos problemas a serem resolvidos e enfrentados usando ci√™ncia e usando pol√≠tica. Isso √© fazer pol√≠tica. E isso tamb√©m √© fazer ci√™ncia.

CIÊNCIA, NEWTON E A MAÇÃ

Uma ma√ß√£ caindo no ch√£o √© somente uma ma√ß√£. Para que essa ma√ß√£ vire ci√™ncia, √© preciso Newton observando a ma√ß√£ cair. Para que Newton observe a ma√ß√£ cair e isso vire ci√™ncia, Newton precisa subir no ombro de gigantes: isso pressup√Ķe escolas, professores, despesas com educa√ß√£o. E isso √© pol√≠tica: escolhas que devemos ter sobre quais escolas, quais professores e qual financiamento devermos controlar para que possamos ter Newton vendo a ma√ß√£ cair e isso vire ci√™ncia.

Newton e a ma√ß√£: uma alegoria (e uma lenda) da Ci√™ncia…

Voc√™ n√£o precisa de ci√™ncia para viver. Isso √© uma escolha. Pol√≠tica. Podemos viver naturalmente, tendo o que a natureza nos d√°. Algu√©m se habilita? N√≥s tamb√©m n√£o precisamos fazer Ci√™ncia. Se tivermos recursos, comprar ci√™ncia, comprar tecnologia. Como fizemos no passado, podemos vender borracha e comprar pneus. Vender ferro e comprar navios. √Č uma escolha pol√≠tica sem muitos riscos. Claro que continuaremos pobres. Alguns, que possuem o seringal e a mina de ferro, viver√£o confortavelmente. Aos demais, restar√° o trabalho duro e uma subsist√™ncia dif√≠cil. Mas, como sempre, √© uma escolha pol√≠tica da ci√™ncia que queremos ter em nossas vidas.

QUE CIÊNCIA QUEREMOS?

Mas, e se n√≥s quisermos ter Ci√™ncia? Ci√™ncia de verdade? Que tal n√£o viver com a lenda de Newton e a ma√ß√£, a qual, como j√° mostraram seus bi√≥grafos, n√£o passa de uma lenda? O que precisamos para ter nosso pr√≥prio desenvolvimento cientifico? O que precisamos para vencer nossos problemas de educa√ß√£o, sa√ļde, produ√ß√£o industrial, produ√ß√£o intelectual?

N√£o existe milagre na ci√™ncia. Ci√™ncia requer trabalho. Leitura, estudo, experiencia. Como recentemente disse uma colega, horas-bunda na cadeira. E isso requer que tenhamos pessoas que fa√ßam isso como profiss√£o. Pessoas que possam cada vez mais viver disso. E que tenham condi√ß√Ķes de fazer suas pesquisas, discutir livremente os seus resultados e suas ideias com outros cientistas, com os pol√≠ticos, com a sociedade.

QUE CAMINHOS TRILHAR?

Todos os pa√≠ses que tem um n√≠vel razo√°vel de vida para seu povo fizeram e fazem isso. A Inglaterra, desde o s√©culo XVIII tem uma cultura de manuten√ß√£o e financiamento de pesquisas. A Alemanha, desde que era Pr√ļssia, reformulou a sua universidade a partir de 1811 e num s√©culo deixou de ser um pa√≠s atrasado que era para se tornar uma potencia mundial.

No século XX tivemos a Coreia, um país pobre e arrasado por guerras. Em 1960, os índices de vida e renda da Coreia eram inferiores aos do Brasil. No entanto, o país investiu firmemente em educação e hoje é uma das principais potencias industriais do planeta.

Tudo isso são escolhas. Tudo isso é política. A forma como escolhemos nossa Ciência, por outro lado, impacta nossa maneira de ser e estar no mundo.

O BRASIL CONSTR√ďI SUA CI√äNCIA

Nos √ļltimos 100 anos, o Brasil tamb√©m investiu em ci√™ncia. Neste tempo, erradicamos diversas doen√ßas de nossas cidades. Ainda falta muito, mas a medicina brasileira progrediu. Hoje, conquistamos, com ajuda da ci√™ncia, solos que at√© ent√£o n√£o eram f√©rteis, e os fizemos produzir. Se hoje h√° agroneg√≥cio no Brasil, √© porque houve pesquisa agropecu√°ria, √© porque houve a Embrapa.

No in√≠cio do s√©culo XX, √©ramos um pa√≠s que n√£o conseguia se desenvolver porque n√£o t√≠nhamos fontes de energia suficientes e boas. Hoje, gra√ßas ao esfor√ßo de varias gera√ß√Ķes de ge√≥logos, temos uma reserva de petr√≥leo das maiores do Mundo, a qual s√≥ √© poss√≠vel explorar com alt√≠ssima tecnologia.

T√° OK. Mas e a parte vazia deste copo?

Ainda precisamos avan√ßar. Como ter uma ind√ļstria competitiva e inovadora? Como ter uma Ci√™ncia de alto impacto? Como resolver os grandes problemas de nossa sociedade, como sa√ļde, seguran√ßa, trabalho? Como resolver isso?

POL√ćTICA E CI√äNCIA. CI√äNCIA E POLITICA

Precisamos de uma politica que invista mais, e n√£o menos, em ci√™ncia. Se queremos realmente um futuro, devemos plantar as sementes hoje. Investimos pouco, e mal. Nossa despesa com ci√™ncia em 2015 (um ano ainda ‚Äúrico‚ÄĚ) foi de U$199 d√≥lares por habitante. Empatamos com a Turquia. Perdemos feio para os pa√≠ses do Leste Asi√°tico, Europa, Am√©rica do Norte.

E isso apesar de termos uma das maiores comunidades cientifica da Am√©rica Latina. Uma comunidade briosa, que vem aumentando sua participa√ß√£o no quinh√£o da ci√™ncia nos √ļltimos 15 anos. Mas que, como uma flor sens√≠vel, ainda corre s√©rios riscos.

A participa√ß√£o publica vem diminuindo sua participa√ß√£o no financiamento da ci√™ncia desde 2015. E a pol√≠tica, que poderia trazer solu√ß√Ķes, s√≥ nos tem trazido pesadelos. Claramente, ci√™ncia e a tecnologia n√£o s√£o prioridade de governo. As amea√ßas v√™m de todos os lados.

PARA ONDE VAMOS?

H√° os que sonhem com uma ci√™ncia sem estado. Houve o assessor de um candidato que chegou a dizer que ‚Äúas pessoas subestimam o poder da filantropia‚ÄĚ. Com isso, o douto senhor est√° nos dizendo que a contribui√ß√£o privada para a ci√™ncia era uma fonte que n√≥s n√£o exploramos direito. Por outro lado, o financiamento privado √© hoje irrelevante no financiamento da ci√™ncia.

Entre os candidatos a presidente, qual deles menciona em seu programa a palavra ciência? E dos que o fazem, quais deles confundem ciência com ensino? Embora sejam parceiras, ciência e educação são coisas distintas, com pautas necessidades distintas. Não se faz ciência tirando dinheiro do ensino.

A política vai ditar a ciência que queremos. Será que vamos escolher seguir um caminho de mais financiamento e uma busca maior de eficácia na resolução de nossos problemas? Ou será que vamos achar que não precisamos fazer ciência?

São Heisenberg, rogai por nós!

O MUSEU, VOCÊ E EU

UMA TRAGEDIA ANUNCIADA

Todos est√£o chocados e boquiabertos com a trag√©dia do Museu Nacional. O inc√™ndio, que durou somente algumas horas, destruiu um patrim√īnio que levou mais de 200 anos para ser juntado. Em termos do valor que se perdeu, como muitos disseram, n√£o h√° como calcular. √Č como se perd√™ssemos a maior parte de nossa mem√≥ria de uma vez, de maneira irrecuper√°vel. Podemos usar os fragmentos, podemos come√ßar tudo de novo a juntar mais mem√≥ria. Mas a que se perdeu, se perdeu.

As chamas consumindo o valiosíssimo acervo do Museu Nacional no Rio

Outros ficam chocados com as condi√ß√Ķes do Museu. Soubemos, pela imprensa, que o Museu Nacional estava sem recursos. Estava sem condi√ß√Ķes de sobreviver, o que fazia de maneira prec√°ria. S√≥ faltava, mesmo, um acidente para acontecer a trag√©dia. E e trag√©dia veio, em sua forma mais cruel, na forma de um inc√™ndio. O inc√™ndio do Museu Nacional √©, sem sombra de d√ļvida, somente mais uma das trag√©dias anunciadas de nossa cultura.

OUTROS INCÊNDIOS

Outros ainda lembram de inc√™ndios recentes que destru√≠ram parte significativa de nosso patrim√īnio cultural: Museu da L√≠ngua Portuguesa (2015), Instituto Butantan (2010), Memorial da Am√©rica Latina (2013) e Cinemateca (2016). Sem contar o inc√™ndio do MAM em 1978, que destruiu boa parte de um acervo riqu√≠ssimo.

Os inc√™ndios s√£o fen√īmenos aleat√≥rios. O que define nossa resili√™ncia a eles √© nossa capacidade de enfrenta-los. O mesmo fogo, num museu com estrutura, n√£o passaria de uma queimadura leve, dessas vermelhid√Ķes de sol na pele. No entanto, nosso descaso e falta de preparo fazem com que qualquer fagulha cause uma trag√©dia de grandes propor√ß√Ķes,

POR QUE OS MUSEUS PEGAM FOGO?

Segundo os especialistas, acidentes nestas institui√ß√Ķes tem como causa defici√™ncia or√ßament√°ria, infraestrutura prec√°ria e equipes de trabalho especializada com numero abaixo do numero ideal. Nossas institui√ß√Ķes de uma forma ou de outra, sempre tem um ou mais desses problemas. Na Unicamp, s√≥ para dar um exemplo, tivemos, uma grande discuss√£o recente sobre estes temas. Embora algumas solu√ß√Ķes provis√≥rias tenham sido alcan√ßadas, a maior parte delas continua sem solu√ß√£o.

Mas o que me deixa mais triste não é a aparente falta de visão dos governantes, O que me deixa mais triste é saber que a falta de visão dos governantes reflete um quadro ainda mais sombrio: vivemos numa sociedade inculta e que não vê um valor na cultura. Por isso, nossos museus são poucos, precários e vazios.

O INCÊNDIO E A REVOLTA

A nossa população não cobra dos governantes cuidado com a memória. Os motivos são os mais diversos, e é claro que a falta de cultura não é um projeto dos explorados, mas dos exploradores. Mas é importante salientar que somos sim, por ação ou omissão, um povo que, por falta de cultura, não se importa em fazer dela um valor. Este círculo vicioso faz com que nossa rica cultura se perca, se esvazie, se deteriore. Ou se queime.

A pesquisadora Aparecida Vilaça escreveu que, ao ver o esqueleto do museu destruído pelas chamas, ela viu a imagem de alguém se imolando, ou seja, alguém que coloca fogo no próprio corpo em protesto. Uma revolta por tantos anos de maus tratos e descaso. As imagens que circularam eram cruéis, mostrando as cenas de desolação causadas pelo fogo.

Quem sabe se a imola√ß√£o do Museu Nacional fa√ßa com que nossa vis√£o sobre os museus, os institutos de pesquisa e arte sejam mais valorizados. Que as pessoas tenham por h√°bito visitar Museus, Exposi√ß√Ķes e Centros de Cultura. E que esse h√°bito possa fazer com que a popula√ß√£o cobre de nossos governantes o respeito que nossa Cultura merece.

OS POL√ćTICOS N√ÉO TEM VIS√ÉO?

Vi tamb√©m que poucos candidatos √† presid√™ncia tem um programa de cultura. Existem candidatos que afirmaram que a trag√©dia ‚Äúagride a identidade nacional‚ÄĚ e disse tamb√©m que ‚Äú√© dever resgatar o compromisso de zelar permanentemente‚ÄĚ pela preserva√ß√£o do patrim√īnio. Mas, quando foi governo, este mesmo candidato deixou estas institui√ß√Ķes √† m√≠ngua.

Outro candidato ainda, quer relegar a Cultura ao status de Secretaria em seu governo. N√£o se pode acusar este candidato, ali√°s bem posicionado nas pesquisas, de incoerente. Em seu programa, realmente, ele n√£o faz qualquer refer√™ncia √† Cultura. Na certa, se algu√©m falar a ele sobre Cultura, ele puxa o rev√≥lver…

A TRAGEDIA DA NOSSA CULTURA

Estes pol√≠ticos dizem essas leviandades porque n√≥s os autorizamos. N√≥s n√£o nos importamos, sejamos francos. N√≥s n√£o valorizamos a nossa pr√≥pria cultura. Por isso, pense sobre o que voc√™ e eu estamos fazendo com a Cultura em nosso pa√≠s. Pense no quanto voc√™ defende isso como uma pol√≠tica, como uma a√ß√£o efetiva. E pense o quanto n√≥s cobramos de nossos governantes a√ß√Ķes efetivas a este respeito. E fa√ßa. Fa√ßamos.

Da mesma forma, v√° a museus, visite exposi√ß√Ķes. Participe de atividades de crowfunding cultural. Valorize quem trabalha com a Cultura. Valorize-se.

Ou queime, inapelavelmente, como todos nós brasileiros nos queimamos, nas chamas da Quinta da Boa Vista.

Não há segunda chance para um povo sem memória.

Fazer Ciência no Brasil: a que será que se destina?

Fazer Ciência no Brasil nunca foi fácil.

No entanto, sem Ciência o Brasil não existiria. Como pensar o país que temos e queremos sem Ciência?

CIENCIA E DESCOBRIMENTO
Jean (ou Nicole) D`Oresme, provando, no seculo XII,que a Terra era redonda…

Sem os avan√ßos tecnol√≥gicos do fim da Idade M√©dia, por exemplo, a expans√£o europeia n√£o aconteceria. Com a introdu√ß√£o da b√ļssola e da p√≥lvora (inven√ß√Ķes chinesas) e sem o avan√ßo t√©cnico da navega√ß√£o jamais Cabral aportaria aqui.

E não só isso: sem os grandes cartógrafos e matemáticos, como Jean de Oresme e outros, Colombo não saberia que a terra era redonda. Ficaria lá na sua Gênova natal dando milho aos pombos(aliás, nem milho, porque o milho é americano..). O mundo jamais poderia ser cartografado, como o fez Mercator.

CIÊNCIA E COLONIZAÇÃO
Os métodos de pesquisa de minerais seguiam os preceitos da alquimia e da astrologia, alem da procura dos sinais da natureza. ilustração do De Re metellica (1556) de Georgius Agricola (1494 Р1555)

Os avanços da maquinaria durante o Renascimento é que permitiram a instalação dos primeiros engenhos de cana que fizeram a riqueza nos primeiros anos de Brasil. Sem os conhecimentos técnicos de mineração, tanto europeus quanto indígenas, as jazidas de ouro e prata das Américas jamais teriam sido riquezas.  Para isso foram importantes o conhecimento de pessoas como Georgius Agricola, Martine de Bertereau e Bartolomeu de Medina, entre outros.

No s√©culo XIX os solos de S√£o Paulo foram exaustivamente pesquisados para melhor acolher as lavouras de caf√©. A Comiss√£o Geogr√°fica e Geol√≥gica de S√£o Paulo, liderada por Orville Derby pesquisou exaustivamente os rios e cachoeiras paulistas para determinar seu potencial para a produ√ß√£o de energia el√©trica. Ci√™ncia para alavancar a agricultura e a ind√ļstria.

CIÊNCIA E DESENVOLVIMENTO

In√ļmeras pesquisas foram feitas para achar carv√£o mineral no Brasil. Nosso carv√£o era (ainda √©) pouco e ruim. √Č o que temos para hoje. Mas isso n√£o √© culpa de Wagoner, Francisco de Paula Guimar√£es e outros que o pesquisaram. Nosso ferro foi trabalhado com carv√£o vegetal, com custos ambientais muito maiores e com efici√™ncia menor. Gra√ßas aos esfor√ßos de homens com Varnhagen, Bloem, e Mursa¬† no s√©culo XIX, temos uma produ√ß√£o sider√ļrgica respeit√°vel.

No século XX o Brasil se industrializou. Para isso foi necessário construir estradas, ferrovias, melhorar os portos. Nossa engenharia foi convocada e deu conta do recado. Ainda falta muito a se fazer, mas não é por culpa da Ciência ou da Técnica.

SER CIENTISTA NO BRASIL
Orville Derby, ainda moço, quando veio ao Brasil pela primeira vez; depois, comandaria a Comissão Geografia e Geologia que desbravou e fez o reconhecimento cientifico do interior paulista requerido pela pujante cafeicultura.

O cientista brasileiro sempre foi um ser bizarro e raro. Na Col√īnia e no Imp√©rio, os poucos que entre n√≥s haviam estavam sempre sobrecarregados. Al√©m de seu trabalho de pesquisar, estudar e ensinar, tamb√©m tinham que cuidar dos servi√ßos p√ļblicos, do governo e at√© da aplica√ß√£o das leis.

Além de ser um Filósofo Natural importante na Minas Gerais dos Setecentos, Simão Sardinha foi encarregado também de prender o célebre facínora Cabeça de ferro (dá pra colocar isso no Lattes?). Desviados de sua atividade científica para os necessários labores do país que então se fazia temos nomes ilustres, como José Bonifácio e o Barão de Capanema, entre tantos outros.

UMA CIÊNCIA NACIONAL?

Ao longo do século XX esta Comunidade Cientifica brasileira cresceu e se especializou. Somos um grupo importante da Ciência Mundial. Mas fazer Ciência no Brasil não é fácil. Temos os nossos problemas, as nossas deficiências. Mas estamos aí, trabalhando duro, fazendo muito com pouco, fazendo Ciência e formando gente qualificada.

Uma Ciência Nacional, pensando os interesses do Brasil foi responsável, entre outras coisas, pela erradicação das doenças tropicais no século XX, com Vital Brasil e Oswaldo Cruz, Carlos Chagas . A ciência no Brasil sempre foi, ao contrario do que se pensa,  uma Ciência aplicada, de resultados. Nossa realidade nunca nos permitiu torres de marfim.

Contudo, temos as maiores safras agrícolas do mundo, conquistando solos que seriam impensáveis há poucos anos, por causa de nossa pesquisa agropecuária, com destaque para a Embrapa. No início do século XX, por outro lado,  conseguimos alcançar as jazidas de petróleo em grande profundidade, graças aos esforços dos geólogos da Petrobrás, liderados por Guilherme Estrella.

FAZER CIÊNCIA NO BRASIL

A Ci√™ncia Brasileira contribuiu enormemente para que o pa√≠s crescesse tivesse o destaque que teve. Algu√©m vai dizer que termos uma ci√™ncia pobre, subdesenvolvida. Claro que √©. √Č poss√≠vel uma ci√™ncia desenvolvida num pa√≠s subdesenvolvido?

Ao contr√°rio, todo pa√≠s que se desenvolveu e se tornou um pa√≠s din√Ęmico e complexo o fez porque tinha a sua ci√™ncia. Vejam a Alemanha e os Estados Unidos no s√©culo XIX. TAmbem s√£o exemplos notaveis¬† o Jap√£o e os demais pa√≠ses asi√°ticos no presente. Basta olhar mais de perto estas sociedades para ver se algum deles prescindiu de uma ci√™ncia forte. Vejam a China, a Cor√©ia. ¬†Em cada um haviam cientistas. Foram comunidades que plantaram e protegeram a planta tenra e fr√°gil da ci√™ncia, para depois colher os frutos da grande arvore que ela depois se transformaria.

UM SALTO PARA TR√ĀS

No entanto, em anos recentes a Ciência Brasileira estava para dar um salto para frente. Além de crescer, aumentar seu impacto. Estávamos conseguindo nos impor no cenário mundial. Entretanto, vieram os cortes nas verbas de pesquisa. Estamos retrocedendo. A planta da Ciência Brasileira precisa de água para voltar a crescer.

Contudo, mais preocupante que isso s√£o os discursos que dizem que n√£o precisamos de Ci√™ncia no Brasil. Que fazemos ci√™ncia in√ļtil. Por certo, alguns desses ignorantes devem ainda achar, contra todos os s√°bios medievais, que a terra √© plana. S√≥ pode ser isso. Ou que as esp√©cies n√£o se transformam e mudam. Ou que os continentes n√£o se movem.

EXISTE?

Pior, alguns ignorantes dizem que n√£o existe Ci√™ncia no Brasil. Entretanto, dizem por dizer, como sempre, levianamente a falar de suas p√≥s-verdades. √Č uma gente que vira as costas para o futuro, ignorando uma pujante comunidade cientifica

que vai, aos trancos e barrancos fazendo seu papel, contra tudo e contra todos.

Nunca foi fácil fazer ciência no Brasil.

Mas pensem no que seria um país sem ciência.

 

PS – Da√≠ porque √© necess√°rio Historia da Ci√™ncia: entender que construir¬†uma Ci√™ncia¬†Nacional leva seculos de esfor√ßo e luta contra as trevas e a ignor√Ęncia¬†; essa luta n√£o acaba nunca….¬†

SHE SELLS SEA SHELLS ON THE SEA SHORE

√Č de manh√£ cedo. O mar est√° calmo, e a mar√© baixa. Na grande fal√©sia branca da praia de Lyme Regis, em Dorset, na Inglaterra, um grupo de pessoas est√° trabalhando nos rochedos. Usando martelos e picaretas, eles cortam o pared√£o em busca de f√≥sseis. Entre eles est√° uma mulher. Mary Anning, acompanhada de seu c√£ozinho vira-lata Tray, est√° protegida do frio e da maresia usando roupas largas. Na cabe√ßa, usa um chap√©u de palha amarrado no pesco√ßo para n√£o ser arrancado pelo vento do mar .

Praia de Lyme Regis, Dorset, onde Mary Anning viveu e “ca√ßou” diferentes tipos de f√≥sseis…
F√ďSSEIS PARA (SOBRE)VIVER

Mary Anning (1799-1847) é a chefe do grupo de coletores de fósseis. Dona de uma pequena mas bem sortida loja, ela é uma das maiores fornecedoras de fosseis para colecionadores e museus de toda a Europa. Mesmo dos Estados Unidos vem pesquisadores e colecionadores para ver Рe comprar! Рsuas preciosidades.

Mary Anning (1799 Р1847) e seu cãozinho Tray, A pintura é de 1842.

De origem humilde, a família de Mary Anning começou a coletar fosseis para complementar a parca sobrevivência. No entanto, seu pai Richard, sua mãe Molly e seu irmão Joseph também eram exímios coletores de fosseis. Entre os fosseis mais importantes que coletaram estão os famosos esqueletos dos plesiossauros, grandes lagartos marinhos.  Hoje, boa parte dos fosseis coletados por Mary Anning e sua família estão expostos no Museu de História Natural em Londres. Da mesma forma, na França, na Inglaterra e na Alemanha, quase todos os grandes Museus de História Natural têm fósseis  coletados por ela.

Mesmo sem uma educa√ß√£o formal, Mary Anning chegou a participar da constru√ß√£o da Paleontologia moderna. No entanto, ela chegou mesmo a participar de alguns debates,¬† corrigindo algumas distor√ß√Ķes e classifica√ß√Ķes incorretas. Dona de um saber pr√°tico, Mary Anning ajudou muito neste estagio embrion√°rio da paleontologia.

DORSET NO JUR√ĀSSICO

Embora tenha chegado a ter uma loja, vendendo fosseis para toda a Europa, Mary Annning sempre passou por varias necessidades financeiras. Para tanto, v√°rias pessoas ao longo de sua vida, penalizadas com as duras condi√ß√Ķes de Mary Anning e sua fam√≠lia, fizeram subscri√ß√Ķes para ajudar.

 

Duriea Antiquor (Dorset antigo) de Henri de la Beche (National Museum of natura History of Wales). A luta fict√≠cia entre o ictiossauro e o plesiossauro ficou t√£o famosa que Julio Verne a incluiu em seu “Viagem ao Centro da Terra”.

Entretanto, uma das mais criativas e interessantes subscri√ß√Ķes foi feita por um grande amigo de Mary Anning, o ge√≥logo Henri De La Beche. Bom desenhista e caricaturista, De La Beche desenhou uma gravura cujas vendas pudessem ajudar financeiramente Mary Anning, j√° ent√£o bem doente de um c√Ęncer de seio. Contudo, a gravura, intitulada¬†Duriea Antiquor (‚ÄúDorset antigo‚ÄĚ em latim), retrata com precis√£o e bom homor qual teria sido, h√° milh√Ķes de anos atr√°s, a vida dos f√≥sseis coletados por Mary Anning.

Bem desenhado e bem elaborado, Duriea Antiquor é um dos primeiros e mais importantes desenhos sobre o mundo anterior aos humanos. Contudo, a sua representação da vida no jurássico até hoje é uma das mais influentes da paleontologia. A gravura até hoje baliza a maneira como representamos até hoje a vida antiga na  Terra.

VENDER CONCHAS DO MAR NA BEIRA DO MAR…

A vida e os perrengues pelos quais passou Mary Annning dariam um poema. Ou um livro. Ou um filme. Ou tudo isso.

No in√≠cio do s√©culo XX o escritor ingl√™s H.¬†A. Forde ¬†publicou ‚ÄúThe Heroine of Lyme Regis: The Story of Mary Anning the Celebrated Geologist‚ÄĚ. Baseado no relato de Forde, muitas hist√≥rias inspiracionais sobre Mary Anning foram escritas. Entretanto, talvez ela seja tamb√©m a inspira√ß√£o para o poema – e terr√≠vel trava-l√≠nguas ‚Äst que todos os estudantes de ingl√™s l√≠ngua estrangeira se confrontam:

She sells seashells on the seashore
The shells she sells are seashells, I’m sure
So if she sells seashells on the seashore
Then I’m sure she sells seashore shells.

MERYL STREEP?

Em 1969 outro escritor ingl√™s, John Fowles, escreveu um romance hist√≥rico chamado ‚ÄúThe French Lieutenant¬īs Woman‚ÄĚ (a mulher do tenente franc√™s). Contudo, na hist√≥ria de Fowles, est√° patente a den√ļncia do preconceito de classe e de g√™nero que¬† Mary Anning sofreu. Mesmo tendo ajudado tantos cientistas, ela nunca ficou, em vida, com a fama da descoberta. O √ļnico que homenageou Mary Anning durante sua vida, entretanto, foi o zo√≥logo franco-su√≠√ßo Louis Agassiz, que a conheceu pessoalmente em 1834 e nomeou duas esp√©cies de peixe com seu nome.

O livro de Fowles foi um grande sucesso de p√ļblico e cr√≠tica. Em 1982 foi adaptado para o cinema pelo teatr√≥logo e roteirista Harold Pinter, e dirigido por Karol Reisz. Como protagonistas, ningu√©m menos que Meryl Streep e Jeremy Irons. Da mesma forma, o livro tamb√©m virou pe√ßa de teatro de grande sucesso.

Poster do filme “A mulher do tenente franc√™s”, de 1982, com Meryl Streep e Jeremy Irons. A historia √© livremente baseada na vida de Mary Anning
UM GRANDE VULTO DA CIENCIA

Entretanto, em 1999, bicentenário de seu nascimento, houve um grande evento em seu nome na praia de Lyme Regis. Da mesma forma, em 2005, o Museu De História Natural de Londres incluiu seu nome ao lado de outros grandes vultos da ciência. Nesta exposição, ela está ao lado de personalidades como Carl Linné  e William Smith.

Mary Anning morreu em 1847, v√≠tima do c√Ęncer. Ela viveu toda a vida entre os penhascos de Lyme Regis, escavando a lama do mar jur√°ssico em busca de fosseis para sobreviver. Mas, inadvertidamente, foi uma das maiores paleont√≥logas de todos os tempos.

Contudo, Mary Anning nos desvendou os abismos do tempo e os fant√°sticos animais que o habitaram. Desta forma, para ajud√°-la foram feitas as primeiras representa√ß√Ķes sobre o mundo antigo que conhecemos. Foi v√≠tima do preconceito de classe e de g√™nero. No entanto, Com sua vida, inspirou muitas outras.

Mary Anning é tanta inspiração que ultrapassou a Ciência. Mary Anning é pop. Foi livro, peça, filme. Virou até trava-línguas!

N√£o √© pra qualquer um…

Rodólitos: bolas fósseis, embora não de futebol

Esta semana lembrei do meu aluno que passou um bom tempo estudando comigo os organismos e minerais associados aos Rod√≥litos… ser√° que ainda lembra deles? Tamb√©m lembrei da vez em que tentei brincar com um rod√≥lito na aula de Paleontologia acerca de recifes e, como n√£o consegui pegar de volta na m√£o, um belo exemplar se espatifou no ch√£o, e a√≠ a turma toda parou para rir. Mas o que s√£o os rod√≥litos? S√£o algas vermelhas (Corallinales, Rhodophyta) calc√°rias, n√£o articuladas, que habitam os mares do nosso planeta de forma extensiva desde as latitudes equatoriais at√© as polares, ocorrendo a partir das zonas de mar√©s, at√© profundidades de 268 m. Uma das tantas curiosidades dessas estruturas √© que as algas vermelhas possuem uma maior quantidade de carotenoides, que permitem utilizar mais intensamente a radia√ß√£o azul para realizar a fotoss√≠ntese. Esta caracter√≠stica √© importante porque a radia√ß√£o azul penetra mais profundamente na √°gua, permitindo que essas algas fa√ßam fotoss√≠ntese a profundidades maiores. Uma vez que os carotenoides refletem a radia√ß√£o vermelha, essas algas possuem colora√ß√£o avermelhada, diferente das plantas verdes que habitam a superf√≠cie que utilizam tamb√©m a radia√ß√£o vermelha para realizar a fotoss√≠ntese, refletindo a radia√ß√£o verde.

Rodólito coletado na Ilha de Itaparica, BH. Barra de escala = 1 cm

O que poucos sabem é que na costa brasileira está localizado o mais extenso e contínuo banco de rodólitos do mundo, com cerca de 4.000 km, indo do Maranhão até Rio de Janeiro. Desse banco de rodólitos faz parte o arquipélago de Abrolhos, no litoral sul da Bahia, o qual eu quero muito conhecer já faz um bom tempo. Com relação à espessura desse enorme banco, ela geralmente varia entre 10 e 26 cm, chegando até 1 m de espessura em alguns locais. Na costa brasileira são encontrados verdadeiros mantos de rodólitos no topo e na margem de recifes e em depósitos isolados no fundo não consolidado.

Bancos como esses podem gerar rochas reservatório de petróleo, além de ser uma enorme fonte de calcário (CaCO3) e, portanto, um importante agente de sequestro de carbono na crosta terrestre.

Além de tudo isso, esses bancos são um paraíso de diversidade marinha, pois eles são constituídos por várias espécies de algas calcárias, que estão entremeadas em camadas juntamente com outros organismos incrustantes (p. ex. foraminíferos, poliquetas, etc.).

Rodólito
coletado na Praia de Maragoji, Alagoas. Barra de escala = 1 cm

As algas calc√°rias vermelhas, ao constitu√≠rem os rod√≥litos, podem modificar fisicamente o ambiente, pois s√£o capazes de transformar o sedimento de fundo n√£o consolidado em substrato duro e heterog√™neo, produzindo um substrato firme sobre o qual outros organismos podem vir a se fixar. Seu registro geol√≥gico √© continuo e bastante abundante a partir do Paleoceno (60 milh√Ķes de anos atr√°s), e seus f√≥sseis podem ser encontrados em todos os continentes, embora eles n√£o sejam t√£o famosos como os dos dinossauros e, portanto, desconhecido.

Uma vez que um mesmo rod√≥lito por alcan√ßar di√Ęmetros semelhantes ao de uma bola de futebol, e que por apresentar crescimento continuo, por√©m lento (1 mm/ano), o mesmo exemplar pode sofrer a agrega√ß√£o de algas calc√°rias, al√©m de outros organismos e sedimentos minerais ao longo de um s√©culo, compondo verdadeiros livros abertos ao estudo das mudan√ßas ocorridas nos mares, pois camadas ou mantos de rod√≥litos possuem registros das varia√ß√Ķes clim√°ticas ocorridas durante o seu desenvolvimento, j√° que mudan√ßas de distribui√ß√£o de luz, temperatura, turbidez, salinidade, pH, nutrientes, soterramento, etc. influenciam diretamente no seu crescimento. Dessa forma, per√≠odos com temperaturas mais altas das √°guas marinhas induzem a maior precipita√ß√£o de carbonatos e, portanto, um aumento sens√≠vel na sua espessura. Uma vez que seu desenvolvimento acontece de forma conc√™ntrica, as camadas mais internas podem ser consideradas mais antigas e externas mais recentes, o que faz poss√≠vel realizar data√ß√Ķes utilizando m√©todos como C14 pelo menos at√© 60.000 anos atr√°s.

Mas como achar uma estrutura dessas? Com certeza quem já foi na praia no Brasil, já topou, ou quem sabe até chutou uma estrutura dessas. Elas muitas vezes são encontradas nas praias, pois como não se fixam ao substrato, podem ser facilmente transportadas pelas correntezas marinhas até a praia, de onde podem novamente ir para no fundo do mar.

 

 

Por que os filmes encantam a gente?

Ainda não assisti ao novo filme (Jurassic World), e vocês? Mas, claro, já me falaram muito bem dele.

‘Life cannot be contained. Life breaks free,
life¬†finds a way’

Neste post aqui foi comentado sobre¬† a (im)possibilidade de criarmos um dinossauro a partir de um genoma. Muitos v√≠deos na internet e muitos livros abordam o tema. Do ponto de vista paleontol√≥gico,¬† a preserva√ß√£o de material gen√©tico √© imposs√≠vel. A mol√©cula de DNA √© uma estrutura complexa e delicada, que se destr√≥i rapidamente (j√° falamos aqui sobre o processo de fossiliza√ß√£o). N√£o h√° como manter algo assim preservado numa rocha por milh√Ķes de anos. Ent√£o todo o in√≠cio da s√©rie de filmes Jurassic Park e Jurassic World n√£o √© cientificamente vi√°vel.

Mas n√£o √© por isso que hist√≥rias de fic√ß√£o baseadas em conceitos cient√≠ficos n√£o nos tocam. Conhe√ßo uma gera√ß√£o inteira de paleont√≥logos (vertebrad√≥logos, ou seja, que estudam vertebrados, dentre eles, dinos), que surgiu com o encantamento ocasionado pelo(s) filme(s). No caso da paleontologia, trazer alguns conte√ļdos √† tela foi excepcional.

Existem in√ļmeros posts e livros que podemos citar que debatem as etapas imposs√≠veis que deveriam ser ultrapassadas para criar a situa√ß√£o representada nos filmes, mas, vamos aos pontos positivos?

Jurassic Park trouxe…

1- …talvez pela primeira vez, dinos retratados como animais, n√£o como meros monstros malignos (apesar de eles gostarem de matar despropositadamente, mesmo nas s√©ries Jurassic Park e seguintes);

2- …uma representa√ß√£o muito acurada destes animais vivos. Eles s√£o imensos, desafiam a imagina√ß√£o de qualquer um! de seus restos criamos as lendas de drag√Ķes, deuses, e outros mitos em quase todas as culturas humanas… v√™-los em tamanho real, interagindo com pessoas, numa perspectiva extremamente realista √©, simplesmente, sensacional.

Uma das  críticas mais comuns da exposição de bonecos de dinos que temos atualmente no instituto é o fato de não termos quase nenhum em tamanho real (com exceção do pterossauro que não faz parte da expo em si, e do banner com 3 dinos em tamanho real Рmas não são bonecos, só fotos!);

3- …um pouco de ci√™ncia, no meio de muita fic√ß√£o. Mas √© isso que faz as pessoas se perguntarem:

  • tem gente que trabalha com dinossauros? sim, o paleont√≥logo, ge√≥logo ou bi√≥logo est√£o a√≠ pra isso (dentre outras fun√ß√Ķes)…
  • ser√° que √© poss√≠vel reconstruir um animal desses por um DNA preservado em √Ęmbar? j√° vimos que n√£o, mas…
  • e se tivessem mesmo como reproduzir um animal desses, o que poderia acontecer…? por mais que a hist√≥ria do filme traga muitas situa√ß√Ķes cr√≠ticas, refletir sobre o assunto, por si s√≥ j√° √© interessante;

Trazer as possibilidades à tona instiga as pessoas a saberem mais sobre a ciência; isso, por si só, é muito importante. A beleza da divulgação científica está em despertar o interesse. Plantar a semente.

4- …situa√ß√Ķes cr√≠ticas (ambientais, ecol√≥gicas, biol√≥gicas) num mundo -relativamente- real, com pessoas normais. N√£o s√£o super-her√≥is que lidam com os dinossauros. Em geral, os dinossauros n√£o s√£o monstros com poderes infal√≠veis, existe um certo compromisso com conceitos cient√≠ficos modernos. Essa proximidade conosco instiga nossa imagina√ß√£o e¬† desperta um efeito “wow”. √Č encantamento pelo grande, pelo desconhecido, pelo assutador.

Existem in√ļmeras maneiras de se divulgar ci√™ncia para o grande p√ļblico. Investir milh√Ķes de d√≥lares, em geral, n√£o √© algo dispon√≠vel para quem tem esse objetivo e trabalha na universidade; mas uma s√©rie de filmes como Jurassic Park e Jurassic World traz a oportunidade de debate na paleontologia. Muitas coisas podem estar cientificamente erradas ali. Muitas outras t√™m fundamentos corretos. Quais? Como? Porqu√™?
Leiam, comentem, assistam, debatam!

√Ȭ† assim que a ci√™ncia progride.