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CAmpo de golfe e as antigas cavas de argila mostrando pegadas de Dinossauros e mamíferos, alem de restos de plantas.

No Mesozoico, jogando golf com Fred Flintstone

Estaria o blogueiro pirando? Golf? Mesozoico? Fred Flintstone?

Sim, desta o blogueiro viajou. Era no mês de junho. Estava um sol forte aquela hora da manhã, e eu estava caminhando por uma trilha que levava a estação de trem de Jefferson County, no estado americano do Colorado. Vez em quando passava alguém de bicicleta pela trilha. Foi quando eu vi a plaquinha indicando: Triceratops Trail. Será que eu ia encontrar com um feroz Triceratops na minha frente se eu seguisse aquele caminho? meio receoso, entrei.

CAmpo de golfe e as antigas cavas de argila mostrando pegadas de Dinossauros e mamíferos, alem de restos de plantas.Campo de golfe e as antigas cavas de argila mostrando pegadas de Dinossauros e mamíferos, alem de restos de plantas. Ao fundo o Morro da Mesa (Table mountains), onde estão os basaltos Terciários.

Quando entrei na trilha do Triceratops, a primeira coisa que eu vi foram algumas cavas, com uma vegetação secundaria crescendo de dentro delas. Todavia, eu havia visto algumas maquinas grandes enferrujando no meio do mato. Já nem dava pra reconhecer, mas eu estava entrando numa área antiga de mineração. No entanto,o que isso tinha a ver com o Triceratops?

ENTRANDO NA CAVA DE ARGILA

Soube pelos cartazes que tinham por ai que aquelas perigosas cavas que estava vendo, com v√°rios metros de altura, eram antigas cavas de argila. Estas cavas foram exploradas pela Fam√≠lia Parfet, que produzia cer√Ęmicas, tijolos e tubos de esgoto para todo o pais.¬† Primeiramente, uma foto num cartaz na entrada de uma destas cavas mostrava¬† patriarca George Parfet, sua esposa Mattie e seus seis filhos. Alem do mais, outras fotos antigas mostrava o febril trabalho de escava√ß√£o realizado pela empresa dos Parfett.

Como o cartaz orgulhosamente descrevia, a mans√£o do governador, varias escolas publicas e a antigas sede do f√≥rum do condado de Jefferson foram constru√≠dos com tijolos feitos aqui. Durante quase 70 anos, escavadeiras e draglines escavaram as argilas da forma√ß√£o Laramie para fazer objetos cer√Ęmicos. Nesta hora, eu estava ali andando por entre o que sobrou desas cavas. Parte era um campo de golf, parte um museu geol√≥gico.

Placa na Cava de Argila, mostrando o Triceratops e as marcas deixadas pelo animal
PASSANDO PELO CAMPO DE GOLFE

A maior parte da área era tomada pelo campo de golfe, ocupando as partes mais baixas das antigas cavas de argila. Contudo, a parte do campo de golf não me interessava. Não me interessava aquela grama verdinha e rente. Não me interessava aqueles carrinhos com aqueles senhores de bermuda e camiseta polo. Todavia, com seus chapeuzinhos ridículos, eles passavam acelerados, e nos atropelavam indiferentes em busca de suas ignominiosas bolinhas. Senti o risco iminente de ser uma vitima do golf e me afastei daqueles maniacos.

Alem do mais, o mato ao redor estava cheio de bolinhas de golf, o que provava cabalmente a imperícia dos senhores de tênis e meias brancas. Contudo, lembrei-me de Fred Flintstone, um dos poucos jogadores de golfe pelo qual eu tinha alguma estima. Assim, pela primeira vez, senti alguma conexão ali. Golfe, Fred Flintstone, dinossauros: fui ver os bichinhos.

A GEOLOGIA DE GOLDEN: O COLORADO FRONT RANGE

A geologia de Golden √© muito interessante. Durante o Mesozoico, aquela √°rea era uma grande plan√≠cie deltaica, cheia de p√Ęntanos, rios e lagos. Da mesma forma, nos rios, uma areia fina era depositada, formando barra de meandros. Por outro lado, nas plan√≠cies, uma fina argila branca ia se depositando. Camadas de turfa tamb√©m eram comuns neste ambiente.¬† Al√©m do mais, nesta √°rea, num clima mais quente que hoje, t√≠nhamos muitas palmeiras e muitas especies de animais.

Geologia de Golden, Colorado
Bloco-Diagrama mostrando a geologia de Golden simplificada. a √°rea do Triceratops trail est√° no centro da foto, onde as camadas est√£o verticalizadas.

Mais para o fim do Cret√°ceo, este ambiente √ļmido e quente foi se alterando. Quando houve na regi√£o a transi√ß√£o do Mesozoico para a¬† Terci√°rio, com a extin√ß√£o dos dinossauros, a regi√£o j√° havia se tornado mais quente e seca. Finalmente, lavas bas√°lticas aparecem j√° no paleoceno, indicando uma mudan√ßa na din√Ęmica da regi√£o.

Contudo, o desenvolvimento de grandes falhas geol√≥gicas, como a Zona de falha de Golden (Golden Fault) e a Falha da Margem da Bacia (Margin Basin fault), marcam a transi√ß√£o da regi√£o das Grandes Plan√≠cies com as Montanhas¬† Rochosas. Assim, por a√ß√£o destas falhas, o terreno mais a oeste, predominantemente gran√≠tico, literalmente “cavalga” sobre as rochas Mesozoicas/Terci√°rias e termina por dobra-las. Desta forma, pequenos morrotes, formados por rochas mesozoicas e terciarias dobradas marcam a transi√ß√£o geogr√°fica da montanha para a plan√≠cie. √Č o chamado Colorado Front Range.

DINOSSAUROS SUBINDO PELAS PAREDES

Como dissemos antes, o Triceratops trail esta situado no contexto do  Colorado Front Range. Aqui, as camadas da formação Laramie, do Mesozoico, estão todas verticalizadas, por ação da Clay Pits fault, a falha local do sistema. Com isso, a sensação que temos é a de que os dinossauros estão subindo pelas paredes. No entanto, não foi isso que aconteceu. centenas de milhares de anos após terem vivido por ali é que as camadas nas quais deixaram seus rastos foram basculadas e verticalizadas.

marca de pegada de Tiranossauro
Pegada de Tiranossauro

Desta forma, a exposição das pegadas e das diversas marcas ficou muito facilitada. Ali, podemos ver pegadas gigantes do gigante tiranossauro. Também podemos ver as marcas das pegadas do Triceratops.

Da mesma forma, podemos ver tamb√©m pegadas de pequenas aves e mam√≠feros. De modo similar, nas Clay Pits podemos ver os restos de folhas de palmeiras. Alem das palmeiras, podem ser encontradas sic√īmoros, nogueiras, um tipo de gengibre e um parente distante do abacate.

Esta vegetação, juntamente com a ocorrência comum de marcas de animais pequenos e grandes mostra uma região que, no Mesozoico era quente e talvez por isso, muito rica em vida.

UM OUTRO MUNDO √Č POSS√ćVEL
marcas de palmeiras fósseis
Marcas de folhas de antigas palmeiras; As especies de pnatas indicam um clima muito mais quente que o de hoje na regi√£o.

No final do Mesozoico, durante o per√≠odo Cret√°ceo, a Am√©rica do Norte era coberta por um mar raso, com algumas por√ß√Ķes mais elevadas. Provavelmente, estas por√ß√Ķes elevadas eram pequenas ilhas, das quais a regi√£o de Golden era uma delas. Ao redor, uma serie de . Com o passar do tempo, o soerguimento das Montanhas Rochosas acabou por acabar com este mar raso. Neste per√≠odo, estava provavelmente localizada em latitudes menores. Este era o ambiente perfeito para o desenvolvimento, nas partes mais √ļmidas, de uma fauna abundante e diversificada.

A medida em que que as placas tect√īnicas continuavam se movimentando, a regi√£o das montanhas rochosas come√ßa a ser “empurrada” para o leste. De fato, esta movimenta√ß√£o deu origem as falhas que conformariam a estrutura da regi√£o de Golden, onde eu me encontro agora, olhando pegadas de dinossauros na parede. Afinal, ver pegadas de animais extintos na parede de uma cava de argila nos d√° no√ß√£o de que vivemos num planeta din√Ęmico e em perpetua transforma√ß√£o. Desta forma, ao contrario do que alguns pensam, n√≥s humanos n√£o somo s o suprassumo da cria√ß√£o. Isto √©, supondo que tenha havido uma cria√ß√£o.

SAINDO DA CAVA

Desta forma, assim que sa√≠ da cava, comecei a pensar em quantas informa√ß√Ķes diferentes havia ali naquela pequena √°rea. Contudo, ser√° que as pessoas que passavam aqui e ali teriam no√ß√£o disso? Ser√° que os caras do golfe ali do lado, mesmo que somente perseguindo suas in√ļteis bolinhas, saberiam disso?

O tempo da vida humana √© muito curto. Decerto, algum grego ou romano j√° falou sobre isso. o detalhe √© que, por certo, n√£o temos condi√ß√Ķes de enxergar estas grandes mudan√ßas no decorrer de nossas vidas. Primeiramente, para enxergar isso, o senso comum n√£o ajuda. os vest√≠gios da natureza, por outro lado, s√£o muito sutis e complexos. Ali, saindo da cava do Triceratops trail, me dei conta do quanto as Ci√™ncias da Terra nos ajudam a enxergar o mundo.

AJUDA FRED FLINTSTONE!!

Num mundo em que a Ci√™ncia encontra-se t√£o amea√ßada, certamente o conjunto de evidencias como o que havia ali no Triceratops trail √© muito relevante. Estavam expostas ali, a c√©u aberto, muitas discuss√Ķes interessantes sobre o passado, o presente e o futuro de nosso Planeta. Por certo, a maior parte das pessoas n√£o est√° nem ai pra essas coisas. Da mesma forma, o fato de Fred Flintstone conviver com dinossauros parece plaus√≠vel para muita gente. Entretanto, como se sabe, o ser humano s√≥ conviveu com os dinossauros nos √ļltimos duzentos anos. Somente quando come√ßamos a entender que aqueles esqueletos estranhos n√£o eram obra do acaso ou restos de gigantes √© que eles come√ßaram a habitar entre nos, em nossas ideias, em nossos¬† pensamentos.

Por tudo isso √© que repito: a Ci√™ncia deve entrar mais na vida das pessoas. Independente de sua posi√ß√£o no mundo, o letramento cientifico √© cada vez mais necess√°rio para um numero cada vez maior de pessoas. Temos que fazer de cada esquina um museu da historia da terra. Podemos n√£o ter em todos os lugares historias t√£o interessantes como a do Triceratops trail e seu mergulho de cabe√ßa nos p√Ęntanos do Mesozoico.

CIÊNCIA, LAZER E BICICLETAS
Projeto Geobike
Logo do Projeto Geobike, do Prof Wagner Amaral: trilhas geológicas em Campinas

Da mesma forma, aqui em Campinas, temos o  Projeto  Geobike, mais uma boa ideia do professor Wagner Amaral, do Instituto de Geociências da Unicamp. Assim, apaixonado por Geologia e por sua querida Campinas, o professor Wagner leva os amantes da bicicleta a locais nos quais eles até já poderiam andar, mas cuja historia (natural) ignoravam. Que enriquecedor! Juntar esporte, lazer e Ciência foi uma boa sacada. Que tal na sequencia juntar Ciência e Arte, juntar Ciência com tudo?

Entretanto, no caso das Ciências da Terra e do ambiente, nós precisamos de mais e mais trilhas como estas, que nos levem ao passado da Terra. Trilhas que nos ajudem a pensar melhor nosso presente e projetar melhor nosso futuro.

Bora l√°?

O ILUMINISMO E AS TRILHAS NO ALTO DO MORRO

(Este texto é dedicado a Gabriela Medero e Georges Goussetis)

No ver√£o de 1776, Adam Ferguson (1723 ‚Äď 1816) estava intrigado com algumas coisas que havia verificado ao andar pelo morro de Arthur¬īs Seat, em Edimburgo.

O morro Arthur¬īs Seat, em Edimburgo

Arthur¬īs Seat √© uma pequena eleva√ß√£o urbana na parte leste de Edinburgo, pr√≥xima ao centro da cidade. As rochas que formam o topo do Arthur¬īs Seat s√£o de composi√ß√£o bas√°ltica, provenientes do resfriamento de uma antiga c√Ęmara magm√°tica. No entanto,¬† embora essa hist√≥ria respire geologia, n√£o √© de basaltos que vamos falar aqui, e sim de Iluminismo.

Um trio de peso
Professor Adam Ferguson, Filosofo e historiador escocês

Adam Ferguson, filosofo e historiador escoc√™s, adorava caminhar no Arthur¬īs Seat. Nestas caminhaadas deve ter tirado alguma inspira√ß√£o para sua vasta obra. Nela, Ferguson mostrava seu apre√ßo pelas sociedades tradicionais, como os cl√£s das Highlands, em contraste com os habitantes da cidades, que considerava mais “fracos. Entretanto, neste ver√£o especifico, ao caminhar pelo Arthur¬īs Seat, Ferguson observou algumas manchas esbranqui√ßadas formando “trilhas” com formatos diferentes na vegeta√ß√£o do morro. Intrigado, Ferguson chamou alguns de seus amigos para verificarem o curioso fen√īmeno.

Os amigos chamados por Ferguson foram os medicos Joseph Black e James Hutton. O trio √© um dos mais importantes do chamado Iluminismo Escoc√™s.¬† Joseph Black (1728 ‚Äď 1799), como Ferguson, era professor da Universidade de Edimburgo, m√©dico e um importante nome da qu√≠mica moderna. Foi ele quem descobriu o di√≥xido de carbono, em 1754. Entre seus feitos tamb√©m se destacam a inven√ß√£o de balan√ßas de precis√£o e a descoberta do calor latente das subst√Ęncias.

Dr Joseph Black, um dos maiores nomes da Química no seculo XVIII

James Hutton (1723 ‚Äď 1799), m√©dico e cavalheiro escoc√™s, por outro lado, √© tido como um dos fundadores da geologia moderna. Tendo estudado medicina na Holanda, Hutton foi sobretudo um fazendeiro. De sua experiencia arando as terras das Lowlands escocesas, Hutton percebeu a rela√ß√£o que existia entre eros√£o, transporte e deposi√ß√£o de sedimentos.

Assim, Hutton estabeleceu claramente o conceito de ciclos de deposi√ß√£o e eros√£o, os quais formariam as rochas dos continentes e oceanos. Sua obra mais importante nos dias de hoje, Theory of the Earth, foi inicialmente lida por Joseph Black na Real Society of Edinburgh em 1785. Em 1797, ap√≥s in√ļmeras revis√Ķes, ela foi finalmente publicada.

As “Trilhas” no Arthur¬īs Seat
O medico e Naturalista James Hutton, um dos pioneiros da geologia no seculo XVIII

Neste ver√£o de 1776, entretanto, os tr√™s amigos estavam ainda pelo morro, verificando as marcas na vegeta√ß√£o, e interrogando diversas pessoas das redondezas. James Hutton, dois anos mais trade, escreveria um pequeno texto, publicado nos anais da Real Sociedade Cientifica de Edimburgo.¬† O texto se chama¬†“Of certain Natural appearances of the ground of the Hill of Arthur¬īs Seat”.

Este texto, embora n√£o tenha import√Ęncia na obra de Hutton, √© bastante interessante como um exerc√≠cio de utiliza√ß√£o do m√©todo cient√≠fico. Nele, Hutton inicia a introdu√ß√£o com uma breve descri√ß√£o do problema. Tratava-se de ‚Äútrilhas‚ÄĚ no morro, formada por plantas mortas e esbranqui√ßadas. De longe, parecia uma trilha, mas n√£o estava relacionada com as trilhas dos caminhantes. Logo, teria outra origem, e que deveriam ser entendidas.

Ver, analisar, estudar

Por outro lado, as explica√ß√Ķes de que tais marcas eram devidas a raios n√£o pareceu suficiente. Hutton ent√£o, passa a descrever as marcas: elas ocorriam sobretudo nas partes mais altas do morro, e existiam marcas recentes e marcas mais antigas. As marcas mais recentes eram esbranqui√ßadas, enquanto as mais antigas eram enegrecidas, causadas pelo apodrecimento das plantas.

Assim, Hutton descreve que as marcas eram compridas, mas poderiam também ocorrer marcas com larguras similares aos comprimentos. As marcas eram paralelas umas às outras, e Hutton examinou algumas marcas de um verde intenso, crescendo junto com as marcas dos anos passados. Assim, lhe pareceu que estas marcas mais antigas eram agora cobertas pela vegetação nova, formando faixas de verde mais intenso.

Contudo, ao estabelecer tal sucess√£o, Hutton indaga: ‚Äúquantas trilhas sucessivas poderiam ser detectadas pela observa√ß√£o de suas apar√™ncias?‚ÄĚ. Depois de suas atentas observa√ß√Ķes no Arthur¬īs Seat, Hutton estabelece que ‚Äúno m√≠nimo‚ÄĚ cinco sucess√Ķes de trilhas poderiam ser detectadas. Deveria haver mais, mas estas s√£o as que se possui evid√™ncias concretas, afirma.

Insetos ou Raios?

Depois de descrever as trilhas, Hutton come√ßa a discutir suas causas. Parece evidente que tal fen√īmeno ocorreu ali no m√≠nimo, nos √ļltimos oito ou nove anos. Embora muitos naturalistas tenham atribu√≠do estes fen√īmenos aos trov√Ķes, Hutton observa que muitas das fei√ß√Ķes s√£o formadas na primavera, quando n√£o h√° tempestades el√©tricas na regi√£o. Tamb√©m observa que as descargas tem dire√ß√Ķes variadas, o que contrasta com a similitude das trilhas, com sua disposi√ß√£o paralela umas as outras.

Hutton tamb√©m considera a possibilidade da a√ß√£o dos insetos na forma√ß√£o das trilhas. Da mesma forma, considera as possiblidades de col√īnias de insetos constru√≠rem as trilhas paralelas. ¬†Mais uma vez, rejeita, com base nas suas observa√ß√Ķes, tal possiblidade.

Ao discutir estas possibilidades, Hutton observa: nos m√©todos de investiga√ß√£o do meio natural, √© preciso muito cuidado ao considerar causas e efeitos e suas conex√Ķes: ambas as prov√°veis causas do fen√īmeno (eletricidades, insetos) est√£o longe de serem consideradas suficientes para uma adequada explica√ß√£o do fen√īmeno.

Ciencia e Causalidade

Assim, Hutton termina o texto sem propor uma explica√ß√£o para a trilhas de diferente colora√ß√£o na vegeta√ß√£o do Arthur¬īs Seat. ¬†Entretanto, √© importante sua observa√ß√£o sobre a causalidade dos fen√īmenos. Quantas vezes atribu√≠mos causas sem levarmos em conta uma correta leitura dos fen√īmenos? Quantas vezes sa√≠mos a dizer nossas verdades ‚Äúcientificas‚ÄĚ penduradas em interpreta√ß√Ķes parciais e (muitas vezes equivocadas) sobre as rela√ß√Ķes de causa e efeito dos fen√īmenos que estamos observando?

Contudo, podemos observar que o texto de Hutton tem uma estrutura parecida com nosso atuais papers: introdu√ß√£o, formula√ß√£o do problema, descri√ß√£o dos fen√īmenos, discuss√£o das causas, conclus√Ķes.

Era um tempo de profundo questionamento. Intrigados, os tr√™s amigos andam pelo Arthur¬īs Seat procurando respostas. Estas respostas est√£o vinculadas a quest√Ķes de causa e efeito (qual √© o agente causador das ‚Äútrilhas‚ÄĚ?). No entanto, as respostas dispon√≠veis n√£o s√£o suficientes. N√£o se pode ir adiante com estas observa√ß√Ķes. E fim. Encerra-se uma pesquisa, com dicas e questionamentos para os pr√≥ximos, a subir nos ombros dos gigantes.

Ah, o Iluminismo!

Neste tempo de ‚Äúautoproclamados‚ÄĚ s√°bios, de terraplanismo social e de fake News, que falta que voc√™ faz…

Para saber mais:

Buchan, James. Capital of the mind. Birlinn, 2012.

Playfair, John. “Biographical account of the late Dr James Hutton, FRS Edin.”¬†Earth and Environmental Science Transactions of the Royal Society of Edinburgh¬†88.S1 (1997): 39-99.

As duas mortes de Luzia

Oi! Quer saber meu nome? A minha tribo me chamava de Loo-dj-ahn. Mas isso foi há muito tempo atrás, antes mesmo de minha primeira morte. Hoje, pelo que sei, me chamam de Luzia. Acho que é como entendem meu nome. Como soa aos ouvidos das pessoas de hoje. Ou é uma coincidência. Sei lá.

O ENIGMA DA CAVERNA
Este √© meu Cranio de verdade; atras, est√° como voc√™s imaginaram que eu fosse…

Desculpe se sou confusa, se meu raciocínio é meio falho. De fato, tenho problemas em entender o que é a verdade e o que não é. Sei, pelos relatos que escuto, que hoje vocês também estão com dificuldades de entender o que é verdade e o que é mentira. Escutei estes dias um termo que deixou confusa: Fake News, ou noticia falsa. Vocês acreditam em noticia falsa?

Eu vivi boa parte de minha primeira morte numa caverna. Onze mil anos, se minhas contas estiverem certas. N√£o sei se voc√™s sabem, mas quando se vive em cavernas a realidade √© meio confusa. N√£o sabemos ao certo se as sombras que vemos s√£o fantasia ou s√£o realidade. Por muito tempo, achei que as sombras que v√≠amos eram a verdade. Contudo, hoje, sei que eram somente proje√ß√Ķes na parede da caverna. Soa meio confuso, mas √© assim. √Č um enigma da caverna. Uma alegoria, como dizem alguns de voc√™s.

A MORTE DE LOO-DJ-AHN

De qualquer forma, meu nome √© Loo-dj-ahn, e eu perten√ßo aos Humanos. Minha tribo representa os melhores ca√ßadores de nosso lugar. Em nosso falar, humano √© “Croovijz“. Por isso talvez voc√™s outros nos chamem de povos de Clovis. Mas, pensando bem,¬† pode ser tamb√©m coincid√™ncia.

Não me lembro ao certo como morri. Fui ficando doente, tinha dores de barriga, dor de cabeça, não conseguia mais acompanhar as mulheres. Entretanto, minha tribo tentou me curar com ervas e rezas. Meus olhos foram turvando, turvando, e depois não ouvi mais nada. Quando dei por mim eu já estava dentro da caverna, onde me sepultaram. Meu corpo foi coberto por tintas mágicas para avisar os espíritos ancestrais dos Humanos. No meu funeral, devem ter me virado para o norte, que era de onde haviam vindo nossos ancestrais.

Como j√° disse, minha primeira morte durou onze mil anos. H√° uns poucos anos atr√°s, o que restou de mim foi encontrado por um povo estranho que tirava seu sustento de desencavar gente de seu tumulo ancestral. Mas, antes disso eu soube que¬†um senhor chamado Peter Lund havia come√ßado a explorar as grutas na nossa √°rea. Ele retirou milhares de metros c√ļbicos de terra e achou milhares de ossos, de animais e de humanos, que ele remeteu para seu pa√≠s natal, a Dinamarca.

NUM LUGAR CHAMADO MUSEU

Muitos outros foram resgatados por estes povos escavadores. Entretanto, dos humanos, os Croovijz, só eu. Dos outros povos que habitavam nossa região, como os Larga-ossos, os Bárbaros do sul e os Pega-peixe (esses eram os nomes que nós dávamos a eles), vários foram resgatados.

Fomos levados para um lugar escuro, muito longe da caverna onde me acharam. Lá, fomos iluminados, apalpados, medidos. Contudo, quando começaram a me chamar de Luzia, a principio achei que sabiam minha língua. Mas sabem nada. Falam muita bobagem sobre nós, tentam adivinhar o que éramos e o que fazíamos somente olhando nossos ossos e vendo os utensílios que fazíamos.

Depois, tentaram adivinhar como era meu rosto…erraram feio. Tentaram de novo…erraram de novo. Por que eles querem saber tanto do mim?

A MORTE DE LUZIA

No entanto, eu estava tranquila nesta minha nova vida. Pensavam que, como Luzia, estaria tranquila. Foi quando, numa noite dessas eu vi o fogo. Estava muito quente e podia-se escutar as madeiras do teto estalando. Muita fumaça na sala onde estávamos. Foi quando ouvimos um grande estrondo e o teto desabou. Essa foi minha segunda morte.

Esse lugar que voc√™s chamam Museu, pegando fogo…essa foi minha segunda morte!

Contudo, minha segunda morte foi mais curta. Cerca de um mês depois, eu comecei a ouvir barulhos, movimento acima de mim. Estavam escavando atrás de meus restos de novo? Que obsessão é esta?

Depois de um tempo, me acharam ali, soterrada sob as cinzas do incêndio. Nunca vi tanto alvoroço. Os caras que estavam escavando gritavam. Alguns choravam de alegria. Eu estava de volta.

O MUSEU E A TRIBO

Soube que o lugar onde estava tinha um nome de Museu. Era um prédio grande e bonito. Mas sempre ouvia falar de problemas. O povo que cuidava de mim sempre reclamava que o prédio estava em perigo. Perigo de quê? eu pensava: de um ataque de bárbaros inimigos? De grandes animais selvagens?

No entanto, parece que eles n√£o tinham recebido muito recurso para manter o Museu. Faltavam recursos para o pr√©dio ser seguro, para evitar inc√™ndios. Depois, os chefes da tribo de voc√™s n√£o estavam interessados nessa hist√≥ria de Museu. Ouvi que um dos chefes havia reclamado: ‚ÄúJ√° pegou fogo, quer que eu fa√ßa o qu√™?‚ÄĚ.

Preciso dizer que achei esta fala típica de bárbaro, desses bem primitivos. Eles nunca assumem a responsabilidade do que fazem, como crianças grandes. Falam alguma coisa, depois voltam atrás. Querem deixar tudo confuso. Ou não sabem direito o que estão fazendo. Minha segunda morte tem a ver com essa confusão dentro da tribo que me resgatou da caverna.

A VIDA √Č CURTA…

Agora, estou esperando ser reconduzida à minha sala tranquila. Lá, dezenas de pessoas passavam admirando meu esqueleto e vendo o modelo de meu rosto. Contudo, eu sei que ele não é meu verdadeiro rosto. Eu também bem sei, no entanto, que nunca vão adivinhar como era o meu verdadeiro rosto. Mas eu sinto um certo orgulho deste rosto eu virei.

√† direita, o paradigma antigo; √† esquerda, o paradigma atual…voc√™s continuam errando…

Os barbaros que me desencavaram  dizem que sou um dos humanos mais antigos do país deles. Me admiram. Os bárbaros que cuidam de mim me tratam muito bem. Entretanto, os chefes da tribo deles, não ligam para ossos de gente. Ouvi dizer que eles gostam de uma coisa chamada dinheiro. Por esse tal de dinheiro brigam o tempo todo. Algumas vezes, se matam.

Contudo, n√£o sei o que aconteceu com minha tribo. Sinto saudades deles. Mas ao mesmo tempo admiro esta tribo barbara que tanto empenho tem de cuidar de mim. Apesar dos chefes que eles escolhem para eles mesmos. Podem me chamar de Luzia. Loo-dj-ahn j√° morreu uma vez. Luzia, outra. Espero ainda durar mais um pouco, ver mais algumas coisas, aprender.

Mas o que se pode esperar mais de uma curta vida de onze mil e poucos anos?

 

PS Рagradeço à Gustavo Teramatsu por me alertar sobre o novo paradigma do rosto de Luzia

O MUSEU, VOCÊ E EU

UMA TRAGEDIA ANUNCIADA

Todos est√£o chocados e boquiabertos com a trag√©dia do Museu Nacional. O inc√™ndio, que durou somente algumas horas, destruiu um patrim√īnio que levou mais de 200 anos para ser juntado. Em termos do valor que se perdeu, como muitos disseram, n√£o h√° como calcular. √Č como se perd√™ssemos a maior parte de nossa mem√≥ria de uma vez, de maneira irrecuper√°vel. Podemos usar os fragmentos, podemos come√ßar tudo de novo a juntar mais mem√≥ria. Mas a que se perdeu, se perdeu.

As chamas consumindo o valiosíssimo acervo do Museu Nacional no Rio

Outros ficam chocados com as condi√ß√Ķes do Museu. Soubemos, pela imprensa, que o Museu Nacional estava sem recursos. Estava sem condi√ß√Ķes de sobreviver, o que fazia de maneira prec√°ria. S√≥ faltava, mesmo, um acidente para acontecer a trag√©dia. E e trag√©dia veio, em sua forma mais cruel, na forma de um inc√™ndio. O inc√™ndio do Museu Nacional √©, sem sombra de d√ļvida, somente mais uma das trag√©dias anunciadas de nossa cultura.

OUTROS INCÊNDIOS

Outros ainda lembram de inc√™ndios recentes que destru√≠ram parte significativa de nosso patrim√īnio cultural: Museu da L√≠ngua Portuguesa (2015), Instituto Butantan (2010), Memorial da Am√©rica Latina (2013) e Cinemateca (2016). Sem contar o inc√™ndio do MAM em 1978, que destruiu boa parte de um acervo riqu√≠ssimo.

Os inc√™ndios s√£o fen√īmenos aleat√≥rios. O que define nossa resili√™ncia a eles √© nossa capacidade de enfrenta-los. O mesmo fogo, num museu com estrutura, n√£o passaria de uma queimadura leve, dessas vermelhid√Ķes de sol na pele. No entanto, nosso descaso e falta de preparo fazem com que qualquer fagulha cause uma trag√©dia de grandes propor√ß√Ķes,

POR QUE OS MUSEUS PEGAM FOGO?

Segundo os especialistas, acidentes nestas institui√ß√Ķes tem como causa defici√™ncia or√ßament√°ria, infraestrutura prec√°ria e equipes de trabalho especializada com numero abaixo do numero ideal. Nossas institui√ß√Ķes de uma forma ou de outra, sempre tem um ou mais desses problemas. Na Unicamp, s√≥ para dar um exemplo, tivemos, uma grande discuss√£o recente sobre estes temas. Embora algumas solu√ß√Ķes provis√≥rias tenham sido alcan√ßadas, a maior parte delas continua sem solu√ß√£o.

Mas o que me deixa mais triste não é a aparente falta de visão dos governantes, O que me deixa mais triste é saber que a falta de visão dos governantes reflete um quadro ainda mais sombrio: vivemos numa sociedade inculta e que não vê um valor na cultura. Por isso, nossos museus são poucos, precários e vazios.

O INCÊNDIO E A REVOLTA

A nossa população não cobra dos governantes cuidado com a memória. Os motivos são os mais diversos, e é claro que a falta de cultura não é um projeto dos explorados, mas dos exploradores. Mas é importante salientar que somos sim, por ação ou omissão, um povo que, por falta de cultura, não se importa em fazer dela um valor. Este círculo vicioso faz com que nossa rica cultura se perca, se esvazie, se deteriore. Ou se queime.

A pesquisadora Aparecida Vilaça escreveu que, ao ver o esqueleto do museu destruído pelas chamas, ela viu a imagem de alguém se imolando, ou seja, alguém que coloca fogo no próprio corpo em protesto. Uma revolta por tantos anos de maus tratos e descaso. As imagens que circularam eram cruéis, mostrando as cenas de desolação causadas pelo fogo.

Quem sabe se a imola√ß√£o do Museu Nacional fa√ßa com que nossa vis√£o sobre os museus, os institutos de pesquisa e arte sejam mais valorizados. Que as pessoas tenham por h√°bito visitar Museus, Exposi√ß√Ķes e Centros de Cultura. E que esse h√°bito possa fazer com que a popula√ß√£o cobre de nossos governantes o respeito que nossa Cultura merece.

OS POL√ćTICOS N√ÉO TEM VIS√ÉO?

Vi tamb√©m que poucos candidatos √† presid√™ncia tem um programa de cultura. Existem candidatos que afirmaram que a trag√©dia ‚Äúagride a identidade nacional‚ÄĚ e disse tamb√©m que ‚Äú√© dever resgatar o compromisso de zelar permanentemente‚ÄĚ pela preserva√ß√£o do patrim√īnio. Mas, quando foi governo, este mesmo candidato deixou estas institui√ß√Ķes √† m√≠ngua.

Outro candidato ainda, quer relegar a Cultura ao status de Secretaria em seu governo. N√£o se pode acusar este candidato, ali√°s bem posicionado nas pesquisas, de incoerente. Em seu programa, realmente, ele n√£o faz qualquer refer√™ncia √† Cultura. Na certa, se algu√©m falar a ele sobre Cultura, ele puxa o rev√≥lver…

A TRAGEDIA DA NOSSA CULTURA

Estes pol√≠ticos dizem essas leviandades porque n√≥s os autorizamos. N√≥s n√£o nos importamos, sejamos francos. N√≥s n√£o valorizamos a nossa pr√≥pria cultura. Por isso, pense sobre o que voc√™ e eu estamos fazendo com a Cultura em nosso pa√≠s. Pense no quanto voc√™ defende isso como uma pol√≠tica, como uma a√ß√£o efetiva. E pense o quanto n√≥s cobramos de nossos governantes a√ß√Ķes efetivas a este respeito. E fa√ßa. Fa√ßamos.

Da mesma forma, v√° a museus, visite exposi√ß√Ķes. Participe de atividades de crowfunding cultural. Valorize quem trabalha com a Cultura. Valorize-se.

Ou queime, inapelavelmente, como todos nós brasileiros nos queimamos, nas chamas da Quinta da Boa Vista.

Não há segunda chance para um povo sem memória.

As glossopetras dão com a língua nos dentes

Olá! Nós somos as glossopetras!

um selfie de glossopetras, mostrando como algumas de n√≥s s√£o bem grandinhas…

Somos f√≥sseis pequenos, de mil√≠metros a dec√≠metros de tamanho. Somos encontrados em abund√Ęncia nas melhores camadas sedimentares pr√≥ximas de voc√™. No entanto, somos mais comuns em alguns lugares espec√≠ficos do mar Mediterr√Ęneo, de onde somos extra√≠das

em grande quantidade. Um dos lugares mais famosos de ocorrência de glossopetras é a Ilha de Malta.

O nome glossopetra é um nome greco-romano. Reparem: glossós, ou língua, é uma palavra grega. Língua em latim é língua mesmo. E petra é pedra em latim, como até as pedras sabem. Glossopetra, portanto, é um nome greco-romano, que significa Língua de Pedra. Porque parecíamos com pequenas línguas.

Nós somos conhecidas em praticamente todas as línguas e culturas do Velho Mundo.

AMULETOS PARA “SOLTAR” A L√ćNGUA…

Para os romanos, n√≥s, as l√≠nguas de pedra, √©ramos amuletos importantes. Segundo se acreditava, n√≥s poder√≠amos fazer ‚Äúdesatar‚ÄĚ a l√≠ngua das pessoas. Poder√≠amos tamb√©m fazer com que as pessoas confessassem os crimes os mais secretos. Da mesma forma, nos usavam tamb√©m para tornar as pessoas mais suborn√°veis e colaborativas. Por outro lado, era tamanho nosso poder que alguns romanos mais desabusados usavam n√≥s glossopetras para seduzir pessoas castas para os atos mais inconfess√°veis!

No entanto, sábios com Plínio, o Velho, eram mais céticos. Segundo Plínio, os mágicos diziam que as glossopetras caiam dos céus durante os eclipses da Lua. Já imaginaram, uma chuva noturna de pequenas linguinhas de pedra? No entanto, segundo Plínio, isso parecia não ser verdade.  Assim como ele também não compartilhava a crença antiga que as glossopetras acalmavam os ventos.

Monddrache, o Dragão da Lua. Gravura antiga atribuídas pelo astrólogo, nigromante e alquimista Agripa de Netesheim

Além disso, algumas glossopetras maiores  (ver figura acima) eram também chamadas de línguas de dragão. Tinham cerca de dez centímetros de comprimento ou mais. Existia uma lenda, que vinha do cultura nórdica, que atribuía a diminuição da Lua em alguns momentos de seu ciclo à ação de um dragão, o Monddrache, o Dragão da Lua. Essas glossopetras maiores, quase da palma de uma mão humana,  eram chamados de Dentes do Dragão da Lua (Zähne der Monddrache).

SÃO PAULO E AS GLOSSOPETRAS
Selo comemorativo do naufr√°gio de S√£o Paulo na ilha de Malta. Depois desse naufr√°gio, n√≥s glossopetras passamos a s√≠mbolos do cristianismo…

Na ilha de Malta, onde somos abundantes, há a lenda de que São Paulo, ao naufragar na ilha, teria sido picado por uma víbora. O Santo não se fez de rogado, e atirou a serpente ao fogo. Como resultado, todos os dentes e olhos das cobras de Malta foram petrificados. Por isso, em alguns lugares, somos também chamadas de línguas de serpente. As serpentes que hoje existem na ilha de Malta não são venenosas, confirmando assim, empiricamente, a ação milagrosa do apostolo. Essa lenda também aparece na Irlanda, com São Patrício. Aqui nós já comentamos sobre Santa Hilda de Whithby e os amonites.

Há uma outra lenda, muito posterior, dizendo que São Paulo transformou a sua própria língua em pedra, com numerosas propriedades medicinais. Por outro lado, os cavaleiros Normandos, que conquistaram Malta em 1090 AD, logo se aproveitaram dessa lenda e logo vendiam para toda a Europa as famosas (e milagrosas!) línguas de São Paulo. Com muito lucro, diga-se.

UM PODEROSO ANT√ćDOTO CONTRA QUASE TUDO
Natterbaum, ou “arvore das serpentes”, pe√ßa em prata sobredourada representando a genealogia de Cristo. Esta pe√ßa era usada como prote√ß√£o para venenos. No centro em cima h√° uma enorme L√≠ngua de Drag√£o.

Existiram, tamb√©m, diversas as aplica√ß√Ķes medicinais das glossopetras. Durante a Idade M√©dia, acreditava-se que n√≥s, glossopetras, √©ramos poderosos antivenenos. Poder√≠amos detectar a presen√ßa de veneno mudando de cor ao sermos mergulhadas numa ta√ßa de vinho. Desta forma, √©ramos usadas como contraveneno de cobra, para acelerar o parto e como poderoso talism√£ na prote√ß√£o contra bruxarias.

Durante a Renascença, o geografo holandês De Laet (1581-1649) enviou algumas glossopetras para serem usadas para males bucais. Entre os usos registrados estão a dor de dentes e para aliviar as dores da dentição em crianças.

Os usos das glossopetras como medicamento foi muito difundido. A ‚ÄúTerra de S√£o Paulo‚ÄĚ , como era conhecido o material contendo as glossopetras maltesas, era comercializada como rem√©dio at√© fins do s√©culo XIX. Um vasto mercado, como dir√≠amos hoje. No entanto, a ocorr√™ncia de falsifica√ß√Ķes levou muitos governos desde o s√©culo XVII a realizar verifica√ß√Ķes e autua√ß√Ķes em materiais tidos como Terra de S√£o Paulo.

Nós, glossopetras, poderíamos contar muitas mais histórias e lendas, meninxs.

DENTES DE TUBARÃO?

No entanto, temos que confessar uma coisa: somos, na realidade, dentes de tubar√£o. Sim, dentes de tubar√£o. Boa parte de n√≥s glossopetras somos simplesmente dentes de tubar√Ķes lamniformes. Contudo, as maiores glossopetras s√£o provenientes do gigantesco Charcharodon megalodon, uma esp√©cie extinta de um tubar√£o gigante que viveu entre o Mioceno at√© o fim do Plioceno (para voc√™s humanos que n√£o tem no√ß√£o de tempo, significa um per√≠odo entre 23,3 at√© 3,3 milh√Ķes de anos atr√°s).

Uma estimativa do tamanho prov√°vel do Charcharodon megalodon (cinza e vermelho) com o tubar√£o Baleia, o tubar√£o Branco e um ser humano;

Como foi que mudou a ideia de que nós éramos pedras singulares com poderes mágicos e medicinais e nos tornamos meramente dentes de grandes bestas pré-históricas? Esta discussão, por mais simples que pareça, está na base da moderna Geologia.

BRINCADEIRAS DA NATUREZA

voc√™s podem n√£o acreditar, mas nem sempre os f√≥sseis foram aceitos como hoje: restos de organismos preservados por algum processo. Durante o Renascimento, a utiliza√ß√£o de alguns conceitos aristot√©licos, como a petrifica√ß√£o, levou alguns¬† s√°bios a aceitar que os fosseis poderiam ser objetos gerados espontaneamente nas rochas. Seriam as “virtudes plasticas” defendidas, entre outros, pelo sabio veneziano Girolamo Fracastoro (1476-1553). Seriam meras “brincadeiras da natureza”.

Outros sábios, entretanto, achavam que os animais e plantas petrificados eram realmente restos de organismos. Entre estes estavam, por exemplo, o famoso medico modenesi Gabrielle Falllopio (1523-1562).  Mas quais organismos seriam esses? existiriam realmente ou eram seres já extintos? Isso levava a uma outra questão: se os seres eram extintos, era sinal que eram seres imperfeitos? Deus, por acaso, fazia coisas imperfeitas? Essa era a grande discussão das ciências naturais nestes período.

FABIO COLLONA E AS GLOSSOPETRAS
o sabio neapolitano Fabio Collona (1567-1640), autor de importante estudo sobre nós, glossopetras!

N√≥s, as glossopetras, estivemos ativas neste debate. Um dos trabalhos mais imortantes sobre n√≥s foi realizado pelo naturalista napolitano Fabio Collona (1567 – 1640), da¬†Academia dei Lincei (dos linces, animal que enxerga mais longe) e amigo de Galileu. Collona estabeleceu que eramos restos de organismos. Para isso, ele calcinou algumas de n√≥s (ui!) e viu que √©ramos formadas por mat√©ria org√Ęnica. Por outro lado, a terra que nos envolvia n√£o tinha a mesma origem. Logo, segundo Collona, as glossopetras eram restos org√Ęnicos.

a semelhan√ßa com os dentes de tubar√£o tamb√©m chamou a aten√ß√£o de Collona. Assm, ele sugeriu que pudessemos representar restos de antigos tubar√Ķes, e n√£o pedras magicas ou antivenenos. Mas era necess√°rio mais algum debate para poder afirmar isso com seguran√ßa.

NICOLAU STENO E OS DENTES DE TUBARÃO

Foi Nicolau Steno quem estabeleceu a rela√ß√£o dos tubar√Ķes com as gloss√≥petras. Para

tubar√£o glossopetras
Cabeça de tubarão estudada por Steno e as glossopetras

tanto, ele estudou a carca√ßa de um tubar√£o capturado ao longo da costa de Livorno em 1666 e confirmou a semelhan√ßa entre as glossopetras e os dentes dos tubar√Ķes. Para isso, Steno usou de suas habilidades como anatomista e fez uma compara√ß√£o usando o m√©todo da anatomia forense. Assim, tim-tim por tim-tim, ele explicou as semelhan√ßas entre as duas.¬† Desta forma, ficou bem claro, para bons e maus entendedores, que as glossopetras eram dentes de tubar√£o.

Contudo, a polêmica ainda durou mais alguns anos. Somente em meados do seculo XVIII é que os fósseis foram aceitos como restos de organismos e tomaram o sentido que tem hoje. Para tanto, nós, glossopetras, tivemos um papel fundamental.

COM A L√ćNGUA NOS DENTES

Assim sendo, hoje nós não somos mais fósseis, e sim uma parte deles. Desta forma, não somos mais tão importantes e procuradas como no passado, empobrecendo talvez alguns mineradores. Contudo,  nós somo muito orgulhosas de nossa participação. De fato, nossa presença nestes debates serviu para que os fósseis fossem reconhecidos como hoje são. Mais que isso, houve uma mudança na maneira como as pessoas enxergavam as camadas de rocha.

Assim, o que era s√≥ brincadeira da natureza passou a significar tamb√©m testemunhos da hist√≥ria terrestre. O grande livro da natureza podia afinal ser lido. A hist√≥ria da natureza, com o tempo, passou a ser maior que a hist√≥ria humana. Por um lado, a hist√≥ria natural pode ser lida em milh√Ķes e mesmo bilh√Ķes de anos. Por outro lado, outras preocupa√ß√Ķes vinculadas com esta historia natural passaram a ocupar o centro da vida das pessoas.

Entretanto, quest√Ķes como evolu√ß√£o das esp√©cies, mudan√ßas clim√°ticas, grandes extin√ß√Ķes, etc s√≥ fazem sentido num tempo longo. E est√£o nas agendas das pessoas e dos governos de hoje. Contudo, nada disso seria poss√≠vel sem entender que pequenas linguinhas encontradas nas rochas possam ser dentes de tubar√Ķes.

Nada mal, n√£o?

PARA SABER MAIS:

Hsu, K.T., 2009. The path to Steno’s synthesis on the animal origin of glossopetrae. The Revolution in Geology from the Renaissance to the Enlightenment. Geological Society of America, Boulder, CO, Memoirs, 203, pp.93-106.

Rosenberg, G.D. ed., 2009. The Revolution in Geology from the Renaissance to the Enlightenment (Vol. 203). Geological Society of America.

O problema não é o 13, é o 14! O mito do Carbono 14 na Paleontologia

H√° quem diga que o treze √© um n√ļmero da sorte.¬†E h√° tamb√©m aqueles que n√£o gostam das sextas-feiras 13‚Ķ¬†

Mas como professora de paleontologia j√° h√° alguns anos eu tenho dificuldades com o 14. Na verdade, com o Carbono 14 (C14).

Em algum momento da vida de voc√™s, meus queridos alunos e/ou leitores, algu√©m lhes falou sobre ele. E eu n√£o sei bem os motivos da m√≠dia e de alguns livros de conte√ļdo b√°sico sobre geoci√™ncias enfocarem a data√ß√£o por carbono 14 como sendo a resolu√ß√£o de todos os problemas na vida de um paleont√≥logo; mas, claro, essa t√©cnica n√£o √© tudo isso.

A simplificação que normalmente vejo nos textos sobre o assunto passa uma ideia errada de como a datação de materiais fósseis realmente funciona.

Mas vamos começar do início…

Datação de quê? Idade do organismo ou há quanto tempo ele viveu/morreu?

Para obtermos a idade de algum material, necessitamos de alguma técnica que meça a quantidade de anos que aquele material tem, ou que nos indique uma idade aproximada do material em questão. Com isso eu quero dizer o seguinte: se um organismo viveu durante 30 anos, no período Triássico (250-200 M.a.), a idade que iremos obter com algum método de datação é a idade triássica. A idade do organismo (se era jovem, adulto ou idoso) também pode ser obtida, de forma aproximada, com nossos conhecimentos sobre o desenvolvimento ontogenético do grupo ao qual aquele organismos pertence; mas não é sobre isso que iremos tratar aqui, ok?

O que é necessário para datar?

O m√©todo Carbono 14 necessita de mat√©ria org√Ęnica para ser utilizado.

Os f√≥sseis, como n√≥s j√° falamos por aqui no blog, nada mais s√£o que restos ou vest√≠gios de vida pret√©rita transformados (em algum grau) em rocha (litificados). Existem, sim, casos onde h√° preserva√ß√£o de material org√Ęnico original. Mas na maioria das vezes, esse material √© perdido no processo de litifica√ß√£o. Ent√£o, na maioria das vezes, n√£o h√° Carbono para ser datado nos f√≥sseis.

Quais as premissas da técnica?

Toda técnica utilizada pelos cientistas segue algumas premissas e possui alguns limites.

Uma das premissas é que o material tenha Carbono, como falamos antes. Então, se quisermos saber a idade de uma rocha (que não tenha C), o método de C14 não pode ser aplicado.

Is√≥topos s√£o elementos qu√≠micos (isto √©, t√™m pr√≥tons, n√™utrons e el√©trons) que possuem n√ļmero at√īmico igual (n√ļmero de pr√≥tons) mas um n√ļmero de massa diferente (m√©dia ponderada das massas dos is√≥topos, isto √© pr√≥tons + n√™utrons). No caso da Carbono, encontramos na natureza v√°rios is√≥topos, e os mais comuns s√£o C12, C13 e o famoso C14. A abund√Ęncia natural desses is√≥topos √© diferente, sendo o C12 o mais est√°vel e mais comum dentre todos. Sendo o mais comum (e tamb√©m por outros motivos) os organismos utilizam-se mais do C12. No entanto, o C14, apesar de raro, tamb√©m √© incorporado pelos organismos.

O C12 com 6 prótons e 6 neutrons. Fonte.

O C14 n√£o √© t√£o comum quanto o 12 basicamente por dois motivos: porque ele se forma na alta atmosfera pela a√ß√£o de raios c√≥smicos e descargas el√©tricas em nitrog√™nios (eventos aleat√≥rios), e porque o C14 √© um is√≥topo inst√°vel de Carbono, isto √©, ele se transforma em nitrog√™nio novamente, para alcan√ßar sua estabilidade. Esse fen√īmeno √© muito bem explicado no v√≠deo que coloquei nas refer√™ncias deste texto.

No princ√≠pio do desenvolvimento da t√©cnica de C14, uma premissa importante para o estudo era que a forma√ß√£o do C14, apesar de rara, ¬†seria constante para os √ļltimos s√©culos. Hoje sabe-se que houve varia√ß√£o e uma tabela j√° foi constru√≠da para adequa√ß√£o das an√°lises.

O quadro abaixo mostra os diversos is√≥topos de Carbono e a dura√ß√£o de suas meias-vidas na natureza ( em segundos “s” ou minutos “m”. Fonte):

Simb % natural Massa Meia vida
9C 0 9,0310 0,127 s
10C 0 10,0169 19,3 s
11C 0 11,0114 20,3 m
12C 98,93 12,0000 Est√°vel
13C 1,07 13,0034 Est√°vel
14C 0 14,0032 5715 a
15C 0 15,0106 2,45 s
16C 0 16,0147 0,75 s
17C 0 17.0226 0,19 s

Como o C14 chega a fazer parte da matéria de um carnívoro?

As plantas, por meio de fotossíntese, utilizam os CO2 produzidos pelas descargas elétricas e impactos de raios cósmicos nos N; seguindo a cadeia alimentar, os animais que predam plantas, incorporam esse C instável, e por conseguinte, o C14 chega aos carnívoros que predam estes herbívoros.

Todo paleontólogo usa esta técnica?

Nem todo o paleont√≥logo sabe dizer a idade exata (em n√ļmeros absolutos) do material com que trabalha. Eu, por exemplo, nunca datei absolutamente nenhum f√≥ssil com que j√° trabalhei. O C14 √© usado para datar materiais de at√© 50 ou 60 mil anos. Eu trabalho com f√≥sseis de 400 milh√Ķes de anos!

O limite do método se dá por um viés analítico. Como o C14 é muito raro em proporção na matéria a ser analisada, após 10 decaimentos suas porcentagens são tão pequenas que ele fica quase impossível de ser detectado. Após 10 decaimentos o material tem cerca de 50 mil anos, uma vez que a meia-vida do C14 tem 5.730 anos.

Como se conta o C14?

O primeiro a realizar a contagem de C14 foi o pesquisador Libby, utilizando um contador Geiger. Ao se desintegrar, um C14 emite uma part√≠cula beta; essa part√≠cula √© detectada pelo referido equipamento. Ao colocarmos 1 grama de C atual (de algum ser vivo), temos 13,6 contagens por minuto. Sabendo disso, usamos da matem√°tica para saber quanto 1g de alguma amostra f√≥ssil pode indicar em termos de idade. Se a contagem for de 6,8, significa que uma meia vida j√° passou, isto √©, o organismo em quest√£o morreu h√° 5.730 anos. Outras t√©cnicas mais recentes e precisas j√° foram desenvolvidas, utilizando, por exemplo, a contagem dos √°tomos em si e comparando-se suas propor√ß√Ķes. Mais detalhes sobre isso podem ser lidos aqui.

√Č fato que a maioria das pessoas, quando questionada sobre data√ß√£o, lembra do C14. Mas veja, para o estudo paleontol√≥gico de materiais mais antigos que 50 mil anos, a t√©cnica n√£o pode ser utilizada! Lembrando que o planeta tem 4,5 G.a., o C14 n√£o √© o principal m√©todo de data√ß√£o em paleonto‚Ķ! Outros m√©todos s√£o muito mais comuns, como a data√ß√£o relativa das camadas e tamb√©m as data√ß√Ķes absolutas de rochas √≠gneas + data√ß√£o relativa das camadas de rochas sedimentares.

Como datar absolutamente uma camada?

Quando temos rochas √≠gneas, podemos usar m√©todos de data√ß√£o como Rub√≠dio-Estr√īncio, Chumbo-Chumbo, Ur√Ęnio-Chumbo, Pot√°ssio-Arg√īnio, entre outros. Neste caso, esses elementos qu√≠micos inst√°veis foram formados ¬†quando houve a gera√ß√£o dos minerais que comp√Ķem as rochas, por isso, assim que eles solidificam, seu decaimento inicia e a contagem do tempo atrav√©s das suas meias-vidas pode ser obtida. Cada rela√ß√£o is√≥topo-pai/is√≥topo-filho tem uma longa s√©rie de intermedi√°rios que se formam e possibilitam a data√ß√£o absoluta.¬†

E agora... você já sabe quais métodos mais usamos?
Por isso o C14 não é uma técnica utilizada em materiais mais antigos que 50 mil anos, e portanto, não é muito utilizado em Paleontologia. Observe, portanto, a imagem abaixo e me diga o que poderia ser melhorado nela?!

 

decaimento radioativo do C14
Ilustra√ß√£o que mostra o decaimento radioativo do C14… mas que induz as pessoas a achar que √© poss√≠vel datar um f√≥ssil de dinossauro com C14. Fonte.

 

Referências

http://www.deboni.he.com.br/dic/quim1_006.htm

https://manualdaquimica.uol.com.br/quimica-geral/isotopos.htm

http://www.seara.ufc.br/donafifi/datacao/datacao5.htm

Um outro post nosso sobre o tempo geológico, pode ser lido aqui.

O sólido dentro do sólido: Nicolau Steno, o cientista que virou santo

Nicolau Steno
Retrato de Nicolau Steno, pintado em Florença

Nicolau Steno foi um dos homenageados no Congresso Internacional de Geologia de 2004, realizado em Firenze. L√°, os cientistas inauguraram uma placa, onde faziam men√ß√£o √†s suas imorredouras contribui√ß√Ķes para a Mineralogia, a Paleontologia e a Estratigrafia. Boa parte delas havia sido realizada no tempo que que Nicolau Steno morou ali, na Toscana.

No entanto, alguns anos antes, em 1988, o Papa Jo√£o Paulo II o proclamou como ‚Äúbem-aventurado Nicolau Steno‚ÄĚ. Sabemos que, quando morreu, Nicolau Steno era um bispo cat√≥lico, que trabalhava no norte da Alemanha. Seus √ļltimos anos lhe deram aura de Santo. E quase santo ele √©. Hoje ele √© um Beato e a festa lit√ļrgica em seu nome ocorre no dia de sua morte, em 5 de dezembro.

Quem era, afinal, Nicolau Steno? O cientista ou o beato?

NIELS STENSEN, O SOBREVIVENTE

Nicolau Steno é uma latinização de seu nome dinamarquês, Niels Stensen. O pequeno Niels nasceu e foi batizado em Copenhagen em 1638. Era o filho do ourives que prestava serviços para o rei Cristiano IV da Dinamarca. O pequeno Niels, que era muito doente a ponto de não poder brincar com as outras crianças, cresceu numa família fervorosamente luterana. Na falta dos brinquedos, brincava com os objetos de ourives de seu pai.

O pequeno Niels, no entanto, era mais forte do que se supunha. Na escola que frequentou, mais de duzentas crianças morreram entre 1654-1655 por causa de uma peste. Contudo, Niels Stensen sobreviveu. E tomou interesse por estudar os corpos humanos. Seu interesse era a Anatomia.

A Anatomia era uma febre (!) na época. Aulas de Anatomia eram disputadas ferozmente pelos acadêmicos. Tudo fervilhava de curiosidade de conhecer melhor o corpo humano.  Aos 19 anos, Niels Stensen entrou para a universidade de Copenhagen, para estudar medicina. Em seus estudos acadêmicos, revelou-se um promissor anatomista. E Copenhagen começou a ficar pequena para seu talento.

NICOLAU STENO, ANATOMISTA

A partir daí, Niels Stensen passou a viajar. E nunca mais parou. Inicialmente, esteve em várias cidades da Europa, estudando anatomia. Em Amsterdam estudou com Gerard Blasius, que estava estudando o sistema linfático. Da mesma forma, em Amsterdam, Stensen também conheceu o filosofo e polidor de lentes Baruch de Spinoza. O que será que eles devem ter conversado?

O jovem estudante Niels Stensen era apaixonado pela filosofia de Ren√© Descartes. No entanto, mais tarde, ele renegou a teoria cartesiana. Muito cedo, Steno percebeu algumas contradi√ß√Ķes na obra do mestre. Descartes, por exemplo, afirmou que a gl√Ęndula pineal era a sede da alma humana. Steno, com base em suas observa√ß√Ķes, mostrou que Descartes estava errado.

Steno descobriu, entre outras coisas, que existe um duto que leva saliva at√© a boca, os dutos parot√≠deos ou¬†dutos de steno. Por outro lado, Steno descobriu tamb√©m que o cora√ß√£o era um m√ļsculo. E que os c√°lculos eram pedras que se formam por ac√ļmulo nos √≥rg√£os. Descobertas not√°veis, por certo.

O CARTESIANO ANTI-DESCARTES

Um a um, Steno acabou por desmentir diversos postulados anat√īmicos de Descartes. Com o tempo, tornou-se violentamente anti-cartesiano, negando qualquer rela√ß√£o de suas descobertas com o pensamento do filosofo franc√™s. N√£o obstante, com o perd√£o do trocadilho, pode-se dizer que Steno n√£o descartou Descartes.

Efetivamente, ao apreciar a obra de Steno, percebe-se o quão cartesiano ele era.  Quando se vê o mundo de idéias construído por Steno, o que se vê é um universo mecanicista, tipicamente cartesiano. Por outro lado, neste universo stenoniano,  a matéria sólida e particulada se movimentava segundo leis físicas determinadas, como um grande mecanismo.  Logo, tudo se movia no universo de Steno de acordo com a filosofia de Descartes.

A “REP√öBLICA DAS LETRAS”

Em suas viagens Steno acabou por conhecer o seu conterr√Ęneo Ole Borch, importante anatomista da √©poca e um s√°bio relacionado com as Academias de Ci√™ncia que ent√£o surgiam. Esse movimento de acad√™micos de v√°rios pa√≠ses em constante comunica√ß√£o formaram o que se chamou de “Rep√ļblica das Letras“.¬† Era o embri√£o do moderno sistema de academias e peri√≥dicos cient√≠ficos que se formava. N√£o por acaso, muitos peri√≥dicos modernos ainda ostentam em seu nome a palavra “Letter“. Pois n√£o eram mais que isso: cartas enviadas para as diferentes associa√ß√Ķes cientificas, que eram lidas nas sess√Ķes ordin√°rias destas academias e discutidas por seus membros.

Todavia, uma vez que Ole Borch, como membro destacado da Republica das Letras,¬† tinha muitas liga√ß√Ķes com a Royal Society de Londres. Foi atrav√©s de Borch que Steno teve contato com a teoria atom√≠stica de Robert Boyle. Esta foi outra das grandes inspira√ß√Ķes de Steno. Por meio da leitura de Boyle e sua obra, Steno come√ßa a se interessar por uma Ci√™ncia que ainda n√£o existia, a Geologia. Foi neste ponto de sua carreira que ele foi convidado por Ferdinando II, Gr√£o-Duque da Toscana, a ser o anatomista da corte. Em Firenze, sua vida iria mudar. De novo.

L√°, Nicolau Steno vai desfrutar do ambiente da Corte e, principalmente, dos s√°bios reunidos na “Academia Del Cimento“. Essa academia, fundada pelos M√©dici, reunia alguns dos mais importantes pensadores italianos da √©poca. Steno torna-se amigo de Marcello Malpigui, Vicenzo Viviani, Francesco Redi, entre outros.

¬†PEDRAS EM FORMA DE L√ćNGUA

Em 1666, um tubar√£o foi pescado na costa de Livorno. A cabe√ßa deste tubar√£o foi enviada √† Firenze para que Steno pudesse disseca-lo. Steno notou que os dentes do tubar√£o eram muito parecidos com as glossopetras. Estas glossopetras, as “L√≠nguas de pedra”, eram f√≥sseis muito comuns no mediterr√Ęneo. Eram conhecidas desde os tempos romanos. Havia muito tempo que Outros s√°bios haviam reivindicado que as glossopetras eram dentes de tubar√£o. Entre eles, destaca-se F√°bio Colonna. no entanto, a pericia anat√īmica de steno foi muito importante para que estes objetos fossem reconhecidos como restos de animais, ou no sentido moderno, f√≥sseis.

tubar√£o glossopetras
Cabeça de tubarão estudada por Steno e as glossopetras

Em seguida, Nicolau Steno, de anatomista, passou a naturalista. Fez diversas viagens pela Toscana, onde juntou material para escrever sua grande obra. Aparentemente,¬† essa obra seria muito grande. T√£o grande que Steno come√ßou a escrever o principio, ou o “pr√≥dromo”. E assim surgiu uma das grandes obras da Ci√™ncia moderna.

PR√ďDROMO DE UM SOLIDO CONTIDO EM OUTRO SOLIDO

No Pródromo, Steno procura explicar que haviam varias formas distintas de sólidos contidos nas rochas. Alguns destes sólidos eram fragmentos que eram depositados junto com as rochas, como os fósseis. Um sólido dentro de um solido. Assim ele justificava a existência de diversos materiais parecidos com organismos vivos encontrados nas rochas. como , por exemplo, as glossópetras.

Por outro lado , haviam substancias que cresciam no interior das rochas, os cristais. Steno prop√īs que os cristais de uma mesma especie teriam o mesmo √Ęngulo entre as faces. E que os cristais poderiam crescer dentro das rochas. Um s√≥lido, um outro s√≥lido, dentro de outro solido. Com esta proposi√ß√£o, a moderna mineralogia come√ßa a existir.

Al√©m disso, Steno tamb√©m prop√īs uma evolu√ß√£o geol√≥gica para as rochas da regi√£o da Toscana. Segundo se pode ler no pr√≥dromo, as rochas sofriam eros√Ķes internas, com intensos abatimentos de blocos. estes blocos abatidos eram ocupados por outras rochas, mais novas e assim por diante. Com isso, ele explicou diversas sucess√Ķes estratigr√°ficas, alem de enunciar o principio de superposi√ß√£o de camadas que hoje leva o seu nome.

Steno
Assim Steno explicou os ciclos sedimentares que ele observou nos arredores de Firenze
PADRE STENO ? BISPO STENO?

No entanto, uma outra mudança se operava com Nicolau Steno. Influenciado por seus amigos da academia Del Cimento, Steno acabou por se converter ao catolicismo em 1671. Mais do que isso: praticamente abandonou seus estudos de Anatomia e Geologia e passou a dedicar-se aos estudos teológicos. Assim, em 1675 ordenou-se padre católico e em 1677, bispo.

Nicolau Steno, vestido como Bispo Católico

Movido pela religiosidade, no entanto, Steno devotou cada vez mais tempo para sua f√©. Sua energia e seu entusiasmo o levaram a ser evangelizador cat√≥lico no norte da Alemanha, uma terra ferrenhamente protestante. E foi isso que Steno foi em seus √ļltimos anos de vida. Desta forma, andando de cidade em cidade, tentando converter as pessoas ao catolicismo romano, Steno empregou todas as suas for√ßas. Adquiriu fama de santo.

UM M√ĀRTIR CAT√ďLICO

Steno trabalhou inicialmente em Hanover, onde conheceu Leibniz, de quem se tornou amigo. Depois, foi para a cidade de Schwerin. L√°, em meio hostil, Steno trabalhou incansavelmente. Contudo, sua sa√ļde come√ßou a fraquejar. Muito doente, acamado, Steno morreu em 5 de dezembro de 1686 cercado por seus paroquianos.

Sua fama de evangelizador foi intensa. Desta forma, o caráter de sua conversão do luteranismo para o catolicismo de um sábio destes porte o transformou num herói católico. por conta de um processo de beatificação que durou mais de 50 anos recolhendo provas, Steno foi beatificado pelo para João Paulo II em 1988.

BEATO  OU CIENTISTA?

A vida de Nicolau Steno, entretanto, nos deu mostras do intenso ambiente intelectual do

seculo XVII. Como filosofo natural (a palavra cientista ainda n√£o existia), Steno fez algumas afirma√ß√Ķes interessantes e duradouras. Contudo, haviam ainda um grande caminho pela frente. Nada do que disse ou escreveu mudou instantaneamente a historia da Ci√™ncia ou da humanidade. Por um lado, muitos fil√≥sofos naturais continuaram a obra de Steno, e foram elaborando as bases da nova Ci√™ncia que s√≥ foi surgir, afinal, no seculo XIX, a Geologia.

Por outro lado, Steno e sua convers√£o, sua vida de Beato, foram exemplos para muitas pessoas que tinham preocupa√ß√Ķes religiosas. N√£o foi √† toa que seu processo de beatifica√ß√£o foi levado a efeito no s√©culo XX, um s√©culo t√£o esmagadoramente dominado pela Ci√™ncia. Como que para provar para n√≥s todos que mesmo um grande cientista pode ter preocupa√ß√Ķes de natureza religiosa.

Sem d√ļvida, o m√©todo cartesiano do experimento e da d√ļvida foi o grande marco na vida de Steno. A d√ļvida fez com que ele fosse cada vez mais rigoroso em suas observa√ß√Ķes e seus experimentos, do lado cientifico. Entretanto, do lado religioso, a d√ļvida fez com ele ele perdesse sua f√© e se iniciasse numa outra, numa f√© nova. E isso n√£o √© trivial.

Santo ou cientista, contraditório e paradoxal, Nicolau Steno foi um baita ser humano.

para saber mais:

Yamada, T., 2009. Hooke‚ÄďSteno relations reconsidered: Reassessing the roles of¬† Ole Borch and Robert Boyle.¬†The revolution in geology from the renaissance to the enlightenment,¬†203, p.107.

Vai, G.B., 2009. The ScientiÔ¨Āc Revolution and Nicholas Steno‚Äôs twofold conversion.¬†The Revolution in Geology from the Renaissance to the Enlightenment,¬†203, p.187.

ARANHAS, ESCORPI√ēES, BARATAS PR√ďXIMOS DO INFINITO E TAMB√ČM DE UMA CHINELADA!

Existem informa√ß√Ķes que escutamos numa palestra e nunca mais esquecemos. Um tempo atr√°s estava eu participando do Congresso de Paleontologia, assistindo as exposi√ß√Ķes orais, e entre elas uma me chamou particularmente a aten√ß√£o. Se tratava da apresenta√ß√£o de um colega paleont√≥logo que estuda f√≥sseis de insetos e ele falou que se n√≥s v√≠ssemos uma barata do Carbon√≠fero andando por a√≠ agora …teria chinelada na hora…ou seja, elas eram muito semelhantes as atuais e com certeza ainda existir√£o por um longo tempo. Quando pensamos em f√≥sseis, n√£o imaginamos nem de longe a diversidade deles, na verdade at√© se poderia falar que os dinossauros s√£o a ponta do iceberg, e com certeza, existiam muitas baratas e outros insetos, al√©m de aranhas e escorpi√Ķes, durante o tempo dos dinossauros.

Exemplares de Trigonotarbida do Devoniano silicificados, Rhynie Chert, Escossia, UK

Os primeiros animais a pisar fora d‚Äô√°gua, h√° uns 420 Ma, foram parentes pr√≥ximos dos escorpi√Ķes e aranhas. Os mais antigos registros desses primeiros habitantes do continente foram os Trigonotarbida, similares com aracn√≠deos, mas de uma ordem hoje desaparecida. O que permitiu a esses ancestrais dos escorpi√Ķes e aranhas sobrevir no meio seco foi o fato de terem ap√™ndices motores (‚Äúpernas‚ÄĚ) e de poderem respirar oxig√™nio diretamente da atmosfera, duas caracter√≠sticas ou pr√©-adapta√ß√Ķes fundamentais para sobreviver fora da √°gua… A partir desse momento come√ßou a se diversificar o enorme grupo dos insetos, que hoje representa o grupo mais exitoso dos animais do planeta Terra, com uma diversidade ‚Äúpr√≥xima do infinito‚ÄĚ. J√° no Carbon√≠fero, uns 50 milh√Ķes de anos depois, os registros f√≥sseis mostram que os insetos foram maiores em tamanho do que os de hoje em dia (como as lib√©lulas e baratas). S√£o conhecidos, por exemplo, f√≥sseis de lib√©lulas de 50 cm e baratas, bom… d√° para imaginar …. Mas por que ser√° que eram t√£o grandes naquela √©poca? Uma coisa que se sabe √© que durante o Carbon√≠fero a atmosfera continha muito mais oxig√™nio do que hoje em dia. Para explicar como uma maior quantidade de O2 influenciou o tamanho dos insetos, h√° duas hip√≥teses: uma diz que com mais oxig√™nio o metabolismo dos insetos poderia suprir corpos maiores; e a outra, que seria uma defesa da fase larval contra o poss√≠vel envenenamento por excesso de oxig√™nio. Baratas com mais de 100 exemplares coletados, denominadas como Anthracoblattina mendesi Pinto & Sedor, foram recentemente encontradas no munic√≠pio de Mafra, Estado de Santa Catarina, em camadas de rochas do Grupo Itarar√© (Permiano). Baratas semelhantes a estas tamb√©m foram comuns na Am√©rica do Norte no mesmo per√≠odo.

Reprodução 3D de um Trigobotarbida devoniano coletado no Rhynie Chert, Escossia, UK . Barra de Escala = 1cm

Embora no Carbonífero existam registros diferentes de insetos voadores, esses ainda não conseguiam dobrar as assas como as borboletas e pernilongos, que vieram a surgir posteriormente, durante a Era Mesozoica.

Enfim, o registro f√≥ssil de insetos √© muito rico e variado. Inclusive sabemos do enorme n√ļmero deles n√£o s√≥ por seus f√≥sseis corporais e ecdises (trocas do exoesqueleto, conhecido popularmente como ‚Äúmuda‚ÄĚ) se n√£o tamb√©m por seus icnof√≥sseis, como mordidas em folhas, galhas, minas, fezes etc. muitas vezes observadas em folhas, frutos e troncos. No Brasil, um dos locais com uma enorme quantidade de registros de insetos √© a Chapada do Araripe, que fica nos estados do Cear√°, Pernambuco e Piau√≠, onde existem fosseis de abelhas, moscas etc. al√©m dos muito conhecidos f√≥sseis de vertebrados e plantas que datam de mais ou menos 110 milh√Ķes de anos atr√°s, no per√≠odo conhecido como Cret√°ceo. Constru√ß√Ķes associadas com insetos sociais j√° foram descritas para o estado de Minas Gerais, em solos f√≥sseis (ou paleossolos) da Forma√ß√£o Mar√≠lia, com idade entre 100 e 72 milh√Ķes de anos atr√°s. Pertinho de Campinas, na Bacia de Taubat√© (datada de aproximadamente 50 milh√Ķes de anos atr√°s) tamb√©m podem ser encontrados f√≥sseis de insetos, mas desta vez, apenas dos vest√≠gios (icnof√≥sseis) que eles deixaram em folhas de angiospermas, e como tem muitos icnof√≥sseis mesmo, essas folhas deviam ser muito gostosas! No Estado de Minas Gerais, na bacia de Fonseca, que tem idade semelhante √† da Bacia Taubat√©, foram registrados mais de 48 esp√©cimes de insetos das ordens Hem√≠ptera, Cole√≥ptera, D√≠ptera, Hymen√≥ptera, Is√≥ptera, entre outros, que demostram a riqueza de insetos que habitavam a regi√£o naquela √©poca.

Outra forma de preserva√ß√£o de insetos dependendo, √© claro, do seu tamanho, √© no √Ęmbar. Eu j√° vi abelhas, pernilongos, borboletas e outros insetos mumificados at√© com as asas abertas dentro de √Ęmbar, dando a impress√£o de que a qualquer momento bateriam as asas.

Voltando aos escorpi√Ķes, os mais antigos que se conhecem datam de 435 Milh√Ķes de anos atr√°s, e j√° eram bastante assustadores com a sua cauda caracter√≠stica terminada em ferr√£o. Agora, chinelos f√≥sseis ainda n√£o foram encontrados… logo podemos deduzir que os dinossauros n√£o conseguiam se livrar facilmente das baratas e outros insetos que voavam ao seu redor.

 

Referências para consulta

Nascimento, D.L.;¬†Batezelli, A.; Ladeira, F.S.B. 2017. First record of lobed trace fossils in Brazil’s Upper Cretaceous paleosols: Rhizoliths or evidence of insects and their social behavior? JOURNAL OF SOUTH AMERICAN EARTH SCIENCES, v. 79, p. 364-376.

Ricetti, J. H. Z.; Schneider,¬† J.W.; Iannuzzi, .R.;¬† Weinsch√ľtz, L.C. 2016. Anthracoblattina mendesi Pinto et Sedor (blattodea, phyloblattidae): the most completely preserved South American Palaeozoic Cockroach I.¬† Rev. bras. paleontol. 19(2):181-194. doi: 10.4072/rbp.2016.2.03

Raoni de Castro Barbosa. 2010. Tafonomia dos Insetos Fósseis da Bacia de Fonseca, Eoceno Paleógeno de Minas Gerais. Trabalho de Conclusão de Curso. (Graduação em Ciências biológicas) РUniversidade Estadual da Paraíba. Orientador: Prof. Dr. Marcio Mendes.

Cole√ß√Ķes de F√≥sseis de A a Z (de Aldrovandi √† Zabini)

Quem nunca trouxe para casa uma pedra bonita no bolso que atire a primeira pedra.

Museu do Palazzo Poggi, Bolonha, mostrando a coleção de História Natural montada por Ulisse Aldrovandi

O h√°bito de ‚Äúcatar pedrinhas‚ÄĚ √© t√£o antigo quanto a humanidade. Nossos ancestrais adoravam carregar pedras bonitas que encontravam pelos motivos os mais diversos: por que era bonita, por que tinha uma forma familiar, por que tinha uma forma estranha…o fato √© que as pedras nos atraem.

Entretanto, se as “pedrinhas” tiverem um formato conhecido, parecendo um animal ou planta, melhor ainda. Desta forma, ficamos ainda mas fascinados por elas. Ficamos olhando, sentindo na m√£o suas texturas, seus formatos, vendo seus brilhos conforme as olhamos contra a luz. Por vezes, levamos a rocha ou o mineral ou o f√≥ssil para o quarto, colocamos na prateleira. Ao acordar, olhamos novamente fascinados. No entanto, isso n√£o vai ficar por a√≠.

Uma nova coleção tem início.

As cole√ß√Ķes de f√≥sseis

Com o tempo, o h√°bito de colecionar estes objetos fascinantes foi se tornando cada vez mais sofisticado. Por outro lado, as cole√ß√Ķes foram ficando cada vez maiores e mais volumosas. N√£o cabiam mais em simples gavetas e prateleiras. Ao final do s√©culo XVI o s√°bio italiano Ulisse Aldrovandi (1522-1605) foi o curador de uma destas grandes cole√ß√Ķes, que ent√£o envolviam esp√©cies animais, vegetais e minerais.

o Filosofo Natural Ulisse Aldrovandi (1522-1605), o criador da palavra Geologia e um dos maiores S√°bios de seu tempo.

Em s√≠ntese, Aldrovandi tinha uma grande cole√ß√£o de Historia Natural. Tinha animais, vegetais e “o reino mineral”, envolvendo o que hoje chamamos de rochas, minerais e f√≥sseis. As gavetas nas quais guardava os esp√©cimes n√£o eram como hoje, separados por tipos de rochas, por minerais e por f√≥sseis. Era tudo misturado, mesmo porque n√£o se tinham claros¬†os processos pelos quais uma rocha se formava.

Naquele tempo, tais cole√ß√Ķes eram chamadas de “cole√ß√Ķes de f√≥sseis”. O conceito de f√≥ssil durante o Renascimento era muito diferente do conceito moderno, conforme j√° tratamos aqui. A palavra f√≥ssil vem do latim ‚Äúfodere‚ÄĚ, que significa escavar. F√≥ssil era tudo que pud√©ssemos escavar, retirar da terra. Tudo que era retirado da terra era f√≥ssil. Solo, pedra, mineral, rocha, f√≥ssil (no sentido moderno).

O Museum Mettalicum

Assim, Aldrovandi publicou um cat√°logo de sua exposi√ß√£o de f√≥sseis. O catalogo era t√£o imenso, o “Museum Metallicum” (folheie suas p√°ginas aqui), que s√≥ foi terminado muitos anos depois da morte de Aldrovandi, em 1648, por seu disc√≠pulo Batholomeu Ambrosinus. Nele, Aldrovandi e Ambrosinus mandaram fazer xilogravuras detalhadas, mostrando as esp√©cies de sua cole√ß√£o.

Frontispício do grande catalogo Museum Metalicum, elaborado por Ulisse Aldrovandi e seu discípulo Ambrosinus.

Em primeiro lugar, atrav√©s de seu estudo, podemos ter uma ideia da concep√ß√£o de mundo de Aldrovandi. Por outro lado, os crit√©rios utilizados na sua cole√ß√£o baseavam-se, como os de hoje, na vis√£o de mundo do colecionador. Para n√≥s, alguns destes crit√©rios podem parecer estranhos ou mesmo n√£o-cient√≠ficos. No entanto, sabemos que Aldrovandi, se n√£o era um moderno cientista – essa palavra s√≥ foi inventada dois s√©culos depois, no s√©culo XIX ‚Äď era um s√°bio, um Fil√≥sofo Natural dos mais importantes.

Aldrovandi e a Geologia

Foi Aldrovandi, inclusive, quem inventou a palavra ‚Äúgeologia‚ÄĚ, num livro que publicou em 1603. Em sua defini√ß√£o, geologia seria o estudo de objetos aflorantes e enterrados‚Äď os f√≥sseis. O uso mais recente da palavra geologia, pr√≥ximo do que utilizamos hoje, foi utilizada a partir do final do seculo XVIII.

Em s√≠ntese, o conceito de rochas e minerais mudou. Minerais s√£o subst√Ęncias org√Ęnicas ou inorg√Ęnicas naturais, com composi√ß√£o qu√≠mica definida e propriedades f√≠sicas que refletem a sua estrutura interna. Desta forma, um cristal de halita (sal gema ou sal de cozinha) tem as mesmas propriedades que as mol√©culas de NaCl. Por outro lado, rochas s√£o definidas como agregados de minerais.

Cristais de Halita, ou sal gema, ou sal de cozinha. Os cristais refletem a estruturação das moléculas de NaCl presentes em sua composição.

F√≥sseis, no sentido moderno, s√£o restos ou marcas¬† de organismos preservados por in√ļmeros processos de litifica√ß√£o. Alguns processos foram discutidos aqui no blog, tanto pela professora Fr√©sia quanto pela professora Carolina. para uma discuss√£o mais abrangente veja aqui.

Dinossauros no IG?

Nesta semana abriu uma exposi√ß√£o sobre dinossauros no Instituto de Geoci√™ncias da Unicamp. Chama-se ‚ÄúDinossauros (?) no IG‚ÄĚ e vai at√© setembro no sagu√£o principal de nosso novo pr√©dio, na rua Carlos Gomes, 250, no campus de Bar√£o Geraldo em Campinas.

A exposição tem a Curadoria da professora Carolina Zabini, nossa companheira de blog. Carolina, que é bióloga de formação e paleontóloga de carreira e coração e blogueira nas horas vagas(!), montou uma exposição muito interessante, que discute vários aspectos destes ainda estranhos monstros.

Detalhe da Exposição Dinossauros no IG, montada por Carolina Zabini

Desta forma, com uma linguagem ágil e muitas caricaturas engraçadas, feitas de maneira competente pelo Claudinei Fernandes de Oliveira, ela aborda diversos aspectos dos dinossauros: seus hábitos, seus diferentes tipos, as suas linhagens evolutivas. Tudo isso é contado pelas caricaturas e por miniaturas muito realistas e bem-feitas, construídas pelo prof. Luiz Anelli, do IG-USP.

Os Dinossauros no espelho humano

Por fim, uma das partes mais interessantes, ao menos para mim, é a parte em que são apresentadas miniaturas de dinossauros mais antigas (!), feitas nos anos 60. Elas mostram seres reptilianos grotescos e bizarros, como quando eu era menino aprendi que eram os grandes dinossauros . Contudo, de lá para cá, aprendemos também que eles podiam ser coloridos, e que muitos deles usavam penas!

Sim, nossa concep√ß√£o de dinossauros muda conforme nossa vis√£o deles, que muda com os avan√ßos da ci√™ncia. Da mesma forma,¬† muda tamb√©m com nossa vis√£o de n√≥s mesmos. Nos in√≠cios da paleontologia, no s√©culo XIX, os dinossauros eram representados como grandes e ferozes bestas. De l√° at√© o “Baby” de Fam√≠lia Dinossauro, muita coisa mudou. Mudaram os dinossauros e mudamos n√≥s.

Um monstruoso Pteranodon em r√©plica dos anos 60; a foto, tamb√©m monstruosa, √© deste blogueiro…

Desta forma, vimos que as cole√ß√Ķes de fosseis mudaram muito, de A √† Z. De Aldrovandi a Zabini. No in√≠cio, eram meros cat√°logos, separando os esp√©cimes segundo crit√©rios os mais diversos. Hoje, as exposi√ß√Ķes tem conceito, linguagem e s√£o cuidadosamente constru√≠das para p√ļblicos espec√≠ficos.

No entanto, uma coisa n√£o mudou: nosso estranho e esquisito h√°bito de colecionar objetos do mundo natural.

PARA SABER MAIS:

Duroselle-Melish, C., & Lines, D. A. (2015). The library of Ulisse Aldrovandi († 1605): acquiring and organizing books in sixteenth-century Bologna. The Library, 16(2), 133-161.

Ogilvie, B. W. (2008). The science of describing: Natural history in Renaissance Europe. University of Chicago Press.

Os r√©pteis do passado… todos dinossauros?

Quando se fala em dinossauro, ou melhor, em paleontologia, qual imagem vem a sua cabeça?

Veja se pensou em alguma destas associa√ß√Ķes/imagens:

Paleontologia e o Indiana Jones

O Paleontólogo Ross (do seriado Friends)

Baby (da família dinossauros)

Piteco e¬†Hor√°cio (da Turma da M√īnica)

Godzilla

Jurassic Park e derivados

E se você tem menos de 30 anos...

Barney the purple dinosaur

Já falamos aqui que a paleontologia é a ciência que estuda a vida pretérita. E essa vida está registrada na forma de fósseis, certo? Então a paleontologia estuda os fósseis.

E os dinossauros?

Posso dizer que essas 3 palavras (paleontologia, fósseis e dinos) normalmente caminham juntas no imaginário popular.

Para a maioria das pessoas os dinossauros s√£o bichos gigantes, “verdes” e com dentes afiados, que caminhavam, voavam e nadavam; isso tudo num passado muito, muito distante. Ser√° isso mesmo?

Montei um questionário bem simples, para entender seu conhecimento sobre fósseis e dinos. Quer participar? Clique aqui antes de continuar a ler o texto.

Se você já respondeu as perguntas, deve ter percebido que:

  • Alguns termos como ‚Äúf√≥sseis‚ÄĚ, ‚Äúrochas‚ÄĚ, ‚Äúminerais‚ÄĚ, e ‚Äúdinossauros‚ÄĚ podem causar certa confus√£o; vamos aos conceitos:
    • Minerais s√£o compostos s√≥lidos homog√™neos e com uma composi√ß√£o qu√≠mica conhecida. Devem apresentar um arranjo ordenado de seus √°tomos.
    • Rochas s√£o conjuntos de mineras e podem ter origem vulc√Ęnica, sedimentar ou metam√≥rfica. As que apresentam f√≥sseis s√£o normalmente sedimentares.
    • F√≥sseis s√£o restos ou vest√≠gios de atividade de vida com mais de 11.000 anos. Normalmente preservados em rochas, mas tamb√©m ocorrem no gelo, √Ęmbar, cinzas vulc√Ęnicas…
    • E os dinos!

Talvez voc√™ tenha ficado em d√ļvida ao escolher algumas das imagens que representam dinos. Todos os organismos representados ali est√£o extintos. Mas isso n√£o significa que todos fazem parte do grupo Dinosauria.

N√£o √© porque se assemelham a r√©pteis que s√£o dinossauros (apesar do termo ‚ÄúDinosauria‚ÄĚ significar lagarto terr√≠vel).

Não é porque os bichos das imagens têm penas que não são dinos. No caso de apresentarem pelagem, tudo bem, aí não são dinos mesmo; são mamíferos.

Dinos viveram muito antes do g√™nero Homo surgir. No m√≠nimo, 63 milh√Ķes de anos antes.

Bom, acho que j√° deu para perceber que nem tudo que √© grande, “verde”, com dentes afiados e esteja representado no registro f√≥ssil, √© dinossauro.

O Rafael já falou um pouco sobre a organização do grupo Dinosauria em outro post. Basicamente a postura deles é que os faz um grupo distinto dos demais répteis que conviviam com eles.

Quais demais r√©pteis existiam ent√£o, voc√™ pode estar se perguntando…? os voadores, como os pterossauros, os nadadores, como os ictiossauros, mosassauros, plesiossauros….(e nenhum deles faz parte do grupo Dinosauria). Apesar de terem convivido, predado, competido com eles por espa√ßos, presas e muito mais. Ent√£o eles compartilharam o tempo e espa√ßo juntos, mas isso n√£o faz com que todos sejam pertencentes ao mesmo grupo. √Č s√≥ olhar para a diversidade de hoje para entender o que estou dizendo. Nem todos os animais que vivem hoje s√£o mam√≠feros. Temos r√©pteis, aves, anf√≠bios, peixes… vivendo ao mesmo tempo (coexistindo), no nosso planeta.

E para completar este post, é com satisfação que convido todos vocês a virem ao IG da UNICAMP para aprenderem um pouco mais sobre esse tema. Trouxemos do IG da USP uma exposição com pequenos bonecos de dinossauros e outros organismos, para explicar a todos um pouco do que estudamos na paleontologia e para compartilhar perguntas divertidas sobre esses animais tão peculiares.

A exposi√ß√£o ‚ÄúDinossauros (?) no IG‚ÄĚ fica aberta de 5 de abril at√© 30 de setembro, no IG, Instituto de Geoci√™ncias, a UNICAMP. Para grupos ou pessoas que queiram visitas guiadas, √© necess√°rio agendamento. Os hor√°rios de funcionamento ser√£o das 9h √†s 17h de segunda √† sexta. Nos dias 7 e 8 de abril (s√°bado e domingo) estaremos recebendo o p√ļblico tamb√©m. Como esta exposi√ß√£o foi realizada em parceria como o Museu Explorat√≥rio de Ci√™ncias da UNICAMP, eles trar√£o atividades como oficinas de escava√ß√£o de f√≥sseis; e a Casa do Lago, ao lado do IG, trar√° atividades culturais concomitantes na manh√£ do dia 8.

A exposição foi pensada para todos. Queremos ver vocês aqui, adquirindo conhecimento científico no lugar onde ele é produzido!

Aproveito este espaço para agradecer!
- ao Prof. Luiz E. Anelli e seu amigo Alexandre Hon√≥rio Dionisio dos Santos pelo empr√©stimo dos materiais que comp√Ķem essa exposi√ß√£o;
- a toda equipe do Museu Exploratório de Ciências da UNICAMP, sem a qual não teria conseguido organizar o evento;
- à empresa Tesla concursos de engenharia que patrocina o evento;
- ao Biólogo Rafael A. Ribeiro, meu orientando de Mestrado, por todo auxílio e paciência em todas as etapas deste projeto!
- a todos os amigos próximos...
:*

Mais informa√ß√Ķes sobre a exposi√ß√£o no facebook,

Ou na agenda de eventos da UNICAMP.

Telefone para agendamento da visita guiada:19 3521-1727.