Arquivo da categoria: Para refletir

O MUSEU, VOCÊ E EU

UMA TRAGEDIA ANUNCIADA

Todos est√£o chocados e boquiabertos com a trag√©dia do Museu Nacional. O inc√™ndio, que durou somente algumas horas, destruiu um patrim√īnio que levou mais de 200 anos para ser juntado. Em termos do valor que se perdeu, como muitos disseram, n√£o h√° como calcular. √Č como se perd√™ssemos a maior parte de nossa mem√≥ria de uma vez, de maneira irrecuper√°vel. Podemos usar os fragmentos, podemos come√ßar tudo de novo a juntar mais mem√≥ria. Mas a que se perdeu, se perdeu.

As chamas consumindo o valiosíssimo acervo do Museu Nacional no Rio

Outros ficam chocados com as condi√ß√Ķes do Museu. Soubemos, pela imprensa, que o Museu Nacional estava sem recursos. Estava sem condi√ß√Ķes de sobreviver, o que fazia de maneira prec√°ria. S√≥ faltava, mesmo, um acidente para acontecer a trag√©dia. E e trag√©dia veio, em sua forma mais cruel, na forma de um inc√™ndio. O inc√™ndio do Museu Nacional √©, sem sombra de d√ļvida, somente mais uma das trag√©dias anunciadas de nossa cultura.

OUTROS INCÊNDIOS

Outros ainda lembram de inc√™ndios recentes que destru√≠ram parte significativa de nosso patrim√īnio cultural: Museu da L√≠ngua Portuguesa (2015), Instituto Butantan (2010), Memorial da Am√©rica Latina (2013) e Cinemateca (2016). Sem contar o inc√™ndio do MAM em 1978, que destruiu boa parte de um acervo riqu√≠ssimo.

Os inc√™ndios s√£o fen√īmenos aleat√≥rios. O que define nossa resili√™ncia a eles √© nossa capacidade de enfrenta-los. O mesmo fogo, num museu com estrutura, n√£o passaria de uma queimadura leve, dessas vermelhid√Ķes de sol na pele. No entanto, nosso descaso e falta de preparo fazem com que qualquer fagulha cause uma trag√©dia de grandes propor√ß√Ķes,

POR QUE OS MUSEUS PEGAM FOGO?

Segundo os especialistas, acidentes nestas institui√ß√Ķes tem como causa defici√™ncia or√ßament√°ria, infraestrutura prec√°ria e equipes de trabalho especializada com numero abaixo do numero ideal. Nossas institui√ß√Ķes de uma forma ou de outra, sempre tem um ou mais desses problemas. Na Unicamp, s√≥ para dar um exemplo, tivemos, uma grande discuss√£o recente sobre estes temas. Embora algumas solu√ß√Ķes provis√≥rias tenham sido alcan√ßadas, a maior parte delas continua sem solu√ß√£o.

Mas o que me deixa mais triste não é a aparente falta de visão dos governantes, O que me deixa mais triste é saber que a falta de visão dos governantes reflete um quadro ainda mais sombrio: vivemos numa sociedade inculta e que não vê um valor na cultura. Por isso, nossos museus são poucos, precários e vazios.

O INCÊNDIO E A REVOLTA

A nossa população não cobra dos governantes cuidado com a memória. Os motivos são os mais diversos, e é claro que a falta de cultura não é um projeto dos explorados, mas dos exploradores. Mas é importante salientar que somos sim, por ação ou omissão, um povo que, por falta de cultura, não se importa em fazer dela um valor. Este círculo vicioso faz com que nossa rica cultura se perca, se esvazie, se deteriore. Ou se queime.

A pesquisadora Aparecida Vilaça escreveu que, ao ver o esqueleto do museu destruído pelas chamas, ela viu a imagem de alguém se imolando, ou seja, alguém que coloca fogo no próprio corpo em protesto. Uma revolta por tantos anos de maus tratos e descaso. As imagens que circularam eram cruéis, mostrando as cenas de desolação causadas pelo fogo.

Quem sabe se a imola√ß√£o do Museu Nacional fa√ßa com que nossa vis√£o sobre os museus, os institutos de pesquisa e arte sejam mais valorizados. Que as pessoas tenham por h√°bito visitar Museus, Exposi√ß√Ķes e Centros de Cultura. E que esse h√°bito possa fazer com que a popula√ß√£o cobre de nossos governantes o respeito que nossa Cultura merece.

OS POL√ćTICOS N√ÉO TEM VIS√ÉO?

Vi tamb√©m que poucos candidatos √† presid√™ncia tem um programa de cultura. Existem candidatos que afirmaram que a trag√©dia ‚Äúagride a identidade nacional‚ÄĚ e disse tamb√©m que ‚Äú√© dever resgatar o compromisso de zelar permanentemente‚ÄĚ pela preserva√ß√£o do patrim√īnio. Mas, quando foi governo, este mesmo candidato deixou estas institui√ß√Ķes √† m√≠ngua.

Outro candidato ainda, quer relegar a Cultura ao status de Secretaria em seu governo. N√£o se pode acusar este candidato, ali√°s bem posicionado nas pesquisas, de incoerente. Em seu programa, realmente, ele n√£o faz qualquer refer√™ncia √† Cultura. Na certa, se algu√©m falar a ele sobre Cultura, ele puxa o rev√≥lver…

A TRAGEDIA DA NOSSA CULTURA

Estes pol√≠ticos dizem essas leviandades porque n√≥s os autorizamos. N√≥s n√£o nos importamos, sejamos francos. N√≥s n√£o valorizamos a nossa pr√≥pria cultura. Por isso, pense sobre o que voc√™ e eu estamos fazendo com a Cultura em nosso pa√≠s. Pense no quanto voc√™ defende isso como uma pol√≠tica, como uma a√ß√£o efetiva. E pense o quanto n√≥s cobramos de nossos governantes a√ß√Ķes efetivas a este respeito. E fa√ßa. Fa√ßamos.

Da mesma forma, v√° a museus, visite exposi√ß√Ķes. Participe de atividades de crowfunding cultural. Valorize quem trabalha com a Cultura. Valorize-se.

Ou queime, inapelavelmente, como todos nós brasileiros nos queimamos, nas chamas da Quinta da Boa Vista.

Não há segunda chance para um povo sem memória.

F√≥sseis e fotografia… fale-me o que voc√™ sabe sobre

Fotografia e fósseis. Tem relação?

CLICK! e pronto, temos uma imagem digital gravada no celular. As resolu√ß√Ķes variam de aparelho para aparelho (o tamanho do sensor faz muita diferen√ßa!); a maioria das pessoas nem pensa mais em imprimir as imagens para montar um √°lbum f√≠sico. Muitos jovens nunca tiveram que esperar para ter seu filme de 36 poses revelado. O mundo digital nos rodeia, n√£o √©? mas isso nem sempre foi assim…

Imaginem a revolução que foi, lá pelo final do séc. XVIII, quando a fotografia (o processo era chamado na época de daguerreotipia) foi inventada.

(PAUSA)

Vamos lá, pegue seu celular e abra seu álbum de fotos. Você fotografa o quê? Acredito que a maioria de nós fotografe momentos que consideramos importantes. Que desejamos que sejam guardados por mais tempo. Possivelmente para contarmos uma história, mesmo que seja só para nós mesmos.

(RETORNO)

O surgimento da fotografia n√£o foi diferente. Seu uso e aplica√ß√£o, na √©poca, teve muita rela√ß√£o com a possibilidade de reproduzirmos a natureza que nos rodeia, de modo fiel. Em coment√°rio sobre a obra de Talbot, primeiro fot√≥grafo a publicar um livro com fotografias, o artigo traz que …“a fotografia de Talbot nos possibilita legar √†s gera√ß√Ķes futuras a luz do sol do passado” (Hacking, 2012).

A luz do sol do passado! Filosófico, não?

História, passado, (re)produção da natureza. Só eu pensei em fósseis?

√Č claro que, hoje, a fotografia possui muitas vertentes e nem sempre √© exatamente, ou tem como este fim, o retrato da realidade (na arte, por exemplo, isso nem sempre √© verdadeiro). Mas imaginem que quando ela foi criada as pessoas se viram maravilhadas com os seguintes fatos:

– ter cole√ß√Ķes de museus guardadas em imagens, e que estas poderiam ser trocadas entre diferentes centros de pesquisa, com fins cient√≠ficos e de divulga√ß√£o;

– ter acesso a estas imagens sem o risco de estragar os exemplares originais de amostras de qualquer coisa que fosse, sendo um cientista ou n√£o.

Isso √© basicamente o que estamos vendo hoje com a revolu√ß√£o das impressoras 3D, n√£o √©? Possibilidades imensas de divulga√ß√£o de acervos de f√≥sseis ou artefatos humanos, por exemplo, antes restritos aos sal√Ķes dos mais renomados museus, e aos olhos de poucos estudiosos. Hoje n√£o basta mais ter duas dimens√Ķes. Agora precisamos ter 3 e sair imprimindo por a√≠ (hehe…). Mas os objetivos s√£o os mesmos!

Sim, fotografia e fósseis andam juntos desde o início dos tempos, ambos contando sua própria história, (re)produzindo a natureza e maravilhando a todos nós!

 

Referência

Hacking, J. Tudo sobre fotografia. Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2012.

O Monstro do Pleistoceno e o filho de Chica da Silva

Uma coisa estranha aconteceu na lavra de ouro do Padre Lopes. Durante as escava√ß√Ķes para retirada do cascalho, come√ßaram a aparecer uns ossos muito grandes. Contudo, t√£o grandes eram os ossos, que os escravos a princ√≠pio acreditaram tratar-se de um grande tronco enterrado. Desta forma, os ossos estavam dif√≠ceis de ser retirados intactos, e foram quebrados com p√°s, picaretas e enxadas. Da mesma forma, come√ßaram a aparecer cabelos e foram achados tamb√©m dois dentes de um animal muito estranho. Seria um monstro?¬†Assustados, os escravos pararam a escava√ß√£o e chamaram o capataz, que tamb√©m ficou assustado com o que viu.

Dentes de mastodonte encontrados em Nova York no século XVIII. Seriam similares aos do Monstro de Prados?

Corria o mês de maio do ano de Nosso Senhor de 1785. Este fato aconteceu na região de Prados, na Comarca do Rio das Mortes. Todavia, os moradores informaram o Governador da Capitania, D. Luís da Cunha Menezes, sobre o achado. Assim, o governador Dom Luiz, tomado de grande curiosidade, enviou ao local um dos seus mais competentes naturalistas, Simão Pires Sardinha. Sardinha esteve na lavra do Padre Lopes e investigou a ossada ainda naquele ano. Depois de analisar a lavra e coletar ossos, dentes e cabelos,  elaborou um relatório (naquela época dizia-se memória) sobre aquele estranho material.

“UNS OSSOS MUITO ESTRANHOS”

Esta mem√≥ria intitulou-se ‚ÄúDescrip√ß√£o de huns Ossos n√£o conhecidos, que apparecerao em Mayo de 1785 na Cappitania de Minas Geraes do Estado do Brazil‚ÄĚ. ¬†Foi enviado a Portugal possivelmente junto com os materiais coletados. S√£o conhecidas duas c√≥pias da Mem√≥ria de Sim√£o Pires Sardinha. A primeira est√° no Arquivo Hist√≥rico Ultramarino de Lisboa. A segunda, no Arquivo Hist√≥rico do Museu Bocage/Museu Nacional de Hist√≥ria Natural da Universidade de Lisboa. J√° os materiais coletados foram extraviados, e n√£o se tem ideia onde estejam atualmente. Mais informa√ß√Ķes pode ser encontradas no interessante artigo de Ant√īnio Carlos Fernandes e colaboradores (aqui).

Pelo tamanho dos ossos encontrados, Sardinha estima que o animal deveria ter algo entre 46 e 56 palmos de comprimento (cerca de 10 a 12 m). Assim, Descreve tamb√©m dois dentes encontrados no s√≠tio de Prados: ‚ÄúEstes dentes n√£o s√£o de animal conhecido no Brasil, pode ser que sejam de algum animal, que pelas revolu√ß√Ķes do tempo se tenha perdido a sua esp√©cie‚ÄĚ. Os cabelos, segundo sua descri√ß√£o, pareciam de seres humanos. Como estes materiais foram encontrados juntamente com res√≠duos de esp√©cies recentes, como jacarand√° e pinheiro do Brasil, levam Sardinha a concluir que se tratava de um ser humano de extraordin√°ria dimens√£o, um ‚Äúgigante de quarenta palmos em raz√£o dos dentes pela boa osteologia‚ÄĚ.

Sup√Ķe-se que o ‚Äúgigante‚ÄĚ de Sim√£o Pires Sardinha, tamb√©m conhecido como ‚ÄúO Monstro de Prados‚ÄĚ, era provavelmente um mastodonte (para uma discuss√£o contempor√Ęnea: aqui). Para Sardinha, naquela √©poca e naquelas circunst√Ęncias, qualquer solu√ß√£o diferente era muito dif√≠cil (para saber como √© hoje: ver aqui).

O REI MASTODONTE

Uma ossada de mastodonte encontrada no s√©culo XVII ¬†num dep√≥sito de cascalho na Fran√ßa foi durante muitos anos descrita como a ossada do ‚ÄúRei gigante‚ÄĚ Theotobhucus, antigo rei dos povos germ√Ęnicos. Outra ossada, descoberta em 1705 nos aluvi√Ķes do rio Hudson, no estado de Nova Iorque foi durante descrita na √©poca como o ‚ÄúGigante de Claverack‚ÄĚ, nome da localidade onde foi achado (¬†ver aqui ).

Os Gigantes descritos por Athanasius Kircher no “Mundus Subterraneus” (1678)
Os Gigantes descritos por Atanasius Kircher no “Mundus Subterraneus” (1678)

Havia, na √©poca, uma cren√ßa de que a Terra era uma ru√≠na, lugar deca√≠do e sem for√ßas. Na sua inf√Ęncia, antes do Diluvio universal, a terra chegara a ser habitada por gigantes, como havia mostrado Athanasius Kircher (1601-1680), Jesu√≠ta e um das maiores estudiosos de Hist√≥ria Natural de seu tempo. Os grandes esqueletos achados sob os aluvi√Ķes supostamente pertenciam a estes gigantes antediluvianos. Outra explica√ß√£o para esqueletos de elefantes era que pertenciam a animais que vieram da √Āfrica com An√≠bal e outros conquistadores.

A solu√ß√£o para o problema de Sardinha veio dez anos depois que ele escreveu sua Mem√≥ria. Em 1¬ļ Pluviose do 4¬ļAno da Revolu√ß√£o Francesa (26 de janeiro de 1796) Georges Cuvier leu na sess√£o do Instituto Nacional de Ci√™ncias e artes de Paris uma mem√≥ria que dava uma outra solu√ß√£o para o problema.

A mem√≥ria de Cuvier intitulava-se ‚ÄúM√©moire sur les esp√©ces d’√Člephants tant vivents que fossiles‚ÄĚ [Mem√≥ria sobre esp√©cies de elefantes tanto vivas quanto extintas]. Nele, Cuvier explica que o mamute era uma esp√©cie distinta do moderno elefante. Distinta e extinta. E come√ßa a surgir a Paleontologia de vertebrados como conhecemos hoje.

Geroges Cuvier, Paleontólogo Francês (1769-1832) e seus desenhos de mandíbulas de mamute (acima) e de elefante moderno (abaixo)
O INICIO DA PALEONTOLOGIA NO BRASIL

Boa parte dos escritos sobre a história da Paleontologia de vertebrados no Brasil está ainda focada somente em escritos de Naturalistas estrangeiros, após a chegada da família real em 1808. No entanto, estes relatos ignoram uma realidade muito rica e interessante, que é o desenvolvimento das ciências no Império Português sob o impulso das reformas de Pombal.

A segunda metade do s√©culo XVIII foi marcado por um grande esfor√ßo cientifico por parte dos naturalistas do imp√©rio portugu√™s (para saber mais: aqui) . Muitos destes naturalistas eram nascidos no Brasil. O mais famoso deles, √©, sem d√ļvida, Jos√© Bonif√°cio. No entanto, existem outros, muitos outros, que merecem ser lembrados. Um deles, por sua singularidade e por sua hist√≥ria de vida, merece particularmente ser lembrado: Sim√£o Pires Sardinha.

O FILHO ALFORRIADO

Simão Pires Sardinha nasceu escravo, em 1751. Seu pai, o comerciante português Manoel Pires Sardinha somente libertou o menino que teve com a escrava Francisca Parda na pia batismal, como era o costume na época. Entretanto, pouco tempo depois, sua mãe foi vendida para outro comerciante português, João Fernandes de Oliveira.

Jo√£o Fernandes logo alforriou Francisca e passou a viver maritalmente com ela. A escrava Francisca Parda passou ent√£o a se chamar Francisca da Silva e Oliveira, nome com que se assinava. Para a hist√≥ria, ela hoje √© conhecida como Chica da Silva, a ‚ÄúChica que manda‚ÄĚ, uma das grandes senhoras do Distrito Diamantino no s√©culo XVIII. O casal teve 13 filhos, sem contar o pequeno Sim√£o.

A casa de Francisca da Silva, a Chica da Silva, em Diamantina (MG). Nesta casa Sim√£o Pires Sardinha viveu sua inf√Ęncia.

Tendo recebido a heran√ßa paterna, Sim√£o foi com o padrasto Jo√£o Fernandes para a Europa. Graduou-se em artes em Coimbra. Foi cavaleiro da ordem de Cristo, a mais alta distin√ß√£o concedida pelo reino para n√£o-nobres. Para isso, teve que forjar o inqu√©rito ao omitir o fato de sua m√£e ter sido escrava. Na sociedade aristocr√°tica da √©poca, origens ‚Äúnobres‚ÄĚ eram o requisito para ser aceito. O dinheiro, que Sim√£o possu√≠a, era a outra.

SIMÃO PIRES SARDINHA E A POLITICA NO BRASIL

Voltou ao Brasil com o governador Lu√≠s da Cunha Menezes, por quem tinha grande admira√ß√£o. No entanto, viver num pais de analfabetos fazia com que os escassos letrados que aqui viviam tivessem que ocupar muitas fun√ß√Ķes diferentes. Desta forma, al√©m da ocorr√™ncia de Prados, Sim√£o Sardinha foi tamb√©m respons√°vel pela captura do ex-Intendente dos Diamantes, Jos√© Ant√īnio Meireles, o Cabe√ßa de Ferro. Contudo, o Cabe√ßa de Ferro fugia para Portugal com ouro supostamente roubado da administra√ß√£o, e foi preso por Sardinha antes de chegar ao Rio. Assim, com tantas e disparatadas atividades, muitas carreiras cientificas podiam ser facilmente desviadas para as necessidades da burocracia estatal. Esta foi nossa realidade durante muito tempo ainda.

Sardinha teve ainda participação na Inconfidência Mineira. Ao que tudo indica, Simão Pires Sardinha compartilhava dos ideais iluministas, embora soubesse jogar o jogo do Portugal aristocrático e absolutista. Desta forma, de volta a Portugal, contou no inquérito a que foi submetido ter sido procurado pelo alferes Joaquim José da Silva Xavier. O Tiradentes procurou Sardinha para que este traduzisse para o alferes um texto da Constituição Americana. Texto subversivo, por certo. No entanto, Simão não sofreu nenhuma condenação e continuou vivendo em Portugal. Assim,  graças a sua amizade com D. João VI, conseguiu ajudar seus meios-irmãos que ficaram no Brasil.

CIÊNCIA NA AMERICA PORTUGUESA?

Sim√£o Pires Sardinha morreu em Portugal em 1808. Ironicamente, segundo muitos historiadores da ci√™ncia, foi a partir deste ano que come√ßou a Ci√™ncia no Brasil. Contudo, a Mem√≥ria de Sardinha demostra que n√£o. O fato √© que a Mem√≥ria do Monstro de Prados √© o mais antigo documento que trata do tema Paleontologia em territ√≥rio brasileiro. √Č nossa certid√£o de nascimento.

Entretanto, a descrição de Simão Pires Sardinha está de acordo com o conhecimento da época. Sua trajetória de vida indicam as dificuldades para se ter uma carreira em ciências no Brasil. Contudo, se era difícil no império Luso-americano dos setecentos, continua difícil ainda hoje, no Brasil do século XXI ( veja e chore aqui) ). Um tema moderno no pais de Temer.

A trajetória pessoal de Sardinha liga a Paleontologia dos Vertebrados à Chica da Silva. Não é para qualquer um.

Para saber mais:

Furtado, J√ļnia Ferreira.¬†Chica da Silva e o contratador dos diamantes: o outro lado do mito. Editora Companhia das Letras, 2003.

Semonin, Paul.¬†American monster: How the nation’s first prehistoric creature became a symbol of national identity. NYU Press, 2000.

Rudwick, Martin JS. The meaning of fossils: episodes in the history of palaeontology. University of Chicago Press, 2008.

HIST√ďRIA DO PETR√ďLEO NO BRASIL

Capa do Livro “o petr√≥leo no Brasil: Explora√ß√£o, Capacita√ß√£o T√©cnica e¬†Ensino de Geoci√™ncias (1864-1968)”

A hist√≥ria do petr√≥leo no Brasil ganha mais um capitulo. J√° n√£o era sem tempo, uma vez que a import√Ęncia e a atualidade do tema assim o exigia. Assim, para se entender a Historia do Petr√≥leo no Brasil, √© interessante entender alguns aspectos essenciais. Uma caracter√≠stica marcante da busca por petr√≥leo foi a insist√™ncia num caminho nacional.

No entanto, a maioria dos textos sobre o assunto abordam a hist√≥ria do petr√≥leo a partir de pontos de vista pol√≠ticos ou econ√īmicos. Explorar o petr√≥leo no Brasil sempre foi, √© claro, achar √≥leo. Mas, tamb√©m, significou formar recursos humanos. E foi a busca pelo Petr√≥leo que forjou a comunidade Geocient√≠fica brasileira.

UMA OBRA BEM VINDA

Por todos estes motivos, √© de extrema import√Ęncia para a hist√≥ria do petr√≥leo no Brasil o recente livro da pesquisadora Drielli Peyerl. Intitula-se ‚ÄúO Petr√≥leo no Brasil: explora√ß√£o, capacita√ß√£o t√©cnica e ensino de Geoci√™ncias (1864 ‚Äď 1968) (mais informa√ß√Ķes aqui). Trata-se de uma produ√ß√£o acad√™mica com um tema interessante e uma linguagem acess√≠vel, o que n√£o √© pouco.

Este livro foi um doutorado defendido no programa de Ensino e História de Ciências da Terra (UNICAMP). Orientada pela Prof.ª Dr.ª Sílvia Figueiroa, Drielli fez sua busca em arquivos do Brasil, do México e dos Estados Unidos. Um dos arquivos mais interessantes, entretanto, estava perto.

Foi o arquivo da Cole√ß√£o Frederico Waldemar Lange, depositada na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Neste arquivo ¬†Drielli fez seu mestrado, intitulado ‚ÄúA trajet√≥ria do paleont√≥logo Frederico Waldemar Lange (1911-1988) e a Hist√≥ria das Geoci√™ncias‚ÄĚ (2010), orientada pelo paleont√≥logo Elvio Bosetti (para ver mais, clique aqui). Al√©m de Lange, surge nesta pesquisa um personagem tamb√©m muito interessante, o ge√≥logo Americano Walter Link (1902-1982). Falaremos dele mais adiante.

Uma História do Petroleo

O primeiro cap√≠tulo do livro de Drielli, intitulado ‚ÄúSurge o Petr√≥leo‚ÄĚ, trata do in√≠cio da pesquisa de petr√≥leo no Brasil. Com o uso de diversas fontes hist√≥ricas, Drielli consegue chegar at√© 1864, quando √© publicado o decreto que cita pela primeira vez a palavra petr√≥leo na legisla√ß√£o brasileira.

A partir de ent√£o, a autora mostra como o petr√≥leo vai se tornando cada vez mais importante na discuss√£o nacional. A partir deste in√≠cio um tanto t√≠mido, o tema petr√≥leo retorna √† legisla√ß√£o na transi√ß√£o do Imp√©rio para a Rep√ļblica. Contudo, no in√≠cio, as iniciativas de busca pelo petr√≥leo s√£o de particulares. Entretanto, a partir dos anos 1920, o governo brasileiro come√ßa a participar mais ativamente da pesquisa de petr√≥leo em todo o territ√≥rio nacional.

O primeiro poço de Petróleo perfurado no Brasil (Bofete, SP)
O Conselho Nacional do Petróleo

No entanto, somente no final dos anos 1930, j√° no Estado Novo, √© que o tema passa a um novo patamar, coma cria√ß√£o do Conselho nacional do Petr√≥leo (CNP). √Č este conselho que passa a dirigir a pesquisa, at√© a primeira ocorr√™ncia na Bahia em 1939. Descoberto o petr√≥leo, havia uma grande d√ļvida: como explora-lo?

No segundo cap√≠tulo, denominado ‚ÄúA Forma√ß√£o do Know-How (1938-1961)‚ÄĚ Drielli trata da quest√£o da contrata√ß√£o de t√©cnicos estrangeiros para este servi√ßo, o que n√£o era visto com bons olhos no Brasil da √©poca. A explora√ß√£o deveria ser feita ¬†pelo estado, como defendiam os nacionalistas? Ou pelas empresas estrangeiras com controle a partir do estado, como defendiam os liberais?

Foi um debate importante, tendo como pano de fundo a campanha ‚ÄúO Petr√≥leo √Č Nosso‚ÄĚ, que culminou, em 1953, com a cria√ß√£o da Petrobras. Desta forma, no final deste segundo capitulo, s√£o utilizadas diversas fontes dos arquivos de Lange, mostrando contudo alguns aspectos interessante sobre como estava se dando a explora√ß√£o de petr√≥leo nos anos 50 e 60.

Walter Link e a Petrobr√°s

Aqui surge a figura de Walter Link, geólogo norte americano, chefe de Exploração da Petrobras de 1955 a 1961. Trata-se de um dos personagens-chave da História do petróleo no Brasil.  Mr Link redigiu, em 1961, um relatório bastante detalhado, onde fala das dificuldades de encontrar o petróleo brasileiro em terra.

Link sugere, com base nos conhecimentos da √©poca, que se deveria tentar buscar petr√≥leo no mar. Contudo, as cr√≠ticas ao Relat√≥rio Link foram muito grandes. Sobretudo as esquerdas eram as maiores advers√°rias do ge√≥logo norte-americano. Sem compreender a dimens√£o do problema, acusavam Mr Link de derrotista, ou de atender interesses estrangeiros (mais informa√ß√Ķes aqui).

Como se sabe, foi seguindo as pistas deixadas por Link que a Petrobras foi ao mar e descobriu sua verdadeira vocação. Contudo,  isso é outra história.

O geólogo norte americano -Walter Link (1902-1982), Diretor de Exploração da Petrobras (1955-1961)
Surge a Petrobr√°s

O terceiro cap√≠tulo, intitulado ‚ÄúAperfei√ßoamento, Profissionaliza√ß√£o e o Ensino de Geoci√™ncias (1955-1968) ‚ÄĚ trata das primeiras tentativas de forma√ß√£o de t√©cnicos brasileiros. Inicialmente, foi a partir dos diversos cursos de forma√ß√£o de t√©cnicos do petr√≥leo, como o Setor de Supervis√£o do Aperfei√ßoamento T√©cnico (SSAT), da cria√ß√£o do Centro de Aperfei√ßoamento de Pesquisas do Petr√≥leo (CENAP, atual CENPES), assim como os diversos cursos de forma√ß√£o de engenheiros e t√©cnicos de petr√≥leo. Em 1957, surge a Campanha de forma√ß√£o de Ge√≥logos (CAGE). Assim, a partir da CAGE, √© que surgem os primeiros cursos de geologia no Brasil.

O livro busca entender as principais políticas do país em relação a um bem tão decisivo e importante como o petróleo. Inicialmente, a pesquisa e exploração surge nas mãos de particulares. Depois, é o estado que promove a busca pelo petróleo, contra toda esperança. Entretanto, os indícios geológicos de ocorrência de petróleo no Brasil nesta época eram os mais escassos possíveis.

O Petróleo é nosso?

No entanto, tamb√©m √© importante ver como √© o petr√≥leo que tem a capacidade de mobilizar a sociedade. √Č no surgimento de novas institui√ß√Ķes cientificas e tecnol√≥gicas que foi gestada a atual comunidade geol√≥gica brasileira. A geologia brasileira surge deste estado de permanente atra√ß√£o e repuls√£o entre a comunidade geol√≥gica e a Petrobras. Todos n√≥s surgimos deste processo, a partir da segunda metade do s√©culo XX.

Entender a história do petróleo no Brasil através do texto de Drielli Peyerl é uma fascinante jornada para compreendermos os percursos e os percalços das Geociências em nosso país.

Leitura obrigatória.

Mais leituras a partir desta:

PEYERL, Drielli;¬†FIGUEIR√ĒA, Silvia F. de M.¬†. ‘Black Gold’: Discussions on the origin, exploratory techniques, and uses of petroleum in Brazil. Oil-Industry History, v. 17, p. 98-109, 2016.

PEYERL, Drielli;¬†FIGUEIR√ĒA, Silvia F. de M.¬†. ‘A Petrobras prepara seu pessoal t√©cnico’ – 1950 – 1970. Brazilian Geographical Journal, v. 3, p. 363-374-374, 2012.

 

O QUE √Č UM F√ďSSIL?

Você sabe o que é um fóssil?

Se nos perguntassem hoje o que significa a palavra f√≥ssil, a resposta seria mais do que √≥bvia. Contudo, uma r√°pida olhadinha no Google e logo saberemos, por meio de diversos sites, que f√≥sseis s√£o restos ou vest√≠gios de organismos vivos, que foram preservados no interior dos sedimentos e das rochas. Entretanto, os cinemas, filmes de aventura como ‚ÄúJurassic Park‚ÄĚ ou anima√ß√Ķes como ‚ÄúA Era do Gelo‚ÄĚ sempre nos colocam em contato direto com essas fant√°sticas criaturas que viveram tempos atr√°s. Lojas de brinquedo nos oferecem f√≥sseis para colorir, para montar, para pregar na parede. Existe inclusive uma rede de lojas com este nome, que vende ‚Äúrel√≥gios e estilo de vida‚ÄĚ. Assim, os f√≥sseis est√£o em nossas mentes, em nossas casas e em nossas vidas t√£o naturalmente que nos fazem pensar que foi sempre assim.

Na verdade, se fosse perguntado aos s√°bios do passado, eles sequer iriam entender nossa pergunta. Contudo, n√£o faria nenhum sentido para eles essa hist√≥ria de f√≥ssil, de organismo extinto, nada disso. Por outro lado, nem mesmo o nome ‚Äúf√≥ssil‚ÄĚ faria sentido. O que hoje chamamos de f√≥ssil era chamado de ‚Äúrochas com forma de animais‚ÄĚ, ‚Äúmadeiras petrificadas‚ÄĚ, ou qualquer outra coisa. Mesmo a palavra f√≥ssil teria outro significado, significando coisa escavada, desenterrada. √Č essa a acep√ß√£o do latim ‚Äúfossile‚ÄĚ. No s√©culo XVI, por exemplo, qualquer coisa desencavada da terra, como rochas e minerais, seriam ‚Äúf√≥sseis‚ÄĚ.

O m√©dico Georg Bauer (1494-1555), tamb√©m conhecido pelo nome latinizado de Georgius Agr√≠cola, era de fato um dos maiores especialistas de seu tempo em assuntos do reino mineral. ¬†Agr√≠cola viveu na rica prov√≠ncia mineira da Sax√īnia, e escreveu v√°rios livros sobre rochas minerais. Ali√°s, um estes livros, publicado em 1546, chamava-se justamente ‚ÄúDe Nature Fossilium‚ÄĚ, que poder√≠amos traduzir como ‚ÄúDa Natureza das Rochas e Minerais‚ÄĚ. As cole√ß√Ķes de materiais que ele denomina f√≥sseis cont√©m ‚Äúpedras, terras, gemas, betume, √Ęmbar‚ÄĚ. As ‚Äúrochas com forma de animais e de plantas‚ÄĚ, como se dizia nesta √©poca, eram somente mais um item destes materiais. Eram, entretanto, objeto de mera curiosidade.

Antes ainda, na Idade Média, vamos encontrar usos diversos para os fósseis. Algumas igrejas, como a Igreja de São Pedro em Linkeliholt, na Inglaterra, por exemplo, foi decorada com fósseis de equinoides (veja a figura abaixo).  Por outro lado, os fósseis tinham também uma função decorativa, devido ao seu formato regular e simétrico. Desta forma, desde o neolítico até tempos históricos, foram encontrados jazigos humanos de diversas idades, onde os fósseis estão junto com os cadáveres ali enterrados. Isto pode sugerir que foram usados como objetos rituais e mágicos ou talismãs.

Pórtico da igreja de São Pedro em Linkeliholt, Inglaterra, decorada com 25 fósseis de equinodermos; (ver aqui)

Tumba de mulher e criança da idade do Bronze em Dunstable Towns, Inglaterra, circundada por fósseis de equinoides. Desenho de Reginald Smith, 1894. ( Ver aqui)

 

 

 

Falando em usos religiosos dos f√≥sseis, vale a pena comentar, entretanto, alguns exemplos. Primeiramente, podemos citar os amonitas, moluscos que viveram desde o Devoniano at√© o Cret√°ceo. Para come√ßar, estes moluscos devem seu nome a seu formato elegantemente espiralado, assemelhando-se a chifres das cabras. Por causa desta semelhan√ßa, segundo Pl√≠nio o velho, o nome amonitas se deve √† sua denomina√ß√£o como ‚Äúos cornos de Amon‚ÄĚ, o deus eg√≠pcio que tinha chifre de cabra. Na √ćndia, alguns f√≥sseis de amonitas, como o Meekoceras varaha, encontrado no Tri√°ssico do Himalaia Central, √© tido como um dos Chakras de Vishnu. Ali√°s, varaha, o nome da esp√©cie, √© um dos avatars de Vishnu na Mitologia do Hinduismo. Alias, Carolina Zabini tamb√©m discutiu muito bem em outro post deste blog a origem dos drag√Ķes e a paleontologia (ver aqui).

O Chakra de Vishnu e o amonite como objeto religioso na √ćndia; (¬†ver aqui )

Como isso tudo mudou? Como chegamos at√© aqui? A moderna concep√ß√£o de ‚Äúf√≥ssil‚ÄĚ como restos de organismos √© bastante recente, de meados do s√©culo XVIII. Por outro lado, esta mudan√ßa no conceito de f√≥ssil e a compreens√£o dos fosseis como organismos e n√£o como curiosidades ou talism√£s est√° no discurso de funda√ß√£o das ci√™ncias naturais modernas. Isso n√£o √© pouco.

Figurinhas carimbadas da Hist√≥ria da Ci√™ncia tiveram um papel decisivo nesse debate, como Steno, Palissy, Cuvier e outros. Mas n√£o s√≥. Mesmo an√īnimos colecionadores e vendedores de f√≥sseis tiveram um papel importante. Por exemplo,¬† a brit√Ęnica Mary Anning (1799-1847), foi uma das mais respeitadas colecionadoras de f√≥sseis do s√©culo XIX. Por outro lado, um humilde top√≥grafo ingl√™s, William Smith (1769-1839), reconheceu a distribui√ß√£o dos fosseis nas camadas ao longo dos canais constru√≠dos na Inglaterra no s√©culo XVIII para o transporte de carv√£o. Como resultado, criou as bases da estratigrafia moderna.

Em conclusão, Essas são algumas peças do debate sobre os fósseis que veremos por aqui. Os fósseis dizem muito também sobre nós, e não só os fósseis de hominídeos. De onde viemos? Para onde vamos? Esses pálidos restos escondidos nas pedras têm muito a nos contar, enquanto esperamos pelo próximo meteoro.

 

Para saber mais:

Chandrasekharam, D. (2007). Geo-mythology of India. Geological Society, London, Special Publications, 273(1), 29-37.

McNamara, K. J. (2007). Shepherds’ crowns, fairy loaves and thunderstones: the mythology of fossil echinoids in England.¬†Geological Society, London, Special Publications,¬†273(1), 279-294.

Georg Agricola. (1955). De Natura Fossilium (Textbook of Mineralogy): Translated from the First Latin Ed. of 1546 by Mark Chance Bandy and Jean A. Bandy for the Mineralogical Society of America (No. 63). Geological Society of America, pc1955.

Grandes Extin√ß√Ķes: um dia da ca√ßa, outro do ca√ßador

 

Algumas das mas famosas vitimas das extin√ß√Ķes, trilobitas, ammoide, nautiloide reto e bivalve.

Extin√ß√£o √© para sempre, como casar pela igreja … mas no √ļltimo caso, os interessados combinam a hora, dia, m√™s e ano. Mas no caso das extin√ß√Ķes, o processo precisa da conjun√ß√£o de v√°rios fatores e os principais envolvidos … bom… n√£o est√£o assim muito felizes!

O que define uma extin√ß√£o em massa? Pelo geral, o desaparecimento de pelo menos 50% das esp√©cies continentais e marinhas conhecidas, deve se tratar de um evento cosmopolita e pode acontecer somente num pulso ou em v√°rios est√°gios. N√≥s estamos aqui gra√ßas √† √ļltima das extin√ß√Ķes em massa, que aconteceu h√° 66 Ma e os nichos diurnos ficaram dispon√≠veis aos mam√≠feros at√© ent√£o mais restritos √† noite.

Nos √ļltimos 540 Ma da hist√≥ria da vida no nosso planeta acredita-se, por enquanto, que aconteceram pelo menos cinco extin√ß√Ķes em massa e 15 intervalos de extin√ß√Ķes menores. Ent√£o extin√ß√Ķes n√£o s√£o fatos isolados na hist√≥ria da vida! As cinco maiores aconteceram, da mais antiga √† mais recente, na seguinte ordem:

Рpróxima do limite entre os períodos Ordoviciano-Siluriano (443 Ma). Nesse evento, segundo evidências do registro fóssil, desapareceram 85% da fauna marinha (ainda não existia vida nos continentes) especialmente invertebrados (trilobitas, graptozoários, braquiópodes, moluscos, etc.);

Рfinal do período Devoniano (359 Ma). Aqui, 75% da vida desaparece, incluindo formas de vida marinhas e continentais;

– limite entre as eras Paleozoica e Mesozoica ou extin√ß√£o do Permiano-Tri√°ssico (240 Ma). Tamb√©m conhecida como m√£e de todas as extin√ß√Ķes, pois com ela 95% de todas das formas de vida desaparecem (entre eles muitos invertebrados como corais, crinoides, al√©m de vegetais etc.). Contudo, o evento foi menos severo para os tetr√°podes e como consequ√™ncia os amniotas vir√£o se tornar dominantes;

– pr√≥xima do limite Tri√°ssico- Jur√°ssico. Acredita-se que foram v√°rios pulsos de extin√ß√Ķes que transcorrem durante 18 Ma;

– e por fim, o √ļltimo grande evento de extin√ß√£o aconteceu no limite entre as eras Mesozoica e Cenozoica, mais conhecido como extin√ß√£o do Cret√°ceo-Pale√≥geno. Neste evento 70% da vida se extinguiu.

O que produz um evento de extin√ß√Ķes em massa? Existem v√°rias causas, entre elas vulcanismo, impacto de asteroides, mudan√ßas clim√°ticas dr√°sticas, deriva continental, anoxia (falta de oxig√™nio) generalizada nos mares, ou todas elas juntas. Como atuam essas causas? Podemos tomar como exemplo a extin√ß√£o do Cret√°ceo-Pale√≥geno, que teve como causa culminante a queda de um asteroide. Pelas evid√™ncias, quando o asteroide atingiu o planeta foi liberada uma energia equivalente a 10 bilh√Ķes de bombas como a de Hiroshima. O local da queda √© hoje conhecido como a cratera de Chicxulub e fica no golfo de Yucatan, M√©xico. A cratera tem aproximadamente 200 km de di√Ęmetro e uma profundidade de 30 km, pelo que se calcula que o asteroide teria ao redor de 15 km de di√Ęmetro. Hoje em dia, a cratera na sua maior parte se encontra emersa e recoberta por mais de 600 m de sedimentos. A por√ß√£o que se encontra em terra est√° recoberta por rocha calc√°ria, mas seu contorno ainda pode ser devidamente tra√ßado.

No final do Cret√°ceo o local da queda era ocupado por um mar pouco profundo e quente, rico em recifes de corais, no qual ocorria a deposi√ß√£o de evaporitos como o gesso ‚Äď gipsita, Ca(SO4) ‚Äď rico em sulfeto. Como consequ√™ncia da queda, as √°guas desse mar foram vaporizadas e em consequ√™ncia, toneladas de enxofre foram para a atmosfera, propiciando chuva √°cida ao redor do planeta. Como se fosse pouco, com a libera√ß√£o de semelhantes quantidades de energia tamb√©m surgiram grandes ondas (tsunamis), cujos registros s√£o atualmente encontrados em locais distantes como a costa da Venezuela. Al√©m do impacto desse asteroide, o final do Cret√°ceo tamb√©m foi marcado por intensas erup√ß√Ķes vulc√Ęnicas na √ćndia as quais se calcula que tenham liberado de 100 a 1.000 bilh√Ķes de toneladas de cinzas, que perduraram de 100 a 1.000 anos na atmosfera superior. Tamb√©m a separa√ß√£o entre a √Āfrica e a Am√©rica do Sul trouxe a abertura do oceano Atl√Ęntico Sul teve como consequ√™ncia a queda no n√≠vel dos mares e, por consequ√™ncia, uma mudan√ßa nas correntes oce√Ęnicas com a queda das temperaturas. Assim, a soma desses fatores ‚Äúfavoreceu‚ÄĚ a extin√ß√£o em massa.

No evento do Pint of Science

Minha palestra no evento Pint of Science –¬†Campinas no dia 16/05/2017 foi relativa a esse tema.¬†Obrigada por me convidar foi √≥timo.

20 de novembro e a Origem dos Hominídeos

Domingo passado foi o Dia da Consciência Negra, 20 de Novembro. Neste dia, além de ser relembrada a morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares e símbolo da luta contra a escravidão dos negros no Brasil, também é o dia de refletirmos o valor da cultura do povo africano no país e seus legados. Eu estava procurando algum tema para escrever para o blog quando, a partir de uma reflexão a respeito de alguns questionamentos por parte de pessoas quanto a manutenção ou não desta data como feriado, me fez chegar à conclusão de que seria oportuno e ideal aproveitar para escrever sobre algo muito importante: a Evolução dos Hominídeos e o quanto o racismo pesou na pesquisa científica a respeito.

Uma breve história da evolução dos hominídios

Ao contr√°rio do que o senso comum tende a levarmos a crer, a hist√≥ria evolutiva humana n√£o segue uma evolu√ß√£o linear, partindo de um primata ancestral e chegando no ser humano atual. Muitas descobertas f√≥sseis revelaram que v√°rias esp√©cies de homin√≠deos tiveram sua origem e chegaram a coexistir. √Č estimado que entre 6 a 8 milh√Ķes de anos atr√°s surgiram os primeiros homin√≠deos, grupo geral a qual as esp√©cies que divergiram dos macacos se encontram. Os mais antigos homin√≠deos pertencem ao g√™nero Ardipithecus, grupo ainda muito semelhante aos macacos, principalmente com rela√ß√£o √† postura n√£o ereta. Em seguida, surgiram os Australopithecus aferensis, esp√©cie a qual pertence a famosa Lucy, o f√≥ssil mais completo e bem preservado j√° encontrado at√© agora. As esp√©cies pertencentes ao g√™nero Australopitecus, em compara√ß√£o com os Ardipithecus, possu√≠am a postura mais ereta e a caixa craniana um pouco maior. Seguindo estas modifica√ß√Ķes fenot√≠picas, segue o g√™nero Homo, sendo a esp√©cie mais antiga a Homo habilis, da qual, sim, linearmente se seguiu at√© chegar a n√≥s diretamente (ou seja, s√£o nossos ancestrais diretos). O Homo habilis, de cerca de 2,5 milh√Ķes de anos atr√°s, alcan√ßou dois grandes feitos para a linhagem: o uso de ferramentas e a conquista de novos continentes (foi o primeiro que saiu da √Āfrica). Seu sucessor, o Homo erectus, de sobrecenho mais protuberante e cr√Ęnio menor do que o atual, j√° possu√≠a maior habilidade manual, trabalhava com utens√≠lios utilizando o que encontrava na natureza, fazia uso do fogo e alcan√ßou continentes como √Āsia e Europa. Estudos revelaram a coexist√™ncia entre o Homo habilis e o Homo erectus. Mais para o final do Pleistoceno, surgiram os Homo neanderthalensis, os neandertais, cujas caracter√≠sticas f√≠sicas se aproximavam ainda mais do homem atual, por√©m ainda possu√≠am membros mais curtos e sobrecenho protuberante. Os Homo sapiens surgiram na √Āfrica e logo alcan√ßaram a Europa e a √Āsia, e quando foi poss√≠vel atrav√©s da diminui√ß√£o do n√≠vel do mar, atravessaram o estreito de Bering e alcan√ßaram o continente americano.

√Ārvore filogen√©tica dos homin√≠deos (Museu de Hist√≥ria Natural de Londres)
√Ārvore filogen√©tica dos homin√≠deos (Museu de Hist√≥ria Natural de Londres)

Existe raça?

Por muitos anos, principalmente no s√©culo passado, a ci√™ncia era bastante influenciada por pol√≠ticas e ideologias dominantes na sociedade. O pensamento racista tinha forte influ√™ncia em pesquisas com rela√ß√£o √† evolu√ß√£o do homem, existindo desde vertentes que negavam a origem comum africana at√© estudos que tentavam comprovar por meios emp√≠ricos a ‚Äúsuperioridade da ra√ßa branca‚ÄĚ. Exemplos variam desde o franc√™s Joseph-Arthur Gobineau, com sua obra Ensaio sobre a Desigualdade das Ra√ßas Humanas, que se aproveitou equivocadamente da classifica√ß√£o hier√°rquica das esp√©cies de Carlos Lineu (em Portugu√™s) para inaugurar o ‚Äúracismo cient√≠fico‚ÄĚ; desde aqueles que se aproveitavam da hip√≥tese multirregionalista da evolu√ß√£o humana para tentar justificar que o homem branco teria uma origem diferente dos outros. Hoje, gra√ßas aos avan√ßos tecnol√≥gicos, as pesquisas paleoantropol√≥gicas s√£o muito bem respaldadas por evid√™ncias moleculares e gen√©ticas, que geraram provas por enquanto irrefut√°veis para a origem da esp√©cie humana, que est√° se tornando cada vez mais refinada. O que se sabe hoje, gra√ßas √†s an√°lises de DNA mitocondrial de esp√©cimes f√≥sseis, por exemplo, √© que, sim, tivemos a mesma origem comum: na √Āfrica, entre 140 a 300 mil anos atr√°s.

Systema Naturae, de Carlos Lineu (Carolus Linnaeus), no qual as espécies são classificadas hierarquicamente.
Systema Naturae, de Carlos Lineu (Carolus Linnaeus), no qual as espécies são classificadas hierarquicamente.

Por√©m, a descoberta da origem comum n√£o foi suficiente para conter debates a respeito da separa√ß√£o do ser humano em ra√ßas. √Č importante salientar e valorizar os estudos gen√©ticos, principalmente a respeito das muta√ß√Ķes que geram fen√≥tipos t√£o variados e conferem a adapta√ß√£o a condi√ß√Ķes ambientais diferentes. A variabilidade gen√©tica entre popula√ß√Ķes √© o que faz com que o ser humano tenha caracter√≠sticas t√£o diferentes entre si em v√°rias regi√Ķes do mundo, mas n√£o tem significado biol√≥gico para a separa√ß√£o em ra√ßas. Uma das mais recentes tentativas est√° no best-seller¬†A Troublesome Inheritance¬†(Uma Heran√ßa Inc√īmoda), do brit√Ęnico Nicholas Wade, publicado em 2014, no qual o autor utiliza dos estudos de Lineu e at√© de avan√ßados estudos de varia√ß√£o gen√©tica para defender a separa√ß√£o dos humanos em ra√ßas, defendendo at√© que a desigualdade entre os humanos, inclusive no √Ęmbito socioecon√īmico, se daria por conta de uma sele√ß√£o natural nos genes. √Č claro que esta obra tamb√©m foi recebida com cautela e descr√©dito por uma grande parte da comunidade cient√≠fica, mas a quest√£o √© que ainda √© necess√°rio quebrar correntes como estas.

Aproveitando as reflex√Ķes do dia 20 de Novembro, uma das conclus√Ķes que consigo tirar √© que, mesmo com tantos avan√ßos na Ci√™ncia, √© necess√°rio tamb√©m termos avan√ßos no senso de humanidade e na maneira com que lidamos com o conhecimento. Numa sociedade moderna onde haja bom senso para se lidar com a Ci√™ncia, n√£o pode haver espa√ßo para confundir o pensamento cient√≠fico com a defesa de posi√ß√Ķes pessoais, sejam pol√≠ticas, ideol√≥gicas ou mesmo de religi√£o, para tentar impor na sociedade ideologias de determinados grupos. Isto n√£o deixa de ser uma tentativa de se perpetuar a pseudoci√™ncia e o preconceito. Por essas e outras quest√Ķes que acho mais do que justo dias como o da Consci√™ncia Negra, para que um dia, quem sabe, haja avan√ßos na consci√™ncia humana.

Vamos deixar o mamute extinto

H√° poucos anos se v√™m noticiando mundo a fora tentativas mirabolantes de trazer animais j√° extintos de volta √† vida, como o grandioso mamute. Este grande animal pleistoc√™nico √© o maior alvo desta ideia por raz√Ķes diferenciadas, dentre elas, a facilidade de encontrar seus corpos mumificados extremamente bem preservados devido ao aparecimento de diversos esp√©cimes por conta do derretimento do gelo em regi√Ķes como a Sib√©ria. N√£o √© de se estranhar que, vendo-os assim t√£o bem preservados, a ideia de ‚Äúreviv√™-los‚ÄĚ fica extremamente atraente, seja pelo fasc√≠nio que estes grandes animais despertam, seja pela ambi√ß√£o de ser dono de um grande feito como este.

Bebê mamute mumificado. Créditos: Martin Meissner
Bebê mamute mumificado. Créditos: Martin Meissner

Mas será que a interferência nos caminhos que foram traçados naturalmente pela história do nosso planeta seria realmente uma boa ideia? O que seria do pobre mamute, que fora adaptado para os períodos glaciais da Terra, a habitar grandes espaços, correr atrás de suas presas e se defender de seus predadores, bem ao modo da Era do Gelo? Os tempos eram outros, as características físicas e ambientais de nosso planeta eram outras.

O surgimento de novas tecnologias na √°rea da biologia molecular tende a agu√ßar a mente dos pesquisadores mais ambiciosos, o que √© excelente para novas descobertas, chances de desenvolvimento de cura e tratamento de doen√ßas, e principalmente, um maior dom√≠nio e possibilidade de manipula√ß√£o do genoma de in√ļmeras esp√©cies, incluindo o ser humano. E por que n√£o os mamutes?

Em meados de 2015, o geneticista George Church, de Harvard, e seus colaboradores, anunciaram que utilizaram uma t√©cnica de ‚Äúedi√ß√£o de genes chamada CRISPR (do ingl√™s¬†Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, ou seja, Repeti√ß√Ķes¬†Palindr√īmicas¬†Curtas Agrupadas e Regularmente Interespa√ßadas) para inserir genes de mamute em elefantes. Estes genes inseridos seriam os respons√°veis pela express√£o de alguns caracteres dos mamutes, como tamanho das orelhas mais reduzido, cor e comprimento dos pelos e a presen√ßa de gordura subcut√Ęnea. √Č claro que pesquisadores como estes t√™m em mente que, apesar da ideia soar simples, h√° muitas quest√Ķes em jogo, como a rea√ß√£o das c√©lulas √† express√£o desses genes, se de fato conseguiriam dar origem √† tecidos especializados, etc.

Pensando em um futuro n√£o muito distante, e se por acaso um experimento como este tivesse sucesso? E se nascesse um mamute de um elefante vivo? Outra quest√£o importante a se pensar √© com rela√ß√£o aos efeitos do meio externo ao fen√≥tipo (caracter√≠sticas f√≠sicas do organismo que t√™m origem da express√£o dos genes). Seria um h√≠brido com caracter√≠sticas t√£o semelhantes assim aos mamutes pleistoc√™nicos? S√£o in√ļmeras quest√Ķes a serem pensadas al√©m do experimento em laborat√≥rio. Pensando em um sucesso ainda maior (que √© com rela√ß√£o √† sobreviv√™ncia desses h√≠bridos), at√© quanto tempo viveriam? Ou seriam saud√°veis por quanto tempo? E penando na manuten√ß√£o desses animais, teriam eles, obviamente, que ficarem restritos √† ambientes polares, com alimenta√ß√£o fornecida e especializada, etc.

Quero deixar claro que n√£o estou querendo levantar somente os aspectos negativos deste tipo de pesquisa, at√© por que acho que a ousadia √© um est√≠mulo para mover a Ci√™ncia, e nela h√° espa√ßo para qualquer experimento, desde que esteja de acordo com as quest√Ķes √©ticas. Mas o objetivo deste post √© levantar as implica√ß√Ķes √† longo prazo e gerar uma reflex√£o do quanto valeria a pena realizar tal fa√ßanha. Apenas sou mais adepta da ideia de se utilizar t√©cnicas como esta, por enquanto, para tentar auxiliar na luta contra a extin√ß√£o de esp√©cies atuais devido √†s a√ß√Ķes antr√≥picas, por exemplo.

Como diz a famosa express√£o, a natureza sabe o que faz. ¬†Os eventos de extin√ß√£o que ocorreram ao longo da hist√≥ria da vida na Terra, sejam eles por causa da pr√≥pria evolu√ß√£o da geosfera (por exemplo, o movimento das placas tect√īnicas e vulcanismo, que expeliram enormes quantidades de gases na atmosfera), ou por intera√ß√Ķes ecol√≥gicas (competi√ß√£o entre esp√©cies, preda√ß√£o, etc), ou como obra do acaso (como os impactos de corpos celestes), apesar de terem sido catastr√≥ficos para os seres que viviam nestes per√≠odos, foram respons√°veis pela ‚Äúreciclagem‚ÄĚ da vida na Terra, ou seja, possibilitaram o surgimento de novos organismos, de novos nichos, at√© a vida se moldar ao que conhecemos hoje. Estamos aqui devido √†s extin√ß√Ķes ocorridas? Provavelmente elas t√™m grande parte nisso.

A evolu√ß√£o da vida tende a acompanhar as mudan√ßas que a Terra vai sofrendo com o passar do tempo geol√≥gico, mas o tempo sentido pelo homem √© curto demais, tem uma escala muito, mas muito menor. Ent√£o tendemos a n√£o enxergar os benef√≠cios causados por eventos catastr√≥ficos ou mudan√ßas naturais, quanto menos ainda perceber os efeitos que o ambiente causa, √† longo prazo, no sucesso ou ‚Äúfracasso‚ÄĚ da sobreviv√™ncia de uma esp√©cie. Pensando desta maneira, apesar de tamb√©m sermos agentes causadores de mudan√ßas, nossas a√ß√Ķes est√£o causando um preju√≠zo √† biodiversidade do planeta muito mais al√©m da conta para a recupera√ß√£o natural dessas extin√ß√Ķes provocadas. Mas isto seria uma discuss√£o para outro post.

Quanto aos mamutes? Por mim é melhor deixá-los extintos, para o bem deles, e para o bem do nosso planeta. Sim, a natureza sabe o que faz, e às vezes o acaso faz bem também!

Morte, casualidade e explos√Ķes: ou como “fazer” um f√≥ssil

Quando dois restos (fósseis) são encontrados lado-a-lado numa rocha, é possível afirmar com 100% de certeza que ambos viveram juntos e morreram juntos?

Ou ainda…

Quando se encontra um resto de um (ou mais) organismo(s) em determinado local, é possível afirmar de antemão que este(s) organismo(s) viveu(ram) ali?

Texto de Carl Sagan, cientista americano famoso por ser um grande divulgador de ciência.
Texto de Carl Sagan, cientista americano famoso por ser um grande divulgador de ciência.

Estas s√£o algumas das perguntas que n√≥s paleont√≥logos fazemos quando estudamos os f√≥sseis de um determinado local. J√° adianto que a resposta para ambas perguntas √© negativa. Existem diversas situa√ß√Ķes envolvidas na preserva√ß√£o de um resto. √Č err√īneo pensar que simplesmente por terem sido preservados lado-a-lado os organismos tamb√©m conviviam (compartilhavam o mesmo ambiente), ou ainda, que morreram pelo mesmo motivo. Existem casos em que os organismos sequer viveram no mesmo momento, tendo milhares de anos de diferen√ßa entre si, mas s√£o, por acaso, preservados na mesma camada, lado-a-lado.

Ent√£o se tivermos o seguinte registro: um dente de dinossauro (que viveu no Mesozoico) preservado ao lado da garra de uma pregui√ßa gigante (do Cenozoico) n√≥s temos em m√£os um registro com mistura temporal. Estes dois organismos n√£o compartilhavam o mesmo ambiente porque n√£o viveram sequer na mesma era geol√≥gica (um √© o Mesozoico e outro do Cenozoico). Mas como √© que estes dois restos foram parar ali, juntos? Muitos s√£o os eventos que podem levar √† mistura temporal. Neste caso em espec√≠fico podemos pensar que o dente de dinossauro j√° havia sido preservado e foi retrabalhado (carregado e depositado) com sedimentos mais novos que por um acaso continham restos do referido mam√≠fero gigante… A mistura temporal √©, portanto, uma das eventualidades que podem alterar/modificar o registro fossil√≠fero, tornando-o um pouco mais dif√≠cil de ser compreendido.

Mas ainda antes de chegarmos √† possibilidade da mistura temporal existe uma outra grande conting√™ncia: da preserva√ß√£o (ou n√£o) do resto. √Č preciso que fique claro para voc√™ que nem todos os organismos produzem f√≥sseis. Existe uma s√©rie de fatores¬†que ocorrem deste o momento em que ele morre at√© o momento em que alguma pessoa o encontra.

Quais s√£o, ent√£o, as chances de se produzir um f√≥ssil? Em 99,9% das vezes em que um organismo morre, ele √© destru√≠do. Ent√£o (sendo otimista), em 0,1% dos casos a possibilidade existe, persiste. Pense, tamb√©m, que quanto mais antigo este resto (ou vest√≠gio) √©, maiores s√£o as chances de ele ser destru√≠do, pois mais tempo a natureza tem para que ele seja ‚Äúreciclado‚ÄĚ. E ainda… mesmo que este f√≥ssil persista at√© os dias atuais, quais s√£o as chances de ele ser encontrado por algu√©m? Num planeta que atualmente possui 149,67 milh√Ķes de km2 de √°reas emersas… as chances s√£o pequenas (claro que do total dessa √°rea, nem todas as rochas dispon√≠veis s√£o as sedimentares, mas mesmo assim, as possibilidades s√£o baixas). Por isso escolhi a palavra: conting√™ncia, no sentido de acaso, eventualidade e/ou possibilidade (ou n√£o) de algo acontecer.

Vou tentar ilustrar isso com o que vi e aprendi numa visita √†s cavernas de Sterkfontein, na √°rea de Joanesburgo, √Āfrica do Sul, e que, inclusive, est√° muito bem explicado neste¬†v√≠deo. Vou contar a hist√≥ria da descoberta e das eventualidades envolvidas, voltando no tempo at√© o momento de ‚Äúprodu√ß√£o‚ÄĚ deste registro do passado… me acompanhe!

Uma das cavernas abertas para visita√ß√£o em Sterkfontein, no Ber√ßo da Humanidade, Johanesburgo, √Āfrica do Sul
Uma das cavernas abertas para visita√ß√£o em Sterkfontein, no Ber√ßo da Humanidade, Joanesburgo, √Āfrica do Sul

Ali, numa √°rea que √© denominada ‚Äúo ber√ßo da humanidade‚ÄĚ os estudos paleoantropol√≥gicos ocorrem desde os anos 1935, na busca por f√≥sseis de homin√≠deos. No entanto, a regi√£o foi imensamente explorada para a produ√ß√£o de calc√°rio, antes de ser tombada como patrim√īnio da¬†humanidade. Neste tipo de explora√ß√£o, as cavernas s√£o abertas por dinamites… sim, dinamites, explos√Ķes, destrui√ß√£o(!).

Mesmo tendo sido imensamente explorada, √© bem plaus√≠vel de se dizer que foram estas explos√Ķes que levaram √†s descobertas j√° feitas na regi√£o, uma vez que possibilitaram o acesso ao local e aos f√≥sseis depositados dentro destas cavernas. Sim, √© prov√°vel que muitos devem ter sido perdidos, explodidos, mas penso que, de outra forma, os cientistas n√£o teriam conseguido chegar at√© ali;

…√© ou n√£o e muito acaso envolvido? Mas as eventualidades ainda n√£o terminaram. As descobertas mais recentes, principalmente em cavernas que foram pouco exploradas pelos mineradores (ou seja, que sofreram menos implos√Ķes), s√£o de homin√≠deos bastante completos, isto √©, com muitos ossos de seus corpos preservados juntos, o que √© extremamente raro na paleoantropologia.¬†Segundo Lee Berger, um eminente paleontrop√≥logo envolvido nas √ļltimas descobertas dali, existem mais pesquisadores na √°rea do que f√≥sseis para se estudar. Ent√£o a descoberta de esqueletos de homin√≠deos com muitos ossos √© excepcional.

Matthew Berger, o menino que encontrou um dos fósseis de hominídeos mais completo até o momento, o de Australopithecus sediba.
Matthew Berger, o menino que encontrou um dos fósseis de hominídeos mais completo até o momento, o de Australopithecus sediba.

Se voltarmos ainda mais no tempo e tentarmos imaginar os motivos que levaram a um homin√≠deo morrer ali, vamos perceber mais um ‚Äúlance de dados‚ÄĚ envolvido: as explica√ß√Ķes cient√≠ficas para estas descobertas apontam que as cavernas que possuem estes f√≥sseis de homin√≠deos quase completos n√£o eram seus locais de vida. Muito provavelmente, h√° cerca de 1,8 M.a., estes homens e mulheres do passado estavam caminhando na savana e inadvertidamente ca√≠ram para dentro das cavernas, onde pereceram, seus ossos fossilizaram, e foram descobertos ap√≥s explos√Ķes dos mineradores da regi√£o os colocarem mais acess√≠veis aos cientistas que ali come√ßaram a explorar o potencial fossil√≠fero da regi√£o (anos 2000)…ufa…!

Quando algu√©m me pergunta se, durante minha vida profissional, j√° encontrei algum f√≥ssil importante, a primeira coisa que vem em minha cabe√ßa √©… seria isso realmente essencial? Ser√° que devo ir ao campo esperando encontrar um f√≥ssil ‚Äúimportante‚ÄĚ? e, afinal de contas, o que √© um f√≥ssil importante? Espero que o texto tenha conseguido mostrar que qualquer registro de vida do passado √© importante e extremamente raro; e muitas s√£o as casualidades envolvidas em sua preserva√ß√£o. Nada mais raro e especial que poder olhar para (um piscar de olhos) (d)o passado e compreend√™-lo!

Até o próximo post!

N√£o deixem de comentar...