Arquivo da categoria: Paleodiversidade

CAmpo de golfe e as antigas cavas de argila mostrando pegadas de Dinossauros e mamíferos, alem de restos de plantas.

No Mesozoico, jogando golf com Fred Flintstone

Estaria o blogueiro pirando? Golf? Mesozoico? Fred Flintstone?

Sim, desta o blogueiro viajou. Era no mês de junho. Estava um sol forte aquela hora da manhã, e eu estava caminhando por uma trilha que levava a estação de trem de Jefferson County, no estado americano do Colorado. Vez em quando passava alguém de bicicleta pela trilha. Foi quando eu vi a plaquinha indicando: Triceratops Trail. Será que eu ia encontrar com um feroz Triceratops na minha frente se eu seguisse aquele caminho? meio receoso, entrei.

CAmpo de golfe e as antigas cavas de argila mostrando pegadas de Dinossauros e mamíferos, alem de restos de plantas.Campo de golfe e as antigas cavas de argila mostrando pegadas de Dinossauros e mamíferos, alem de restos de plantas. Ao fundo o Morro da Mesa (Table mountains), onde estão os basaltos Terciários.

Quando entrei na trilha do Triceratops, a primeira coisa que eu vi foram algumas cavas, com uma vegetação secundaria crescendo de dentro delas. Todavia, eu havia visto algumas maquinas grandes enferrujando no meio do mato. Já nem dava pra reconhecer, mas eu estava entrando numa área antiga de mineração. No entanto,o que isso tinha a ver com o Triceratops?

ENTRANDO NA CAVA DE ARGILA

Soube pelos cartazes que tinham por ai que aquelas perigosas cavas que estava vendo, com v√°rios metros de altura, eram antigas cavas de argila. Estas cavas foram exploradas pela Fam√≠lia Parfet, que produzia cer√Ęmicas, tijolos e tubos de esgoto para todo o pais.¬† Primeiramente, uma foto num cartaz na entrada de uma destas cavas mostrava¬† patriarca George Parfet, sua esposa Mattie e seus seis filhos. Alem do mais, outras fotos antigas mostrava o febril trabalho de escava√ß√£o realizado pela empresa dos Parfett.

Como o cartaz orgulhosamente descrevia, a mans√£o do governador, varias escolas publicas e a antigas sede do f√≥rum do condado de Jefferson foram constru√≠dos com tijolos feitos aqui. Durante quase 70 anos, escavadeiras e draglines escavaram as argilas da forma√ß√£o Laramie para fazer objetos cer√Ęmicos. Nesta hora, eu estava ali andando por entre o que sobrou desas cavas. Parte era um campo de golf, parte um museu geol√≥gico.

Placa na Cava de Argila, mostrando o Triceratops e as marcas deixadas pelo animal
PASSANDO PELO CAMPO DE GOLFE

A maior parte da área era tomada pelo campo de golfe, ocupando as partes mais baixas das antigas cavas de argila. Contudo, a parte do campo de golf não me interessava. Não me interessava aquela grama verdinha e rente. Não me interessava aqueles carrinhos com aqueles senhores de bermuda e camiseta polo. Todavia, com seus chapeuzinhos ridículos, eles passavam acelerados, e nos atropelavam indiferentes em busca de suas ignominiosas bolinhas. Senti o risco iminente de ser uma vitima do golf e me afastei daqueles maniacos.

Alem do mais, o mato ao redor estava cheio de bolinhas de golf, o que provava cabalmente a imperícia dos senhores de tênis e meias brancas. Contudo, lembrei-me de Fred Flintstone, um dos poucos jogadores de golfe pelo qual eu tinha alguma estima. Assim, pela primeira vez, senti alguma conexão ali. Golfe, Fred Flintstone, dinossauros: fui ver os bichinhos.

A GEOLOGIA DE GOLDEN: O COLORADO FRONT RANGE

A geologia de Golden √© muito interessante. Durante o Mesozoico, aquela √°rea era uma grande plan√≠cie deltaica, cheia de p√Ęntanos, rios e lagos. Da mesma forma, nos rios, uma areia fina era depositada, formando barra de meandros. Por outro lado, nas plan√≠cies, uma fina argila branca ia se depositando. Camadas de turfa tamb√©m eram comuns neste ambiente.¬† Al√©m do mais, nesta √°rea, num clima mais quente que hoje, t√≠nhamos muitas palmeiras e muitas especies de animais.

Geologia de Golden, Colorado
Bloco-Diagrama mostrando a geologia de Golden simplificada. a √°rea do Triceratops trail est√° no centro da foto, onde as camadas est√£o verticalizadas.

Mais para o fim do Cret√°ceo, este ambiente √ļmido e quente foi se alterando. Quando houve na regi√£o a transi√ß√£o do Mesozoico para a¬† Terci√°rio, com a extin√ß√£o dos dinossauros, a regi√£o j√° havia se tornado mais quente e seca. Finalmente, lavas bas√°lticas aparecem j√° no paleoceno, indicando uma mudan√ßa na din√Ęmica da regi√£o.

Contudo, o desenvolvimento de grandes falhas geol√≥gicas, como a Zona de falha de Golden (Golden Fault) e a Falha da Margem da Bacia (Margin Basin fault), marcam a transi√ß√£o da regi√£o das Grandes Plan√≠cies com as Montanhas¬† Rochosas. Assim, por a√ß√£o destas falhas, o terreno mais a oeste, predominantemente gran√≠tico, literalmente “cavalga” sobre as rochas Mesozoicas/Terci√°rias e termina por dobra-las. Desta forma, pequenos morrotes, formados por rochas mesozoicas e terciarias dobradas marcam a transi√ß√£o geogr√°fica da montanha para a plan√≠cie. √Č o chamado Colorado Front Range.

DINOSSAUROS SUBINDO PELAS PAREDES

Como dissemos antes, o Triceratops trail esta situado no contexto do  Colorado Front Range. Aqui, as camadas da formação Laramie, do Mesozoico, estão todas verticalizadas, por ação da Clay Pits fault, a falha local do sistema. Com isso, a sensação que temos é a de que os dinossauros estão subindo pelas paredes. No entanto, não foi isso que aconteceu. centenas de milhares de anos após terem vivido por ali é que as camadas nas quais deixaram seus rastos foram basculadas e verticalizadas.

marca de pegada de Tiranossauro
Pegada de Tiranossauro

Desta forma, a exposição das pegadas e das diversas marcas ficou muito facilitada. Ali, podemos ver pegadas gigantes do gigante tiranossauro. Também podemos ver as marcas das pegadas do Triceratops.

Da mesma forma, podemos ver tamb√©m pegadas de pequenas aves e mam√≠feros. De modo similar, nas Clay Pits podemos ver os restos de folhas de palmeiras. Alem das palmeiras, podem ser encontradas sic√īmoros, nogueiras, um tipo de gengibre e um parente distante do abacate.

Esta vegetação, juntamente com a ocorrência comum de marcas de animais pequenos e grandes mostra uma região que, no Mesozoico era quente e talvez por isso, muito rica em vida.

UM OUTRO MUNDO √Č POSS√ćVEL
marcas de palmeiras fósseis
Marcas de folhas de antigas palmeiras; As especies de pnatas indicam um clima muito mais quente que o de hoje na regi√£o.

No final do Mesozoico, durante o per√≠odo Cret√°ceo, a Am√©rica do Norte era coberta por um mar raso, com algumas por√ß√Ķes mais elevadas. Provavelmente, estas por√ß√Ķes elevadas eram pequenas ilhas, das quais a regi√£o de Golden era uma delas. Ao redor, uma serie de . Com o passar do tempo, o soerguimento das Montanhas Rochosas acabou por acabar com este mar raso. Neste per√≠odo, estava provavelmente localizada em latitudes menores. Este era o ambiente perfeito para o desenvolvimento, nas partes mais √ļmidas, de uma fauna abundante e diversificada.

A medida em que que as placas tect√īnicas continuavam se movimentando, a regi√£o das montanhas rochosas come√ßa a ser “empurrada” para o leste. De fato, esta movimenta√ß√£o deu origem as falhas que conformariam a estrutura da regi√£o de Golden, onde eu me encontro agora, olhando pegadas de dinossauros na parede. Afinal, ver pegadas de animais extintos na parede de uma cava de argila nos d√° no√ß√£o de que vivemos num planeta din√Ęmico e em perpetua transforma√ß√£o. Desta forma, ao contrario do que alguns pensam, n√≥s humanos n√£o somo s o suprassumo da cria√ß√£o. Isto √©, supondo que tenha havido uma cria√ß√£o.

SAINDO DA CAVA

Desta forma, assim que sa√≠ da cava, comecei a pensar em quantas informa√ß√Ķes diferentes havia ali naquela pequena √°rea. Contudo, ser√° que as pessoas que passavam aqui e ali teriam no√ß√£o disso? Ser√° que os caras do golfe ali do lado, mesmo que somente perseguindo suas in√ļteis bolinhas, saberiam disso?

O tempo da vida humana √© muito curto. Decerto, algum grego ou romano j√° falou sobre isso. o detalhe √© que, por certo, n√£o temos condi√ß√Ķes de enxergar estas grandes mudan√ßas no decorrer de nossas vidas. Primeiramente, para enxergar isso, o senso comum n√£o ajuda. os vest√≠gios da natureza, por outro lado, s√£o muito sutis e complexos. Ali, saindo da cava do Triceratops trail, me dei conta do quanto as Ci√™ncias da Terra nos ajudam a enxergar o mundo.

AJUDA FRED FLINTSTONE!!

Num mundo em que a Ci√™ncia encontra-se t√£o amea√ßada, certamente o conjunto de evidencias como o que havia ali no Triceratops trail √© muito relevante. Estavam expostas ali, a c√©u aberto, muitas discuss√Ķes interessantes sobre o passado, o presente e o futuro de nosso Planeta. Por certo, a maior parte das pessoas n√£o est√° nem ai pra essas coisas. Da mesma forma, o fato de Fred Flintstone conviver com dinossauros parece plaus√≠vel para muita gente. Entretanto, como se sabe, o ser humano s√≥ conviveu com os dinossauros nos √ļltimos duzentos anos. Somente quando come√ßamos a entender que aqueles esqueletos estranhos n√£o eram obra do acaso ou restos de gigantes √© que eles come√ßaram a habitar entre nos, em nossas ideias, em nossos¬† pensamentos.

Por tudo isso √© que repito: a Ci√™ncia deve entrar mais na vida das pessoas. Independente de sua posi√ß√£o no mundo, o letramento cientifico √© cada vez mais necess√°rio para um numero cada vez maior de pessoas. Temos que fazer de cada esquina um museu da historia da terra. Podemos n√£o ter em todos os lugares historias t√£o interessantes como a do Triceratops trail e seu mergulho de cabe√ßa nos p√Ęntanos do Mesozoico.

CIÊNCIA, LAZER E BICICLETAS
Projeto Geobike
Logo do Projeto Geobike, do Prof Wagner Amaral: trilhas geológicas em Campinas

Da mesma forma, aqui em Campinas, temos o  Projeto  Geobike, mais uma boa ideia do professor Wagner Amaral, do Instituto de Geociências da Unicamp. Assim, apaixonado por Geologia e por sua querida Campinas, o professor Wagner leva os amantes da bicicleta a locais nos quais eles até já poderiam andar, mas cuja historia (natural) ignoravam. Que enriquecedor! Juntar esporte, lazer e Ciência foi uma boa sacada. Que tal na sequencia juntar Ciência e Arte, juntar Ciência com tudo?

Entretanto, no caso das Ciências da Terra e do ambiente, nós precisamos de mais e mais trilhas como estas, que nos levem ao passado da Terra. Trilhas que nos ajudem a pensar melhor nosso presente e projetar melhor nosso futuro.

Bora l√°?

A visão da terra como um disco achatado girando no espaço

NOT√ćCIAS DE UMA TERRA PLANA (1)

A TERRA PLANA VENCEU?
Capa de livro com a figura do planeta como se fosse um plano, com o Polo Norte no centro;
Capa do Livro Astronomia Zet√©tica: a terra n√£o √© um globo (1¬™ edi√ß√£o 1878), de Samuel Rowbothan; hoje √† venda nos melhores sites da internet…

Sim, a Terra é plana. Um a um, os argumentos científicos que tentam mostrar que a terra é redonda vão sendo contestados. Cientistas e pesquisadores falham na sua tentativa de convencer os que defendem a Terra Plana e são derrotados. Lacrados, como se diria hoje nas redes sociais.

A partir destas mesmas redes sociais, os grupos que defendem a ideia de uma Terra plana conquistam milhares de adeptos e se tornam influencers na internet.

(Este é o primeiro de uma série de textos que foram elaborados de maneira coletiva. Sua origem foi a partir de uma atividade desenvolvida no segundo semestre de 2018 na disciplina História das Ciências Naturais, do Instituto de Geociências da Unicamp. Neste texto vamos apresentar, primeiramente, alguns conceitos envolvidos na teoria terraplanista.)

NASCE A TERRA PLANA

A origem da mais famosa teoria terraplanista se deve ao ingles Samuel Rowbothan (1816‚Äď1884). Rowbothan publicou em 1878 escreveu o livro Zetetic Astronomy: Earth Not a Globe.

foto P/B de Samuel Rowbothan, o pai da Astronomia Zetética,
Samuel Rowbothan (1816-1884), o criador da “Astronomia Zet√©tica”

A ‚ÄúAstronomia Zet√©tica‚ÄĚ de Rowbothan foi adotada pela mais prestigiosa organiza√ß√£o terraplanista da atualidade, a Flat-Earth Society. Fundada em 1959, esta sociedade em seu site prop√Ķe que a Terra seria plana, com centro no polo norte, de maneira semelhante √† Proje√ß√£o Polar.

Para os terraplanistas, o Sol seria um corpo 50km em cima da terra e n√£o ao seu redor. Os eclipses lunares seriam causados por ‚Äúobjetos escuros‚ÄĚ que se interp√Ķe entre o Sol e a Terra. Estrelas seriam como l√Ęmpadas de led presas no domo que circunda a Terra Plana.

OS DIAS E NOITES DA TERRA PLANA

Portanto, o Sol e a Lua seriam semelhantes a esferas com tamanhos aproximados de uma cidade. Por outro lado, os dias e as noites seriam definidos a partir do local até onde é possível o alcance dos raios solares na circunferência terrestre.

Seguindo esta mesma perspectiva, as esta√ß√Ķes do ano seriam variantes de acordo com o distanciamento do Solar sobre o “plano” terrestre. Os astros seguiriam um movimento espiralado, com o inverno correspondendo √† maior distancia entre o Sol e a Terra. O ver√£o, por consequ√™ncia, corresponderia √† maior proximidade.

A visão da terra como um disco achatado girando no espaço
A terra vista do espaço segundo a Teoria da Terra Plana

O magnetismo terrestre seria causado por uma montanha magnética, que ficaria localizada próxima ao Polo Norte.

UMA TERRA SITIADA PELA CONSPIRAÇÃO

Os militares americanos est√£o por toda a borda da Terra, segundo a teoria terraplanista. Esta ocupa√ß√£o se d√° para que os cidad√£os comuns n√£o possam observar que a Terra √©, na verdade, plana. Por esta causa √© que a Ant√°rtida, onde essas provas existiriam, n√£o seria ocupada sen√£o por militares ou cientistas. No entanto, esta condi√ß√£o de ocupa√ß√£o militar (ou cientifica) secreta n√£o √© aleat√≥ria. Afinal, como toda boa teoria de conspira√ß√£o, ningu√©m pode saber desta ocupa√ß√£o militar. Ningu√©m, a n√£o ser as c√ļpulas dos governos envolvidos na conspira√ß√£o.

Por causa desta grande conspira√ß√£o √© que, para os terraplanistas, a Ant√°rtida seria um grande pared√£o de gelo que “segura” toda a √°gua da Terra.¬† Segundo¬† a teoria terraplanista, por conta da neblina austral e de uma limita√ß√£o do olho humano, n√£o conseguimos ver a borda do planeta. No entanto, podemos argumentar, avi√Ķes poderiam ver de cima a esfericidade da Terra. Mas, para os terraplanistas, a esfericidade da Terra que vemos nos aeroplanos √© uma ilus√£o dada pela curvatura das janelas.

NEWTON, SOCORRO!

 Contudo, se voce achou tudo até aqui estranho, se segure. Vai piorar.

Para a Flat-Earth Society, a gravitação universal, que é responsável pela atração de todos os corpos para o centro da Terra, simplesmente não existe. Os terraplanistas justificam que os objetos só se encontram juntos ao chão em decorrência de uma força indefinida. Esta força tem a capacidade de atrair a Terra em um movimento vertical de subida, podendo ser comparada a um elevador infinito. Essa mesma força apresentaria o valor idêntico ao da força gravitacional, isto é, uma aceleração correspondente a 9,8m/s².

Newton e a maçã: a gravitação não existe?

 

Dessa forma, as explica√ß√Ķes f√≠sicas sobre os corpos, as quais s√£o justificadas pela Ci√™ncia que se embasa na exist√™ncia da for√ßa da gravidade¬†¬†s√£o negadas pelos terraplanistas. Estes acreditam que os corpos seriam¬† o local onde se encontram os corpos s√£o explicados segundo a densidade dos objetos. Ou seja, os corpos mais leves encontram-se acima e os mais pesados embaixo.

E n√£o adianta argumentar, mostrar provas. Voce ser√° “lacrado” pelos terraplanistas.

AFINAL, √Č PLANA OU N√ÉO √Č?

Entretanto, se você chegou até aqui, é justo perguntar: vocês, autores, acham que a Terra é plana ou redonda? Estaria redondamente enganado (com o perdão do péssimo trocadilho!) quem afirmasse ser a Terra plana. No entanto, neste nosso mundo tão cercado de informação e tecnologia, como existem pessoas que acreditam que a Terra é plana? Afinal, por que os argumentos da Ciência não as convencem?

Nesta s√©rie de posts (este √© o primeiro) vamos conversar quais seriam as explica√ß√Ķes para como chegamos nesta estranha situa√ß√£o.

Se at√© l√° os terraplanistas n√£o nos convencerem que a Terra √© plana…

nota sobre os autores:

(este texto foi elaborado por  Marcela Moretti, Natasha Marques De Paula Santos, Gabriel Suzuki, Lucas Rios, Artur Dani, Maria Luiza de Oliveira, Jéssica Aparecida Santos Rodrigues e Jefferson de Lima Picanço)

SHE SELLS SEA SHELLS ON THE SEA SHORE

√Č de manh√£ cedo. O mar est√° calmo, e a mar√© baixa. Na grande fal√©sia branca da praia de Lyme Regis, em Dorset, na Inglaterra, um grupo de pessoas est√° trabalhando nos rochedos. Usando martelos e picaretas, eles cortam o pared√£o em busca de f√≥sseis. Entre eles est√° uma mulher. Mary Anning, acompanhada de seu c√£ozinho vira-lata Tray, est√° protegida do frio e da maresia usando roupas largas. Na cabe√ßa, usa um chap√©u de palha amarrado no pesco√ßo para n√£o ser arrancado pelo vento do mar .

Praia de Lyme Regis, Dorset, onde Mary Anning viveu e “ca√ßou” diferentes tipos de f√≥sseis…
F√ďSSEIS PARA (SOBRE)VIVER

Mary Anning (1799-1847) é a chefe do grupo de coletores de fósseis. Dona de uma pequena mas bem sortida loja, ela é uma das maiores fornecedoras de fosseis para colecionadores e museus de toda a Europa. Mesmo dos Estados Unidos vem pesquisadores e colecionadores para ver Рe comprar! Рsuas preciosidades.

Mary Anning (1799 Р1847) e seu cãozinho Tray, A pintura é de 1842.

De origem humilde, a família de Mary Anning começou a coletar fosseis para complementar a parca sobrevivência. No entanto, seu pai Richard, sua mãe Molly e seu irmão Joseph também eram exímios coletores de fosseis. Entre os fosseis mais importantes que coletaram estão os famosos esqueletos dos plesiossauros, grandes lagartos marinhos.  Hoje, boa parte dos fosseis coletados por Mary Anning e sua família estão expostos no Museu de História Natural em Londres. Da mesma forma, na França, na Inglaterra e na Alemanha, quase todos os grandes Museus de História Natural têm fósseis  coletados por ela.

Mesmo sem uma educa√ß√£o formal, Mary Anning chegou a participar da constru√ß√£o da Paleontologia moderna. No entanto, ela chegou mesmo a participar de alguns debates,¬† corrigindo algumas distor√ß√Ķes e classifica√ß√Ķes incorretas. Dona de um saber pr√°tico, Mary Anning ajudou muito neste estagio embrion√°rio da paleontologia.

DORSET NO JUR√ĀSSICO

Embora tenha chegado a ter uma loja, vendendo fosseis para toda a Europa, Mary Annning sempre passou por varias necessidades financeiras. Para tanto, v√°rias pessoas ao longo de sua vida, penalizadas com as duras condi√ß√Ķes de Mary Anning e sua fam√≠lia, fizeram subscri√ß√Ķes para ajudar.

 

Duriea Antiquor (Dorset antigo) de Henri de la Beche (National Museum of natura History of Wales). A luta fict√≠cia entre o ictiossauro e o plesiossauro ficou t√£o famosa que Julio Verne a incluiu em seu “Viagem ao Centro da Terra”.

Entretanto, uma das mais criativas e interessantes subscri√ß√Ķes foi feita por um grande amigo de Mary Anning, o ge√≥logo Henri De La Beche. Bom desenhista e caricaturista, De La Beche desenhou uma gravura cujas vendas pudessem ajudar financeiramente Mary Anning, j√° ent√£o bem doente de um c√Ęncer de seio. Contudo, a gravura, intitulada¬†Duriea Antiquor (‚ÄúDorset antigo‚ÄĚ em latim), retrata com precis√£o e bom homor qual teria sido, h√° milh√Ķes de anos atr√°s, a vida dos f√≥sseis coletados por Mary Anning.

Bem desenhado e bem elaborado, Duriea Antiquor é um dos primeiros e mais importantes desenhos sobre o mundo anterior aos humanos. Contudo, a sua representação da vida no jurássico até hoje é uma das mais influentes da paleontologia. A gravura até hoje baliza a maneira como representamos até hoje a vida antiga na  Terra.

VENDER CONCHAS DO MAR NA BEIRA DO MAR…

A vida e os perrengues pelos quais passou Mary Annning dariam um poema. Ou um livro. Ou um filme. Ou tudo isso.

No in√≠cio do s√©culo XX o escritor ingl√™s H.¬†A. Forde ¬†publicou ‚ÄúThe Heroine of Lyme Regis: The Story of Mary Anning the Celebrated Geologist‚ÄĚ. Baseado no relato de Forde, muitas hist√≥rias inspiracionais sobre Mary Anning foram escritas. Entretanto, talvez ela seja tamb√©m a inspira√ß√£o para o poema – e terr√≠vel trava-l√≠nguas ‚Äst que todos os estudantes de ingl√™s l√≠ngua estrangeira se confrontam:

She sells seashells on the seashore
The shells she sells are seashells, I’m sure
So if she sells seashells on the seashore
Then I’m sure she sells seashore shells.

MERYL STREEP?

Em 1969 outro escritor ingl√™s, John Fowles, escreveu um romance hist√≥rico chamado ‚ÄúThe French Lieutenant¬īs Woman‚ÄĚ (a mulher do tenente franc√™s). Contudo, na hist√≥ria de Fowles, est√° patente a den√ļncia do preconceito de classe e de g√™nero que¬† Mary Anning sofreu. Mesmo tendo ajudado tantos cientistas, ela nunca ficou, em vida, com a fama da descoberta. O √ļnico que homenageou Mary Anning durante sua vida, entretanto, foi o zo√≥logo franco-su√≠√ßo Louis Agassiz, que a conheceu pessoalmente em 1834 e nomeou duas esp√©cies de peixe com seu nome.

O livro de Fowles foi um grande sucesso de p√ļblico e cr√≠tica. Em 1982 foi adaptado para o cinema pelo teatr√≥logo e roteirista Harold Pinter, e dirigido por Karol Reisz. Como protagonistas, ningu√©m menos que Meryl Streep e Jeremy Irons. Da mesma forma, o livro tamb√©m virou pe√ßa de teatro de grande sucesso.

Poster do filme “A mulher do tenente franc√™s”, de 1982, com Meryl Streep e Jeremy Irons. A historia √© livremente baseada na vida de Mary Anning
UM GRANDE VULTO DA CIENCIA

Entretanto, em 1999, bicentenário de seu nascimento, houve um grande evento em seu nome na praia de Lyme Regis. Da mesma forma, em 2005, o Museu De História Natural de Londres incluiu seu nome ao lado de outros grandes vultos da ciência. Nesta exposição, ela está ao lado de personalidades como Carl Linné  e William Smith.

Mary Anning morreu em 1847, v√≠tima do c√Ęncer. Ela viveu toda a vida entre os penhascos de Lyme Regis, escavando a lama do mar jur√°ssico em busca de fosseis para sobreviver. Mas, inadvertidamente, foi uma das maiores paleont√≥logas de todos os tempos.

Contudo, Mary Anning nos desvendou os abismos do tempo e os fant√°sticos animais que o habitaram. Desta forma, para ajud√°-la foram feitas as primeiras representa√ß√Ķes sobre o mundo antigo que conhecemos. Foi v√≠tima do preconceito de classe e de g√™nero. No entanto, Com sua vida, inspirou muitas outras.

Mary Anning é tanta inspiração que ultrapassou a Ciência. Mary Anning é pop. Foi livro, peça, filme. Virou até trava-línguas!

N√£o √© pra qualquer um…

As renas e os cervos surgiram em qual estação do ano?

Na √©poca de mudan√ßa de uma esta√ß√£o do ano para outra temos uma ideia de como seria uma mudan√ßa clim√°tica. A que neste blog nos interessa aconteceu h√° uns 20 milh√Ķes de anos no passado e foi devastadora para muitas esp√©cies. Contudo, gra√ßas a ela surgiu um importante grupo de mam√≠feros, que se diversificou e espalhou por todo o nosso planeta: s√£o os ruminantes, que pertencem ao grupo dos artiod√°ctilos. Entre eles temos as vacas, porcos, hipop√≥tamos, cabritos, girafas, ovelhas, camelos, al√©m de, √© claro, as renas e os cervos, que como outros cervos formam parte da fam√≠lia Cervidae. Mas n√£o os cavalos, os rinocerontes e as zebras, que s√£o perissod√°ctilos (dedos √≠mpares). Os artiod√°ctilos s√£o caracterizados por apresentar, entre outras coisas, patas com n√ļmero par de dedos e uma inova√ß√£o no sistema digestivo que permitiu que muitos deles pudessem comer capim, ou seja poder extrair carboidratos a partir da celulose que forma parte do corpo das plantas, por possuir associa√ß√£o com bact√©rias e protozo√°rios especializados que auxiliam na digest√£o. Dessa forma, se voc√™ observar uma vaca ou uma lhama ela est√° o tempo todo mastigando ou ruminando o capim para poder moer as folhas em pequenos peda√ßos e ajudar as bact√©rias no processamento da mat√©ria vegetal. Inclusive, pelas evid√™ncias f√≥sseis, as baleias e os artiod√°ctilos compartiriam um mesmo ancestral.

Cervo do Pantanal

Voltando √† influ√™ncia das mudan√ßas clim√°ticas para o surgimento das renas, ent√£o h√° uns 45 milh√Ķes de anos, o nosso planeta experimentou climas muito √ļmidos e quentes que permitiram que grandes e densas florestas tropicais se desenvolvessem at√© na Ant√°rtica, e no Norte do Canad√°, como j√° expliquei em outro post. Esse apogeu no mundo vegetal provocou a deposi√ß√£o de um grande volume de biomassa vegetal que foi soterrada e convertida em camadas de carv√£o, nas quais uma enorme quantidade de carbono ficou sequestrada, n√£o retornando √† atmosfera e, por conseguinte, reduzindo a quantidade do nosso principal g√°s estufa, o CO2. Al√©m disso, ocorreram mudan√ßas importantes na distribui√ß√£o dos continentes, com as quais a geografia ficou mais parecida com a atual, com o surgimento de grandes cadeias de montanhas como os Andes, o Plat√ī do Tibet (ap√≥s a √ćndia bater com a China), etc. Todos esses fatos juntos provocaram um desequil√≠brio que levou ao surgimento de uma tend√™ncia √† diminui√ß√£o das temperaturas e, por conseguinte, de climas mais secos. Com isso, as densas florestas tropicais se reduziram em tamanho, e um novo tipo de vegeta√ß√£o come√ßou a surgir, uma vegeta√ß√£o mas aberta e composta por variados tipos de capins, onde os artiod√°ctilos passaram a pastar e ruminar calmamente, al√©m de crescerem em tamanho e correr quando necess√°rio.

Voltando √†s renas e cervos e por tanto a fam√≠lia Cervidae, essa √ļltima possui um extenso, rico e cont√≠nuo registro f√≥ssil a partir do Mioceno (~ 20 milh√Ķes de anos) at√© o presente. Os f√≥sseis mais antigos foram encontrados na Eur√°sia (massa continental que engloba a Europa e a √Āsia), na qual possivelmente tenham sido originados, e com o tempo migrado para o resto do planeta.

J√° para o Pleistoceno (2 milh√Ķes de anos – 10.000 anos atr√°s) s√£o reportados f√≥sseis de renas gigantes na Europa e na Am√©rica do Norte. Essas evid√™ncias s√£o especialmente baseadas em dentes e chifres, quem sabe os ancestrais das renas do tren√≥ do Papai Noel, pois √© no Pleistoceno que aconteceram os intervalos glaciais do Quatern√°rio e o hemisf√©rio norte foi muito afetado por esses per√≠odos frios, chegando a ficar com grandes extens√Ķes do seu territ√≥rio cobertas por glaciares continentais.

Deusa Diana www.fanpage.it

Aqui na Am√©rica do Sul, os cervos chegaram ap√≥s o surgimento do Istmo de Panam√°. H√° alguns milh√Ķes de anos eles vieram em v√°rias ondas junto com outros migrantes do norte (como j√° comentamos em alguns texto anteriores). E se deram muito bem, atualmente temos no nosso continente pelo menos 17 esp√©cies que habitam desde os ambientes costeiros at√© as alturas da cordilheira dos Andes. Nas f√©rias de janeiro fomos para o Pantanal do Mato Grosso do Sul, um passeio que recomendo. Por l√° vimos lindos e numerosos exemplares dos cervos pantaneiros (Blastocerus dichotomus), que alcan√ßam grande porte, chegando a pesar at√© 120 quilos e ter uma altura que varia entre 1,10 a 1,20 m, pelo que s√£o considerados os maiores cervos da Am√©rica do Sul, e s√£o adaptados para viver em √°reas alagadas e at√© cruzarem rios a nado.¬†Tamb√©m foi poss√≠vel apreciar junto aos cervos outros descentes da fauna que veio do hemisf√©rio norte como as on√ßas, al√©m de outras esp√©cies remanescentes da megafauna pleistoc√™nica da Am√©rica do Sul, como pregui√ßas e capivaras. Bom, quem sabe no pr√≥ximo natal ou na pr√≥xima primavera, ao inv√©s de colocar renas na decora√ß√£o de natal ou a Deusa Diana estar acompanhada de um cervo da Europa, poder√£o trocar por um cervo pantaneiro.

Rena na Suecia (Ragifer farandus). http://www.essaseoutras.com.br

O ANIVERS√ĀRIO DE ALFRED WEGENER E A FLORA DE GLOSSOPTERIS: IDEIAS QUE LITERALMENTE MUDAM O PLANETA.

Sob a denomina√ß√£o de Flora de Glossopteris, ou Prov√≠ncia Flor√≠stica do Gondwana, s√£o reunidos todos os registros de plantas, sejam eles folhas, caules, sementes, lenhos, p√≥lens, charcoals, etc. que apresentam similitudes morfol√≥gicas e aparecem no meio das rochas sedimentares de idade permiana (298 – 252 Ma) que s√£o encontradas na por√ß√£o sul da √Āfrica e Am√©rica do Sul, bem como na Austr√°lia, Antartica, Nova Zel√Ęndia e a √ćndia. Todos esses continentes hoje se encontram separados por oceanos, mas durante muitos milh√Ķes de anos, aproximadamente de 500 at√© 160 Ma ficaram unidos formando um grande paleocontinente denominado como Gondwana. O nome foi inspirado no local da India onde os primeiros ind√≠cios do paleocontinente foram encontrados, entre eles a Flora de Glossopteris.

Figura 1. Compara√ß√£o entre as geografias de hoje e do Permiano, com Am√©rica do Sul, √Āfrica, Austr√°lia, √ćndia, Ant√°rtica reunidas no Gondwana

Na Figura 1 podemos observar os locais onde hoje est√£o localizados os registros das floresta permianas da Flora de Glossopteris. Logicamente parece meio dif√≠cil acreditar que a presen√ßa de f√≥sseis vegetais com morfologias semelhantes em regi√Ķes t√£o distantes se deva somente uma coincid√™ncia. Mas sensato √© pensar que possivelmente todos esses locais hoje distantes poderiam ter formado parte do mesmo continente, onde as migra√ß√Ķes de plantas e animais foram poss√≠veis, favorecidas por se tratar de uma mesma massa continental.

Fragmento de folha de Glossopteris, coletada na Bacia do Paran√°, Brasil. Barra de escala: 5 cm.

Dentro da denomina√ß√£o de Flora de Glossopteris s√£o reunidos v√°rios grupos vegetais, entre eles samambaias e plantas com sementes, como as glossopter√≠deas (que s√≥ ocorrem no Gondwana e apenas durante o Permiano) e outras gimnospermas (vegetais com sementes, mas sem flores) como con√≠feras, ginkgoales, entre outras. A Flora de Glossopteris re√ļne os v√°rios tipos de floresta que se sucederam durante o per√≠odo Permiano e que experimentaram varia√ß√Ķes clim√°ticas severas. Essas florestas surgiram em climas temperados frios e sobreviveram em climas cada vez mais quentes at√© semi-√°ridos pr√≥ximos ao final do Permiano, quando desapareceram devido a uma grande extin√ß√£o em massa. Assim, no in√≠cio do Tri√°ssico, apesar de ainda o paleocontinente Gondwana continuar existindo, a vegeta√ß√£o muda bastante na sua composi√ß√£o.

Umas das primeiras Glosspteris conhecidas para o Brasil foi descrita por David White no ano de 1908, em fragmentos de rochas provenientes das minas de carv√£o de Crici√ļma, em Santa Catarina. Hoje sabemos que as jazidas de carv√£o do sul do Brasil, foram formadas gra√ßas ao ac√ļmulo de plantas em locais pr√≥ximos √† costa, onde essa biomassa (o corpo das plantas) foi sendo soterrada e amadurecida at√© se transformar em carv√£o. Sabe-se tamb√©m que os bosques da √©poca formavam parte da vegeta√ß√£o que cobria pelo menos a por√ß√£o Sul do Gondwana durante o Permiano.

Folhas de Glossopteris, coletadas na Bacia de Sidney na Austr√°lia. Barra de escala: 5 cm

Em particular, o g√™nero Glossopteris re√ļne folhas de formato ovalado (em forma de l√≠ngua), de margens retas e caracterizadas por uma venac√£o distinta, em formato de malha, sulcada por uma s√©rie de feixes longitudinais ou nervura central, como pode ser observado nas figuras dessas folhas.

No dia 1¬ļ de novembro deste ano, Alfred Wegener celebraria o seu 137¬ļ anivers√°rio. Wegener, juntamente com Eduard Suess e Alexander Du Toit, formaram parte do grupo de cientistas que desde o final do s√©culo 19 vinham considerando seriamente a possibilidade dos continentes antes mencionados terem estado juntos, formando um grande paleocontinente no hemisf√©rio Sul, e uma das evid√™ncias mais importantes dessa uni√£o s√£o precisamente os registros das folhas de Glossopteris. A teoria de uma geografia diferente a atual, na qual os continentes estaria reunidos de forma diferente, foi publicada por Wegener em 1915, mas n√£o teve √™xito. Uma enorme quantidade de evid√™ncias vem sendo acumulada desde ent√£o a favor da exist√™ncia do Gondwana, sendo hoje um fato amplamente aceito sobre a evolu√ß√£o do nosso planeta.

Folha de Glossopteris, ilustrada por Feistmantel na sua publica√ß√£o de 1889, acerca dos f√≥sseis da Bacia do Karoo na √Āfrica do Sul.

Uma vez que no Brasil tamb√©m tem aumentado o conhecimento do registro f√≥ssil do Permiano, hoje em dia existem descritas muitas esp√©cies de Glossopteris, n√£o s√≥ para Santa Catarina, mas tamb√©m no Rio Grande do Sul, Paran√° e estado de S√£o Paulo. Quem sabe se voc√™ j√° n√£o viu uma linda folha de Glossopteris no seu quintal….

Referências

Feistmantel, O.1889. √úbersichtliche Darstellung der geologisch-palaeontologischen Verh√§ltnisse S√ľd-Afrikas. Th 1: die Karroo-Formation und die dieselbe unterlagernden Schichten Abh. K. B√∂hmischen. Ges. Wiss., 7, 1-89

Veevers, J.J. 2004. Gondwanaland from 650‚Äď500 Ma through 320 Ma merger in Pangea to 185‚Äď100 Ma breakup: supercontinental tectonics via stratigraphy and radiometric dating. Earth-Science Review, 68, 1‚Äď132.

White, D. 1908. Relat√≥rio sobre as ‚ÄúCoal Measures‚ÄĚ e rochas associadas do sul do Brazil. Rio de Janeiro, p.2-300. (Relat√≥rio Final da Comiss√£o de Estudos das Minas de Carv√£o de Pedra do Brazil parte I).

 

Eu, Amonite

Meu nome é Hildoceras crassum, e sou um amonite.

Este sou eu, Hildoceras crassum

Na Desciclopédia dizem que sou simplesmente um molusco, o que realmente sou. Mas sou mais que isso: na classificação zoológica pertenço à classe dos amonitas, e a família Hildoceratidae.

A esta altura da vida (ou da morte), não tenho mais problemas em ser um Hildoceras crassum. Segundo vários cientistas, nós apresentávamos dimorfismo sexual, ou seja, os machos eram diferentes das fêmeas. Mas isso foi há muito tempo atrás. Como eu não lembro mais se sou um ou uma amonite, segundo o moderno costume,  podem me chamar de Hildx.

Nasci e morri no Andar¬†toarciano, no Jur√°ssico inferior. Isso em linguagem de gente significa que nasci e morri num per√≠odo de tempo entre 184 a 175 milh√Ķes de anos atr√°s. Alguns de voc√™s podem perguntar: “Como era isso, Hildx?“. Eu n√£o me lembro muito bem, minhas crian√ßas. Faz tempo. S√≥ sei que nad√°vamos livres por mares pouco profundos, ca√ßando pequenos crust√°ceos e outros animais. Um per√≠odo feliz, sabe?

Meu Primo Endemoceras, dando um rolê pelas águas quentes do Jurássico

Nós conseguíamos nadar muito bem e podíamos controlar a profundidade em que estávamos, simplesmente enchendo de gás ou fluido a nossa cavidade externa. Morávamos na ultima parte da concha, que era a mais larga. Como os nossos  modernos primos polvos e lulas, éramos terríveis predadores. O terror dos mares do Jurássico inferior!

 No entanto, estamos extintos!

Mesmo o mais terr√≠vel dos predadores morre. Quando morri, fui depositado em meio a uma vasa argilosa, no fundo do mar. Fui lentamente recoberto por essa fina argila. Meu corpo e meus tent√°culos (t√£o graciosos! ) desapareceram. Restou s√≥ a minha fina casca espiralada. E mesmo esta fina casca foi mudando: lentamente, mol√©cula a mol√©cula, ela foi sendo substitu√≠da por outras subst√Ęncias, at√© eu virar isso que sou hoje. Acho que voc√™s chamam isso de biomineraliza√ß√£o.

Estas s√£o as condi√ß√Ķes que fazem de mim um f√≥ssil. Os cientistas dizem que todo f√≥ssil tem uma hist√≥ria para contar. No entanto, quem conta a hist√≥ria dos f√≥sseis s√£o eles, os cientistas. Por isso, quero mudar um pouco e contar a minha hist√≥ria. Eu sou um amonite f√≥ssil e conto a hist√≥ria de depois de mim.¬†E n√£o me confundam, por favor: n√£o sou um autor f√≥ssil, desses que se biomineralizam em vida. Eu n√£o. Eu, o amonite Hildx, sou um f√≥ssil autor. Original, n√£o?

Nós amonitas, estamos há muito tempo por aqui. Vivemos e fomos muito abundantes  na era que vocês chamam de Mesozóico, quando finalmente fomos extintos. Por termos sido tão abundantes e por sermos característicos de um determinado período de tempo, somos muito usados para datação relativa do tempo geológico. Somos o que se chama  fósseis índices ou fósseis guia.

Eu e voc√™, voc√™ e eu…

Mas nosso período geológico mais interessante é o período que vocês humanos chegaram por aqui. Interessante e engraçado. Vocês não entenderam nada!! Quando vocês achavam um de nós no chão ou os tiravam do meio das pedras, vocês ficavam feito bobos nos olhando seguidamente. Não é para menos.

Nosso formato elegantemente espiralado, que lembra uma sequ√™ncia de Fibonacci, chama mesmo a aten√ß√£o. Alguns, embalados em leituras r√°pidas, v√£o dizer que somos os primeiros illuminati! Ou que somos produtos de algum designer inteligente. H√£, sei. S√≥ esp√©cies antigas e extintas como n√≥s sabem o trabalho que d√° evoluir…

O Chakra de Vishnu e o amonite como objeto religioso na India; Estes objetos s√£o chamados de Saligramas

J√° fomos confundidos com v√°rias coisas. Na √ćndia, n√≥s amonitas somos chamados de Saligramas. Somos representados como um dos chacras do deus Vishnu. Bacana, n√£o?

No tempo dos gregos e dos romanos clássicos, confundiam nosso formato com os chifres de uma cabra. Não demorou para que nos associassem a deuses e formas caprinas. Amon, divindade egípcia também conhecida como Amon-Ra, e que era portador de belos chifres caprinos, foi logo associado conosco.

Pl√≠nio, o velho, o grande naturalista romano, anotou na sua Hist√≥ria Natural que n√≥s √©ramos conhecidos na antiguidade como ‚Äúcornos de Amon‚ÄĚ. ¬†E assim efetivamente fomos conhecidos em quase todo o mundo romano.

um tipico snakestone: um amonita com a cabeça de uma serpente esculpida

Todo o mundo romano, menos naquela ilhazinha, que os romanos chamavam de Bretanha. L√°, fomos durante algum tempo associados ‚Äď vejam voc√™s ‚Äď a serpentes enroladas. As snakestones eram muito comuns nas camadas jur√°ssicas da velha ilha. Nossa ocorr√™ncia era t√£o comum que em algumas vilas √©ramos usados como enfeites e mesmo como pesos nos mercados. Imagine algu√©m chegando na feira da vila: “quero um corno de Amon de Batatas e dois de chuchu!“.

 Santa Hilda e os amonites
Memorial de Santa Hilda em Whitby; notar os amonitas, como serpentes enroladas, aos pés da Santa

Surgiram mesmo associa√ß√Ķes estranhas. Mais do que voc√™s possam imaginar. Uma importante abadessa bret√£, Santa Hilda (614-670 AD), foi associada, muito tempo ap√≥s sua morte, com lendas que lhe atribu√≠am o poder de transformar serpentes em pedras. As serpentes petrificadas, claro, √©ramos n√≥s, amonites.

Existem inclusive est√°tuas e mesmo bras√Ķes mostrando santa Hilda transformando serpentes em pedra. Sir Walter Scott, autor de Ivanho√© e grande medievalista ingl√™s, chegou a escrever um poema onde falava dos milagres de santa Hilda.

Eu não entendo de milagres, pois estou extinto. Mas entendo de ironias. Alpheus Hyatt (1838-1902), paleontólogo americano, deu o nome de Hildoceras a uma ordem de amonitas do jurássico inferior. Este é, por assim dizer, o meu nome de família. O mistério da transformação das serpentes em pedra já estava resolvido.

Mas, graças a Hyatt, Santa Hilda estava de novo e inadvertidamente ligada a nós pelo nome. Santa Ironia. Quantas risadas Hyatt deve ter dado!

O estilo amonite

Houve inclusive uma época em que nossas graciosas

Capitel com motivos inspirados em amonites. Esta casa também pertenceu ao paleontólogo Gideon Martell

formas serviram de inspiração para os arquitetos. Em vários locais da Inglaterra, foi de muito bom gosto a incorporação de elementos de decoração que lembravam as formas do amonites. Isso foi no inicio do seculo XIX.

Um dos arquitetos responsáveis por estes edifícios não foi ninguém mais que Amon Wilds. Inspirado provavelmente pelo seu próprio nome, ele construiu diversos edifícios com motivos amoníticos. Um dos mais celebrados destes edifícios era localizado em Castel Place 166 High Streets, em Sussex.

Por motivos que só pertencem à Paleontologia, esta casa foi construída para Gideon Mantell. Mantell foi o primeiro a descrever o Iguanodon, um dos primeiros  dinossauros gigantes. De modo que tudo terminou literalmente em casa.

O filho de Amon Wilds, que tinha o nome do pai, continuou sua obra, construindo diversas casas no sul da Inglaterra com motivos amoníticos na década de 1820.

por que eu?

tenho muitas mais historias pra contar. Algu√©m vai dizer: “conta mais, Hildx“. Eu conto, minhas crian√ßas. Hoje n√£o, que estou cansadx e com sono. Ontem mudou o hor√°rio de ver√£o e, mesmo para n√≥s, seres j√° extintos, isso d√° um cansa√ßo medonho.

Sou um amonite, com muito orgulho. N√£o nadamos mais alegres pelos mares como outrora. Somo umas pedras estranhas

A moderna congregação de Santa Hilda apresenta a sua imagem segurando uma casa, simbolo de sua abadia. Na outra mão, não uma serpente mas um amonite. Uma santa em paz com a modernidade.

desencavadas das rochas. Dos nativos americanos aos hindus, dos ingleses aos alem√£es, dos bret√Ķes do condado de Witby aos modernos museus de paleontologia, n√≥s continuamos brilhando.

Ora somos objeto de adora√ß√£o ou objetos de cultos estranhos. Ora somos rem√©dios potentes contra picadas de cobra, amuletos para sonhos ruins ou meras decora√ß√Ķes em casas de prov√≠ncia. O fato √© que n√≥s causamos.

Nossa concha elegantemente espiralada e nossas suturas graciosas chamam a atenção por serem objetos geométricos de grande simplicidade e beleza. Nossa presença em rochas antigas nos faz testemunhos importantes da história da Terra.

Semana passada a professora Frésia escreveu aqui mesmo neste blog que um exemplar de amonite que ela ganhou de seu pai alterou seu destino. Hoje, ela é uma feliz paleontóloga. Que bacana! E que orgulho!  Este é nosso mistério.  Nós, amonitas, podemos mudar suas vidas!

E quem quiser que conte outra.

Para saber mais:

Kracher, Alfred. “AMMONITES, LEGENDS, AND POLITICS THE SNAKESTONES OF HILDA OF WHITBY.”¬†European Journal of Science and Theology¬†8, no. 4 (2012): 51-66.

Meu primeiro fóssil, o pai de todos.

Quando eu tinha uns 16 ou 17 anos e ainda morava na Venezuela, nas f√©rias fomos com a minha fam√≠lia para a cidade de Cucuta na Col√īmbia, que fica pr√≥xima √† fronteira. Nessas f√©rias meu pai me presenteou com um f√≥ssil de uma concha. Algum tempo depois descobri que se tratava de uma concre√ß√£o de um ammonite que viveu no Cret√°ceo da Col√īmbia, na famosa localidade de Villa de Leyva.

Ammonite, Villa de Leyva
Meu fóssil mais antigo

Na √©poca estava quase terminando o colegial, teria que ir para universidade e tinha aquele grande dilema: o que ser√° eu vou ser? Enfim, achei muito legal o presente do f√≥ssil. Na realidade, era um dos primeiros que via na minha frente e n√£o em imagens dos livros, cinema, tv… O primeiro que era tang√≠vel e era meu. Penso que esse ammonite selou a minha escolha:

Рpai quem estuda os fósseis?

РAh, são os paleontólogos.

– Bom, ent√£o j√° sei o que vou ser… (como fazer para me tornar um … isto levou mais tempo, como a Carolina j√° contou, num post).

Lembrei de toda essa história esta semana, quando estava dando a aula prática dos ammonites. Tenho um carinho especial por eles, pois graças a eles descobri muita coisa, embora nunca os tenha estudo de fato.

Mas n√£o fui s√≥ eu que fiquei maravilhada com esses f√≥sseis, eles vem encantando a humanidade desde os tempos dos eg√≠pcios. O motivo √© que o seu registro √© bem abundante ao redor do planeta, sempre associados a rochas sedimentares que se formaram em ambientes marinhos. Na verdade, foram um grupo de moluscos cefal√≥podes, hoje extinto mas muito exitoso na sua √©poca, que habitou nos mares. Eles surgiram no Per√≠odo Devoniano (400 – 360 milh√Ķes de anos atr√°s) e desapareceram junto com os dinossauros, na grande extin√ß√£o do final do Cret√°ceo (h√° 65 milh√Ķes de anos), aquela do meteorito que eu j√° comentei aqui.

Os ammonites formam um grupo de cefal√≥podes que possu√≠ram no in√≠cio uma concha plano espiral, e que com o passar do tempo modificaram o formato da concha para formas espiraladas, retas, etc. Alcan√ßaram tamanhos de poucos cent√≠metros at√© quase dois metros de di√Ęmetro, nas formas planoespirais. Eles receberam esse nome, porque os f√≥sseis das suas conchas lembram chifres enrolados, que na √©poca do imp√©rio eg√≠pcio foram atribu√≠dos ao deus Ammon e que, ali√°s, eram considerados provas irrefut√°veis da passagem dessa divindade pela terra, segundo conta Her√≥doto nas suas cr√īnicas acerca do Egipto que foram escritas 500 anos antes de Cristo.

Os Ammonoides podiam nadar livremente e controlavam com grande precis√£o a profundidade na qual habitavam nos mares, pois as suas conchas foram divididas internamente em c√Ęmaras que se comunicavam umas com outras por meio de um canal interno, de modo que o animal conseguia encher com l√≠quido ou gases as diferentes c√Ęmaras e, por conseguinte, subir ou descer na coluna de √°gua, calcula-se que at√© uns 500 metros de profundidade ou mais. O corpo do animal ocupava a √ļltima c√Ęmara, que sempre era a de maior tamanho. Os ammonites foram predadores ativos e o seus corpo possivelmente foi semelhante ou lembrava ao dos polvos e lulas atuais.

Por serem muito abundantes, eles s√£o utilizados para data√ß√£o relativa de camadas de rochas, pois apresentam diferen√ßas muito evidentes e f√°ceis de observar a olho nu entre os primeiros do Devoniano e os √ļltimos do Cret√°ceo. A fei√ß√£o morfol√≥gica que permite organiz√°-los em categorias temporais √© a sutura interna que ser forma no local em que a parede (septos) que divide as c√Ęmeras se une √† parede interna da concha. Esta fei√ß√£o recebe o nome de sutura, e vai evoluindo de uma sutura sinuosa a uma sutura sumamente complexa, formada por um padr√£o de lobos dentados. Assim, com base nas suturas se conhecem tr√™s grupos principais de Ammonoides: (1) Goniatites (sutura simples com algumas ondula√ß√Ķes), que viveram do Devoniano ao Permiano; Ceratites (sutura na qual come√ßam a se definir lobos) encontrada do Permiano ao Tri√°ssico; e por fim, a mais complexa ou Ammonitica, que √© encontrada nos exemplares do Jur√°ssico ao final do Cret√°ceo. A sutura √© bem f√°cil de ver em f√≥sseis onde se observe o molde interno da concha, ou seja, naqueles em que a concha foi preenchida e a parte externa foi dissolvida total ou parcialmente.

Embora no meu ammonite não seja possível ver as suturas, pelos fósseis que também são encontrados associados eu soube que ele data do Cretáceo, mas isso eu descobri um longo tempo depois de ganhar meu primeiro fóssil.

As árvores mitológicas, filogenéticas, tentadoras: quando surgiram?

Ainda valem como obras que dão sentido a uma vida plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho? A figura de uma árvore é realmente muito poderosa. Eu, particularmente, sempre gostei das árvores gorduchas do Rembrandt que me proporcionam uma incrível sensação de aconchego. Mas quando apareceram as árvores dominando a paisagem do nosso planeta? Qual a sua influência, a partir de então, nos ecossistemas terrestres? Pelo menos até agora não temos evidências, ainda, de árvores extraterrestres.

A ponte de pedra. √ďleo sobre tela 29,5 x 42,3¬† cm. Rembrandt
Rijksmuseum, Amsterdam. (http://www.rembrandtpainting.net/complete_catalogue/landscape/bridge.htm)

Bom, os mais antigos vegetais f√≥sseis que conseguiram sobreviver no continente foram, ao que parece pelas evidencias, musgos e a partir desse momento surgiram outros vegetais mais adaptados a viverem no meio seco e nos quais a parte vegetativa tinha uma vida mais longa (espor√≥fito) al√©m de ser de maior em tamanho, enquanto que a parte reprodutora passou a ser menor e com uma vida mais curta (gamet√≥fito). Todas essas adapta√ß√Ķes aconteceram no transcurso da Era Paleozoica. Mas o que caracteriza uma √°rvore? Seu tamanho? Ou possuir um lenho com crescimento secund√°rio, ou seja, no qual se formam an√©is de crescimento com o passar do tempo? Se for pelo tamanho, as primeiras √°rvores apresentavam um formato que lembra as palmeiras de hoje, sendo inclu√≠das dentro dos g√™neros Gilboaphyton e Eospermatopteris, cujos f√≥sseis s√£o encontrados perto de Nova Iorque, nos Estados Unidos e no norte da Venezuela, na cordilheira de Perij√°. O surgimento da possibilidade de ramifica√ß√£o abriu novas possibilidades, assim como o desenvolvimento de sistemas radicular e vascular mais eficientes. Tudo isso aconteceu, pelo registro que se tem, durante o transcurso da segunda metade do per√≠odo Devoniano, entre 398 e 385 milh√Ķes de anos atr√°s. O desenvolvimento desse novo tipo de vegetais, as √°rvores, trouxe profundas mudan√ßas aos ecossistemas continentais, tanto pelo surgimento das florestas e com elas novas possibilidades a vida, quanto para o ciclo do carbono, intemperismo das rochas, estabiliza√ß√£o da eros√£o, balan√ßo do CO2 e consequentemente do clima. As primeiras florestas possivelmente viviam pr√≥ximo aos cursos de √°gua, de forma semelhante √†s florestas ciliares que hoje em dia acompanham o curso dos rios.

Contudo, e apesar dessa restri√ß√£o na sua distribui√ß√£o, uma das mais importantes mudan√ßas dentre as acima comentadas foi introduzida pelos sistemas radiculares (ra√≠zes) que se tornaram mais efetivos, complexos e profundos. Esses avan√ßos trouxeram como consequ√™ncia o desenvolvimento de solos com conte√ļdo org√Ęnico, bem como a intensifica√ß√£o do intemperismo qu√≠mico do entorno abi√≥tico que rodeava as ra√≠zes. Por sua vez, as ra√≠zes desde o inicio j√° apresentavam uma associa√ß√£o com uma classe especial de fungos denominada como micorrizas, hoje presentes em 90% dos vegetais, e que auxiliam na obten√ß√£o de nutrientes do solo e, portanto, na altera√ß√£o qu√≠mica das rochas. Outra ventagem do advento de sistemas radiculares maiores foi a diminui√ß√£o da eros√£o e como consequ√™ncia, da quantidade de sedimentos que era incorporada aos sistemas fluviais e costeiros.

Sistemas radiculares maiores e mais complexos, juntamente com o surgimento de um sistema vascular formado por tubos ou traque√≠des com paredes agora lignificadas e provistas de perfura√ß√Ķes para auxiliar na melhorar a circula√ß√£o de √°gua e nutrientes por todo o corpo do vegetal, permitiram tamb√©m a sustenta√ß√£o de uma por√ß√£o a√©rea maior em altura e com maior √°rea de copa. Essas melhorias permitiram que os vegetais alcan√ßassem v√°rios metros de altura e aumentassem consideravelmente o seu tempo de vida, abrindo um novo cap√≠tulo nos ecossistemas terrestres e oferecendo prote√ß√£o dos raios solares e mais umidade.

Registros de paleosolos devonianos que se desenvolveram em ambientes costeiros e fluviais são uma das evidências acerca do desenvolvimento e sofisticação dos sistemas radiculares, pois neles foram preservados moldes das raízes ou raízes permineralizadas junto com as micorrizas.

Mas calma: essas primeiras árvores ainda não possuam uma reprodução por meio de sementes e, portanto, grandes áreas no interior dos continentes ainda continuavam a desabitadas. As primeiras sementes surgiram no período seguinte, conhecido como Carbonífero, e com elas a possibilidade das florestas cobrirem as terras emersas até hoje.

Paisagem com √°rvores, constru√ß√Ķes da fazenda e uma torre. Rembrandt Harmensz. van Rijn (1606‚Äď1669) Gravura, 123 x 319 mm St√§del Museum, Frankfurt am Main Photo: St√§del Museum, Frankfurt am Main (http://www.themorgan.org/rembrandt/print/179857)

Coincid√™ncias (milagres??) paleontol√≥gicos: as preserva√ß√Ķes excepcionais

Qual a probabilidade de você conversar com alguém sobre algo que você não sabe muito bem e, no dia seguinte, abrir um livro e encontrar exatamente aquele assunto? Ou então, de você ir a um sebo e encontrar à venda um livro que um parente distante seu havia adquirido há anos atrás? Talvez estes pequenos exemplos não sejam reconhecidos como milagres. Na verdade, eu prefiro pensar em coincidência mesmo. Mas de uma probabilidade infinitesimalmente pequena.

Eu já falei em posts anteriores que o processo de preservação e também o da descoberta de um fóssil é um evento raro. Mas tem alguns casos que são surpreendentes, e é sobre um deles que vou escrever hoje; envolve a descoberta de um nodossauro de 110 M.a. na região de Alberta, Canadá.

Localização da cidade onde uma descoberta incrível ocorreu.

A hist√≥ria, que foi divulgada em v√°rios sites, conta que um operador de m√°quinas de uma mina em Fort McMurray, trabalhava na retirada das rochas arenosas impregnadas com √≥leo (trabalho este que exercia h√° 12 anos pelo menos), quando se deparou com algo distinto, muito mais duro que as rochas do entorno. Em seu cotidiano de trabalho era comum encontrar troncos petrificados, mas nunca havia se deparado com um… resto de dinossauro. Resto de dinossauro! E a hist√≥ria n√£o termina por a√≠. N√£o era apenas um conjunto de ossos de dinossauro, como a maioria dos registros de vertebrados que ouvimos falar…

O animal completo (isto √©, todas as suas partes) deveria estar contido naquela rocha, e isso, por si s√≥ j√° √© raro no registro. Mas o mais incr√≠vel desta hist√≥ria √© que n√£o s√£o somente os ossos que ficaram preservados. As impress√Ķes da pele, escamas, osteodermas, ossos, e, possivelmente, at√© sua √ļltima refei√ß√£o, est√£o ali! E ainda: sua forma original est√° mantida, ele n√£o est√° intensamente deformado e achatado.

Apesar de ter sido encontrado em 2011, at√© hoje os estudos com o esp√©cime continuam. Durante a retirada do f√≥ssil do local em que foi encontrado, somente se conseguiu resgatar a sua por√ß√£o mais frontal, do focinho at√© o quadril, e um outro bloco, com a cauda. Foram necess√°rias cerca de 7.000 horas de trabalho em laborat√≥rio para preparar o cr√Ęnio e a cauda para estudo. Esta prepara√ß√£o consiste basicamente na¬†retirada de rocha do entorno do f√≥ssil. O torso do animal ainda est√° em prepara√ß√£o. O bloco que o cont√©m pesa cerca de 15 toneladas. Hoje ele est√° depositado na cole√ß√£o do Museu Real de Ont√°rio (ROM). Seu nome cient√≠fico √© Zuul crurivastator.

Este é o fóssil mais bem preservado de nodossauro  já descoberto. Este é Zuul crurivastator. Foto da National Geographic

Todo o contexto geológico em que ele foi encontrado é também muito interessante. O animal que, em vida, era terrestre e herbívoro, foi encontrado em sedimentos que registram o fundo de um antigo mar. Acredita-se que seu corpo tenha sido carregado, inflado, boiando e em decomposição parcial, por um rio, e quando a carcaça liberou seus gases internos (produtos da decomposição), ela já estava em mar aberto, onde mergulhou para as profundezas, foi soterrada, e ali permaneceu para ser encontrada em 2011.

Zuul, um monstro do filme Caça-fantasmas

De acordo com o Museu Real de Ont√°rio os nodosauros s√£o dinos pertencentes √† infraordem Ankylosauria e eram vertebrados terrestres com 4 patas, corpos achatados, longos e recobertos por uma armadura √≥ssea. Sua cauda apresentava espinhos, e, por vezes, uma clava em sua extremidade. Quando em vida devia chegar aos 6 metros de comprimento e pesar cerca de 2,5 toneladas. Foi o fato de apresentar narinas largas e 4 chifres no cr√Ęnio (atr√°s e embaixo dos olhos), que levou √† classifica√ß√£o em um novo g√™nero, o Zuul. Este nome, ali√°s, remete a um monstro do filme dos Ca√ßa-fantasmas! H√°! N√£o posso deixar de fazer refer√™ncia a um post anterior do blog (este aqui). J√° falamos que √© poss√≠vel que restos de f√≥sseis de grandes tamanhos tenham dado origem √†s lendas dos drag√Ķes, n√£o √© mesmo? Vejam, no caso de Zuul, o monstro do filme, isto √©, a cria√ß√£o humana para uma hist√≥ria de fic√ß√£o cient√≠fica, √© anterior √† pr√≥pria descoberta do f√≥ssil. Como pessoas influenciadas pelo seu contexto hist√≥rico e social, os cientistas envolvidos na taxonomia do f√≥ssil de Alberta homenagearam a fic√ß√£o! N√£o √© legal?

Vocês acham eles parecidos? à esquerda a reconstrução artística do fóssil Zuul, à direita, Zuul, do filme Caça-fantasmas. Fonte: The guardian.

 

Veja a publicação científica desta descoberta aqui.

Você pode ver as imagens e a matéria que inspirou este post abaixo:

http://www.nationalgeographic.com/magazine/2017/06/dinosaur-nodosaur-fossil-discovery/

https://www.scientificamerican.com/article/new-dinosaur-resembles-ghostbusters-monster-zuul/

 

Fonte das imagens:

https://www.theguardian.com/science/2017/may/10/meet-zuul-destroyer-of-shins-the-75m-year-old-ghostbuster-dinosaur

http://www.nationalgeographic.com/magazine/2017/06/dinosaur-nodosaur-fossil-discovery/

Grandes Extin√ß√Ķes: um dia da ca√ßa, outro do ca√ßador

 

Algumas das mas famosas vitimas das extin√ß√Ķes, trilobitas, ammoide, nautiloide reto e bivalve.

Extin√ß√£o √© para sempre, como casar pela igreja … mas no √ļltimo caso, os interessados combinam a hora, dia, m√™s e ano. Mas no caso das extin√ß√Ķes, o processo precisa da conjun√ß√£o de v√°rios fatores e os principais envolvidos … bom… n√£o est√£o assim muito felizes!

O que define uma extin√ß√£o em massa? Pelo geral, o desaparecimento de pelo menos 50% das esp√©cies continentais e marinhas conhecidas, deve se tratar de um evento cosmopolita e pode acontecer somente num pulso ou em v√°rios est√°gios. N√≥s estamos aqui gra√ßas √† √ļltima das extin√ß√Ķes em massa, que aconteceu h√° 66 Ma e os nichos diurnos ficaram dispon√≠veis aos mam√≠feros at√© ent√£o mais restritos √† noite.

Nos √ļltimos 540 Ma da hist√≥ria da vida no nosso planeta acredita-se, por enquanto, que aconteceram pelo menos cinco extin√ß√Ķes em massa e 15 intervalos de extin√ß√Ķes menores. Ent√£o extin√ß√Ķes n√£o s√£o fatos isolados na hist√≥ria da vida! As cinco maiores aconteceram, da mais antiga √† mais recente, na seguinte ordem:

Рpróxima do limite entre os períodos Ordoviciano-Siluriano (443 Ma). Nesse evento, segundo evidências do registro fóssil, desapareceram 85% da fauna marinha (ainda não existia vida nos continentes) especialmente invertebrados (trilobitas, graptozoários, braquiópodes, moluscos, etc.);

Рfinal do período Devoniano (359 Ma). Aqui, 75% da vida desaparece, incluindo formas de vida marinhas e continentais;

– limite entre as eras Paleozoica e Mesozoica ou extin√ß√£o do Permiano-Tri√°ssico (240 Ma). Tamb√©m conhecida como m√£e de todas as extin√ß√Ķes, pois com ela 95% de todas das formas de vida desaparecem (entre eles muitos invertebrados como corais, crinoides, al√©m de vegetais etc.). Contudo, o evento foi menos severo para os tetr√°podes e como consequ√™ncia os amniotas vir√£o se tornar dominantes;

– pr√≥xima do limite Tri√°ssico- Jur√°ssico. Acredita-se que foram v√°rios pulsos de extin√ß√Ķes que transcorrem durante 18 Ma;

– e por fim, o √ļltimo grande evento de extin√ß√£o aconteceu no limite entre as eras Mesozoica e Cenozoica, mais conhecido como extin√ß√£o do Cret√°ceo-Pale√≥geno. Neste evento 70% da vida se extinguiu.

O que produz um evento de extin√ß√Ķes em massa? Existem v√°rias causas, entre elas vulcanismo, impacto de asteroides, mudan√ßas clim√°ticas dr√°sticas, deriva continental, anoxia (falta de oxig√™nio) generalizada nos mares, ou todas elas juntas. Como atuam essas causas? Podemos tomar como exemplo a extin√ß√£o do Cret√°ceo-Pale√≥geno, que teve como causa culminante a queda de um asteroide. Pelas evid√™ncias, quando o asteroide atingiu o planeta foi liberada uma energia equivalente a 10 bilh√Ķes de bombas como a de Hiroshima. O local da queda √© hoje conhecido como a cratera de Chicxulub e fica no golfo de Yucatan, M√©xico. A cratera tem aproximadamente 200 km de di√Ęmetro e uma profundidade de 30 km, pelo que se calcula que o asteroide teria ao redor de 15 km de di√Ęmetro. Hoje em dia, a cratera na sua maior parte se encontra emersa e recoberta por mais de 600 m de sedimentos. A por√ß√£o que se encontra em terra est√° recoberta por rocha calc√°ria, mas seu contorno ainda pode ser devidamente tra√ßado.

No final do Cret√°ceo o local da queda era ocupado por um mar pouco profundo e quente, rico em recifes de corais, no qual ocorria a deposi√ß√£o de evaporitos como o gesso ‚Äď gipsita, Ca(SO4) ‚Äď rico em sulfeto. Como consequ√™ncia da queda, as √°guas desse mar foram vaporizadas e em consequ√™ncia, toneladas de enxofre foram para a atmosfera, propiciando chuva √°cida ao redor do planeta. Como se fosse pouco, com a libera√ß√£o de semelhantes quantidades de energia tamb√©m surgiram grandes ondas (tsunamis), cujos registros s√£o atualmente encontrados em locais distantes como a costa da Venezuela. Al√©m do impacto desse asteroide, o final do Cret√°ceo tamb√©m foi marcado por intensas erup√ß√Ķes vulc√Ęnicas na √ćndia as quais se calcula que tenham liberado de 100 a 1.000 bilh√Ķes de toneladas de cinzas, que perduraram de 100 a 1.000 anos na atmosfera superior. Tamb√©m a separa√ß√£o entre a √Āfrica e a Am√©rica do Sul trouxe a abertura do oceano Atl√Ęntico Sul teve como consequ√™ncia a queda no n√≠vel dos mares e, por consequ√™ncia, uma mudan√ßa nas correntes oce√Ęnicas com a queda das temperaturas. Assim, a soma desses fatores ‚Äúfavoreceu‚ÄĚ a extin√ß√£o em massa.

No evento do Pint of Science

Minha palestra no evento Pint of Science –¬†Campinas no dia 16/05/2017 foi relativa a esse tema.¬†Obrigada por me convidar foi √≥timo.