Arquivo da categoria: Carolina Zabini

O problema não é o 13, é o 14! O mito do Carbono 14 na Paleontologia

H√° quem diga que o treze √© um n√ļmero da sorte.¬†E h√° tamb√©m aqueles que n√£o gostam das sextas-feiras 13‚Ķ¬†

Mas como professora de paleontologia j√° h√° alguns anos eu tenho dificuldades com o 14. Na verdade, com o Carbono 14 (C14).

Em algum momento da vida de voc√™s, meus queridos alunos e/ou leitores, algu√©m lhes falou sobre ele. E eu n√£o sei bem os motivos da m√≠dia e de alguns livros de conte√ļdo b√°sico sobre geoci√™ncias enfocarem a data√ß√£o por carbono 14 como sendo a resolu√ß√£o de todos os problemas na vida de um paleont√≥logo; mas, claro, essa t√©cnica n√£o √© tudo isso.

A simplificação que normalmente vejo nos textos sobre o assunto passa uma ideia errada de como a datação de materiais fósseis realmente funciona.

Mas vamos começar do início…

Datação de quê? Idade do organismo ou há quanto tempo ele viveu/morreu?

Para obtermos a idade de algum material, necessitamos de alguma técnica que meça a quantidade de anos que aquele material tem, ou que nos indique uma idade aproximada do material em questão. Com isso eu quero dizer o seguinte: se um organismo viveu durante 30 anos, no período Triássico (250-200 M.a.), a idade que iremos obter com algum método de datação é a idade triássica. A idade do organismo (se era jovem, adulto ou idoso) também pode ser obtida, de forma aproximada, com nossos conhecimentos sobre o desenvolvimento ontogenético do grupo ao qual aquele organismos pertence; mas não é sobre isso que iremos tratar aqui, ok?

O que é necessário para datar?

O m√©todo Carbono 14 necessita de mat√©ria org√Ęnica para ser utilizado.

Os f√≥sseis, como n√≥s j√° falamos por aqui no blog, nada mais s√£o que restos ou vest√≠gios de vida pret√©rita transformados (em algum grau) em rocha (litificados). Existem, sim, casos onde h√° preserva√ß√£o de material org√Ęnico original. Mas na maioria das vezes, esse material √© perdido no processo de litifica√ß√£o. Ent√£o, na maioria das vezes, n√£o h√° Carbono para ser datado nos f√≥sseis.

Quais as premissas da técnica?

Toda técnica utilizada pelos cientistas segue algumas premissas e possui alguns limites.

Uma das premissas é que o material tenha Carbono, como falamos antes. Então, se quisermos saber a idade de uma rocha (que não tenha C), o método de C14 não pode ser aplicado.

Is√≥topos s√£o elementos qu√≠micos (isto √©, t√™m pr√≥tons, n√™utrons e el√©trons) que possuem n√ļmero at√īmico igual (n√ļmero de pr√≥tons) mas um n√ļmero de massa diferente (m√©dia ponderada das massas dos is√≥topos, isto √© pr√≥tons + n√™utrons). No caso da Carbono, encontramos na natureza v√°rios is√≥topos, e os mais comuns s√£o C12, C13 e o famoso C14. A abund√Ęncia natural desses is√≥topos √© diferente, sendo o C12 o mais est√°vel e mais comum dentre todos. Sendo o mais comum (e tamb√©m por outros motivos) os organismos utilizam-se mais do C12. No entanto, o C14, apesar de raro, tamb√©m √© incorporado pelos organismos.

O C12 com 6 prótons e 6 neutrons. Fonte.

O C14 n√£o √© t√£o comum quanto o 12 basicamente por dois motivos: porque ele se forma na alta atmosfera pela a√ß√£o de raios c√≥smicos e descargas el√©tricas em nitrog√™nios (eventos aleat√≥rios), e porque o C14 √© um is√≥topo inst√°vel de Carbono, isto √©, ele se transforma em nitrog√™nio novamente, para alcan√ßar sua estabilidade. Esse fen√īmeno √© muito bem explicado no v√≠deo que coloquei nas refer√™ncias deste texto.

No princ√≠pio do desenvolvimento da t√©cnica de C14, uma premissa importante para o estudo era que a forma√ß√£o do C14, apesar de rara, ¬†seria constante para os √ļltimos s√©culos. Hoje sabe-se que houve varia√ß√£o e uma tabela j√° foi constru√≠da para adequa√ß√£o das an√°lises.

O quadro abaixo mostra os diversos is√≥topos de Carbono e a dura√ß√£o de suas meias-vidas na natureza ( em segundos “s” ou minutos “m”. Fonte):

Simb % natural Massa Meia vida
9C 0 9,0310 0,127 s
10C 0 10,0169 19,3 s
11C 0 11,0114 20,3 m
12C 98,93 12,0000 Est√°vel
13C 1,07 13,0034 Est√°vel
14C 0 14,0032 5715 a
15C 0 15,0106 2,45 s
16C 0 16,0147 0,75 s
17C 0 17.0226 0,19 s

Como o C14 chega a fazer parte da matéria de um carnívoro?

As plantas, por meio de fotossíntese, utilizam os CO2 produzidos pelas descargas elétricas e impactos de raios cósmicos nos N; seguindo a cadeia alimentar, os animais que predam plantas, incorporam esse C instável, e por conseguinte, o C14 chega aos carnívoros que predam estes herbívoros.

Todo paleontólogo usa esta técnica?

Nem todo o paleont√≥logo sabe dizer a idade exata (em n√ļmeros absolutos) do material com que trabalha. Eu, por exemplo, nunca datei absolutamente nenhum f√≥ssil com que j√° trabalhei. O C14 √© usado para datar materiais de at√© 50 ou 60 mil anos. Eu trabalho com f√≥sseis de 400 milh√Ķes de anos!

O limite do método se dá por um viés analítico. Como o C14 é muito raro em proporção na matéria a ser analisada, após 10 decaimentos suas porcentagens são tão pequenas que ele fica quase impossível de ser detectado. Após 10 decaimentos o material tem cerca de 50 mil anos, uma vez que a meia-vida do C14 tem 5.730 anos.

Como se conta o C14?

O primeiro a realizar a contagem de C14 foi o pesquisador Libby, utilizando um contador Geiger. Ao se desintegrar, um C14 emite uma part√≠cula beta; essa part√≠cula √© detectada pelo referido equipamento. Ao colocarmos 1 grama de C atual (de algum ser vivo), temos 13,6 contagens por minuto. Sabendo disso, usamos da matem√°tica para saber quanto 1g de alguma amostra f√≥ssil pode indicar em termos de idade. Se a contagem for de 6,8, significa que uma meia vida j√° passou, isto √©, o organismo em quest√£o morreu h√° 5.730 anos. Outras t√©cnicas mais recentes e precisas j√° foram desenvolvidas, utilizando, por exemplo, a contagem dos √°tomos em si e comparando-se suas propor√ß√Ķes. Mais detalhes sobre isso podem ser lidos aqui.

√Č fato que a maioria das pessoas, quando questionada sobre data√ß√£o, lembra do C14. Mas veja, para o estudo paleontol√≥gico de materiais mais antigos que 50 mil anos, a t√©cnica n√£o pode ser utilizada! Lembrando que o planeta tem 4,5 G.a., o C14 n√£o √© o principal m√©todo de data√ß√£o em paleonto‚Ķ! Outros m√©todos s√£o muito mais comuns, como a data√ß√£o relativa das camadas e tamb√©m as data√ß√Ķes absolutas de rochas √≠gneas + data√ß√£o relativa das camadas de rochas sedimentares.

Como datar absolutamente uma camada?

Quando temos rochas √≠gneas, podemos usar m√©todos de data√ß√£o como Rub√≠dio-Estr√īncio, Chumbo-Chumbo, Ur√Ęnio-Chumbo, Pot√°ssio-Arg√īnio, entre outros. Neste caso, esses elementos qu√≠micos inst√°veis foram formados ¬†quando houve a gera√ß√£o dos minerais que comp√Ķem as rochas, por isso, assim que eles solidificam, seu decaimento inicia e a contagem do tempo atrav√©s das suas meias-vidas pode ser obtida. Cada rela√ß√£o is√≥topo-pai/is√≥topo-filho tem uma longa s√©rie de intermedi√°rios que se formam e possibilitam a data√ß√£o absoluta.¬†

E agora... você já sabe quais métodos mais usamos?
Por isso o C14 não é uma técnica utilizada em materiais mais antigos que 50 mil anos, e portanto, não é muito utilizado em Paleontologia. Observe, portanto, a imagem abaixo e me diga o que poderia ser melhorado nela?!

 

decaimento radioativo do C14
Ilustra√ß√£o que mostra o decaimento radioativo do C14… mas que induz as pessoas a achar que √© poss√≠vel datar um f√≥ssil de dinossauro com C14. Fonte.

 

Referências

http://www.deboni.he.com.br/dic/quim1_006.htm

https://manualdaquimica.uol.com.br/quimica-geral/isotopos.htm

http://www.seara.ufc.br/donafifi/datacao/datacao5.htm

Um outro post nosso sobre o tempo geológico, pode ser lido aqui.

Cole√ß√Ķes de F√≥sseis de A a Z (de Aldrovandi √† Zabini)

Quem nunca trouxe para casa uma pedra bonita no bolso que atire a primeira pedra.

Museu do Palazzo Poggi, Bolonha, mostrando a coleção de História Natural montada por Ulisse Aldrovandi

O h√°bito de ‚Äúcatar pedrinhas‚ÄĚ √© t√£o antigo quanto a humanidade. Nossos ancestrais adoravam carregar pedras bonitas que encontravam pelos motivos os mais diversos: por que era bonita, por que tinha uma forma familiar, por que tinha uma forma estranha…o fato √© que as pedras nos atraem.

Entretanto, se as “pedrinhas” tiverem um formato conhecido, parecendo um animal ou planta, melhor ainda. Desta forma, ficamos ainda mas fascinados por elas. Ficamos olhando, sentindo na m√£o suas texturas, seus formatos, vendo seus brilhos conforme as olhamos contra a luz. Por vezes, levamos a rocha ou o mineral ou o f√≥ssil para o quarto, colocamos na prateleira. Ao acordar, olhamos novamente fascinados. No entanto, isso n√£o vai ficar por a√≠.

Uma nova coleção tem início.

As cole√ß√Ķes de f√≥sseis

Com o tempo, o h√°bito de colecionar estes objetos fascinantes foi se tornando cada vez mais sofisticado. Por outro lado, as cole√ß√Ķes foram ficando cada vez maiores e mais volumosas. N√£o cabiam mais em simples gavetas e prateleiras. Ao final do s√©culo XVI o s√°bio italiano Ulisse Aldrovandi (1522-1605) foi o curador de uma destas grandes cole√ß√Ķes, que ent√£o envolviam esp√©cies animais, vegetais e minerais.

o Filosofo Natural Ulisse Aldrovandi (1522-1605), o criador da palavra Geologia e um dos maiores S√°bios de seu tempo.

Em s√≠ntese, Aldrovandi tinha uma grande cole√ß√£o de Historia Natural. Tinha animais, vegetais e “o reino mineral”, envolvendo o que hoje chamamos de rochas, minerais e f√≥sseis. As gavetas nas quais guardava os esp√©cimes n√£o eram como hoje, separados por tipos de rochas, por minerais e por f√≥sseis. Era tudo misturado, mesmo porque n√£o se tinham claros¬†os processos pelos quais uma rocha se formava.

Naquele tempo, tais cole√ß√Ķes eram chamadas de “cole√ß√Ķes de f√≥sseis”. O conceito de f√≥ssil durante o Renascimento era muito diferente do conceito moderno, conforme j√° tratamos aqui. A palavra f√≥ssil vem do latim ‚Äúfodere‚ÄĚ, que significa escavar. F√≥ssil era tudo que pud√©ssemos escavar, retirar da terra. Tudo que era retirado da terra era f√≥ssil. Solo, pedra, mineral, rocha, f√≥ssil (no sentido moderno).

O Museum Mettalicum

Assim, Aldrovandi publicou um cat√°logo de sua exposi√ß√£o de f√≥sseis. O catalogo era t√£o imenso, o “Museum Metallicum” (folheie suas p√°ginas aqui), que s√≥ foi terminado muitos anos depois da morte de Aldrovandi, em 1648, por seu disc√≠pulo Batholomeu Ambrosinus. Nele, Aldrovandi e Ambrosinus mandaram fazer xilogravuras detalhadas, mostrando as esp√©cies de sua cole√ß√£o.

Frontispício do grande catalogo Museum Metalicum, elaborado por Ulisse Aldrovandi e seu discípulo Ambrosinus.

Em primeiro lugar, atrav√©s de seu estudo, podemos ter uma ideia da concep√ß√£o de mundo de Aldrovandi. Por outro lado, os crit√©rios utilizados na sua cole√ß√£o baseavam-se, como os de hoje, na vis√£o de mundo do colecionador. Para n√≥s, alguns destes crit√©rios podem parecer estranhos ou mesmo n√£o-cient√≠ficos. No entanto, sabemos que Aldrovandi, se n√£o era um moderno cientista – essa palavra s√≥ foi inventada dois s√©culos depois, no s√©culo XIX ‚Äď era um s√°bio, um Fil√≥sofo Natural dos mais importantes.

Aldrovandi e a Geologia

Foi Aldrovandi, inclusive, quem inventou a palavra ‚Äúgeologia‚ÄĚ, num livro que publicou em 1603. Em sua defini√ß√£o, geologia seria o estudo de objetos aflorantes e enterrados‚Äď os f√≥sseis. O uso mais recente da palavra geologia, pr√≥ximo do que utilizamos hoje, foi utilizada a partir do final do seculo XVIII.

Em s√≠ntese, o conceito de rochas e minerais mudou. Minerais s√£o subst√Ęncias org√Ęnicas ou inorg√Ęnicas naturais, com composi√ß√£o qu√≠mica definida e propriedades f√≠sicas que refletem a sua estrutura interna. Desta forma, um cristal de halita (sal gema ou sal de cozinha) tem as mesmas propriedades que as mol√©culas de NaCl. Por outro lado, rochas s√£o definidas como agregados de minerais.

Cristais de Halita, ou sal gema, ou sal de cozinha. Os cristais refletem a estruturação das moléculas de NaCl presentes em sua composição.

F√≥sseis, no sentido moderno, s√£o restos ou marcas¬† de organismos preservados por in√ļmeros processos de litifica√ß√£o. Alguns processos foram discutidos aqui no blog, tanto pela professora Fr√©sia quanto pela professora Carolina. para uma discuss√£o mais abrangente veja aqui.

Dinossauros no IG?

Nesta semana abriu uma exposi√ß√£o sobre dinossauros no Instituto de Geoci√™ncias da Unicamp. Chama-se ‚ÄúDinossauros (?) no IG‚ÄĚ e vai at√© setembro no sagu√£o principal de nosso novo pr√©dio, na rua Carlos Gomes, 250, no campus de Bar√£o Geraldo em Campinas.

A exposição tem a Curadoria da professora Carolina Zabini, nossa companheira de blog. Carolina, que é bióloga de formação e paleontóloga de carreira e coração e blogueira nas horas vagas(!), montou uma exposição muito interessante, que discute vários aspectos destes ainda estranhos monstros.

Detalhe da Exposição Dinossauros no IG, montada por Carolina Zabini

Desta forma, com uma linguagem ágil e muitas caricaturas engraçadas, feitas de maneira competente pelo Claudinei Fernandes de Oliveira, ela aborda diversos aspectos dos dinossauros: seus hábitos, seus diferentes tipos, as suas linhagens evolutivas. Tudo isso é contado pelas caricaturas e por miniaturas muito realistas e bem-feitas, construídas pelo prof. Luiz Anelli, do IG-USP.

Os Dinossauros no espelho humano

Por fim, uma das partes mais interessantes, ao menos para mim, é a parte em que são apresentadas miniaturas de dinossauros mais antigas (!), feitas nos anos 60. Elas mostram seres reptilianos grotescos e bizarros, como quando eu era menino aprendi que eram os grandes dinossauros . Contudo, de lá para cá, aprendemos também que eles podiam ser coloridos, e que muitos deles usavam penas!

Sim, nossa concep√ß√£o de dinossauros muda conforme nossa vis√£o deles, que muda com os avan√ßos da ci√™ncia. Da mesma forma,¬† muda tamb√©m com nossa vis√£o de n√≥s mesmos. Nos in√≠cios da paleontologia, no s√©culo XIX, os dinossauros eram representados como grandes e ferozes bestas. De l√° at√© o “Baby” de Fam√≠lia Dinossauro, muita coisa mudou. Mudaram os dinossauros e mudamos n√≥s.

Um monstruoso Pteranodon em r√©plica dos anos 60; a foto, tamb√©m monstruosa, √© deste blogueiro…

Desta forma, vimos que as cole√ß√Ķes de fosseis mudaram muito, de A √† Z. De Aldrovandi a Zabini. No in√≠cio, eram meros cat√°logos, separando os esp√©cimes segundo crit√©rios os mais diversos. Hoje, as exposi√ß√Ķes tem conceito, linguagem e s√£o cuidadosamente constru√≠das para p√ļblicos espec√≠ficos.

No entanto, uma coisa n√£o mudou: nosso estranho e esquisito h√°bito de colecionar objetos do mundo natural.

PARA SABER MAIS:

Duroselle-Melish, C., & Lines, D. A. (2015). The library of Ulisse Aldrovandi († 1605): acquiring and organizing books in sixteenth-century Bologna. The Library, 16(2), 133-161.

Ogilvie, B. W. (2008). The science of describing: Natural history in Renaissance Europe. University of Chicago Press.

Os r√©pteis do passado… todos dinossauros?

Quando se fala em dinossauro, ou melhor, em paleontologia, qual imagem vem a sua cabeça?

Veja se pensou em alguma destas associa√ß√Ķes/imagens:

Paleontologia e o Indiana Jones

O Paleontólogo Ross (do seriado Friends)

Baby (da família dinossauros)

Piteco e¬†Hor√°cio (da Turma da M√īnica)

Godzilla

Jurassic Park e derivados

E se você tem menos de 30 anos...

Barney the purple dinosaur

Já falamos aqui que a paleontologia é a ciência que estuda a vida pretérita. E essa vida está registrada na forma de fósseis, certo? Então a paleontologia estuda os fósseis.

E os dinossauros?

Posso dizer que essas 3 palavras (paleontologia, fósseis e dinos) normalmente caminham juntas no imaginário popular.

Para a maioria das pessoas os dinossauros s√£o bichos gigantes, “verdes” e com dentes afiados, que caminhavam, voavam e nadavam; isso tudo num passado muito, muito distante. Ser√° isso mesmo?

Montei um questionário bem simples, para entender seu conhecimento sobre fósseis e dinos. Quer participar? Clique aqui antes de continuar a ler o texto.

Se você já respondeu as perguntas, deve ter percebido que:

  • Alguns termos como ‚Äúf√≥sseis‚ÄĚ, ‚Äúrochas‚ÄĚ, ‚Äúminerais‚ÄĚ, e ‚Äúdinossauros‚ÄĚ podem causar certa confus√£o; vamos aos conceitos:
    • Minerais s√£o compostos s√≥lidos homog√™neos e com uma composi√ß√£o qu√≠mica conhecida. Devem apresentar um arranjo ordenado de seus √°tomos.
    • Rochas s√£o conjuntos de mineras e podem ter origem vulc√Ęnica, sedimentar ou metam√≥rfica. As que apresentam f√≥sseis s√£o normalmente sedimentares.
    • F√≥sseis s√£o restos ou vest√≠gios de atividade de vida com mais de 11.000 anos. Normalmente preservados em rochas, mas tamb√©m ocorrem no gelo, √Ęmbar, cinzas vulc√Ęnicas…
    • E os dinos!

Talvez voc√™ tenha ficado em d√ļvida ao escolher algumas das imagens que representam dinos. Todos os organismos representados ali est√£o extintos. Mas isso n√£o significa que todos fazem parte do grupo Dinosauria.

N√£o √© porque se assemelham a r√©pteis que s√£o dinossauros (apesar do termo ‚ÄúDinosauria‚ÄĚ significar lagarto terr√≠vel).

Não é porque os bichos das imagens têm penas que não são dinos. No caso de apresentarem pelagem, tudo bem, aí não são dinos mesmo; são mamíferos.

Dinos viveram muito antes do g√™nero Homo surgir. No m√≠nimo, 63 milh√Ķes de anos antes.

Bom, acho que j√° deu para perceber que nem tudo que √© grande, “verde”, com dentes afiados e esteja representado no registro f√≥ssil, √© dinossauro.

O Rafael já falou um pouco sobre a organização do grupo Dinosauria em outro post. Basicamente a postura deles é que os faz um grupo distinto dos demais répteis que conviviam com eles.

Quais demais r√©pteis existiam ent√£o, voc√™ pode estar se perguntando…? os voadores, como os pterossauros, os nadadores, como os ictiossauros, mosassauros, plesiossauros….(e nenhum deles faz parte do grupo Dinosauria). Apesar de terem convivido, predado, competido com eles por espa√ßos, presas e muito mais. Ent√£o eles compartilharam o tempo e espa√ßo juntos, mas isso n√£o faz com que todos sejam pertencentes ao mesmo grupo. √Č s√≥ olhar para a diversidade de hoje para entender o que estou dizendo. Nem todos os animais que vivem hoje s√£o mam√≠feros. Temos r√©pteis, aves, anf√≠bios, peixes… vivendo ao mesmo tempo (coexistindo), no nosso planeta.

E para completar este post, é com satisfação que convido todos vocês a virem ao IG da UNICAMP para aprenderem um pouco mais sobre esse tema. Trouxemos do IG da USP uma exposição com pequenos bonecos de dinossauros e outros organismos, para explicar a todos um pouco do que estudamos na paleontologia e para compartilhar perguntas divertidas sobre esses animais tão peculiares.

A exposi√ß√£o ‚ÄúDinossauros (?) no IG‚ÄĚ fica aberta de 5 de abril at√© 30 de setembro, no IG, Instituto de Geoci√™ncias, a UNICAMP. Para grupos ou pessoas que queiram visitas guiadas, √© necess√°rio agendamento. Os hor√°rios de funcionamento ser√£o das 9h √†s 17h de segunda √† sexta. Nos dias 7 e 8 de abril (s√°bado e domingo) estaremos recebendo o p√ļblico tamb√©m. Como esta exposi√ß√£o foi realizada em parceria como o Museu Explorat√≥rio de Ci√™ncias da UNICAMP, eles trar√£o atividades como oficinas de escava√ß√£o de f√≥sseis; e a Casa do Lago, ao lado do IG, trar√° atividades culturais concomitantes na manh√£ do dia 8.

A exposição foi pensada para todos. Queremos ver vocês aqui, adquirindo conhecimento científico no lugar onde ele é produzido!

Aproveito este espaço para agradecer!
- ao Prof. Luiz E. Anelli e seu amigo Alexandre Hon√≥rio Dionisio dos Santos pelo empr√©stimo dos materiais que comp√Ķem essa exposi√ß√£o;
- a toda equipe do Museu Exploratório de Ciências da UNICAMP, sem a qual não teria conseguido organizar o evento;
- à empresa Tesla concursos de engenharia que patrocina o evento;
- ao Biólogo Rafael A. Ribeiro, meu orientando de Mestrado, por todo auxílio e paciência em todas as etapas deste projeto!
- a todos os amigos próximos...
:*

Mais informa√ß√Ķes sobre a exposi√ß√£o no facebook,

Ou na agenda de eventos da UNICAMP.

Telefone para agendamento da visita guiada:19 3521-1727.

 

Mulher, Paleontóloga. Entrevista com a Profa. Frésia

Primeiro post do ano e uma homenagem dupla!!  Dia 7 de março é o dia do paleontólogo e dia 8 é o dia da mulher. Nada melhor que conhecer melhor a carreira da Paleontóloga Dra. Frésia Soledad Ricardi Torres Branco, professora Livre-docente do Instituto de Geociências Unicamp.

A professora Fresia atua na UNICAMP desde 1998 e j√° formou cerca de 22 estudantes entre mestrado e doutorado. √Č chilena e fez mestrado e doutorado com paleobot√Ęnica, na USP. Mora no Brasil desde ent√£o…

Atualmente a professora está pesquisando na Universidade de Cardiff, País de Gales; então fizemos nossa entrevista via chat. Abaixo você confere nossa conversa.

Fr√©sia: Qual a sua pergunta ‚Äún√ļmero um‚ÄĚ?

Carolina: Como foi que você decidiu ser paleontóloga?

Fr√©sia: Eu escrevi um post acerca disso. Ele se chama ‚ÄúMeu primeiro f√≥ssil, o pai de todos‚ÄĚ; mas, resumidamente, foi meu pai que me deu de presente um n√≥dulo do Cret√°ceo da Col√īmbia com um amonita dentro.

Carolina: ah sim, aquele sobre o amonita…

Fr√©sia: Isso com o amonita, √© um molde externo. A√≠ eu gostei e decidi ser paleont√≥loga. Isso foi quando eu tinha uns 16 anos. Tenho ele em casa at√© hoje. Trouxe da Venezuela para o Brasil. Ali√°s ele foi da Col√īmbia para Venezuela e depois para o Brasil.

Carolina: √Č um f√≥ssil viajado!

 Frésia: Isso mesmo, viajou pelos Cretáceos da América do Sul!

Carolina: depois que ganhou ele, já sabia como se tornar paleontóloga? seus pais sabiam?

Frésia: Não tinha a menor ideia. Aí meu pai me falou que devia ser estudando geologia. Mas não tinha geologia não universidade de Merida, onde morávamos. Minha mãe ficou brava pois teria que ir embora para outra cidade para estudar; como ela não queria isso, me aconselhou a estudar geografia. Aí eu prestei para geografia.

Carolina: então você morou com eles na graduação?

Frésia: Claro. Nunca que eu iria morar longe de casa com 17 anos na Venezuela, e menos ainda em Caracas. Caracas eles tenham um pouco de medo, pois não era como o Chile.

Carolina: Entendi. E no seu curso de geografia, tinha sedimentologia e paleonto?

Fr√©sia em sua inf√Ęncia

Fr√©sia: N√£o tinha. Mas ent√£o quando eu estava no quarto ano abriu a geologia como gradua√ß√£o. Eu cursei paleo, sedimento, estrati, tect√īnica, geo hist√≥rica, campo 1 , e geo geral na geologia. Mas a√≠ queria me formar … Pois j√° estava h√° 6 anos na gradua√ß√£o… E peguei umas greves grandes de professores tamb√©m

Carolina: Ah certo. Tinha muitas mulheres cursando geografia ou geologia com você?

Frésia: Geografia tinha, mas geologia tenha umas 5 só. Quase todos eram homens. Foi aí que conheci o professor de paleo que me convidou a trabalhar com ele. O Dr Oscar Odrenan.

Carolina: Você sentiu algum tipo de preconceito por ser mulher ali?

Fr√©sia: N√£o era legal. Fui muito paparicada. Enfim, n√£o senti na gradua√ß√£o, n√£o.¬†O Dr. Odrenan era especialista em mam√≠feros da Argentina.¬†Mas trabalha como ge√≥logo de campo na Venezuela e dava aula de Paleo.¬†A√≠ ele me deu a escolher o que eu preferia invertebrados, plantas etc…

Carolina: Ele que te incentivou para ficar na carreira acadêmica?

Fr√©sia: Ele sim. E os meus pais, que eram professores universit√°rios. Bom, a√≠ eu escolhi as plantas porque podia ter ajuda dos meus amigos da Bot√Ęnica. O Dr. Odrenan me passou um tema com uma flora do Mioceno.

Carolina: Seus pais eram bot√Ęnicos, √© isso mesmo?

Fr√©sia: Isso eles eram bot√Ęnicos e eu tinha muitos amigos l√° da minha idade, entre os alunos dele. Ent√£o eu foi estudar bot√Ęnica por uns 2 anos fiz v√°rios cursos por l√°.

Carolina: E depois, foi logo que decidiu vir pro Brasil?

Fr√©sia: N√£o. Eu conheci um palin√≥logo holand√™s. Ele me convidou a ir para Amsterdam e fazer doutorado com ele com a minhas folhas f√≥sseis do Mioceno. Mas n√£o dava para eu ir fazer porque n√£o tinha mestrado nem publica√ß√Ķes. Ele me falou para eu fazer um mestrado e depois ir para Amsterdam com ele e sa√≠ procurando um mestrado para mim. Mas n√£o deu certo, em curto prazo. Em seguida eu fui para um congresso de bot√Ęnica Sul Americano em Havana. L√° eu vi uma palestra do Dr. Oscar Rosler, da USP. Gostei dele e da palestra e perguntei se ele poderia me orientar no mestrado. Ele topou. Ai o Dr. Odrenan me passou uns f√≥sseis de plantas do Permiano. Ent√£o fui para o Brasil com 100 kg de f√≥sseis do Permiano da Venezuela para fazer mestrado na USP.

Campo no Cear√°, 2017.

Carolina: Nossa, como você trouxe isso para cá? de avião?

Fr√©sia: Ah sim, eram 2 malas, e 6 caixas de amostras. Mas quase n√£o paguei excesso de bagagem porque era para fazer um estudo. Tudo foi registrado na alfandega, levou umas 2 horas…

Carolina: ah, ent√£o foi mais tranquilo do que eu pensei.

Frésia: Bom, aí tinha pensado ir para Holanda quando acabasse o meu mestrado. Mas no segundo ano do mestrado conheci o Fábio (atual esposo) e acabei ficando no Brasil. Enfim a gente casou, e o Fábio não quis ir a morar na Venezuela. Entçao fiquei pra fazer o doutorado na USP. Estudei a mina de Carvão de Figueira-PR.

Carolina: Foi um desafio vir pra c√°? estudar no Brasil?

Frésia: Foi, quando eu vim para SP nunca antes tinha visto nenhuma fotografia da USP, e nem falava português. Foi uma aventura total.

Carolina: Mas chegou a pensar em voltar pra casa em algum momento? Desisitir?

Frésia: Meus pais tinham me enviado uma passagem de ida e volta de um mês, para o caso de eu não gostar. Eu não tinha que dar conta do recado. Mas se voltasse, iria voltar para casa e ficar na mesma, vendo a vida passar pela janela. Enfim, não foi muito fácil. Mas sobrevivi.

Carolina: Mas a paleo sempre foi sua paix√£o?

Frésia: Ah sim. Cada vez que olho um fóssil na lupa, sinto que estou fazendo o que mais gosto, e que não trocaria por nada.

Carolina: O que mais te fascina na sua carreira?

Fr√©sia: Poder descobrir como era essa evid√™ncia, onde morava, como morava… deixar voa a imagina√ß√£o com base nas evid√™ncias que voc√™ tem. Ir no campo e coletar as amostras. As possibilidades de conhecer coisas novas e pessoas diferentes.

Carolina: Tudo isso supera as dificuldades né?

Frésia: Claro. Já imaginou trabalhar a vida toda no mesmo lugar?

Carolina: Você diria que foram o amonita, seus pais e seu primeiro orientador que te inspiraram?

Frésia: Penso que sim, mas você tem que ter sua própria curiosidade, a sua inquietude interna por ir além. Se não todos os nossos alunos da paleo seriam paleontólogos. Seu olho tem que brilhar quando vê um fóssil novo.

Carolina: Certo! Quais s√£o, em sua opini√£o, as maiores dificuldades de se trabalhar com paleontologia?

Frésia: Na verdade para mim a parte mais difícil começou depois que me tornei professora. Eu dava umas palestras como aula e depois em 2000 abriu o concurso que passei, para trabalhar por 12 h. Aí passou para 20 h. Mas eu era a que mais dava aula no IG.

Carolina: Era difícil porque eram muitas aulas?

Frésia: Não a parte mais complicada é que quando você é doutoranda você tem muitos amigos e os professores são amigos. Mas depois que você é doutor e tem emprego, já não é mais aluno; então se torna colega ou concorrente. Aí a coisa fica muito tensa. Pois as pessoas não sabem ter colegas. E aí começam a ficar estranhos. E mesmo pessoas que você gostava antes, passam a brigar com você. E você vai ficando sozinho se quiser ser livre e pensar como quiser e pesquisar como quiser e quando quiser. E não tem nada a ver com ser homem ou mulher. Mas a gente sobrevive e vai para frente. Depois tem seus colegas. Que fazem a coisa certa, no tema certo, no mundo certo. E você não. Porque não é tudo mundo que é igual, nem tem a mesma história, nem a mesma cabeça. Então a parte mais difícil é quando você se torna um profissional.

Carolina: e tem que mostrar que tamb√©m √© uma cabe√ßa pensante, n√©? se impor, de alguma forma…

Fr√©sia: Mas com o tempo e depois que chora por um pouco… cansa de tudo isso e vai em frente. E continua a fazer o que voc√™ mais gosta, olhar os f√≥sseis n√©?

Carolina: e você já formou muitos alunos, não é mesmo?     isso não é gratificante?

Fr√©sia: √Č muito legal mas demora um pouquinho. Depois flui mais f√°cil…e voc√™ vai aprendendo com eles tamb√©m a respeitar os seus futuros colegas, pois um dia eles terminam e s√£o doutores. Voc√™ n√£o vai querer fazer igual que as pessoas que voc√™ acha que est√£o erradas. Penso que tem que somar e multiplicar. Nem sempre voc√™ vai ser a dona da verdade ou n√£o vai ter d√ļvidas.

Carolina: Sim, acho que isso faz parte do nosso desenvolvimento como professoras também né?

Fr√©sia: Como dizia meu pai, tem que dar um jeito e encontrar seu nicho ecol√≥gico. Ah claro, e o tempo passa e um dia fazem 15 anos que voc√™ √© professor, 20 anos que defendeu o doutorado, e quase 30 que saiu da gradua√ß√£o ….tic tac para tudo…

Carolina: E pra finalizar… qual sua opini√£o sobre o presente e o futuro das pesquisas cientificas no Brasil?

Frésia: Bom é só que todos temos que fazer o nosso melhor para sair adiante. Tentar fazer o melhor com o que você tem e construir para um futuro. Mas sempre há uma saída ..temos que aprender com o registro fossilífero.

Carolina: aprender com os fósseis?

Fr√©sia: Sim, veja o registro desde o Arqueano que tem extin√ß√£o, varia√ß√Ķes clim√°ticas, meteoros, etc etc e a vida sempre acha um caminho para seguir. √Äs vezes um grupinho de bichos …se salva e vai para frente. Claro se voc√™ tem o potencial para descobrir um. Ele n√£o vem de gra√ßa no seu colo. Ali√°s nada vem.

Carolina: Entendi. “sempre h√° um caminho” mesmo.

Frésia: Não precisa ser super valente, é só dar um passinho.

Carolina: Agradeço muito você ter compartilhado conosco uma parte de sua história! Parabéns por todo o sucesso e feliz dia da paleontóloga!

Calendário fóssil; corais, e os tempos passados

Mais de 24 horas por dia? Calendário com menos de 365 dias? isso é coisa do futuro!

Final de ano na Unicamp sempre me faz pensar em um pedido especial ao Papai Noel. Um pouco mais de tempo, por favor… isto √©, dias com mais de 24 horas. Um calend√°rio diferente.

A situa√ß√£o por aqui √© quase como no seriado “24h”. A saga pela disponibiliza√ß√£o de notas, avalia√ß√Ķes para corre√ß√£o, bancas de todos os n√≠veis (IC, TCC, MSc. e PhD), relat√≥rios, comiss√Ķes e as previs√Ķes para as atividades do pr√≥ximo semestre. A narrativa √© tensa por que todos os envolvidos demandam sua aten√ß√£o. Um passo em falso, um dia sem trabalho e… caos. N√£o podemos nos permitir ao erro.

Estamos t√£o acostumados com as 24 horas dos dias que mesmo o Spock e o capit√£o J. Kirk usam estes intervalos de tempo tel√ļricos para situar o tempo envolvido nas suas miss√Ķes. Aqui na Terra, cada volta completa do planeta ao redor do seu eixo produz os dias com suas 24 hs. Na Enterprise essa refer√™ncia se perde.

se você pudesse voltar no tempo, qual data do calendário escolheria?
O rel√≥gio do filme “De volta para o futuro”

No entanto, se algum dia tivermos a oportunidade de voltar ao passado, vamos ter que tomar cuidado. Já ouvi físicos debatendo sobre todos os cálculos necessários para que a volta ao passado não seja um triste fim: aparecer em ponto qualquer do espaço, em que, um dia o planeta se encontrava, mas naquela data do passado, a posição era outra, naquele momento. Não basta ajustar a data, a posição de tudo que está envolvido também deverá ser calculada, não é?

Saber a posi√ß√£o exata do planeta em rela√ß√£o ao sol, do sol na gal√°xia e da gal√°xia no universo s√£o alguns dos pontos levantados pelos f√≠sicos. Mas, e o tempo? sim, vamos falar do tempo de novo. Mas esse √© um questionamento novo…. na forma de calend√°rios f√≥sseis!

No Período Devoniano (419 à 358 M.a.) os corais rugosos (um tipo de coral que já não vive mais) viviam por mares rasos, límpidos e quentinhos. Eles eram felizes e cresciam depositando camadas finas de carbonato de cálcio no seu esqueleto. Todos os dias eram iguais, cada um, com uma camadinha a mais.

Essa √© mais uma das hist√≥rias que os f√≥sseis podem nos contar (veja outra aqui). Existem algumas esp√©cies de organismos marinhos que produzem um pouco de sua “concha” todos os dias. Corais e alguns moluscos podem ser usados portanto, para este data√ß√£o. Uma data√ß√£o dos dias, meses e anos do passado, assim como do tempo em que cada organismo prosperou.

Coral rugosa e sua ornamenta√ß√Ķes que nos fornecem detalhes de um calend√°rio do passado
Coral rugosa usada para datar os meses do ano no Devoniano.

Em corais funciona assim: as linhas mais finas representam crescimento di√°rio. As bandas (conjuntos das linhas finas) representam meses e os an√©is, estruturas mais largas, representam os anos. De acordo com os especialistas, em esta√ß√Ķes secas os corais crescem mais que nas esta√ß√Ķes chuvosas. Esse empilhamento de camadas tamb√©m relaciona-se, portanto, com o ciclo lunar.

Assim, se você quiser saber quantos dias aquele organismo viveu, é relativamente fácil: depois de saber como observar seu esqueleto, é só dar a sorte de encontrar esses fósseis e voilà, nada mais simples que contar os dias de um calendário, neste caso, um calendário que já foi vivo. E para contar meses e anos? com vários exemplares temos uma medida média de quantos dias e meses, cada organismo guardou em seu calendário biológico.

E o que estes calend√°rios dizem?

Com o estudos de fósseis de corais do Devoniano, conseguimos descobrir que, neste tempo (Devoniano, um dos períodos do Paleozoico) os anos eram compostos por cerca de 400 dias. Isso implica em algumas coisas importantes: os dias eram mais curtos, e o movimento de rotação terrestre era mais rápido.

Hoje temos anos com cerca de 365 dias… como o planeta desacelerou? Sup√Ķe-se que a Terra tem seu movimento de rota√ß√£o desacelerado pelo movimento das mar√©s (a velocidade diminui dois segundos a cada 100 mil anos!), al√©m do afastamento da Lua (explica√ß√£o f√≠sica para o processo de desacelera√ß√£o da rota√ß√£o do planeta, ligada √†s leis de Newton). Portanto, al√©m de ter dias mais curtos, a lua estava mais pr√≥xima de n√≥s, no Devoniano e antes.

Uma lua mais pr√≥xima, seria maior. Os dias mais curtos… talvez fossem mais agitados? se pensarmos que eram os peixes os reis dos mares naquele tempo, junto com uma profus√£o de invertebrados, dentre eles trilobitas e afins, talvez sim, houvesse alguma agita√ß√£o nos oceanos. Mas n√£o podemos dizer o mesmo dos continentes. Al√©m da vida vegetal e dos invertebrados terrestres, os primeiros tetr√°podes deixaram seus primeiros registros por volta desse tempo. Eles estavam come√ßando a sair da √°gua para conquistar os continentes.

Fato que foi um mundo completamente diferente.

Se voc√™ pudesse voltar no tempo… o que gostaria de ver?

Veja aqui um texto sobre como contar os dias e anos de corais paleozoicos.

A quebra de paradigmas e a idade da Terra

Voc√™ sabia que o estabelecimento da Geologia como ci√™ncia surgiu com a constata√ß√£o de que a idade da Terra √© avan√ßada, e de que muitos de seus processos naturais levam centenas de milhares de anos para ocorrer? Vou contar um pouco dessa fascinante hist√≥ria…

      ‚ÄúSem vest√≠gio de um come√ßo, sem perspectiva de um fim‚ÄĚ 
James Hutton

Esta frase √© ic√īnica do trabalho de James Hutton (1726-1797), um dos primeiros cientistas a pensar sobre a idade da Terra e o tempo envolvido nos processos geol√≥gicos, tais quais os reconhecemos hoje.

Hutton em campo, observando rochas com os perfis dos rostos de seus inimigos na ciência.

A concepção sobre uma Terra antiga, na Geologia, surgiu aos poucos. Até meados do século XVIII, a bíblia servia de guia para datas e eventos; por isso, acreditava-se que a Terra não teria que 6.000 anos de idade. A influência religiosa era grande no meio científico. Podemos lembrar que o próprio Darwin (1809-1882) demorou anos recolhendo evidências sobre a sua teoria evolutiva, também por conta de seu receio em revelar suas ideias; isso porque iam contra os valores religiosos na época.

Porqu√™, voc√™ se pergunta, a igreja tinha tal influ√™ncia na ci√™ncia? Era um livro de relatos, muito antigo. Como explicar o mundo e a origem de tudo? Muitos cientistas passaram a usar ci√™ncia aliada aos relatos b√≠blicos, na tentativa de calcular a idade do planeta. Al√©m disso, acredito que fosse imoral pensar que Deus tivesse criado um mundo que pudesse ter esp√©cies de organismos imperfeitas. Esp√©cies que se extinguissem. Qual seria a raz√£o para um ser superior criasse algo que n√£o sobrevivesse ‚Äúpela eternidade‚ÄĚ? Historicamente podemos entrar no debate de que a igreja controlava o poder na √©poca e que o homem era, neste contexto, a principal esp√©cie vivente, sendo que o planeta havia sido criado para ele, por um ser superior.

A quebra do dogma religioso e o reconhecimento de um tempo profundo para a idade da Terra se deu no s√©c. XIX. Nessa √©poca, as ideias de Darwin e Lyell (que viveu entre 1797-1875 e era seguidor de Hutton) se alinharam para explicar os fen√īmenos observ√°veis na natureza org√Ęnica e inorg√Ęnica (tanto na vida e sua evolu√ß√£o, quanto nos eventos geol√≥gicos).

√Č neste momento que se retira do homem o papel de esp√©cie ‚Äúmais desenvolvida‚ÄĚ. Os princ√≠pios da evolu√ß√£o biol√≥gica, associados com a necessidade de uma Terra muito antiga, colocam o homem como mais uma esp√©cie dentre centenas de milhares, quebrando assim, pelo menos em parte, a forte influ√™ncia religiosa na ci√™ncia. Mark Twain relata essa quebra com uma analogia que considero fant√°stica, e traduzo de forma livre, a seguir:

‚ÄúO homem est√° aqui h√° 32.000 anos. Que tenha levado 100.000 anos para preparar o mundo para sua chegada √© uma prova irrefut√°vel de que o mundo em si foi criado para isso. Suponho isso, n√£o sei. Se a torre Eiffel representasse agora a idade da Terra, a camada de tinta de seu pin√°culo representaria a presen√ßa do homem na Terra; e todos iriam perceber que aquela casquinha de tinta representa a raz√£o pela qual toda a torre foi constru√≠da. Eu concluo isso, n√£o sei‚ÄĚ.

Outra metáfora sobre a vastidão do tempo e a presença do homem na Terra é a de John McPhee, também traduzida livremente a seguir:

‚ÄúConsidere a hist√≥ria da Terra como a antiga medida de jarda inglesa, a dist√Ęncia do nariz do rei at√© a ponta de seu dedo, com o bra√ßo estendido. Uma lixada na unha de seu dedo m√©dio e toda a hist√≥ria humana √© apagada‚ÄĚ.

Podemos dizer que Hutton e Lyell, observando os fen√īmenos do dia-a-dia da natureza e tamb√©m eventos catastr√≥ficos preservados em rochas, foram capazes de predizer o que seria confirmado alguns anos mais adiante. Afinal de contas o processo de data√ß√£o radioativa, que √© o que fornece a idade real das amostras de rochas, s√≥ veio a ser desenvolvido no in√≠cio do s√©c. XX. Assim como Darwin, Hutton e Lyell coletaram uma s√©rie de informa√ß√Ķes para corroborar as suas ideias de que a Terra era muito mais antiga da que retratava a b√≠blia. Mas os n√ļmeros, aqueles ‚Äú4,5 bilh√Ķes de anos‚ÄĚ que ouvimos falar sobre a idade do nosso planeta (e que chamamos de idade absoluta), s√≥ veio √† tona alguns anos depois.

De acordo com alguns fil√≥sofos da ci√™ncia, como Thomas Kuhn (1922-1996), a ci√™ncia caminha exatamente assim. S√£o anos de trabalho na ‚Äúci√™ncia comum‚ÄĚ, acumulando conhecimento, para que, de ‚Äúuma hora para outra‚ÄĚ, os paradigmas cient√≠ficos sejam quebrados, e novas ideias passem a vigorar.

Retirar a esp√©cie humana de seu pedestal n√£o foi tarefa f√°cil. A ci√™ncia progride a passos lentos, delimitados por momentos de grande revolu√ß√£o; al√©m disso, est√° sempre enroscada no emaranhado contexto social, econ√īmico, religioso e emocional em que cada um dos cientistas (pessoas), se inserem.

 

 

Onde encontrar mais informa√ß√Ķes sobre Hutton e a concep√ß√£o do tempo profundo:

Clique aqui para ser direcionado a uma matéria na página do Smithsonian Institute.

Relembre o nosso primeiro post sobre o tempo profundo
Livros utilizados para este post:
Decifrando a Terra
Time¬īs arrow, time¬īs cycle

 

F√≥sseis e fotografia… fale-me o que voc√™ sabe sobre

Fotografia e fósseis. Tem relação?

CLICK! e pronto, temos uma imagem digital gravada no celular. As resolu√ß√Ķes variam de aparelho para aparelho (o tamanho do sensor faz muita diferen√ßa!); a maioria das pessoas nem pensa mais em imprimir as imagens para montar um √°lbum f√≠sico. Muitos jovens nunca tiveram que esperar para ter seu filme de 36 poses revelado. O mundo digital nos rodeia, n√£o √©? mas isso nem sempre foi assim…

Imaginem a revolução que foi, lá pelo final do séc. XVIII, quando a fotografia (o processo era chamado na época de daguerreotipia) foi inventada.

(PAUSA)

Vamos lá, pegue seu celular e abra seu álbum de fotos. Você fotografa o quê? Acredito que a maioria de nós fotografe momentos que consideramos importantes. Que desejamos que sejam guardados por mais tempo. Possivelmente para contarmos uma história, mesmo que seja só para nós mesmos.

(RETORNO)

O surgimento da fotografia n√£o foi diferente. Seu uso e aplica√ß√£o, na √©poca, teve muita rela√ß√£o com a possibilidade de reproduzirmos a natureza que nos rodeia, de modo fiel. Em coment√°rio sobre a obra de Talbot, primeiro fot√≥grafo a publicar um livro com fotografias, o artigo traz que …“a fotografia de Talbot nos possibilita legar √†s gera√ß√Ķes futuras a luz do sol do passado” (Hacking, 2012).

A luz do sol do passado! Filosófico, não?

História, passado, (re)produção da natureza. Só eu pensei em fósseis?

√Č claro que, hoje, a fotografia possui muitas vertentes e nem sempre √© exatamente, ou tem como este fim, o retrato da realidade (na arte, por exemplo, isso nem sempre √© verdadeiro). Mas imaginem que quando ela foi criada as pessoas se viram maravilhadas com os seguintes fatos:

– ter cole√ß√Ķes de museus guardadas em imagens, e que estas poderiam ser trocadas entre diferentes centros de pesquisa, com fins cient√≠ficos e de divulga√ß√£o;

– ter acesso a estas imagens sem o risco de estragar os exemplares originais de amostras de qualquer coisa que fosse, sendo um cientista ou n√£o.

Isso √© basicamente o que estamos vendo hoje com a revolu√ß√£o das impressoras 3D, n√£o √©? Possibilidades imensas de divulga√ß√£o de acervos de f√≥sseis ou artefatos humanos, por exemplo, antes restritos aos sal√Ķes dos mais renomados museus, e aos olhos de poucos estudiosos. Hoje n√£o basta mais ter duas dimens√Ķes. Agora precisamos ter 3 e sair imprimindo por a√≠ (hehe…). Mas os objetivos s√£o os mesmos!

Sim, fotografia e fósseis andam juntos desde o início dos tempos, ambos contando sua própria história, (re)produzindo a natureza e maravilhando a todos nós!

 

Referência

Hacking, J. Tudo sobre fotografia. Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2012.

Você já viu um fóssil de verdade? (será que não?)

Voc√™ provavelmente j√° ouviu falar em amadorismo, especialmente quando se trata de esportes, certo? Segundo o dicion√°rio, amadorismo √© regime ou pr√°tica oposta ao profissionalismo; ou ainda: falta de t√©cnica adequada √† realiza√ß√£o de um trabalho. Pois vou lhes contar que existem por a√≠ paleont√≥logos amadores*… e tentar fazer de voc√™, um deles!

Voc√™ j√° viu algum f√≥ssil real**? Caso j√° tenha ido em algum museu de ci√™ncias ou hist√≥ria natural, √© poss√≠vel que tenha. Mas, e na sua casa? no caminho para o seu trabalho? (n√£o vale contar que o seu chefe √© um dinossauro, ok?) naquela loja que voc√™ sempre vai para tomar um caf√©?… existem f√≥sseis ali? j√° reparou nas rochas que adornam esses lugares? sim…elas podem conter f√≥sseis!!

Mapa do Brasil com sítios fossilíferos. As bolinhas representam locais em que ocorrem fósseis. Fonte.

Bem, dependendo de onde voc√™ morar, f√≥sseis podem aparecer no quintal da sua casa, na constru√ß√£o de um pr√©dio, na abertura de uma rodovia… Apesar de o processo de fossiliza√ß√£o ser uma exce√ß√£o (j√° falamos sobre isso antes, lembra?), ainda sim, o tempo geol√≥gico √© t√£o longo e a diversidade de vida pret√©rita, t√£o grande, que existe por a√≠ um bom n√ļmero de rochas que apresentam f√≥sseis. Veja aqui uma pequena lista de locais com f√≥sseis, pelo mundo.

E tem mais! Mesmo que voc√™ n√£o more literalmente em cima dessas rochas, muitas constru√ß√Ķes s√£o feitas (em geral, ornamentadas) com rochas fossil√≠feras! isso significa que a parede externa de uma loja, uma pia, ou mesmo a cal√ßada de alguns locais podem ter f√≥sseis. Vamos aos exemplos:

  • Se voc√™ for ao Shopping Eldorado ou ao Shopping Ibirapuera, ambos em S√£o Paulo, por exemplo, poder√° observar estromat√≥litos nos m√°rmores do piso; estromat√≥litos s√£o estruturas formadas pelas atividades de cianobact√©rias; as estruturas t√™m a forma de colunas laminadas facilmente observadas nas rochas desses shoppings; cada l√Ęmina, em geral, representa um ciclo de vida de uma col√īnia. Essas rochas t√™m cerca de 2 bilh√Ķes de anos de idade, e foram retiradas de lavras localizadas em Minas Gerais. Veja aqui uma not√≠cia sobre esse assunto.
Rastros fósseis do varvito de Itu. Fonte.
  • Em muitas cal√ßadas de Itu (SP), ou de cidades pr√≥ximas, como Campinas por exemplo, tem alguns de seus pavimentos constru√≠dos com rochas que apresentam marcas de ondas e tra√ßos f√≥sseis! as marcas de onda s√£o iguais √†s que podemos observar na parte mais rasa das praias de hoje… e esses tra√ßos s√£o pegadas de antigos animais (invertebrados) que rastejavam pelo fundo de um lago gelado. Essas rochas t√™m cerca de 250 milh√Ķes de anos de idade, e prov√™m de afloramentos de Itu e regi√£o. Saiba mais aqui.

 

  • Nas cal√ßadas de S√£o Carlos, Araraquara (cidades de SP) e mesmo dentro do Zool√≥gico de S√£o Paulo, √© poss√≠vel observar rochas formadas por areia (arenitos) que apresentam pegadas de dinossauros, mam√≠feros e invertebrados (entre outros). Todas s√£o retiradas de Araraquara e regi√£o e representam os vest√≠gios de um grande deserto que cobriu parte do Brasil h√° 140 milh√Ķes de anos atr√°s. Ser√° que voc√™ j√° n√£o pisou em uma pegada f√≥ssil?? Veja mais aqui.

Abra seus olhos e comece a observar. E se algum dia você encontrar um fóssil? Será que isso irá despertar em você uma vontade de conhecer que só vai crescendo com o tempo? Pois foi provavelmente dessa forma que muitos paleontólogos amadores iniciaram, na busca insaciável pelo conhecimento. Muitos desses paleontólogos amadores foram responsáveis por grandes descobertas! Mas isso já é uma história para um próximo post

*Existem algumas defini√ß√Ķes diferentes para “paleont√≥logo amador” mas me refiro aqui √†quelas pessoas que coletam f√≥sseis, por qualquer raz√£o, mas que n√£o subsistem da paleontologia.

**Aqui s√≥ gostaria de desabafar… Sempre que levo alguma r√©plica de f√≥ssil para aulas pr√°ticas de paleontologia meus alunos mostram certam desprezo com a tal amostra. E eu sempre argumento que aquilo, em geral, √© um molde do original, ou seja, n√£o tem diferen√ßa alguma em rela√ß√£o ao f√≥ssil encontrado; simplesmente n√£o faz sentido n√£o gostar de uma r√©plica.

A emoção da Montanha Russa: respire fundo e um passo à frente

Oba, oba, oba que felicidade: a not√≠cia que finalmente o artigo no qual trabalhamos nos √ļltimos anos foi aceito para ser publicado finalmente, depois de idas e vindas!

Fonte: alearned.com/roller-coasters/ e MiNiBuDa/montaa-rusa

Neste texto quero falar acerca de uma das partes mais delicadas de trabalhar com pesquisa: publicar a nossa pesquisa ou conseguir publicar, pois existem as duas caras dessa atividade. Nem todos os artigos pelos quais trabalhei, pesquisei, dei o melhor de mim, foram aceitos para serem publicados e menos ainda aceitos sem corre√ß√Ķes, sugest√Ķes e at√© devolvidos com coment√°rios terr√≠veis. Outros em contrapartida, ap√≥s algumas idas e vindas, foram aceitos com muitos elogios. Quem n√£o passou por isso?. Contudo, meu sonho continua sendo ter um artigo aceito sem nenhuma corre√ß√£o ou sugest√£o de mudan√ßa. Como √© esse processo? Na minha opini√£o poderia ser mais simples. Come√ßa, claro, quando voc√™ tem uma ideia ou uma inquietude acerca de um f√≥ssil ou um conjunto deles e a sua pesquisa se inicia. Pode ser necess√°rio ir ao campo e procurar, coletar, descrever, fotografar, desenhar… voltar novamente ao local, verificar os seus dados de campo, ir com as suas amostras e exemplares ao laborat√≥rio, prepar√°-los, descrever de novo, interpretar e por fim produzir um dado e sua interpreta√ß√£o e come√ßar a escrever…pensar….pensar…escrever, ler artigos relacionados ou n√£o…discutir com um colega, alunos, acordar a noite e ficar pensando…matutando e ter a ideia de como explicar! Mudar o que se escreveu para melhor ou pior, tentar e tentar e no fim chegar a um texto que descreva o que voc√™ pensou e que transmita a sua Ideia para outras pessoas. Claro, n√£o √© s√≥ texto nas pesquisas em paleontologia em geral os artigos tem umas figuras muito lindas e bem feitas do seu material, ali√°s, esta √© uma das partes mais importantes do texto: as prova do que voc√™ est√° falando. Figuras feias s√£o um passo para o abismo, texto confuso √© o pr√≥ximo. Mas com todo o seu esfor√ßo por fazer o melhor poss√≠vel, o sucesso n√£o √© garantido. N√£o tem, para mim, coisa mais dif√≠cil que abrir aquela mensagem da revista cient√≠fica, em resposta ao artigo que voc√™ enviou h√° alguns meses e no qual trabalhou por alguns anos. Ler a mensagem do editor, que n√£o tem como saber quais foram as dificuldades, problemas, etc. e ter seu artigo avaliado por relatores an√īnimos, que podem ou n√£o acabar com todo esse esfor√ßo… o sistema de avalia√ß√£o por pares. V√™m os coment√°rios e o veredito, que voc√™ l√™ com o cora√ß√£o saindo pela boca e batendo acelerado, como ir a uma montanha russa a toda velocidade, e que fala: ‚Äúaceito‚ÄĚ, ‚Äúnegado‚ÄĚ, ‚Äúpode ser aceito caso voc√™ mude‚ÄĚ, ‚Äúnem mudando daria para aceitar‚ÄĚ ou ‚Äúque artigo mais legal, contudo voc√™ ainda n√£o chegou l√°‚ÄĚ, ‚Äútemos o prazer de informar que seu artigo est√° aceito‚ÄĚ, etc. Um conhecido meu falava que √†s vezes, ap√≥s algumas idas e vindas, voc√™ n√£o quer nem escutar falar mais do seu artigo, ou em outras vezes, at√© tem vontade de emoldurar. Pois bem, n√£o √© f√°cil trabalhar com ci√™ncias; tem que estar preparado para ser constantemente questionado, arguido e n√£o tem como escapar. Mas ainda assim, na maioria das vezes quando estudo f√≥sseis, penso que n√£o gostaria estar fazendo outra coisa nesse momento e que afortunada que sou por poder trabalhar com um desafio constante que me estimula e faz ter uma vida pouco rotineira, onde posso ajudar a outros a descobrir essa maravilha e a desfrutar do seu trabalho.

N√£o acredito que tenha colegas que nunca tiveram um artigo negado como eu, inclusive at√© grandes cientistas j√° tiveram as suas maiores contribui√ß√Ķes n√£o publicadas em v√°rias ocasi√Ķes. Pelo menos n√£o estou sozinha. O que fazer quando seu esfor√ßo n√£o tem √™xito? Quando a sua decep√ß√£o ficar menor, pegue os coment√°rios, leia, pense, mude o que achar que deve, defenda o que n√£o √© razo√°vel e submeta de novo, e de novo, e de novo… Embora n√£o seja f√°cil, pense que em cada retomada fica melhor, ou parta para outra pesquisa e experimente o infinito, pode ser que esta vez o sucesso seja seu e, quem sabe, ent√£o pegue seu artigo rejeitado mexa nele mais uma vez e submeta a outro peri√≥dico e ele seja aceito e se torne a sua melhor contribui√ß√£o. Vai ver que o mundo ainda n√£o estava pronto para ele..

Como é a vida profissional de um paleontólogo brasileiro?

Ou… os motivos pelos quais, √†s vezes, atrasamos os posts?

Não se trata apenas de esclarecer os motivos pelos quais, às vezes, não conseguimos postar nas terças, ou mesmo que uma semana ou outra o nosso blog não tenha nenhum post novo. A realidade do profissional paleontólogo brasileiro não é simples. E vou lhes explicar o porquê.

Em geral, ao se optar por ser paleont√≥logo no Brasil, se tem tr√™s op√ß√Ķes:

  • Forma√ß√£o em n√≠vel superior em Geologia, Geografia ou Biologia (na realidade n√£o existe uma limita√ß√£o quanto a qual gradua√ß√£o foi cursada; eu mesma conhe√ßo m√©dicos e engenheiros que s√£o paleont√≥logos); aqui temos 4 ou cinco anos de estudo.
  • Cursar p√≥s-gradua√ß√£o em Geologia, Geoci√™ncias ou afins, em que a √°rea de concentra√ß√£o seja Paleontologia. As universidades brasileiras de maior tradi√ß√£o nesta √°rea, na p√≥s, s√£o a UFRGS e a UFRJ.

Depois de defendido o mestrado e/ou o doutorado (que, podem representar cerca de 6 anos de estudos após a graduação, dois anos para o Mestrado e até 4 para o Doutorado), o mercado de trabalho, sob o meu ponto de vista, se resume a:

  • Trabalhar em universidades particulares ou p√ļblicas (o profissional aqui normalmente assume o papel de professor e pesquisador);
  • Trabalhar em museus (nesta categoria eu inclu√≠ paleoartistas, pesquisadores, curadores);
  • Trabalhar em empresas p√ļblicas ou privadas (pesquisadores, consultores). Aqui temos empresas de consultoria, ou mesmo o DNPM, Petrobr√°s, CPRM, por exemplo.

A op√ß√£o 1, provavelmente, √© a que mais emprega os paleont√≥logos brasileiros. Infelizmente eu n√£o tenho dados num√©ricos para mostrar a voc√™s, mas digo isso em fun√ß√£o de que o n√ļmero de museus, no pa√≠s, n√£o √© t√£o grande quanto o de universidades e faculdades. Possuindo ao menos o curso de Biologia dentre as gradua√ß√Ķes, j√° existe a possibilidade de contrata√ß√£o de um paleont√≥logo, pois, de acordo com o CFBio, Geologia e Paleontologia s√£o disciplinas obrigat√≥rias do curso. J√° √≥rg√£os p√ļblicos n√£o abrem muitos concursos na √°rea espec√≠fica de paleontologia, e o n√ļmero de vagas √©, normalmente, bastante restrito. Consultorias em paleontologia s√£o bastante recentes no pa√≠s, e se sustentar trabalhando unicamente nesta √°rea, me parece invi√°vel atualmente.

Tendo experi√™ncia profissional em universidades particulares e p√ļblicas eu posso falar com um pouco mais de detalhe e propriedade sobre as atividades que se assume, quando nestes cargos. O trip√© das universidades √© formado pelo ensino, pesquisa e extens√£o, e s√£o essas (algumas) das √°reas que atuamos.

Ensino РAlém de ser responsável por uma ou mais disciplinas ao longo dos semestres (na graduação e na pós-graduação), nós podemos orientar alunos em diversos níveis de ensino; pode ser iniciação científica em graduação, orientação de mestrado ou doutorado, supervisão de pós-doutorado, ou orientação de monitores que nos acompanham e auxiliam durante as disciplinas, na graduação.

Pesquisa – Sobre a pesquisa, em especial nas universidades p√ļblicas, √© bem comum termos que assumir e desenvolver projetos de pesquisa com a colabora√ß√£o de alunos e colegas (professores e pesquisadores), e tamb√©m captar fundos para desenvolver o projeto e aprimorar as condi√ß√Ķes de trabalho nos laborat√≥rios que usamos. Al√©m disso temos que publicar os resultados das pesquisas na forma de cap√≠tulos de livros, resumos ou artigos cient√≠ficos.

Extens√£o – Envolve a divulga√ß√£o do que fazemos para a comunidade de fora da universidade; isso pode se dar na forma de cursos, exposi√ß√Ķes, livros ou mesmo como este blog.

Outras РAlém disso, eventualmente (com a progressão da carreira docente) temos que assumir cargos administrativos como coordenação da graduação, chefe de laboratório, chefe de departamento, ou mesmo cargos que exigem vasta experiência e atuação no ensino superior, como a diretoria do instituto, ou mesmo a reitoria da universidade.

Em meio a tantas tarefas que se sobrep√Ķem, √© preciso continuar se atualizando, aprendendo e tentando melhorar. Fazemos isso lendo, discutindo com os colegas da √°rea, publicando, participando de congressos e trabalhos de campo, entre outros meios.

Resumidamente, o nosso dia-a-dia é assim. Portanto, perdoem-nos se às vezes acabamos mudando o dia de publicação ou não publicamos o texto. As tarefas se multiplicam, em especial nos finais de semestres letivos!