Arquivo mensais:setembro 2018

Política e Ciência: Newton morde a maçã

N√£o se pode pensar Ci√™ncia sem Pol√≠tica. Ci√™ncia pressup√Ķe pesquisa, busca, inven√ß√£o. Politica significa antes de mais nada fazer escolhas. No mundo em que vivemos, uma convive com a outra, se interconecta com a outra. No Brasil tamb√©m sempre foi assim, com as suas peculiaridades. Existem muitos problemas a serem resolvidos e enfrentados usando ci√™ncia e usando pol√≠tica. Isso √© fazer pol√≠tica. E isso tamb√©m √© fazer ci√™ncia.

CIÊNCIA, NEWTON E A MAÇÃ

Uma ma√ß√£ caindo no ch√£o √© somente uma ma√ß√£. Para que essa ma√ß√£ vire ci√™ncia, √© preciso Newton observando a ma√ß√£ cair. Para que Newton observe a ma√ß√£ cair e isso vire ci√™ncia, Newton precisa subir no ombro de gigantes: isso pressup√Ķe escolas, professores, despesas com educa√ß√£o. E isso √© pol√≠tica: escolhas que devemos ter sobre quais escolas, quais professores e qual financiamento devermos controlar para que possamos ter Newton vendo a ma√ß√£ cair e isso vire ci√™ncia.

Newton e a ma√ß√£: uma alegoria (e uma lenda) da Ci√™ncia…

Voc√™ n√£o precisa de ci√™ncia para viver. Isso √© uma escolha. Pol√≠tica. Podemos viver naturalmente, tendo o que a natureza nos d√°. Algu√©m se habilita? N√≥s tamb√©m n√£o precisamos fazer Ci√™ncia. Se tivermos recursos, comprar ci√™ncia, comprar tecnologia. Como fizemos no passado, podemos vender borracha e comprar pneus. Vender ferro e comprar navios. √Č uma escolha pol√≠tica sem muitos riscos. Claro que continuaremos pobres. Alguns, que possuem o seringal e a mina de ferro, viver√£o confortavelmente. Aos demais, restar√° o trabalho duro e uma subsist√™ncia dif√≠cil. Mas, como sempre, √© uma escolha pol√≠tica da ci√™ncia que queremos ter em nossas vidas.

QUE CIÊNCIA QUEREMOS?

Mas, e se n√≥s quisermos ter Ci√™ncia? Ci√™ncia de verdade? Que tal n√£o viver com a lenda de Newton e a ma√ß√£, a qual, como j√° mostraram seus bi√≥grafos, n√£o passa de uma lenda? O que precisamos para ter nosso pr√≥prio desenvolvimento cientifico? O que precisamos para vencer nossos problemas de educa√ß√£o, sa√ļde, produ√ß√£o industrial, produ√ß√£o intelectual?

N√£o existe milagre na ci√™ncia. Ci√™ncia requer trabalho. Leitura, estudo, experiencia. Como recentemente disse uma colega, horas-bunda na cadeira. E isso requer que tenhamos pessoas que fa√ßam isso como profiss√£o. Pessoas que possam cada vez mais viver disso. E que tenham condi√ß√Ķes de fazer suas pesquisas, discutir livremente os seus resultados e suas ideias com outros cientistas, com os pol√≠ticos, com a sociedade.

QUE CAMINHOS TRILHAR?

Todos os pa√≠ses que tem um n√≠vel razo√°vel de vida para seu povo fizeram e fazem isso. A Inglaterra, desde o s√©culo XVIII tem uma cultura de manuten√ß√£o e financiamento de pesquisas. A Alemanha, desde que era Pr√ļssia, reformulou a sua universidade a partir de 1811 e num s√©culo deixou de ser um pa√≠s atrasado que era para se tornar uma potencia mundial.

No século XX tivemos a Coreia, um país pobre e arrasado por guerras. Em 1960, os índices de vida e renda da Coreia eram inferiores aos do Brasil. No entanto, o país investiu firmemente em educação e hoje é uma das principais potencias industriais do planeta.

Tudo isso são escolhas. Tudo isso é política. A forma como escolhemos nossa Ciência, por outro lado, impacta nossa maneira de ser e estar no mundo.

O BRASIL CONSTR√ďI SUA CI√äNCIA

Nos √ļltimos 100 anos, o Brasil tamb√©m investiu em ci√™ncia. Neste tempo, erradicamos diversas doen√ßas de nossas cidades. Ainda falta muito, mas a medicina brasileira progrediu. Hoje, conquistamos, com ajuda da ci√™ncia, solos que at√© ent√£o n√£o eram f√©rteis, e os fizemos produzir. Se hoje h√° agroneg√≥cio no Brasil, √© porque houve pesquisa agropecu√°ria, √© porque houve a Embrapa.

No in√≠cio do s√©culo XX, √©ramos um pa√≠s que n√£o conseguia se desenvolver porque n√£o t√≠nhamos fontes de energia suficientes e boas. Hoje, gra√ßas ao esfor√ßo de varias gera√ß√Ķes de ge√≥logos, temos uma reserva de petr√≥leo das maiores do Mundo, a qual s√≥ √© poss√≠vel explorar com alt√≠ssima tecnologia.

T√° OK. Mas e a parte vazia deste copo?

Ainda precisamos avan√ßar. Como ter uma ind√ļstria competitiva e inovadora? Como ter uma Ci√™ncia de alto impacto? Como resolver os grandes problemas de nossa sociedade, como sa√ļde, seguran√ßa, trabalho? Como resolver isso?

POL√ćTICA E CI√äNCIA. CI√äNCIA E POLITICA

Precisamos de uma politica que invista mais, e n√£o menos, em ci√™ncia. Se queremos realmente um futuro, devemos plantar as sementes hoje. Investimos pouco, e mal. Nossa despesa com ci√™ncia em 2015 (um ano ainda ‚Äúrico‚ÄĚ) foi de U$199 d√≥lares por habitante. Empatamos com a Turquia. Perdemos feio para os pa√≠ses do Leste Asi√°tico, Europa, Am√©rica do Norte.

E isso apesar de termos uma das maiores comunidades cientifica da Am√©rica Latina. Uma comunidade briosa, que vem aumentando sua participa√ß√£o no quinh√£o da ci√™ncia nos √ļltimos 15 anos. Mas que, como uma flor sens√≠vel, ainda corre s√©rios riscos.

A participa√ß√£o publica vem diminuindo sua participa√ß√£o no financiamento da ci√™ncia desde 2015. E a pol√≠tica, que poderia trazer solu√ß√Ķes, s√≥ nos tem trazido pesadelos. Claramente, ci√™ncia e a tecnologia n√£o s√£o prioridade de governo. As amea√ßas v√™m de todos os lados.

PARA ONDE VAMOS?

H√° os que sonhem com uma ci√™ncia sem estado. Houve o assessor de um candidato que chegou a dizer que ‚Äúas pessoas subestimam o poder da filantropia‚ÄĚ. Com isso, o douto senhor est√° nos dizendo que a contribui√ß√£o privada para a ci√™ncia era uma fonte que n√≥s n√£o exploramos direito. Por outro lado, o financiamento privado √© hoje irrelevante no financiamento da ci√™ncia.

Entre os candidatos a presidente, qual deles menciona em seu programa a palavra ciência? E dos que o fazem, quais deles confundem ciência com ensino? Embora sejam parceiras, ciência e educação são coisas distintas, com pautas necessidades distintas. Não se faz ciência tirando dinheiro do ensino.

A política vai ditar a ciência que queremos. Será que vamos escolher seguir um caminho de mais financiamento e uma busca maior de eficácia na resolução de nossos problemas? Ou será que vamos achar que não precisamos fazer ciência?

São Heisenberg, rogai por nós!

O MUSEU, VOCÊ E EU

UMA TRAGEDIA ANUNCIADA

Todos est√£o chocados e boquiabertos com a trag√©dia do Museu Nacional. O inc√™ndio, que durou somente algumas horas, destruiu um patrim√īnio que levou mais de 200 anos para ser juntado. Em termos do valor que se perdeu, como muitos disseram, n√£o h√° como calcular. √Č como se perd√™ssemos a maior parte de nossa mem√≥ria de uma vez, de maneira irrecuper√°vel. Podemos usar os fragmentos, podemos come√ßar tudo de novo a juntar mais mem√≥ria. Mas a que se perdeu, se perdeu.

As chamas consumindo o valiosíssimo acervo do Museu Nacional no Rio

Outros ficam chocados com as condi√ß√Ķes do Museu. Soubemos, pela imprensa, que o Museu Nacional estava sem recursos. Estava sem condi√ß√Ķes de sobreviver, o que fazia de maneira prec√°ria. S√≥ faltava, mesmo, um acidente para acontecer a trag√©dia. E e trag√©dia veio, em sua forma mais cruel, na forma de um inc√™ndio. O inc√™ndio do Museu Nacional √©, sem sombra de d√ļvida, somente mais uma das trag√©dias anunciadas de nossa cultura.

OUTROS INCÊNDIOS

Outros ainda lembram de inc√™ndios recentes que destru√≠ram parte significativa de nosso patrim√īnio cultural: Museu da L√≠ngua Portuguesa (2015), Instituto Butantan (2010), Memorial da Am√©rica Latina (2013) e Cinemateca (2016). Sem contar o inc√™ndio do MAM em 1978, que destruiu boa parte de um acervo riqu√≠ssimo.

Os inc√™ndios s√£o fen√īmenos aleat√≥rios. O que define nossa resili√™ncia a eles √© nossa capacidade de enfrenta-los. O mesmo fogo, num museu com estrutura, n√£o passaria de uma queimadura leve, dessas vermelhid√Ķes de sol na pele. No entanto, nosso descaso e falta de preparo fazem com que qualquer fagulha cause uma trag√©dia de grandes propor√ß√Ķes,

POR QUE OS MUSEUS PEGAM FOGO?

Segundo os especialistas, acidentes nestas institui√ß√Ķes tem como causa defici√™ncia or√ßament√°ria, infraestrutura prec√°ria e equipes de trabalho especializada com numero abaixo do numero ideal. Nossas institui√ß√Ķes de uma forma ou de outra, sempre tem um ou mais desses problemas. Na Unicamp, s√≥ para dar um exemplo, tivemos, uma grande discuss√£o recente sobre estes temas. Embora algumas solu√ß√Ķes provis√≥rias tenham sido alcan√ßadas, a maior parte delas continua sem solu√ß√£o.

Mas o que me deixa mais triste não é a aparente falta de visão dos governantes, O que me deixa mais triste é saber que a falta de visão dos governantes reflete um quadro ainda mais sombrio: vivemos numa sociedade inculta e que não vê um valor na cultura. Por isso, nossos museus são poucos, precários e vazios.

O INCÊNDIO E A REVOLTA

A nossa população não cobra dos governantes cuidado com a memória. Os motivos são os mais diversos, e é claro que a falta de cultura não é um projeto dos explorados, mas dos exploradores. Mas é importante salientar que somos sim, por ação ou omissão, um povo que, por falta de cultura, não se importa em fazer dela um valor. Este círculo vicioso faz com que nossa rica cultura se perca, se esvazie, se deteriore. Ou se queime.

A pesquisadora Aparecida Vilaça escreveu que, ao ver o esqueleto do museu destruído pelas chamas, ela viu a imagem de alguém se imolando, ou seja, alguém que coloca fogo no próprio corpo em protesto. Uma revolta por tantos anos de maus tratos e descaso. As imagens que circularam eram cruéis, mostrando as cenas de desolação causadas pelo fogo.

Quem sabe se a imola√ß√£o do Museu Nacional fa√ßa com que nossa vis√£o sobre os museus, os institutos de pesquisa e arte sejam mais valorizados. Que as pessoas tenham por h√°bito visitar Museus, Exposi√ß√Ķes e Centros de Cultura. E que esse h√°bito possa fazer com que a popula√ß√£o cobre de nossos governantes o respeito que nossa Cultura merece.

OS POL√ćTICOS N√ÉO TEM VIS√ÉO?

Vi tamb√©m que poucos candidatos √† presid√™ncia tem um programa de cultura. Existem candidatos que afirmaram que a trag√©dia ‚Äúagride a identidade nacional‚ÄĚ e disse tamb√©m que ‚Äú√© dever resgatar o compromisso de zelar permanentemente‚ÄĚ pela preserva√ß√£o do patrim√īnio. Mas, quando foi governo, este mesmo candidato deixou estas institui√ß√Ķes √† m√≠ngua.

Outro candidato ainda, quer relegar a Cultura ao status de Secretaria em seu governo. N√£o se pode acusar este candidato, ali√°s bem posicionado nas pesquisas, de incoerente. Em seu programa, realmente, ele n√£o faz qualquer refer√™ncia √† Cultura. Na certa, se algu√©m falar a ele sobre Cultura, ele puxa o rev√≥lver…

A TRAGEDIA DA NOSSA CULTURA

Estes pol√≠ticos dizem essas leviandades porque n√≥s os autorizamos. N√≥s n√£o nos importamos, sejamos francos. N√≥s n√£o valorizamos a nossa pr√≥pria cultura. Por isso, pense sobre o que voc√™ e eu estamos fazendo com a Cultura em nosso pa√≠s. Pense no quanto voc√™ defende isso como uma pol√≠tica, como uma a√ß√£o efetiva. E pense o quanto n√≥s cobramos de nossos governantes a√ß√Ķes efetivas a este respeito. E fa√ßa. Fa√ßamos.

Da mesma forma, v√° a museus, visite exposi√ß√Ķes. Participe de atividades de crowfunding cultural. Valorize quem trabalha com a Cultura. Valorize-se.

Ou queime, inapelavelmente, como todos nós brasileiros nos queimamos, nas chamas da Quinta da Boa Vista.

Não há segunda chance para um povo sem memória.