Arquivo mensais:outubro 2018

MULHERES ASSISTINDO UMA PALESTRA CIENTIFICA

Era uma noite fresca e agrad√°vel de junho no Rio de Janeiro. Dentro do anfiteatro, o s√°bio professor falava sobre os peixes da Amaz√īnia num franc√™s suave e macio. O sal√£o estava cheio. Na primeira fila, a esposa do s√°bio cientista o olhava risonha, parecendo saborear o instante. Tamb√©m na primeira fila saboreando o instante, mas de outra forma, estava um senhor louro, alto, de belos e tristes olhos verdes e com uma barba j√° bastante grisalha.

o biólogo franco-suiço Louis Agassiz

O sábio era o Ilustre Jean-Louis Agassiz (1807 Р1873) famoso biólogo e paleontólogo franco-suíço, radicado nos Estados Unidos. Sua esposa era Elizabeth Cary Agassiz (1822 Р1907), que acompanhava em sua viagem ao Brasil. O velho senhor de olhos verdes e barbas brancas era ninguém mais ninguém menos que o Imperador Pedro II.

MULHERES INTERESSADAS EM CIÊNCIA?
Elizabeth Cary Agassiz (1822 – 1907)

Aquela era a segunda palestra que Agassiz dava no Rio de Janeiro. Na primeira, havia duas semanas, havia sido quebrado um tabu: fora a primeira vez no Rio que mulheres foram convidadas a participar de uma reunião cientifica. Contudo, no salão, não haviam muitas mulheres, mas já era um começo.

Havia pouco, Agassiz havia perguntado ao Imperador porque as mulheres n√£o participavam dos encontros cient√≠ficos da corte. ¬†O Imperador n√£o entendeu direito a pergunta, e disse que elas n√£o se interessavam ‚Äúpor estes assuntos‚ÄĚ. No entanto Agassiz insistiu, e Dom Pedro assentiu em convidar tamb√©m as mulheres.

Elas viriam com seus maridos, como era de costume nas festividades da corte. Haviam v√°rias delas segundo o Dr Pacheco Jord√£o, ‚Äúmuito interessadas‚ÄĚ em assuntos cient√≠ficos. Um pouco incomodadas, segundo Elizabeth Agassiz, pois n√£o sabiam como deveriam se trajar para aquela ocasi√£o. Elas acabaram vindo em pequeno n√ļmero na primeira palestra. Na segunda, o n√ļmero j√° era um pouco maior.

A EXPEDIÇÃO THAYER AO BRASIL (1865-66)

Em suas palestras, Agassiz falou sobre os peixes da Amaz√īnia, que ele viera estudar no √Ęmbito da Expedi√ß√£o Thayer. Esta expedi√ß√£o, financiada em parte pelo milion√°rio americano Nathanael Thayer e em arte pelo governo brasileiro, durou dois anos.¬† Teve com alvos principais o Rio de Janeiro e o entorno da Corte, e a Amaz√īnia.

Na expedi√ß√£o Thayer vieram alguns cientistas ajudantes de Agassiz, que eram seus alunos nos Estados Unidos. Entre eles estava Charles Frederick Hartt (1840-1878), ge√≥logo americano e futuro fundador do primeiro Servi√ßo Geol√≥gico brasileiro, a Comiss√£o Geol√≥gica do Imp√©rio. Como auxiliar de Hartt viera tamb√©m um jovem aprendiz, Orville Derby (1851 – 1915). Derby,¬† depois de completar seus estudos de geologia na Universidade de¬† Cornell, veio para o Brasil auxiliar Hartt em sua expedi√ß√£o. Esta expedi√ß√£o seria a primeira grande expedi√ß√£o geol√≥gica financiada somente pelo governo imperial. Entretanto, com a morte de Hartt em 1877 e o fim da Comiss√£o Geol√≥gica, Derby ficou por aqui at√© o fim da vida. Foi um dos maiores ge√≥logos brasileiros, com uma vasta obra em termos cient√≠ficos e primeiro diretor do Servi√ßo Geol√≥gico Brasileiro, j√° na Rep√ļblica. Mas isso s√£o outras hist√≥rias…

A Expedi√ß√£o Thayer era um presente de Natanael Thayer para seu amigo Agassiz. Agassiz foi um professor importante da Universidade de Harvard. Todavia, nos √ļltimos anos, dedicara-se a construir o Museu de Zoologia daquela universidade. Era um cientista poderoso e popular.

AGASSIZ: CRIACIONSMO E GELO

No entanto, Agassiz estava desgostoso nos Estados Unidos. Lá, começava a ter alguns contratempos. Agassiz era o defensor de uma teoria criacionista e poligênica, que negava veementemente os indícios da nascente teoria da evolução de Darwin. Embora ainda poderoso e popular, ele começou a enfrentar resistências entre seus jovens alunos e alguns eminentes colegas, como o biólogo Asa Grey (1810 Р1888) e o geólogo James Hall (1808 Р1898), o criador da Teoria Geossinclinal.

Todavia, Louis Agassiz viera ao Brasil para recuperar sua sa√ļde e sua paz de espirito e fazer pesquisas. Contudo, ainda muito jovem, fora o primeiro a determinar a exist√™ncia de uma ‚Äúera do gelo‚ÄĚ na Europa e Am√©rica do Norte. Seus dados e sua interpreta√ß√£o sobre as glacia√ß√Ķes do que hoje chamamos de Pleistoceno foram muito importantes para o entendimento da hist√≥ria da Terra.

O FRACASSO DE AGASSIZ NO BRASIL
uma das fotos tiradas por Agassiz no Brasil, para ilustrar suas teses racialistas. Entretanto, os negros e índios brasileiros foram mais complexos que as ideias do cientista, que não deu seguimento à pesquisa

Agora, no entanto,  Agassiz viera ao Brasil para provar que a sua teoria de uma grande glaciação se aplicava também à América do Sul. Da mesma forma, viera para provar outra teoria: que a miscigenação racial formava o que se chamava de raças degeneradas. Tanto um quanto outra não prosperaram: geólogos brasileiros, como o Barão de Capanema (1824 Р1908), ousaram afrontar o grande sábio e mostraram que os depósitos glaciais das serranias cariocas eram produtos de depósitos torrenciais recentes.

Todavia, a teoria racial de Agassiz jamais foi divulgada. Recentemente, uma mostra das ‚Äúfotografias secretas‚ÄĚ de Agassiz foi mostrada no Brasil. Nela, as in√ļmeras fotos de √≠ndios e negros nus, que serviriam para provar que as ra√ßas no Brasil estariam se degenerando. Entretanto, a realidade era outra, e mais complexa do que as teorias racistas de Agassiz pudessem imaginar.

EDUCAÇÃO FEMININA E MIMIMI

Contudo, naquela noite de junho,  as damas da corte estavam assistindo pela primeira vez a uma apresentação cientifica. Algo começou a mudar. Cerca de dez anos depois, ainda timidamente, a educação feminina já ousava ir além das prendas domésticas. Jornais discutiam a teoria da evolução para mulheres. Desta forma, uma destas fontes de divulgação foram as cartas do jornalista Rangel S. Paio no Vulgarizador, jornal sobre temas científicos que saiu no Rio entre 1870 a 1880.

Carlotta Maury no Laboratório de Paleontologia em Cornell (NY), data desconhecida (Arnold, 2014)

Ainda iria demorar para que as mulheres pudessem estudar numa faculdade e ter carreira acadêmica. Como, naquela época, fez a norte americana Carlota Joaquina Maury, que nós já discutimos aqui. Mimimi, dizem alguns hoje em dia quando as mulheres protestam por seu espaço na sociedade. Quem viveu estas experiencias sabe que nunca foi nem é fácil.

Uma breve espiadela naquela reuni√£o cientifica no Rio de Janeiro Imperial exp√Ķe um grande abismo existente em nossa sociedade. E olhe que nem falamos dos escravos, que tanto impressionaram Louis e Elizabeth Agassiz em sua estadia no Rio de Janeiro.

Naquele mesmo ano de 1866 em que Louis e Elizabeth Agassiz estiveram no Rio, numa das travessas da cidade, uma mulher negra vendia comida na rua. Estava vestida de roupas africanas e colares de mi√ßangas coloridas. Com um turbante branco na cabe√ßa, fumava um cachimbo e olhava feliz para as crian√ßas que brincavam ao seu redor. Aquela mulher an√īnima na noite carioca n√£o poderia ser uma trisav√≥ de Marielle Franco? Ou ent√£o, de uma cientista importante, como S√īnia Guimar√£es¬† ou Anita Canavarro?

Viva o Povo Brasileiro!