Não tente fazer isso em casa

Eu sei que está irreconhecível, mas o fundo do banner do blog é esta belíssima imagem do palácio de Knossos, na ilha grega de Creta, provavelmente feita em torno do século 17 a.C. Confira a imagem em alta resolução clicando aqui. Esse troço é conhecido como bull-leaping (“salto sobre touro”. Dã. O que mais seria?) e devia doer pra burro quando dava errado…
bull_leaping.jpg
Ou será que não? Desde que o britânico Arthur Evans escavou Knossos pela primeira vez a partir da virada do século 19 para o século 20, muita gente duvidava que o “bull-leaping”, ao menos como é mostrado nos afrescos cretenses, realmente podia ser praticado. Quem sabe não seria uma imagem idealizada de um ritual iniciático envolvendo touros? Bom, nada como a evidência experimental, não é mesmo? O vídeo abaixo mostra espanhóis modernos replicando as brincadeiras suicidas do pessoal que vivia do outro lado do Mediterrâneo há quase 4.000 anos. Contemplai:

É de cair o queixo.
Mas não pensem que esse é o único detalhe significativo da pintura, nobres leitores. Knossos é o lar de um palácio altamente labiríntico, o que leva muita gente a associar o mito grego do Minotauro sentado no fundo de seu labirinto (não confundir com o do Fauno, por favor) com lembranças longínquas das “touradas” de Creta na Idade do Bronze. Em uma das misturas mais legais já feitas entre arqueologia e ficção, a escritora britânica Mary Renault recontou a história de Teseu, o herói ateniense que matou o Minotauro, como se ele fosse membro de uma trupe profissional de “saltadores de touros”.
Viagens literárias à parte, o aspecto ritual da relação dos antigos cretenses com os touros parece mesmo bastante provável. Em todo o Mediterrâneo antigo, os bovinos machos (e não-castrados, claro) eram comumente usados para representar a força viril do deus dominante do panteão, seja o Zeus grego, o El de Canaã (Palestina) e, sim, o bom e velho Javé, o Deus da Bíblia. (Lembram do Bezerro de Ouro, aquele que quase matou Moisés do coração?)
Outro detalhe que me intriga: os construtores de Knossos não eram gregos. Falavam um idioma até hoje desconhecido e escreviam com a chamada Linear A, ainda não decifrada. Mas a iconografia minoica (como é conhecida a civilização, em homenagem ao mítico rei Minos) influenciou pesadamente a arte grega posterior, sem falar no aparente impacto da religião minoica. Como é que essa transmissão cultural se deu se os gregos romperam quase totalmente com o passado minoico no fim da Idade do Bronze? Vai saber.
A dica veio do blog do arqueólogo israelense Aren Maeir.

Discussão - 9 comentários

  1. Lux disse:

    Nossa que doidera esse lance de bull-leaping sem equipamentos de segurança!
    Existe informação suficiente para crer que esses “rodeios” eram alguma forma de ritual religioso?

  2. Oi Lux,
    Eu não diria informação suficiente, apenas evidências circunstanciais. Se você junta as imagens com o resto da iconografia minoica, com os mitos gregos posteriores e com a “função social” do touro no Mediterrâneo antigo, dá a impressão que se trata de um ritual religioso sim. Mas é bem difícil bater o martelo. O importante, eu acho, é lembrar que no mundo antigo as esferas da vida eram bem menos separadas do que hoje. Mesmo um esporte costumava ter conotações religiosas — veja o caso das Olimpíadas gregas. Abraço!

  3. maria disse:

    fiquei aqui pensando sobre rituais religiosos. na Índia as vacas são de fato sagradas: as pessoas respeitam. num trânsito maluco em que a relação entre os veículos, e entre eles e as pessoas, é de uma intimidade de arrepiar os cabelos, as vacas circulam ou dormem incólumes. nem se despenteiam.
    o bull-leaping, pelo visto, é coisa diferente. se os touros são o símbolo máximo da virilidade, enfrentá-los é coisa pra macho acima de qualquer discussão. isso é religioso? eu diria que está mais para rituais de dominância, de estabelecer hierarquia.
    fiquei com pena do último cara do vídeo. pulou por cima de um touro (em negrito, por favor) e, pelo visto, estourou o joelho no chão! é como o indiana jones morrer de parada respiratória enquanto dorme.
    e me lembrou um ritual de juventude norte-americana. me disseram que em Davis, uma cidade da califórnia que cheira a cocô de vaca, os rapazes encharcados de budwaiser invadem os pastos à noite e competem para derrubar as vacas. cow-tipping. religioso?

  4. Rast Túreher disse:

    Oi Reinaldo.
    Gostei muito do texto.
    Mas olhando a figura “ao pé da letra” percebe-se que os, digamos assim, loucos colocavam as mãos no dorso do touro e de cabeça pra baixo. Isso me fez lembrar o salto sobre o cavalo nas olimpíadas, talvez tenha alguma distante ligação. Mas, voltando ao assunto, os praticantes de hoje não o fazem corretamente (hehehe), pois também deveriam por as mãos no dorso do pobre animal. Mas tudo bem, só a coragem de pular por cima do touro correndo já é muita coisa.
    Abraços

  5. Paula disse:

    Pular sobre touros? Apertar os testículos deles pra eles ficarem bem, bem bravos? Rodeio, touradas? As pessoas não tem o que fazer além de querer se mostrar viris?

  6. Oi Maria, bom te ver por aqui.
    Good points, mas acho que a gente não pode exagerar na dicotomia. O ritual pode ter relação com hierarquia e dominância sem que suma totalmente o aspecto religioso.
    Nesse caso específico a gente realmente não tem dados suficientes pra dizer com certeza se é uma coisa, outra coisa ou a mistura das duas.
    Sobre a diferença em relação à Índia, entendo o que você diz, mas se o animal é visto apenas como símbolo do deus, e não como encarnação dele ou avatar dele, a coisa começa a fazer um pouco mais de sentido. Acho bem provável que esses touros de Creta fossem animais sacrificiais — mais ou menos como os das touradas modernas, embora nestas o bicho hoje morre sem conotação explicitamente religiosa. De mais a mais, o cristianismo está aí para mostrar que a morte do deus pode ser encarada como o sacrifício supremo — é justamente por ser divino que ele DEVE morrer 😉
    Enfim, divagações antropológicas. Grande abraço!

  7. maria disse:

    vai ver… religião tende a ultrapassar a minha compreensão. tudo bem que o divino deva morrer, mas aquele que o mata não tende a ser bem visto.
    paula, o mundo masculino é interessante

  8. Oi de novo, Maria,
    Depende. Dá pra ver o sacrifício como união mística entre o sacrificador e o sacrificado. Essas coisas são mais malucas do que a gente imagina :oP
    Quer uma dica de leitura? “Cristo – Uma Crise na Vida de Deus”, do Jack Miles. É o mesmo autor de “Deus – Uma Biografia”. Ele estuda as narrativas da vida de Jesus sob o prisma literário, tratando justamente dessas questões do sacrifício. É bem legal. Abraço!

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