Nós, o almoço

taung.jpgA minha coluna desta semana no G1, que você pode conferir clicando aqui, explora um velho preconceito sobre a evolução humana: a ideia de que éramos grandes caçadores, cuja paixão por abater animais e devorar carne impulsionou nossa domínio do planeta.
Parece que o consumo de proteína animal até foi importante como combustível evolutivo para a nossa linhagem, mas o fato é que fomos muito mais presas do que caçadores ao longo dos últimos 7 milhões de anos. O texto, que copio abaixo, explora em detalhes as evidências fósseis desse fato. Espero que gostem!
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A história sempre acaba sendo contada pelos vencedores – não dá para fugir muito desse fato da vida. Nem a ciência está isenta desse tipo de racionalização meio canalha do passado. O melhor exemplo disso é a imagem dos nossos ancestrais nos relatos mais clássicos sobre a evolução humana. Segundo essa visão, o nosso apetite por carne fresca e as armas letais de pedra que inventamos foram os grandes responsáveis por nos colocar, factual e metaforicamente, no topo da cadeia alimentar da Terra. Seríamos, portanto, caçadores por natureza. OK. Agora pergunte para o Taung o que ele acha de tudo isso.
“Taung”, só para não deixar você boiando, é o apelido dado ao exemplar de Australopithecus africanus na foto acima. A criatura é um hominídeo, um membro da linhagem de primatas da qual descende o homem moderno. Taung era uma criança de uns três anos de idade quando morreu na África do Sul, há cerca de 2,5 milhões de anos. Morreu, aliás, de morte matada, e não de morte morrida: as marcas de “abridor de lata” no crânio do coitadinho deixam isso bem claro. O filhote de australopiteco muito provavelmente foi morto por uma grande águia africana, que usou suas poderosas garras para atravessar seus ossos da face e depois foi “descascando” a carne do infante, de forma tão cuidadosa que a mandíbula dele continuou no lugar ao fim do processo.
Taung, acredite, não é um caso isolado, como mostra o magistral livro “Man the Hunted: Primates, predators and human evolution” (“Homem, o Caçado: primatas, predadores e evolução humana”, ainda sem versão em português). Os primatólogos americanos Donna Hart e Robert W. Sussman usam a obra justamente como uma sacudidela no velho mito dos hominídeos como caçadores supremos. Casando observações de primatas e predadores vivos com a análise cuidadosa de fósseis e artefatos, eles mostram que o correto é imaginar exatamente o contrário. Durante a maior parte da nossa história evolutiva, fomos bucha de canhão para todo tipo de predador, e só viramos caçadores eficientes, capazes de nos defender, há algumas dezenas, ou no máximo um par de centenas, de milhares de anos.
Almoço ambulante
O engraçado é que o mito da invulnerabilidade dos hominídeos “vazou” até para os outros primatas vivos e extintos. Durante muito tempo, o consenso entre os pesquisadores era que os primatas em geral não eram muito predados, quiçá por causa de sua inteligência relativamente avançada. Ledo engano: Hart e Sussman fizeram um apurado levantamento estatístico da literatura científica e descobriram que macacos e afins têm tanta chance de virar prato principal quanto os ungulados (herbívoros de casco). Para um leão, um babuíno tem tanta cara de jantar quanto um antílope, portanto.
aguiacoroada1.jpgA lista de predadores de primatas compilada por eles é de cair o queixo. Vá anotando aí: falcões, águias, corujas, felinos de todos os tipos e tamanhos, canídeos (lobos, chacais etc.) de todos os tipos de tamanhos, ursos, hienas, civetas, genetas, mangustos, iraras, guaxinins, gambás, jacarés e crocodilos, cobras, lagartos, tubarões… e até tucanos. Sério: tucanos. Desses, os mais temíveis parecem ser as águias e os leopardos, que muitas vezes se especializam em comer primatas. É o caso da águia-coroada-africana (um exemplar está na foto ao lado), cuja técnica de abate e “dissecação” é quase idêntica à da ave que matou Taung. Já os leopardos não respeitam nem gorilas adultos, que podem ter o dobro do peso dos felinos. Dedos inteiros de gorilas já foram achados nas fezes desses grandes gatos.
E não pense que os humanos modernos estão livres desse tipo de perigo. Hoje, embora bem organizados e bem armados, ainda podemos ser devorados por quase qualquer tipo de grande predador se dermos uma bobeada. Só para dar um exemplo, em locais da Europa Oriental onde ainda existem populações de lobos, análises estatísticas mostraram que as capturas de crianças humanas por eles aumentam no verão, época em que as mães precisam de comida fácil para seus filhotes novinhos.
Voltando para o registro fóssil, a morte trágica de Taung está longe de ser um fato isolado. Em várias cavernas da África do Sul, crânios detonados de australopitecos mostram que eles foram abatidos pelos famigerados leopardos – buracos na calota craniana têm o tamanho exato dos caninos desses predadores. Crânios de Homo erectus, um hominídeo que viveu a partir de 1,8 milhão de anos atrás e tinha corpo quase idêntico ao nosso, embora cérebro um terço menor (em média), também revelam marcas que só podem ser atribuídas a felinos, em especial leões. Mais alarmantes ainda são os dados vindos de Zhoukoudian, um dos sítios mais importantes para fósseis do Homo erectus, que fica perto de Pequim. Lá, vários crânios mostram indicações claras de predação por hienas: ossos do rosto quebrados a dentadas e base craniana alargada para facilitar o acesso aos miolos, ricos em gordura e muito apreciados pelos animais.
Os dados de que dispomos sugerem que as defesas humanas contra grandes animais, bem como nossa capacidade de caçar ativamente bichos grandes, apareceram tardiamente. O uso de lanças – que permitem matar a uma distância relativamente segura – tem “apenas” 400 mil anos. E os indícios de captura sistemática de grandes herbívoros são ainda mais tardios, começando com os neandertais, há menos de 200 mil anos, e se fortalecendo mesmo apenas com a chegada dos humanos modernos à Europa, há apenas 40 mil anos. A conclusão inescapável é que passamos muitíssimo mais tempo sendo caçados do que caçando nos últimos 6 milhões de anos.
Hart e Sussman forçam um pouco a barra no terço final de sua obra, ao tentar atribuir a evolução das características tipicamente humanas, como nossa estrutura social, postura ereta e até linguagem, a adaptações voltadas principalmente para minimizar os ataques de predadores. Mas isso não lhes tira o mérito de forma nenhuma. A pesquisa cuidadosa das nossas origens é indubitavelmente um dos melhores antídotos contra a arrogância coletiva do Homo sapiens. Saber que fomos comida durante tanto tempo é um bom jeito de nos forçar a calçar as sandálias da humildade de vez em quando.

Discussão - 9 comentários

  1. Rafael disse:

    Já vi em documentários caso de crianças de colo na africa sendo atacadas por falcões!
    Mas tucanos? Achava q a única carne q eles comiam era de insetos… Que absurdo.
    Pobres Australopithecus… Já não basta ter um com o nome “Taung” e uma que nomearam sem pedir permissão “Lucy”, agora os coitados eram comidos por tucanos!

  2. Oi Rafael! Na verdade os tucanos comem primatas modernos, do Novo Mundo, como saguis, por exemplo. Repare que o texto fala da “lista de predadores de primatas”, ou seja, de todos, vivos e extintos 😉 Abraço!

  3. Paula disse:

    Ah…
    Bom café da manhã pra vc também!
    rsrsrsrs

  4. André disse:

    Mas fala sério…Um animal sem nenhuma estrutura defensiva/intimidadora óbvia (espinhos, presas, veneno…), com um alimento de potencial calórico imenso encerrado na caixa craniana… É muita tentação para qualquer predador!

  5. locatelli disse:

    Humanidade surgindo na África. África geologicamente semelhante à America so Sul, assim como latitudes, potencialmente teriam solos bastante semelhantes, porém a África experimentou climas mais secos, e por isso seus solos hoje são de certa forma mais jovens (menos intemperizados) que os do Brasil (num contexto geral) em outras palavras as pastagens das savanas africanas sustentam maior unidade de animal por área que o nosso análogo mais próximo que é o Cerrado (quando queremos aumentar a lotação de animais num pasto o adubamos). Então neste contexto de solos mais férteis, herbívoros e predadores abundantes, surge o gênero Homo, numa pressão de seleção tremenda (se correr o bicho pega e se ficar o bicho come!), a brincadeira deu certo, criou-se a maior vantagem evolutiva que a naturaza já deu a um organismo, o cérebro humano, bem como o polegar opositor (rs). Recomendo que procure na net algo sobre um ataque de pintada a um pescador em cáceres em julho do ano passado, se nao me engano, e também sobre a “pedra de meio quilo” e sua importancia para a humanidade (Nature!), acho que achará interessante.
    gostei do blog
    abraços

  6. Oi Locatelli!
    Valeu pela visita. Vou procurar as coisas que você mencionou. Sobre o Cerrado brazuca, é bom lembrar que a falta de grandes herbívoros e carnívoros nele é bem recente — 10 mil anos atrás estava cheio de cavalos, mastodontes, preguiças gigantes, dentes-de-sabre… Abraço!

  7. locatelli disse:

    Reginaldo, obrigado pelo feedback!
    Tem um poema do Drummond de Andrade, “Uma cidadezinha qualquer”, onde o autor retrata a vagareza que é o cotidiano de se viver em uma cidade do quedrilátero ferrífero, solos paupérrimos, nem agricultura de fundo de quintal sobrevive. Estou comentando porque na realidade é assim, assim como as outras obras de arte são feitas com embasamento científico (http://mvlocatelli.blogspot.com/2009/01/arte-ciencia-ecologia-e-orquidofilia.html)… E é assim por causa da pobreza do ambiente a vida se estabelece e se reestabelece devagar, assim como se passa o cotidiano, acho interessante como algumas coisas são contagiantes.
    Mas mto bem, voltemos aos nossos cerrados do passado com aqueles bichos grandes que realmente existiram… Existiram na abundância que os seus análogos contemporâneos africanos??? creio que não,por uma razao matemática (mãe das ciências, onde todas convergem)não havia, assim como não há hoje, recursos necessários para atender a demanda dos organismos produtores (plantas) afim de se atender a demanda de uma grande biomassa dos segundo e terceiro níveis tróficos, carnívoros e herbívoros, na Africa tinha e ainda tem.
    De novo a história das nossas pastagens plantadas, se quisermos colocar mais boi por hectare primeiro temos que ver se o solo vai aguentar sustentar as plantas, e se não, a diferença colocamos com adubo, basicamente.
    E creio que na Africa no passado ao contrario de por cá, as coisas eram mais intensas, a natureza “mais cruel”, pressão de seleção maior para um bicho que não tinha tanto tamanho, força e velocidade em relação aos demais ficar inteligente e compensar. E até lá, no luugar do planeta onde a proteína animal era mais abundante, ele foi se virando com carniças e “competindo” com outras presas também abundantes para não serem pegos pelos predadores, logicamente também abundantes, mas assim como é hoje a correlação não devia ser exatamente linear. Assim creio.Quando der dê um pulo no meu recém nascido blog de solos, postei alguma coisa sobre pedologia e arqueologia, e tenho idéias para mais alguns.
    abraços

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