Jesus existiu? Parte 3: Um conclave nada papal

O animado debate que andou rolando nos comentários da série de posts sobre o Jesus histórico (veja aqui e aqui) ajudou a reforçar a importância dos pressupostos metodológicos. Apesar do bate-papo interessantíssimo entre os visitantes, senti que a coisa tomou um rumo um tanto lateral, justamente porque eu não deixei muito claro como, metodologicamente, estou abordando o problema.
Nesse ponto, acho muito útil e divertida a parábola do “conclave não-papal”, bolada pelo historiador americano John P. Meier, autor da série de livros “Um Judeu Marginal” (sobre vocês-sabem-quem). O cenário é o seguinte:
Pegue quatro especialistas na história das origens do cristianismo: um católico, um protestante, um judeu e um agnóstico. (Tá, eu sei que lembra aquelas piadas do tipo “um padre, um pastor, um rabino e um ateu entram num boteco”. Foco, gente, foco.) Parta do princípio de que todos eles são especialistas competentes e honestos, que se esforçam para evitar os vieses inerentes a seus próprios pontos de vista. Tranque esse negada toda na biblioteca da Faculdade de Teologia de Harvard, provavelmente a mais bem suprida do mundo. Deixe os sujeitos a pão e água e só permita que saiam quando produzirem um documento de consenso sobre a vida e os feitos do Jesus histórico.
Meu ponto de vista é o do conclave não-papal, porque estou falando de arqueologia e história, e não de fé (embora eu, pessoalmente, seja uma pessoa de fé). Se o documento é de consenso, muito provavelmente o católico e o protestante terão de abrir mão do que só a fé pode lhes ensinar (como a Ressurreição, por exemplo), para chegar a um retrato MÍNIMO de Jesus que leve em conta todas as evidências disponíveis para um observador honesto e de boa vontade.
O que estou querendo dizer é que as discussões sobre a inspiração divina da Bíblia, sobre a Ressurreição ou mesmo sobre o aspecto sobrenatural dos milagres de Jesus são IRRELEVANTES neste blog — que é um blog laico, embora de maneira nenhuma hostil à fé. Meu interesse é pelo que pode ser compartilhado por todos nós, crentes e não-crentes, como empiricamente verificável. Ademais, o que estou postando não é, obviamente, a opinião da minha linda cacholinha loura. É, sim, o consenso científico e historiográfico (ou o mais perto do que se pode chegar dele) entre os principais especialistas no estudo do Jesus histórico mundo afora. That clear, gentlemen? 😉
Se der, respondo as dúvidas mais pontuais do pessoal num futuro post, mas acho que isso é suficiente pra gente continuar. Mais posts metodológicos virão. Até breve.
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Motivação

Ocasionalmente — muito ocasionalmente — eu me pergunto por que eu entrei nessa. Ah, foi por isso:
“Examinando os últimos 30 anos, ele sentiu que podia dizer que seu estado de espírito mais permanente, ainda que muitas vezes encoberto ou suprimido, tinha sido desde a infância o desejo de voltar. De caminhar no Tempo, talvez, como os homens caminham em longas estradas; ou de examiná-lo, como os homens podem ver o mundo de uma montanha, ou a terra como um mapa vivo debaixo de uma aeronave. Mas, de qualquer modo, ver com olhos e ouvir com ouvidos: ver a face de terras antigas e mesmo esquecidas, contemplar os homens de antanho caminhando e ouvir suas línguas tal como eles as falavam, nos dias antes dos dias, quando falas de linhagem esquecida eram ouvidas em reinos há muito destruídos nas costas do Atlântico.”
J.R.R. Tolkien, claro — em “The Lost Road and Other Writings” (a tradução é minha). Valeu, Professor. Daqui a pouco eu volto.
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Frase do dia

Pra quem acha que tudo, do sistema de cotas das universidades à própria identidade, pode ser resolvido meramente “fazendo um DNA”:
“Não sou contra testes de ancestralidade genética. São divertidos. Mas, em última análise, você é que tem de olhar no espelho e decidir quem você é” – Fatimah Jackson, professora de antropologia biológica da Universidade de Maryland.
Só pra vocês não acharem que eu morri. Tô sem braço no momento, mas volto assim que possível à pancadaria (i.e. Jesus histórico). Take care.
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Jesus existiu? Parte 2: Respondendo as dúvidas

Audiência qualificada é outra coisa. Mal dei o pontapé inicial na minha série sobre o Jesus histórico e já recebi um caminhão de comentários e dúvidas interessantíssimos sobre a primeira postagem e os desdobramentos do tema. Como seria um pecado (só pra manter o clima cristão) relegar debate tão legal à caixa de comentários, resolvi transformar a coisa num novo post enquanto não consigo dar prosseguimento à série.
Sem mais delongas, vamos nessa.
O grande Luís Brudna questiona: O que será que os historiadores do futuro pensarão sobre as “Aparições da Virgem Maria”? Considerarão elas como históricas?
Dependendo das fontes disponíveis, eles certamente vão considerá-las históricas no sentido de que um grupo de pessoas do século XXI ACREDITAVA mesmo ter visto Nossa Senhora. As evidências de que muita gente acredita nisso são abundantes. Agora, as aparições são reais? São realmente um evento sobrenatural, ou são alucinação coletiva? Isso não cabe aos historiadores responder, até por uma questão metodológica, embora possa ser investigado por cientistas que disponham, por exemplo, de um vídeo da suposta aparição.
Rafael Machado indaga: 1)Em relação ao documentário “Zeitgeist”, você já o comentou seja aqui seja no outro blog que tinha? Porque é o típo do documentário que fala o que você quer ouvir ou não, citando referências que são muito difíceis de se procurar.
Não estava nos meus planos abordar detalhadamente as afirmações em “Zeitgeist”, mas vou considerar a ideia 😉

2)Em relação aos escritos do Mar Morto, há muita teoria da conspiração em cima dele, por acaso você vai tratar dele?

Sobre os manuscritos do mar Morto: rapaz, o surpreendente, na verdade, é que há pouquíssima informação sobre Jesus e os primeiros cristãos neles. Tais textos parecem ter sido, em sua maioria, escritos por uma seita judaica extremamente fechada e com pouco interesse direto em movimentos mais “plurais”, como o de Jesus. Mas, claro, é um tema fascinante a ser abordado no futuro.
O amigo Vinícius Policarpo Quintão manda a real:
1) Se Jesus, e não jesus, de fato existiu, seus feitos causariam um enorme alvoroço, e seriam lembrados através de registros de outros indivíduos, acredito. Imagino que, mesmo com a escassez de inidivíduos letrados, boa parte deles se postaria a relatar o fato. Inclusive seus agressores, amaldiçoando-o ou tratando-ou tal qual um “demônio do mundo antigo” ou qualquer outra entidade do imaginário coletivo.
Tem uma série de problemas nessa questão. Primeiro, quem garante que o alvoroço seria tão grande? O mundo mediterrâneo antigo estava COALHADO de milagreiros e mestres itinerantes. A Palestina do século I a.C. conheceu uma loooonga lista de candidatos a profetas e Messias. E, claro, a transmissão da tradição que desembocaria nos Evangelhos pode muito bem ter transformado os 100 espectadores originais do Sermão da Montanha em 5.000.
Isso explicaria, em parte, a discrepância, mas também temos boas razões para acreditar que alguns dos historiadores não-cristãos da época realmente ficaram sabendo do ministério de Jesus e o abordaram — brevemente –, em seus escritos. Mas é preciso lembrar que Jesus, tendo restringido sua missão aos judeus palestinos, não teve contato com nenhuma das grandes personalidades da Antiguidade. Aliás, sabe quantos historiadores judeus estiveram ativos ao longo dos séculos I e II inteirinhos? Um só – Flávio Josefo (do qual falarei no próximo post). A historiografia não era um gênero comum entre judeus, letrados ou não-letrados. Havia pouca gente disponível para fazer um relato “secular” sobre o ministério de Jesus.
2) A existência de figuras como Alexandre, Hércules, Ptolomeu, Perseu e outros, pode ser vista como mera idealização de senhores gloriosos e ícones de outras virtudes, não concorda? Uma vez que as provas de sua real existência ou se perderam ou são insubstânciais (dadas as condições temporais dos relatos, mas não só por isto).
Cuidado para não misturar alhos com bugalhos. Hércules e Perseu são MUITO diferentes de Alexandre e Ptolomeu, a começar pelo fato de que os dois primeiros, se é que existiram, datam de um passado tão remoto e sem continuidade com o presente que não dá nem para comprovar sua simples existência. Jesus está muito mais para Alexandre e Ptolomeu do que para Hércules e Perseu.
O poderoso Roberto Takata afirma:
Há extensa iconografia de Alexandre, o Grande, contemporânea ao imperador macedônio. Os diários astronômicos babilônios mencionam a morte de Alexandre. Mas digamos que fossem apenas as tais moedas. Sim, elas seriam úteis para estabelecer que provavelemente Alexandre existiu. Elas servem como confirmação independente de que as narrativas de Xenofon e Plutarco não são totalmente fantasiosas.
A iconografia que chegou até nós na verdade é um pouco posterior à morte do homem, já heroicizando um pouco a figura. Esqueci-me dos diários babilônicos. Mas o ponto central é que, só com esses dados, nós só saberíamos que Alexandre existiu – e ponto. Não seria possível sequer dizer que ele era macedônio e não, sei lá, tessálio (outro lugar da Grécia onde a monarquia ainda existia). E, só pra takatizar você um pouquinho, é ARRIANO e Plutarco – Xenofonte morreu quando Alexandre tinha dois anos de idade 😉

A melhor comparação seria em relação a Arthur, Beowulf e cia. p.e. Ou a Siddhartha Gautama, Noah, Moshê…

Nope, não seria. Definitivamente não seria. A melhor comparação é mesmo com Temístocles ou Leônidas. Exceto no caso de Buda, que eu confesso não conhecer muito bem, os demais personagens só são mencionados pela primeira vez em textos escritos três séculos ou muitos séculos mais DEPOIS de sua suposta existência histórica. De fato, é tempo demais para um nome ficar rodando na tradição oral, e tudo vira saga mesmo.
Esse NÃO é o caso de Jesus, como pretendo demonstrar aqui. Ao longo dos 60, 70 anos após sua morte, há cerca de uma dezena de fontes literárias independentes — a maioria cristãs, mas algumas judaicas e romanas também — concordando nos elementos básicos: pregação, crucificação, movimento religioso que se propaga depois. Só isso já é suficiente para mostrar, no mínimo, a existência histórica do personagem. Mas não coloquemos os carros na frente dos bois (embora você tenha me forçado a fazer precisamente isso, hehehe…)
O perspicaz Henrique afirma:
No caso das figuras históricas, eles realizaram grandes feitos, mas coisas que, desculpem se ofender alguém com isso mas não encontrei outro modo de falar, são possíveis e fazem algum sentido, contrário do caso de Jesus onde os relatos são de coisas que se por exemplo eu chegar e contar pra um amigo meu hoje que eu vi um cara andando sobre a água ele vai rir de mim.
Concordo, claro. Acho que os aspectos sobrenaturais do ministério de Jesus têm de ser colocados, metodologicamente, na categoria do inverificável (ainda que, pela fé, eu pessoalmente acredite neles). Agora, numa sociedade pré-moderna, quase todo mundo não tinha problema nenhum em aceitar milagres como parte da vida. No caso das curas — façanha que de longe é a mais comum nos Evangelhos –, alguém com mentalidade completamente secularizada só precisa lembrar das situações atuais de “curas pela fé” e perceber que estaríamos falando de fenômenos psicossomáticos (efeito placebo, basicamente) afetando doenças com um componente emocional forte, por exemplo. O importante não é Jesus ter mesmo feito um paraplégico andar; é, sim, ALGUMAS pessoas da época terem ACREDITADO que ele fez um paraplégico andar.
Weiner Assis Gonçalves citou:
Papa Leão X: “A fábula de Cristo é de tal modo lucrativa que seria loucura advertir os ignorantes de seu erro”.
Você poderia me mostrar onde achou a citação, Weiner? De qualquer maneira, é totalmente esperado um papa corrupto do Renascimento ter essa atitude cínica em relação à religião 😉 João Paulo II e Bento XVI podem ter inúmeros defeitos, mas não me parece que cinismo esteja entre eles.
E chega! Dai-me tempo para um novo post, Senhor! :oP
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Mais uma resenha de “Além de Darwin”

E num lugar totalmente inesperado, o site da Secretaria de Ensino Superior do Estado de São Paulo. Pedro Ulsen curtiu o livro mas, surpreendentemente, não foi com a cara do capítulo sobre sexo. Pra você ver que nem sempre o que parece o tema mais pop é o que mais agrada. O link original da resenha segue aqui, mas você também pode lê-la abaixo. E o que está esperando? Quer receber “Além de Darwin” com desconto, autógrafo, dedicatória e frete grátis no conforto de seu lar? Pergunte-me como: reinaldojoselopes@hotmail.com.
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Jornalista da Folha de S.Paulo apresenta, em livro, teorias da evolução “além de Darwin”
“Além de Darwin” não é um livro de tema restrito e pouco avançado. A obra é resultado de uma produção semanal do autor Reinaldo José Lopes na coluna Visões da Vida do G1, o portal de notícias da Rede Globo na internet, onde ele trabalhava antes de ingressar na editoria de ciência do jornal Folha de S.Paulo. O objetivo da obra, lançada no final do ano passado pela Ed. Globo, é “proporcionar uma visão telescópica, de longo alcance, da história da vida no nosso planeta”, revela o próprio autor.
Como proposta, aliás, é bom assumir: haja visão! Antes de ser um livro sobre a evolução, e antes mesmo de ficar travado nas teorias darwinistas, “Além de Darwin” é fiel à ideia continuísta do seu título e debate do início ao fim conceitos biológicos, sociais, racionais, emocionais, sexuais e comportamentais de diferentes seres vivos. Uma escala crescente de evolução, o próprio livro. O bom desempenho, aliás, faz com que a obra seja mais indicada para estudiosos da área científica. Claro que sua leitura pode ser útil a todos os interessados pelo tema, mas conhecer a área só contribui para a compreensão dos temas discutidos.
A proposta é de fato alcançada, mas esbarra no primeiro capítulo da obra – meio enfadonho e bastante polêmico -, que se detém demais na análise “dos deleites e das agruras de se reproduzir fazendo sexo”. Todas as pesquisas têm seu valor, mas esta observação vem de forma exagerada e simplista. O autor tem que as mulheres são a causa mais comum de brigas internas e externas em determinadas sociedades que cita. “É simples assim: os chefes mais poderosos, com maior habilidade militar e maior número de guerreiros à sua disposição, são quase sempre os que possuem o maior número de esposas e concubinas”, crê.
Ainda polêmico e menos acintoso o autor retoma a discussão com narrações bem articuladas – que marcam a obra a partir daqui: “Confessemos o inconfessável: sexo é bom e todo mundo gosta, mas dá um trabalho dos infernos. Considere quanto sangue e suor, quantas lágrimas, notas de cem e faturas de cartão de crédito já foram empregados na história do cosmos para esse fim; quantas caudas de pavão e Ferraris, quantos vestidos decotados, sem falar no gasto de energia intelectual, como a invenção do soneto, os romances medievais sobre o amor cortês, o Cântico dos Cânticos. É muita dor de cabeça”, opina.
Desde então compreensões como essas são deixadas para trás. É o momento de transformação da obra, que avança com qualidade para compreender a evolução da vida. As diferentes formas de inteligência são abordadas, os componentes biológicos dos seres vivos também, além da história e origem da Humanidade. Na reta final o assunto são as maneiras e as aparências dos corpos para finalizar com um belo – e ousado – capítulo que aborda acertadamente os pontos de encontro entre fé e razão, as conexões entre sabedoria e ciência.
Escalada positiva
Se é para avaliar a evolução, tentando entender a história e o destino da vida, Lopes não se priva de estabelecer parábolas. Não surpreende ao dizer que “a diferença entre nós e o resto das formas de vida nesse quesito é menor do que gostaríamos”. Ousado nas propostas e com evolução de ideias graduada, a obra traz temas diversificados da Ciência, que vão do bipedalismo às especificidades da evolução. O texto, vale ressaltar, é muito bem escrito. Tem narração articulada, por vezes complexa pelo tema, mas sempre com desenvolvimento conceitual ascendente. Não é, como dito acima, um livro básico, e tem também um tempero literário de narrativa.
De um modo geral, a obra tem conteúdo extenso, que garante aos interessados não só uma visão sobre evolução. Este, é claro, o conceito que conduz a narrativa do livro. Mas é a partir dele que o autor entra em diferentes temas. Até a religião – tema ímpar à Ciência – é tratada na reta final da obra. “A ciência pode entender como a fé se desenvolve, mas a base e o sentido que ela dá à existência humana estão fora do alcance dos laboratórios. (…) Não há nada de desrespeitoso em tentar entender esse processo. Como o próprio Jesus disse, ´Conhecereis a verdade – e a verdade vos libertará´”, escreveu Lopes.
“Além de Darwin” condensa posteriormente sua escalada de evolução e aponta perspectivas ao futuro. Uma das conclusões é que a compreensão do processo biológico não parece um substituto completo para outras formas de exprimir a verdade sobre nós mesmos, ou sobre o Universo. A declaração é equilibrada: “Não se pode esquecer que a racionalidade e o método científico são ferramentas, não oráculos. (…) O belo e o horrendo, o certo e o errado – ainda cabe a faculdades que não a razão julgar qual é qual, por mais que o exame racional possa fornecer pistas e subsídios para o veredicto.”
E é assim, depois de construir seu próprio desenvolvimento, de entrar em detalhes sobre a história da evolução, de abandonar uma concepção isoladamente antropocêntrica, e de pensar o momento atual como parte de uma evolução mais ampla, que Reinaldo José Lopes fecha a obra de modo assertivo: “Que as nossas mãos sejam instrumentos para um florescimento cada vez mais formoso da Criação (sim, não tenho medo de usar a palavra), enquanto ela durar. Que os que vierem depois de nós tenham solo sadio para plantar – e espaços vastos onde não precisem plantar. Mais do que isso não se pode pedir de ninguém.”
Por Pedro Ulsen.
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Jesus existiu? Parte 1: As fontes, sempre as fontes

Este é o primeiro de, quem sabe, uma série consideravelmente longa de posts sobre as pesquisas envolvendo o “Jesus histórico”, como é conhecida a reconstrução acadêmica da vida e da mensagem de Cristo baseada única e exclusivamente no que se pode extrair de historicamente confiável das fontes do século I a.C.
bompastor.jpg
Paradoxalmente, no entanto, sinto-me compelido a começar respondendo a indagação que virou moda nos últimos tempos: afinal, quem garante que Jesus existiu mesmo? Na esteira do documentário-cascata “Zeitgeist”, e na ânsia de arrumar mais uma arma contra as religiões, a ideia de que Jesus nem teria existido, sendo apenas uma lenda meio Frankenstein montada a partir dos pedaços de todas as mitologias do Mediterrâneo pelo espertíssimo apóstolo Paulo (por exemplo), tornou-se relativamente popular nos meios céticos.
Começarei defendendo aqui que, na verdade, de longe o mais provável é que Jesus tenha de fato vivido e caminhado na Palestina do século I a.C. “Numdiga, Reynolds”, brincarão alguns. “Claro, você é católico, TEM de acreditar que Jesus existiu.” Pode ser. Mas ser cristão não me impede de tentar usar o método científico de maneira desapaixonada, seguindo os passos dos principais historiadores do cristianismo mundo afora, os quais, quase sem exceção, não duvidam que Jesus tenha sido uma pessoa real. Claro, ciência não se faz por maioria de votos, e consensos científicos podem estar enganados. Mas o que pretendo demonstrar é que, usando o velho e confiável princípio da navalha de Occam, segundo o qual a explicação mais simples que consegue dar conta dos dados é a verdadeira, é que a hipótese do “mito forjado” simplesmente não funciona.
Claro, nada disso significa que, do ponto de vista estritamente histórico e científico, as pessoas são obrigadas a aceitar que os aspectos sobrenaturais do ministério de Jesus, como os milagres e a ressurreição de Jesus, aconteceram tal como narrados nos Evangelhos canônicos do Novo Testamento — ainda que, pela fé, eu aceite a realidade essencial deles. (Até porque cada um dos Evangelhos narra esses fatos de maneira substancialmente diferente da dos demais.) Meu propósito, até por uma questão de naturalismo metodológico, é mais modesto: mostrar que há fatos não-sobrenaturais, empiricamente verificáveis, que fornecem ao menos um esqueleto de fatos concretos sobre a vida de Jesus.
Evidência direta? Vai sonhando
Indo finalmente ao que interessa, vamos relativizar um ponto no qual muita gente insiste sem entender o contexto da Galileia e da Judeia do século I a.C. É aquele negócio de exigir evidências arqueológicas diretas da existência de Jesus. Enquanto não acharem uma tábua de passar com o logotipo “Carpintaria José & Jesus – made in Nazareth”, não acreditarão, e ponto.
O que esses São Tomés modernos esquecem é, em primeiro lugar, o meio social e cultural de onde Jesus, com quase 100% de probabilidade, veio. O mundo mediterrâneo antigo, como ocorria com a imensa maioria das culturas pré-modernas, era povoado por gente que não sabia escrever, que dependia de materiais perecíveis para quase todos os momentos da vida e que tinha tão poucos direitos políticos que dificilmente seria mencionado pelo nome em qualquer documento governamental (os quais, aliás, também podiam ser perecíveis).
E daí? Daí que Jesus era muito provavelmente invisível do ponto de vista arqueológico. Ele e quase toda a primeira geração de seus seguidores. Nem o famoso sepulcro onde teria ocorrido a Ressurreição escapa — não é improvável que a narrativa de um sepultamento honroso seja um acréscimo posterior, e que o corpo crucificado tenha ido parar numa vala comum, o que seria mais ou menos a prática padrão dos executores da Roma imperial.
Os invisíveis
O que vale para o carpinteiro rústico de um vilarejo insignificante da Baixa Galileia, no entanto, vale também para algum dos nomes mais importantes da Antiguidade Clássica. O fato surpreendente é que, tanto em evidência material direta quanto em evidências textuais, o que chegou até nós do mundo antigo é ridiculamente pouco. Em larguíssima medida, dependemos de relatos de segunda ou terceira mão, e os que parecem melhores e mais detalhados muitas vezes vieram séculos depois dos eventos que narram.
Um exemplo extremo? Ninguém menos que Alexandre, o Grande. Sim, temos moedas cunhadas com as fuças dele que datam do fim de sua vida ou de pouco depois — aleluia, evidência arqueológica direta, afinal! –, mas só com isso o máximo que saberíamos é que houve um rei poderoso de origem grega chamado Alexandre no século IV a.C. Superútil. Para qualquer detalhe que preste sobre a vida do sujeito, temos de nos basear no que escreveram Arriano e Plutarco — em pleno período romano, uns QUINHENTOS anos depois da época de Alexandre. Arriano e Plutarco teriam se baseado nas memórias de sujeitos como Ptolomeu, um dos generais do jovem rei. Só que essas fontes contemporâneas se perderam. Em tese, os escritores poderiam simplesmente ter inventado essas fontes — não que qualquer estudioso de Alexandre aposte nisso.
Segundo exemplo: Temístocles, o homem que salvou Atenas das mãos dos persas em 480 a.C. Escavações em Atenas acharam “cédulas” de ostracismo — a votação para exilar pessoas instituída pelos atenienses — com o nome “Temístocles, filho de Néocles”. De novo, seria apenas um nome — se não fosse pelo pitoresco relato das aventuras de Temístocles feito por Heródoto uns 40 anos depois da guerra com os persas (aliás, o mesmo período de tempo que separa a morte de Jesus do Evangelho de Marcos, o mais antigo). Heródoto é a única fonte mais ou menos contemporânea sobre Temístocles a sobreviver até hoje.
Terceiro exemplo, desta vez duplo: Leônidas e Sócrates. Aí a coisa fica REALMENTE feira. Heródoto também escreveu sobre Leônidas, com a mesma distância temporal de Temístocles. Uma única fonte literária é só o que sugere que o rei casca-grossa e cabra-macho de Esparta sequer existiu — nenhuma inscrição com seu nome chegou até nós. Sócrates deu mais sorte: são basicamente seus discípulos Platão e Xenofonte, escrevendo décadas depois de sua morte, que nos informam sobre sua vida (de maneira um bocado contraditória, aliás).
A conclusão me parece inescapável: se aplicarmos os mesmos critérios que os céticos mais extremados usam para falar de Jesus ao resto da Antiguidade, ou vamos concluir que Atenas e Esparta mal chegaram a existir, ou ficaremos eternamente presos a um agnosticismo paralisante. O caso de Jesus está longe de ser excepcional em termos de falta de dados: é, na verdade, um caso típico.
A série continua em breve com uma velha questão: existem fontes não-cristãs independentes que comprovem a existência de Jesus?

Neandertais: simplesmente um luxo. Ou não?

conchaneandertal.jpgResearchBlogging.orgNão é de hoje que eu acompanho as peripécias de João Zilhão, arqueólogo português de sobrenome aparentemente piada pronta que, na verdade, é um dos sujeitos mais batalhadores e inteligentes a estudar a transição de neandertais para humanos modernos na Europa paleolítica. Zilhão defende, entre outras coisas, que o abismo de capacidade mental entre os Homo sapiens e nossos primos neandertais era bem menor do que se costuma acreditar. Agora, ele parece ter conseguido a evidência definitiva disso: a invenção independente de adornos corporais por essa espécie europeia de hominídeo.
Grife na sua cabeça a palavra “independente” da frase acima, porque já se sabe há tempos que ao menos alguns neandertais andavam por aí com colares feitos de dentes de animais. Trata-se da chamada cultura chatelperroniana, assim batizada por causa do sítio francês onde ela foi detectada. A questão, porém, é que a cultura chatelperroniana parecia coincidir temporalmente com a chegada dos primeiros humanos modernos ao continente europeu.
Os defensores da supremacia H. sapiens usavam esse dado para argumentar que se tratava de pura imitação pós-contato: vendo seus primos anatomicamente modernos (o termo politicamente correto é esse) já adotando adornos com valor simbólico, os neandertais teriam simplesmente se aculturado, copiando a ideia.
Rebeldia
Zilhão, que hoje trabalha na Universidade de Bristol (Reino Unido), contesta isso há tempos. Num artigo recente na revista científica “PNAS”, ele e seus colegas conseguiram achar indícios de adornos corporais no sítio neandertal de Cueva de los Aviones, na região espanhola de Múrcia. A datação é clara: cerca de 50 mil anos — definitivamente anterior ao contato entre as duas espécies de hominídeos, já que os humanos modernos só foram dar as caras na Europa Ocidental em torno de uns 35 mil anos atrás, e talvez ainda mais tarde na Espanha.
Os indícios? Conchas. Conchinhas dos gêneros Acanthocardia e Glycymeris que parecem ter sido perfuradas para montar colares. É exatamente o mesmo tipo de evidência que acompanha os sítios arqueológicos de humanos modernos e documentaria o surgimento de capacidade simbólica — como a capacidade de usar adornos para reforçar sua aparência ou status. De mais a mais, há sinais da aplicação de pintura sobre as conchas.
Tudo interessantíssimo, mas é importante mencionar um senão que andou não aparecendo nas reportagens sobre o tema. Não deu para comprovar categoricamente que os buracos nas conchas foram feitos por mão humana (ou quase humana…). Em tese, poderiam ser de origem natural, de forma que as conchas teriam sido carregadas já prontas para os abrigos habitados pelos neandertais.
Resta saber o que os defensores da supremacia cognitiva dos humanos modernos dirão sobre os achados.
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Zilhao, J., Angelucci, D., Badal-Garcia, E., d’Errico, F., Daniel, F., Dayet, L., Douka, K., Higham, T., Martinez-Sanchez, M., Montes-Bernardez, R., Murcia-Mascaros, S., Perez-Sirvent, C., Roldan-Garcia, C., Vanhaeren, M., Villaverde, V., Wood, R., & Zapata, J. (2010). Symbolic use of marine shells and mineral pigments by Iberian Neandertals Proceedings of the National Academy of Sciences, 107 (3), 1023-1028 DOI: 10.1073/pnas.0914088107
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Resenha: “História Ilustrada Grécia Antiga”

grecia.jpgHistórias ilustradas de qualquer coisa invariavelmente me lembram aquele prazer ingênuo do leitor-criança, de descobrir pela primeira vez um assunto legal e passear por ele com ligeireza, sem se dar conta de que a beleza das ilustrações normalmente mascara a falta de profundidade do texto. Fico feliz em poder dizer que esse NÃO é o caso do volume sobre a Grécia Antiga da coleção História Ilustrada, da Ediouro.
A primeira pista auspiciosa de que, no presente caso, as ilustrações não são apenas máscara para a superficialidade do conteúdo vem do fato de que a obra é organizada e coescrita por Paul Cartledge, historiador da Universidade de Cambridge que eu já conhecia de outros carnavais. Cartledge, especializado na história de Esparta, é um dos mais respeitados estudiosos do mundo grego antigo na atualidade. E, pelo visto, reuniu um timaço.
É claro que a obra faz amplo uso de recursos visuais — infelizmente, tudo em preto e branco, o que é compreensível do ponto de vista de custos. A iconografia de quase todas as épocas, do período micênico ao helenístico, é uma mão na roda para trazer o universo helênico de volta à vida. Mas o que realmente faz a diferença numa obra introdutória é contexto, e nesse ponto o livro é soberbo.
Os autores, por exemplo, empregam de maneira cirúrgica os documentos originais da Grécia Antiga, com excertos dos principais poetas, dramaturgos, historiadores e políticos (entre outros) da Hélade, capazes de ilustrar com precisão o que era a sociedade grega antiga. (Quem rouba a cena, claro, são os personagens das comédias de Aristófanes quando o tema é o universo da sexualidade helênica. A diversão é garantida.)
Mais importante ainda, conseguem amarrar um bocado bem os fatores mais básicos da civilização grega, como a agricultura mediterrânea de subsistência e a política das cidades-Estado, com as grandes tendências culturais e os principais personagens, de Homero a Alexandre. Nesse ponto, aliás, pequenos verbetes com o básico do básico da biografia desses figurões são um excelente guia para o leitor que costuma se perder com nomes e datas.
Resumindo: se você quer entender o povo que, ao lado do judeu, ajudou a criar o Ocidente, eis um excelente lugar para começar.
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Simpática resenha de “Além de Darwin”

Rogério Parentoni, professor de ecologia aposentado pela UFMG e professor-visitante no Departamento de Biologia da Universidade Federal do Ceará, teve a imensa gentileza de me mandar uma resenha do meu livro “Além de Darwin”. O professor Rogério me deu permissão de reproduzi-la abaixo. Quem sabe você, nobre leitor, não se inspira a adquirir o livro também? 😉 Aliás, quem quiser fazê-lo com desconto, frete grátis, autógrafo e dedicatória pode fazer o pedido comigo mesmo, no e-mail reinaldojoselopes@hotmail.com. Aí vai o texto.
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Muito além dos “mistérios evolutivos”
Reinaldo José Lopes, por meio de seu livro, “Além de Darwin”, merece loas pelo estilo jocoso e leve sem perder a consistência e o raciocínio científico lógico, por intermédio dos quais divulga alguns dos mais intrigantes “mistérios” da evolução. Leitores exigentes, curiosos e imaginativos deverão apreciar a leitura desse compêndio pelos motivos acima exarados.
De fato é de impressionar a diversidade de formas e comportamentos em organismos tão distintos, mas de origem comum. As relações de parentescos entre os organismos que resultam da evolução podem ser representadas como se fossem bifurcações de galhos em uma árvore em crescimento que, desde a germinação, só faz ampliar sua copa e tornar-se mais complexa. Tais bifurcações ocorrem em virtude de condições ecológicas distintas no tempo geológico-evolutivo.
Vale aqui a metáfora bem adequada, nome do pequeno e estimulante livro escrito pelo ecólogo britânico G. E. Hutchinson (merecedor de uma biografia): O teatro ecológico e o drama evolutivo.
Bem estribado em leituras técnicas e capaz de entendê-las adequadamente, porque inteligentemente digeridas, Reinaldo trafega em um mundo de ardis e perigos iminentes. Distraidamente e em intenção de leveza e clareza da divulgação, passeia entre concepções teóricas e evidências empíricas lábeis, posto que tanto as causas como os resultados da seleção natural e a conseqüente evolução de atributos dos organismos, estão e estarão sempre “sub judice”.
Essa atitude jurídica de pendência traduz a existência de armadilhas sintáticas e semânticas na estrutura teórico-empírica do sistema de teorias evolutivo (inclui as teorias de evolução em si mesmo, descendência com modificações, árvore da vida, evolução por seleção natural e especiação). Por isso mesmo peço que alguém me apresente uma ciência tão difícil de ser construída quanto o é a Biologia Evolutiva.
Mas, como o fariam diretores teatrais exigentes, há necessidade de que sejam explicitados detalhes das configurações ecológicas das cenas e do desenrolar do próprio espetáculo evolutivo, tarefa que aguarda o esforço criativo de muitos pesquisadores para muitos anos vindouros. Nesse ponto, Reinaldo José Lopes, inadvertidamente e algo entusiasta, não explicitou dúvidas benfazejas, combustíveis intelectuais para mentes inquietas.
Todavia, ele deve ser (repito) lido. Estou a chegar ao final do compêndio satisfeito com sua prosa fluente, leve e às vezes portadora de piadinhas inofensivas: faz parte do estilo. Mas em seu livro, há o pecado original de uma divulgação científica, do qual o autor consegue imunizar-se parcialmente, é o que produz a sensação de que os “mistérios” evolutivos estão sobejamente esclarecidos.
Darwin deu o “start” fundamental e genial para a compreensão da evolução orgânica. Mas a partir daí o que se tenta há 150 anos é entender os detalhes para os quais as teorias evolutivas apontam. Quaisquer sejam eles, os resultados do esforço científico resultarão em compreensões necessariamente incompletas. Reconhecer essa limitação da ciência é reconhecer sua autenticidade, credenciada pela dúvida. A compreensão científica não se encerra e nem se basta apenas com as concepções e atitudes do mais brilhante pesquisador.
Retorno a Reinaldo, não apenas para novamente reconhecer-lhe os méritos, mas também para adverti-lo de que seu esforço literário criativo poderá não alcançar tantas mentes e corações com seria desejável, por mais que seja tão bem intencionado e sinceramente” evolutivo”.

Encouraçados fofuchos: longer, bigger and uncut

Termina o mistério dos encouraçados fofuchos, como sabe quem leu a “Folha” de hoje. Mas, como o jornal impresso é (cada vez mais) cruel com o espaço disponível, eis abaixo a versão “do diretor”, sem cortes, da reportagem sobre uma nova espécie de parente gigante e extinto dos tatus achada em terras potiguares. Ah, e Takata, NÃO é um gliptodonte 😉 Espero que gostem!
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Chamar o Pachyarmatherium brasiliense de supertatu não passa de licença poética, por mais que o bicho pareça se encaixar na descrição. Na verdade, a criatura de 100 kg é um parente relativamente distante dos tatus atuais. A espécie, recém-descoberta por paleontólogos em meio ao material arquivado num museu de Natal (RN), traz novas pistas sobre como era a fauna de gigantes do Brasil pré-histórico.
“O material foi coletado nos anos 1960 e levado para o Museu Câmara Cascudo. Parte ficou na área de exposições, parte no acervo técnico, mas ninguém se interessou por trabalhar com aquilo durante muito tempo”, contou à Folha Kleberson Porpino, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Porpino assina a descrição da nova espécie de “supertatu” junto com Lílian Bergqvist, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e Juan Fernicola, do Museu Argentino de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia.
Em artigo na revista científica “Journal of Vertebrate Paleontology”, o trio se debruça sobre fragmentos relativamente escassos do bicho, como pedaços da carapaça, vértebras e ossos dos membros, para tentar reconstruir o P. brasiliense. Embora o gênero Pachyarmatherium já fosse conhecido a partir de fósseis da Flórida, detalhes do casco do bicho brasileiro indicam que se trata mesmo de uma espécie “nova”.
Lego
E são justamente as unidades que formam a carapaça, os chamados osteodermas (“ossos dérmicos”, explica Porpino), que ajudam a dar uma pista sobre o comportamento e o “álbum de família” da espécie.
Por um lado, os animais de hoje, como o tatu-galinha, possuem osteodermas diferenciados em certas regiões de sua couraça, formando as chamadas bandas de articulação, que dão flexibilidade à armadura. O exemplo extremo disso é o tatu-bola, cujo truque de se dobrar sobre si mesmo é famoso.
Já os chamados gliptodontes (mais avantajados entre os parentes extintos dos tatus, podendo alcançar o tamanho de um Fusca) não possuem essas bandas de articulação, o que dá a esses bichos a aparência de um pequeno tanque de guerra.
O P. brasiliense, diz Porpino, provavelmente estava entre esses dois extremos. “Não chegava a ser uma faixa flexível, mas havia uma região com algum grau de articulação, mais parecida com uma dobradiça”, afirma o paleontólogo. Embora não chegasse perto do tamanho monstruoso de alguns gliptodontes, a espécie do Rio Grande do Norte claramente era mais avantajada do que o maior tatu vivo hoje, o tatu-canastra (Priodontes maximus), cujos maiores exemplares nem chegam aos 50 kg.
Se o trio conseguiu entender a biomecânica da armadura do bicho, coisas como seus hábitos alimentares ou locomoção são mais misteriosos por pura falta de dados. O crânio (com os dentes, claro) não foi preservado. “Os gliptodontes aparentemente eram herbívoros [muitos tatus atuais são basicamente comedores de insetos]. No caso do P. brasiliense é difícil afirmar alguma coisa. Do mesmo modo, ele parece ter sido um animal fossorial [de hábitos cavadores], mas não dá para ter certeza”, afirma Porpino.
Sumiço
Da mesma maneira, a falta de uma datação precisa do material das cavernas onde o bicho foi achado, em Baraúna (RN), impede que se aponte a idade da criatura. Mas os fósseis associados com ele parecem sugerir o finzinho do Pleistoceno (a Era do Gelo), entre 40 mil e 10 mil anos atrás.
A fauna nordestina incluía então criaturas muito maiores, como preguiças do tamanho de elefantes africanos, o dente-de-sabre Smilodon populator e até primos extintos dos próprios elefantes, os mastodontes. No Brasil, são escassas as pistas que poderiam explicar o sumiço dessa fauna de gigantes, embora bichos parecidos na América do Norte tenham sido alvo de caça por parte dos primeiros seres humanos que invadiram o continente, vindos da Ásia.
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E mais, uma vez, meu profundo obrigado à bela paleoarte de Felipe Alves Elias, que recriou o bichão!
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