E 2017, é culpa de quem?

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QUANDO CHOVEU EM BRAS√ćLIA na semana de 20 de setembro, eu comemorei em vez de xingar o engarrafamento. At√© que enfim um ano em que as chuvas come√ßaram quase na √©poca de costume, ap√≥s mais de 110 dias de seca. Juntando isso com um inverno em que fez frio tamb√©m como antigamente, parecia que o ano seria enfim normal ‚Äď ap√≥s os malabarismos clim√°ticos de 2015, quando em vez de esta√ß√£o chuvosa tivemos uma onda de calor de 45 dias que quebrou todos os recordes, e de 2016, quando o inverno durou uma semana.

Pelo visto, comemorei cedo demais. Entre 22 de setembro e 16 de outubro n√£o caiu uma gota d‚Äô√°gua no DF. Em vez disso, tivemos um repeteco em miniatura da onda de calor de 2015, com temperaturas da casa dos 35 graus de dia e 26 √† noite (a m√°xima recorde da cidade foi 36,5oC, batida em 2015). Depois de eu escrever a primeira vers√£o deste texto, a imprensa confirmou que o domingo (15) superou os dois recordes de 2015, com 37,3oC medidos pelo Instituto Nacional de Meteorologia em √Āguas Emendadas, a cerca de 25 km da minha casa. A m√©dia hist√≥rica para o m√™s de outubro, o mais quente do ano na cidade, √© e 27,5oC. A timeline do meu Facebook foi invadida por memes de calor no fim de semana (como o que ilustra este post). A quentura e a secura p√Ķem press√£o adicional nos reservat√≥rios de uma cidade que est√° h√° dez meses racionando √°gua. Se n√£o chover copiosamente a partir da segunda quinzena de outubro, as represas n√£o v√£o se recuperar e 2018 ser√° ano de mais racionamento.

N√£o h√° nada de normal nisso tudo.

Olhando para fora da minha aldeia, 2017 definitivamente n√£o teve nada de normal. No hemisf√©rio Norte, o abre-alas do ver√£o foram os inc√™ndios florestais que deixaram mais de 60 mortos em Portugal. Em julho e agosto, foi a vez da onda de calor apelidada L√ļcifer, que deixou o sul da Europa com temperaturas manauaras. Ao mesmo tempo, 158 inc√™ndios florestais atingiram a Col√ļmbia Brit√Ęnica, no Canad√°. Agosto viu ainda inc√™ndios de grandes propor√ß√Ķes no sul da Groenl√Ęndia ‚Äď a pior temporada desde o in√≠cio dos registros.

Em setembro quem brilhou foi o Oceano Atl√Ęntico, com a temporada de furac√Ķes mais danosa j√° registrada na hist√≥ria. At√© agora foram dez, come√ßando com Franklin e chegando a Ohpelia (que atravessa o oceano neste momento numa estranha trajet√≥ria rumo √† Europa), incluindo tr√™s simult√Ęneos (Katia, Irma e Jos√©), dois de categoria 5, a m√°xima na escala (Irma e Maria), o mais forte j√° registrado no Atl√Ęntico (Irma) e tr√™s supertempestades tocando terra nos EUA e no Caribe (Harvey, Irma e Maria, que devastou a ilha de Porto Rico). At√© agora foram mais de 300 mortos e preju√≠zos ainda por contabilizar, mas estimados em mais de US$ 200 bilh√Ķes.

De volta a Pindorama, no mesmo m√™s de setembro o Brasil bateu seu recorde mensal de queimadas (106 mil registradas pelo Inpe), tornando 2017 o s√©timo ano com maior n√ļmero de inc√™ndios desde o in√≠cio dos registros, em 1998 ‚Äď e isso a dois meses do fim do ano. E, j√° que estamos falando de fogo, outubro seguiu com uma temporada de inc√™ndios sem precedentes na Calif√≥rnia, com mais de 30 mortos e preju√≠zos s√©rios para a ind√ļstria vin√≠cola americana. √Āgua, por outro lado, sobrou no Rio Grande do Sul, atingido por tornados, microexplos√Ķes e tempestades.

Em 2015 e 2016, dois dos tr√™s anos mais quentes da hist√≥ria, n√≥s t√≠nhamos um bode expiat√≥rio para os extremos clim√°ticos. O bi√™nio foi do El Ni√Īo ‚ÄúGodzilla‚ÄĚ, que ajudou a elevar o aquecimento da Terra de 0,85oC para 1oC acima dos n√≠veis pr√©-industriais no ano passado, secando por√ß√Ķes do globo como o Nordeste brasileiro e o oeste americano. S√≥ que o El Ni√Īo submergiu em meados de 2016, e a fase inversa da oscila√ß√£o, o La Ni√Īa, que ajuda a resfriar o mundo, n√£o veio nem de longe com a mesma intensidade. Em 2017 n√£o temos o ‚Äúru√≠do‚ÄĚ das oscila√ß√Ķes clim√°ticas naturais de curto prazo. A m√ļsica que toca ao fundo, numa sucess√£o decidida de compassos que deve nos levar ao segundo ou terceiro ano mais quente nos registros, parece ser mesmo a do aquecimento global.

De fato, o planeta em 2017 se assemelha uma encena√ß√£o daquilo que os modelos climatol√≥gicos previam para este s√©culo num cen√°rio de crise clim√°tica. Condi√ß√Ķes oce√Ęnicas semelhantes ao El Ni√Īo: check. Furac√Ķes mais intensos, mais inc√™ndios florestais e ondas de calor mais frequentes: idem. Invernos anormalmente frios e com muita neve, como o deste ano no hemisf√©rio Norte: tamb√©m. Para ficar apenas no Brasil, a seca no Nordeste (que vai entrar no s√©timo ano), o calor extremo no Norte, no Sudeste e no Centro-Oeste, os baixos n√≠veis dos reservat√≥rios e as chuvas mais intensas no Sul s√£o exatamente o que os modelos clim√°ticos globais regionalizados pelo Inpe prognosticavam para o meio do s√©culo.

Obviamente, atribuir cada um desses extremos de forma unívoca aos efeitos dos gases-estufa acumulados na atmosfera é temerário. Por outro lado, cada vez mais cientistas vêm apontando para um fato óbvio: nada do que acontece hoje na atmosfera da Terra pode ser dissociado do fato de essa atmosfera estar em média 1oC mais quente do que em 1850. Portanto, de certa forma, mesmo que nem tudo seja culpa do aquecimento global, tudo é culpa do aquecimento global.

Enquanto mais um ano de extremos fode com a gente se abate sobre a Terra, uma quantidade enorme de energia √© desperdi√ßada na √°gora por um monte de gente boa tentando persuadir a Dona Maria com dados e fatos de que o problema √© real e causado por n√≥s. √Č precisamente como a ind√ļstria f√≥ssil quer que a gente aja: perdidos na cortina de fuma√ßa argumentativa enquanto eles tentam espremer at√© o √ļltimo centavo de lucro vendendo √≥leo e carv√£o e ao mesmo tempo buscam formas de competir com a Tesla e os pain√©is solares chineses.

O real debate que deveria estar sendo travado agora diz respeito a proteger pessoas e ecossistemas. Como Bras√≠lia e S√£o Paulo v√£o evitar a pr√≥xima crise h√≠drica? Como os moradores de S√£o Francisco de Paula poder√£o se proteger de tornados a tempo? Que decis√Ķes prefeituras, fazendeiros, seguradoras e o mercado imobili√°rio precisar√£o tomar para lidar com um presente que n√£o √© mais como o passado e com um futuro que ser√° uma vers√£o piorada do presente, qualquer que seja a causa das mudan√ßas? E o que fazer com pessoas menos afortunadas do que eu, que n√£o t√™m dinheiro para comprar um aparelho de ar-condicionado ‚Äď e que mal t√™m acesso a energia?

Perdemos muito tempo aprisionados na armadilha da atribui√ß√£o. √Č um espa√ßo confort√°vel, no qual homens brancos com instru√ß√£o superior e salas refrigeradas podem se digladiar em teoria e sonhar em resolver o problema no atacado, com acordos internacionais, NDCs e grandes esquemas de precifica√ß√£o de carbono. √Č √≥bvio que n√£o h√° sa√≠da de longo prazo para a crise sem atacar suas causas e zerar emiss√Ķes antes de 2050.

Mas no mundo real o disco virou para a a√ß√£o local de constru√ß√£o de resili√™ncia. √Č uma conversa muito mais complicada, j√° que envolve necessariamente o pequeno poder, a esfera municipal, o c√≥digo de obras e outras coisas sem o menor glamour ‚Äď al√©m de interlocutores com os quais boa parte das pessoas com instru√ß√£o superior prefeririam n√£o precisar lidar, como aquele prefeito do Pros ou aquele vereador do PP. Essas pessoas e, a bem da verdade, todas as outras, precisam entender que as refer√™ncias e a experi√™ncia n√£o s√£o mais guia para o futuro. E que rezar pela chuva ou contratar o Cacique Cobra Coral n√£o s√£o a resposta.

A culpa é sempre do licenciamento

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“Pensei: por que Deus criaria as pessoas t√£o imperfeitas, ent√£o as culparia pelas pr√≥prias imperfei√ß√Ķes, ent√£o mandaria seu filho para ser torturado e executado por essas pessoas imperfeitas como forma de compensar o qu√£o imperfeitas elas eram e o qu√£o imperfeitas elas inevitavelmente seriam? Que ideia maluca.” (Julia Sweeney)

A manchete de hoje do Valor Econ√īmico me fez lembrar esse trecho do mon√≥logo Letting Go of God, da comediante americana Julia Sweeney. O jornal d√° voz aos empres√°rios da ind√ļstria do petr√≥leo, que manifestam preocupa√ß√£o com o destino da 14¬™ rodada da ANP, marcada para o fim de setembro. Eles sutilmente amea√ßam uma debandada de investimentos no setor no pa√≠s. E a culpa, claro, ser√° do licenciamento ambiental, esse entrave eterno.

O jornal d√° a senha logo no primeiro par√°grafo: diz que o setor, recentemente, j√° “destravou” as regras de conte√ļdo nacional e a exig√™ncia da Petrobras como operadora √ļnica do pr√©-sal. E agora, justo quando chegavam as strippers e a coca√≠na a festa ia ficar boa, aparece esse Ibama para empatar.

A reportagem do Valor tem alguns problemas, devidamente apontados por Maur√≠cio Tuffani no Direto da Ci√™ncia. Talvez o principal deles seja o timing. O Congresso Nacional est√° voltando hoje do recesso, para azar da sociedade brasileira. Amanh√£ a bancada ruralista e seus aliados do “mercado” devem livrar o Presidente da Rep√ļblica da cassa√ß√£o e da eventual temporada em Curitiba. Nos pr√≥ximos dias, como parte da fatura pela gra√ßa realizada, devem votar no plen√°rio a Lei Geral de Licenciamento Ambiental, rifada por Temer, apesar de acordo pr√©vio com o ministro do Meio Ambiente. Nesta ter√ßa-feira (01) o licenciamento estar√° no “card√°pio” do almo√ßo semanal da Frente Parlamentar da Agropecu√°ria (a sobremesa √© o seu futuro, leitor). N√£o creio em bruxas, mas h√° uma coincid√™ncia retada no fato de o setor ter se lembrado s√≥ agora de contar ao principal jornal de economia do pa√≠s que tem um “entrave ambiental”.

Ironicamente, o estudo de caso apresentado pelas fontes como s√≠mbolo dos supostos problemas do licenciamento sai pela culatra. Trata-se das “dificuldades” que a petroleira francesa Total estaria tendo para conseguir licenciar blocos de explora√ß√£o na regi√£o da foz do Amazonas, arrematados em 2013, na 11¬™ rodada da ANP. O Ibama, esse inimigo do Brasil, estaria enrolando com a licen√ßa s√≥ porque a regi√£o de explora√ß√£o fica ao lado de um banco de corais √ļnico no planeta, rec√©m-descoberto e provavelmente ultrassens√≠vel a vazamentos e… n√£o, pera.

Temos, então, que o licenciamento ambiental é acusado de ser lento e rigoroso demais porque o governo concedeu uma área de exploração de óleo numa zona ecologicamente sensível, onde o licenciamento ambiental precisa ser, necessariamente, mais lento e rigoroso, porque tem o mandato de proteger essa zona ecologicamente sensível. O raciocínio é perfeitamente circular. Julia Sweeney na veia. (Se eu fosse ministro do Meio Ambiente, ainda mais neste clima de baile da Ilha Fiscal que está este governo, me fazia de loka e decretava um parque nacional marinho na região. Sarney, #ficaadica.)

O “preju√≠zo” causado pelo Ibama ao pa√≠s no caso seria US$ 300 milh√Ķes, que √© o que a Total havia planejado investir na regi√£o em 2017. Para colocar em perspectiva, US$ 300 milh√Ķes equivale a 3 UBV (Unidade Barusco de Valor), ou seja, tr√™s vezes o que um √ļnico diretor da Petrobras, Pedro Barusco, aceitou devolver aos cofres p√ļblicos do dinheiro que ele tinha roubado sozinho. Voc√™ me diga se essa grana vale arriscar os corais da Amaz√īnia.

Mais adiante, o texto meio que derruba a si pr√≥prio: diz que a 14¬™ rodada est√° amea√ßada pela lerdeza do licenciamento, mas que que a maioria dos blocos a serem oferecidos n√£o ficam em √°reas ambientalmente sens√≠veis e sim em regi√Ķes “j√° conhecidas”, ao contr√°rio dos da 11¬™ rodada, que estavam em “novas fronteiras”.

E a√≠ o Valor cita um caso emblem√°tico de outra barbeiragem licitat√≥ria da ANP supostamente implodida pelo licenciamento: em 2002, uma empresa americana arrematou blocos de explora√ß√£o numa √°rea pr√≥xima a outro banco de corais — o dos Abrolhos, entre Esp√≠rito Santo e Bahia, onde j√° existia um parque nacional marinho. Em 2004, o Minist√©rio do Meio Ambiente bateu o p√© e disse que n√£o dava para furar ali. O minist√©rio de Minas e Energia aquiesceu. A empresa deixou o pa√≠s dois anos depois e os corais de Abrolhos foram deixados em paz, por enquanto.

A ministra de Minas e Energia que se dobrou ao bom senso na época se chamava Dilma Vana Rousseff.

 

Foto: corais da Amaz√īnia (Greenpeace)

Será que Elon Musk assassinou o pré-sal?

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NÃO OLHE AGORA, mas Elon Musk pode ter acabado de ferir de morte o sonho do Brasil de virar uma petropotência.

A Tesla, empresa de ve√≠culos e baterias de Musk, lan√ßa nos pr√≥ximos dias o seu aguardado Modelo 3, primeiro ve√≠culo de massas da marca. √Č um sed√£ el√©trico m√©dio, que vai de zero a cem em 6 segundos e roda 346 quil√īmetros com uma carga de bateria. J√° seria sensacional, mas espere at√© saber o pre√ßo da belezinha: US$ 35 mil, e isso sem os descontos de impostos que carros el√©tricos t√™m em v√°rios lugares da Europa e dos Estados Unidos. Meu filho mais novo, fan√°tico por carros, me conta que o pre√ßo de entrada do bicho no Brasil √© R$ 110 mil. Tenho d√ļvidas, por causa do c√Ęmbio e do h√°bito do nosso empresariado de triplicar o pre√ßo de qualquer ve√≠culo importado aqui, o que produz bizarrices como transformar o Smart num carro de luxo. Mas, por amor ao debate, vamos assumir que o Modelo 3 chegue por R$ 130 mil.

√Č muito dinheiro. √Č um dinheiro que eu n√£o tenho. Por essa grana eu compraria uma picape Audi Q3, ou qualquer outro desses carros beberr√Ķes lindos da Kia. Ocorre que o Modelo 3 est√° irremediavelmente condenado a cair de pre√ßo. E, quando isso acontecer, eu vou me endividar para comprar um, e desconfio que muita gente far√° o mesmo. Espero que Musk tenha planos para expandir a produ√ß√£o rapidamente.

A conta √© simples: hoje eu dirijo um Focus 2009 a gasolina (Cinco minutinhos para voc√™s xingarem minha hipocrisia. Pronto? OK, adiante). Tento mant√™-lo regulado, mas seu motor j√° viu dias melhores e hoje faz, pelas minhas contas, algo em torno de 8 ou 9 quil√īmetros com um litro — mais ou menos a mesma autonomia de um Tesla 3. Toda semana eu preciso abastecer, e olha que eu trabalho em casa e meu √ļnico deslocamento obrigat√≥rio no dia √© o trajeto at√© a escola do ca√ßula, a menos de 15 km de casa. Isso me d√° um gasto anual, com combust√≠vel apenas, de R$ 7.000, com a gasolina a pre√ßos de hoje.

Se eu tivesse dinheiro para trocar de carro e comprar um Focus zero, gastaria algo em torno de R$ 90 mil. Com o que eu economizaria de combust√≠vel, levaria seis anos para pagar a diferen√ßa entre o pre√ßo do Focus e os R$ 130 mil do Tesla. Ainda n√£o vale a pena: √© um per√≠odo maior que o prazo de financiamento da maioria dos bancos. Mas e se o Modelo 3 custasse a mesma coisa? Considerando um financiamento de 60 meses, somente a economia de combust√≠vel me daria R$ 30 mil para gastar no Tesla, assumindo que o pre√ßo da gasolina v√° permanecer constante por cinco anos. Ou seja, estaria comprando um carro de R$ 90 mil, mas ‚Äúpagando‚ÄĚ um de R$ 60 mil.

Essa √© a l√≥gica matadora do carro el√©trico. Hoje os felizes propriet√°rios de ve√≠culos entram no financiamento sabendo que, ao pagar a √ļltima presta√ß√£o, ter√£o perdido dinheiro, porque o bem se desvaloriza. O el√©trico muda essa equa√ß√£o ao botar dinheiro no seu bolso (isso sem contar o custo menor de manuten√ß√£o, j√° que o motor tem menos partes m√≥veis). Repare que eu n√£o falei nada sobre polui√ß√£o ainda. O Modelo 3 vai tirar o motor a combust√£o interna do mercado porque ele √© um bom neg√≥cio para o propriet√°rio, n√£o para o planeta. Na boa, que se dane o planeta.

Na semana passada, a revista Business Insider comparou o ve√≠culo de massas de Elon Musk ao iPhone, em termos das perspectivas de mercado que ele abre e da transforma√ß√£o nos h√°bitos do consumidor que ele enseja. Not√≠cias recentes parecem corroborar essa avalia√ß√£o: nos √ļltimos dias, a Volvo, que meu ca√ßula idolatra pelos carros luxuosos, potentes e n√£o necessariamente econ√īmicos, anunciou que n√£o far√° mais nenhum carro puramente a combust√£o interna a partir de 2019. Daqui a dois anos, portanto, todos os ve√≠culos novos da montadora sueca ser√£o h√≠bridos ou el√©tricos. A Fran√ßa anunciou na mesma semana que a partir de 2040 nenhum ve√≠culo a gasolina ou diesel ser√° vendido no pa√≠s (empresas francesas j√° entenderam o recado e hoje tentam empurrar a sucata dos carros a diesel para o Brasil). Na √ļltima quinta-feira, por√©m, o banco holand√™s ING tratou de desmentir o an√ļncio ‚Äď como excessivamente conservador: segundo a institui√ß√£o, todos os carros novos vendidos em toda a Europa ser√£o el√©tricos ou h√≠bridos j√° em 2035.

A data ecoa uma previs√£o feita neste ano pelo Carbon Tracker e pelo Grantham Institute, o think-tank brit√Ęnico pilotado pelo economista Nicholas Stern. No relat√≥rio intitulado Espere o Inesperado, as duas institui√ß√Ķes afirmam que os carros el√©tricos representar√£o 35% do mercado de transporte rodovi√°rio em 2035, e responder√£o por 70% dos ve√≠culos do mundo em 2050. O prazo contabiliza o tempo de vida dos carros a combust√£o, o que significa que os el√©tricos dominar√£o as vendas de ve√≠culos novos muito antes disso. Segundo o relat√≥rio, os ve√≠culos el√©tricos atingir√£o a paridade de custo com os convencionais j√° em 2020.

O estudo do Grantham vai ao cerne da quest√£o ao apontar que todos os modelos econ√īmicos que projetam a ado√ß√£o e a dissemina√ß√£o de tecnologias de baixo carbono como o carro el√©trico est√£o defasados. Esses modelos, como o da petroleira brit√Ęnica BP, o da Ag√™ncia Internacional de Energia e o da Bloomberg New Energy Finance assumem uma trajet√≥ria de ado√ß√£o quase linear ‚Äď que n√£o reflete a realidade do mercado consumidor. A BP, por exemplo, estimou neste ano que em 2035 os el√©tricos representar√£o apenas 6% do mercado de ve√≠culos. Pelo visto a empresa √© t√£o boa em proje√ß√Ķes de mercado quanto em seguran√ßa de perfura√ß√Ķes submarinas.

O conservadorismo dos modelos decorre da incapacidade dos analistas dessas institui√ß√Ķes de lidar com tecnologias disruptivas. O futur√≥logo americano Ray Kurzweil documentou bem a evolu√ß√£o deste tipo de tecnologia no seu chat√©simo, mas relevante livro The Singularity is Near. Segundo Kurzweil, a evolu√ß√£o de paradigmas tecnol√≥gicos se d√° de forma exponencial (o crescimento multiplicado por uma constante) e n√£o linear (o crescimento acrescido de uma constante). S√≥ que nos primeiros est√°gios do crescimento exponencial n√£o √© poss√≠vel detectar a acelera√ß√£o: ela s√≥ fica clara em seu padr√£o explosivo quando se atinge o ‚Äújoelho‚ÄĚ da curva de crescimento.

√Č prov√°vel que o carro el√©trico e outras tecnologias de baixo carbono, como os pain√©is solares, estejam se aproximando do ‚Äújoelho‚ÄĚ da curva; quem olha para tr√°s v√™ uma tend√™ncia razo√°vel de crescimento, mas nada que abale as estruturas ‚Äď por conseguinte, as proje√ß√Ķes para o futuro s√£o mais ou menos lineares. O resultado disso √© que proje√ß√Ķes como a da BP j√° n√£o refletem a realidade no terreno hoje.

A Bloomberg aparentemente est√° se ajustando ao mundo real: em seu novo relat√≥rio sobre energias renov√°veis, publicado em 6 de julho, eles fazem uma proje√ß√£o de ado√ß√£o de carros el√©tricos mais alinhada com a do relat√≥rio do Grantham Institute ‚Äď mas ainda assim mais conservadora: a paridade de custo com o motor a combust√£o seria atingida em 2025, e em 2040 33% dos carros seriam el√©tricos. No mesmo ano, os el√©tricos responderiam por 54% das vendas de ve√≠culos novos.

Se Kurzweil estiver certo, porém, o próprio Grantham poderá ser acusado daqui a alguns anos de ter sido conservador demais. As vendas do Tesla Modelo 3 darão a resposta: se ele se comportar mesmo como o iPhone, os carros a combustão interna serão aposentados antes do que todo mundo pensa.

Para o Brasil, a not√≠cia √© p√©ssima, j√° que o pa√≠s h√° quase uma d√©cada fez a aposta no petr√≥leo como alavanca preferencial de desenvolvimento econ√īmico.

Os planejadores de energia tapuias assumem que a demanda por petr√≥leo no mundo est√° mais ou menos dada at√© o meio do s√©culo. O pr√©-sal, por ter um petr√≥leo de alta qualidade e de custos de extra√ß√£o relativamente competitivos, deslocaria √≥leo pesado de concorrentes como a Venezuela, sem necessariamente causar um aumento global nas emiss√Ķes de carbono. Nada no rumo oficial da pol√≠tica energ√©tica brasileira parece vislumbrar o tombo que pode ocorrer nos pr√≥ximos anos caso os ve√≠culos el√©tricos decolem como o bom senso e a aritm√©tica indicam que decolar√£o.

Ao contr√°rio: o Plano Decenal de Energia 2026, rec√©m-colocado em consulta p√ļblica pela Empresa de Pesquisa Energ√©tica, √© uma ode teimosa ao passado. Prev√™ que mais de 70% dos investimentos na matriz energ√©tica brasileira ainda sejam feitos em f√≥sseis, cifra virtualmente inalterada em rela√ß√£o ao √ļltimo plano, publicado em 2016. Sobre os carros el√©tricos, o PDE 2026 faz uma avalia√ß√£o arrogante:

Ainda que haja um movimento global para a ado√ß√£o de novas tecnologias veiculares, cabe ressaltar que as transi√ß√Ķes energ√©ticas s√£o processos usualmente lentos, como revela a hist√≥ria da ind√ļstria de energia.
No Brasil, em particular, h√° aspectos espec√≠ficos que sugerem uma transi√ß√£o energ√©tica ainda mais tardia na ind√ļstria automotiva, entre os principais:
‚ÄĘ O elevado pre√ßo de aquisi√ß√£o de ve√≠culos h√≠bridos ou el√©tricos, j√° que os modelos comercializados, mesmo com incentivos, t√™m pre√ßos de venda ao consumidor entre R$ 115 a 250 mil, em m√©dia (Carros UOL, 2015).
Até dezembro de 2016, haviam sido licenciados no total acumulado no país menos de 3,5 mil veículos híbridos e elétricos (ANFAVEA, 2016);
‚ÄĘ A prefer√™ncia revelada pelo consumidor nessa faixa de pre√ßos √© por maiores e luxuosos como SUVs, Pick ups (caminhonetes), furg√Ķes e sedans m√©dio de luxo (FEBRANAVE, 2015), com caracter√≠sticas bem
distintas daquelas dos ve√≠culos h√≠bridos e el√©tricos -em geral, ve√≠culos de menor porte. √Č poss√≠vel que estes se restrinjam, por algum tempo, a um nicho de segundo ve√≠culo para faixas de renda mais elevadas. Assim, haveria limites, al√©m do pre√ßo, no potencial de mercado desses ve√≠culos;

Por fim, conclui o PDE, esses carros s√≥ conseguem competir hoje gra√ßas a subs√≠dios e incentivos governamentais, e, mesmo que o governo brasileiro fosse criar algum programa de incentivo desse tipo, argumenta a EPE, este se voltaria ao ‚Äúdesenvolvimento de uma plataforma de ve√≠culo h√≠brido flex fuel‚ÄĚ.

Em resumo, o que o PDE faz √© ignorar deliberadamente o carro el√©trico, olhando para tr√°s na curva de crescimento e assumindo que nada v√° mudar daqui a dez anos. √Č de uma miopia assustadora. Pior do que isso, sinaliza o desprezo a uma tecnologia que j√° est√° no mercado em favor do desenvolvimento de uma fantasia, o tal ‚Äúh√≠brido flex‚ÄĚ. N√£o vai acontecer, amigues. Sou capaz de apostar um ingresso para um show do Iron Maiden com o presidente da EPE como o motor a explos√£o estar√° morto antes de o primeiro h√≠brido flex de passeio entrar numa concession√°ria. Se √© que alguma empresa automobil√≠stica colocaria dinheiro no desenvolvimento dessa sandice. Como o dirigismo estatal dilmista no setor energ√©tico parece felizmente estar enterrado, o h√≠brido flex √© um sonho dif√≠cil de se materializar.

Ignorar a bola tecnol√≥gica da vez em favor de cavalos mancos n√£o ser√° a primeira cagada da nossa energocracia. O Brasil desprezou a energia e√≥lica durante muito tempo, perdeu o bonde da solar ‚Äď uma das ind√ļstrias que mais crescem e geram emprego na economia mundial ‚Äď e at√© mesmo o etanol, onde o pa√≠s tinha a faca e o queijo na m√£o, foi ignorado em favor da miragem do pr√©-sal (a d√©cada perdida com isso entre 2007 e 2016 dificilmente ser√° recuperada, por mais que sonhem os defensores do RenovaBio).

Agora, o Brasil aposta que vai vender etanol e petr√≥leo para o mundo todo por muitas d√©cadas e que nesses dois produtos est√° o t√£o sonhado ‚Äúpassaporte para o futuro‚ÄĚ. Vai quebrar a cara. A demanda mundial por √≥leo para ve√≠culos leves deve despencar nos pr√≥ximos anos. O √°lcool tem algum futuro na avia√ß√£o e no transporte de carga, mas isso s√≥ at√© Elon Musk inventar uma bateria para caminh√Ķes. Salvo algum programa nacional de salva√ß√£o do transporte f√≥ssil ou de restri√ß√£o governamental ao carro el√©trico, ‚Äď e tenho certeza de que a Anfavea est√° trabalhando nisso dia e noite ‚Äď, a demanda nacional por motores a explos√£o tamb√©m vai cair. Como dizem os americanos, a escrita est√° no muro.

O governo brasileiro deveria estar em p√Ęnico com outra coisa: um tombo permanente na ind√ļstria do petr√≥leo seria devastador para a economia nacional. Tivemos um vislumbre do que isso pode significar olhando a situa√ß√£o atual do Rio de Janeiro: a crise na Petrobras e a queda no pre√ßo do barril nos √ļltimos anos arrasaram as finan√ßas do Estado. Isso, por sua vez, se reflete no notici√°rio policial. O Rio voltou a ser aquele lugar dominado pelo tr√°fico, onde beb√™s s√£o mortos por balas perdidas na rua e para onde as pessoas t√™m medo de viajar.

O país inteiro deveria tomar a situação fluminense como um cautionary tale e pensar no que fazer para manter o Estado e boa parte da economia nacional funcionando e as pessoas empregadas depois que o petróleo se for. Olhar para o passado e assumir o mesmo estado estacionário para o futuro é péssima política, péssima economia e a encomenda certeira de um desastre social.

Todos os gringos do relator

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OS RURALISTAS est√£o dod√≥is. Depois que o projeto de lei patrocinado por eles para miar o licenciamento ambiental no Brasil afundou por W.O. na C√Ęmara dos Deputados na semana passada, eles buscaram reagir como puderam. Primeiro, tentaram emplacar a vers√£o de que o ministro do Meio Ambiente estaria negociando com eles a retomada do pol√™mico texto do deputado Mauro Pereira (PMDB-RS) no ano que vem. O governo desmentiu. Agora, partem para o cap√≠tulo seguinte do seu manual de guerrilha ideol√≥gica, cujas instru√ß√Ķes parecem ser: ‚ÄúQuando tudo mais der errado, culpe as ONGs estrangeiras‚ÄĚ.

Foi o que fez a FPA (Frente Parlamentar da Agropecu√°ria) ontem num comunicado distribu√≠do √† imprensa. O t√≠tulo √© bom: ‚ÄúAmbientalistas, deem licen√ßa!‚ÄĚ (at√© o imperativo eles usaram direitinho). Trata-se de uma esp√©cie de rep√ļdio √† nota de rep√ļdio ao substitutivo de Pereira assinada por mais de 250 organiza√ß√Ķes, redes e especialistas e divulgada na semana passada.

O comunicado parece um pot-pourri de clich√™s antiambientalistas e teorias conspirat√≥rias xen√≥fobas. E √©. Seria f√°cil ignor√°-lo como mimimi de derrotados, mas conv√©m prestar aten√ß√£o a ele por dois motivos: primeiro, porque as palavras ‚Äúruralistas‚ÄĚ e ‚Äúderrotados‚ÄĚ n√£o costumam andar juntas na mesma frase. Segundo, porque o discurso (ou a ‚Äúnarrativa‚ÄĚ, para usar o termo da moda) subjacente √† mensagem √© um ‚Äúcopia-e-cola‚ÄĚ do que foi usado na discuss√£o do C√≥digo Florestal, entre 2010 e 2012 ‚Äď e todo mundo sabe no que deu.

Ele integra uma ofensiva da bancada do boi e de seus ac√≥litos por uma desregulamenta√ß√£o ampla, geral e irrestrita para o agroneg√≥cio, um setor que parece achar que governo bom √© governo morto ‚Äď exceto para lhes dar 200 bilh√Ķes por ano em cr√©dito subsidiado e de rolar 30 bilh√Ķes por ano em d√≠vidas. Tal ofensiva vem recrudescendo nos √ļltimos meses, na mesma medida em que cresce a depend√™ncia do Pal√°cio do Planalto dos votos ruralistas na C√Ęmara e que o Minist√©rio do Meio Ambiente retoma sua fun√ß√£o prim√°ria de proteger o meio ambiente. Em 2010, o alvo dos ruralistas era a lei de florestas; em 2017, anotem, ser√° o licenciamento (e novamente a lei de florestas).

O arrazoado de argumentos do comunicado da FPA √© facilmente desmont√°vel por qualquer pessoa que tenha √† m√£o o Kit de Detec√ß√£o de Mentiras de Carl Sagan. V√°rias passagens chamam a aten√ß√£o, entre elas o non sequitur de dizer que o agroneg√≥cio ‚Äúprecisa de licen√ßa ambiental para crescer‚ÄĚ precedido da informa√ß√£o de que √© ‚Äúo setor mais exitoso da nossa economia‚ÄĚ (insira mentalmente aqui o GIF do John Travolta confuso). Mas vou me ater aqui ao espantalho favorito dos ruralistas: a no√ß√£o de que ‚ÄúONGs estrangeiras‚ÄĚ estariam agindo em nome de interesses inconfess√°veis para minar a competitividade do agro brasileiro com essa bobagem de manter √°rvores em p√©.

Esse conto do estrangeiro malvado foi usado e abusado pelo agrocomunista Aldo Rebelo durante o debate do Código Florestal. Ele cola com setores pouco esclarecidos do eleitorado à direita e à esquerda. Só que tem vários problemas.

O primeiro deles é ser um ataque ad hominem: busca-se desqualificar um oponente não pelas ideias que apresenta, mas por um traço pessoal, no caso, a nacionalidade (não é difícil ver quão facilmente isso descamba para outras características, como cor de pele, orientação sexual ou partido político; quem duvida assista a este vídeo). O segundo, que deriva diretamente do primeiro, é a quantidade de evidências a apoiar a tese da conspiração: zero.

Mas fica pior do que isso. Diz a FPA sobre o projeto de Mauro Pereira:

‚Äúo substitutivo foi objeto de transparentes debates e acolhimento de sugest√Ķes de dezenas de institui√ß√Ķes, ressalte-se, genuinamente brasileiras‚ÄĚ (Grifo meu.)

Hm, ser√° mesmo?

Como ambientalista n√£o tem mais o que fazer (segundo alguns representantes do agroneg√≥cio), resolvi checar os sites de algumas das organiza√ß√Ķes que teriam supostamente contribu√≠do com o relat√≥rio de Pereira. Descobri em poucos minutos que v√°rias das associa√ß√Ķes empresariais que a FPA chama de ‚Äúgenuinamente brasileiras‚ÄĚ s√£o, assim, meio Mangabeira Unger: a fachada √© brazuca, mas o sotaque, na real, √© gringo. Segue aqui uma lista nada exaustiva de corpora√ß√Ķes estrangeiras ou multinacionais que integram algumas dessas institui√ß√Ķes:

ABRACE (Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia):

  • Anglo American
  • Bayer
  • Arcelor Mittal
  • Cargill
  • Dow Corning
  • Akzo Nobel
  • Air Liquide
  • Dow
  • Clariant
  • Alcoa

SINDAN (Sindicato Nacional da Ind√ļstria de Produtos para Sa√ļde Animal)

  • Bayer
  • Boeringer Ingerheim
  • Cargill
  • Eli Lilly
  • Idexx
  • Ilender
  • Konig do Brasil
  • Merck

ANDEF (Associação Nacional de Defesa Vegetal)

  • Dupont
  • Syngenta
  • Monsanto
  • Basf
  • Bayer
  • Sumitomo Chemical
  • Arysta Lifescience
  • Dow
  • Nichino do Brasil

ABRACEEL (Associação Brasileira dos Comerciadores de Energia Elétrica)

  • Duke Energy
  • Engie (ex-GDF Suez)

ABIAPE (Associação Brasileira dos Investidores em Autoprodução de Energia)

  • Samarco
  • Arcelor Mittal
  • Monsanto
  • Tyssenkrupp
  • Alcoa

Todas essas empresas atuam na defesa de interesses comerciais leg√≠timos. E ningu√©m tem nenhuma evid√™ncia de que elas estejam atuando em concerto para transformar o Brasil numa grande planta√ß√£o de soja visando abastecer seus pa√≠ses-sede e condenar os brasileiros √† fome. Ou, no caso das empresas de energia, que queiram barrar at√© o √ļltimo igarap√© da Amaz√īnia para exportar eletricidade para os Estados Unidos ‚Äď vai saber. A menos que os gringos dos ambientalistas sejam todos ‚Äúdo mal‚ÄĚ e os gringos de Mauro Pereira sejam todos ‚Äúdo bem‚ÄĚ, o foco na nacionalidade √© s√≥ espuma.

H√°, inclusive, evid√™ncias na dire√ß√£o oposta em ambos os lados. O Fundo Amaz√īnia, abastecido com dinheiro de doa√ß√Ķes internacionais (√†s vezes o mesmo que financia as ONGs), hoje banca a a√ß√£o de um √≥rg√£o federal, o Ibama, sem que ningu√©m veja nisso uma intrus√£o na soberania nacional. E, gra√ßas √† Opera√ß√£o Lava Jato, a sociedade vem descobrindo que empresas ‚Äď essas sim ‚Äď genuinamente brasileiras t√™m conduzido seus neg√≥cios de forma pouco republicana. Enfraquecer o licenciamento ambiental atende diretamente aos interesses dessa patota.

Se a bancada ruralista estivesse de fato interessada em debater o desenvolvimento do Brasil, trocaria o disco dessa mistifica√ß√£o xen√≥foba boboca e questionaria sua santa alian√ßa com a tchurma da carceragem de Curitiba. Mas, como sabemos, a √ļnica coisa que eles querem √© fazer cortina de fuma√ßa. Para poder passar o trator por tr√°s.

A ignor√Ęncia √© suprapartid√°ria

atocha

PETRALHAS E COXINHAS, afinal, compartilham algo al√©m de cita√ß√Ķes no caderninho de Marcelo Odebrecht: os dois extremos dessa tosqueira que virou o debate pol√≠tico no Brasil professam uma brutal ignor√Ęncia cient√≠fica, disfar√ßada de oposi√ß√£o consciente e orgulhosa √† “modinha” do momento, o ambientalismo.

As rea√ß√Ķes da advogada Jana√≠na Paschoal e do jornalista Paulo Henrique Amorim √† inclus√£o do alerta contra as mudan√ßas clim√°ticas na abertura da Olimp√≠ada deixam isso claro. Quem l√™ ambas pode ficar deprimido ao lembrar que foi da cabe√ßa de Paschoal que sa√≠ram os argumentos jur√≠dicos usados para derrubar uma Presidente da Rep√ļblica eleita — mas talvez um pouquinho aliviado ao lembrar na sequ√™ncia que essa presidente rezava pelo mesmo catecismo obscurantista de Amorim.

Jana√≠na, a “matadora de jararacas”, tuitou ap√≥s a cerim√īnia codirigida por Fernando Meirelles que at√© que era legalzinha a ideia de botar os atletas para plantar √°rvores (ufa). Mas prosseguiu:

“Achei a parte do aquecimento global um pouco ‘over’. A teoria √© bem pol√™mica” (grifo meu).

PHA, o neopetista-desde-criancinha, achincalhou Meirelles de alto a baixo em um post cheio de adjetivos e vazio de informa√ß√£o. Acusa o cineasta de “miliciano”, de propagar “pseudoci√™ncia” de “direita” e “contrabandear” doutrina√ß√£o “pol√≠tico-partid√°ria” para a cerim√īnia de abertura com os objetivos, n√£o necessariamente nesta ordem, de eleger Marina Silva, destruir o agroneg√≥cio e a gera√ß√£o de energia no Brasil e entregar o pa√≠s para o Tio Sam.

O tu√≠te da uma e o surto do outro se enquadrariam f√°cil naquilo que o grande Paulo Vanzolini qualificou de “espet√°culo t√£o frouxo, n√£o merece coment√°rio”. Mas n√£o resisto a comentar, j√° que eles ilustram como os dois polos do espectro pol√≠tico abdicam voluntariamente do direito b√°sico ao racioc√≠nio ao papaguear, com sinais trocados, a mesma fal√°cia sobre o aquecimento global: para a “direita” a mudan√ßa do clima √© uma grande conspira√ß√£o comunista/anticapitalista; para a “esquerda” (PHA √© de esquerda?), uma grande conspira√ß√£o imperialista. Como j√° expliquei alhures, n√£o h√° como ambos os lados estarem certos aqui.

A advogada do impeachment faz um uso excessivamente liberal dos termos “teoria” e “pol√™mica” para se referir ao aquecimento da Terra. Sen√£o vejamos. Segundo o Dicion√°rio de Ci√™ncia de Oxford, uma teoria √©

uma descrição da natureza que engloba muitas leis, mas que não adquiriu o status incontroverso de lei.

O fato de n√£o serem livres de controv√©rsia n√£o exime algumas teorias cient√≠ficas de serem descri√ß√Ķes bem boas da natureza. A teoria da relatividade de Einstein produziu a bomba at√īmica e reconfigurou o poder no planeta no s√©culo 20; a teoria da evolu√ß√£o de Darwin explica por que os antibi√≥ticos e as vacinas que mantiveram Jana√≠na Paschoal viva at√© hoje puderam ter sua seguran√ßa e efic√°cia testadas em animais antes; e a teoria qu√Ęntica de Planck, Bohr e Heisenberg abriu a porta para a revolu√ß√£o digital que permite que qualquer um saia pontificando sobre ci√™ncia por a√≠ nas redes sociais.

J√° o adjetivo “pol√™mica” vem com uma d√©cada ou duas de atraso, que parece ser o “delay” mental m√≠nimo de alguns setores da “direita”.

Esque√ßamos por um momento que h√° nove anos o aquecimento da Terra foi decretado “inequ√≠voco” pelo consenso dos cientistas do clima. Esque√ßamos tamb√©m que a f√≠sica b√°sica da rela√ß√£o entre combust√≠veis f√≥sseis e a eleva√ß√£o da temperatura global foi elucidada h√° exatos 120 anos. E esque√ßamos que o sistema pol√≠tico internacional, que inclui 196 na√ß√Ķes (com cren√ßas e interesses t√£o distintos quanto Ar√°bia Saudita e Dinamarca, Venezuela e Estados Unidos), concorda tanto com os cientistas que assinou no ano passado um tratado para reorganizar a economia do planeta de forma a minimizar a mudan√ßa do clima. Ignoremos tudo isso e fiquemos apenas com o que os anglo-sax√Ķes chamam de “quorum-sensing”: vamos perguntar aos especialistas.

Isso vem sendo feito desde 2004, quando a americana Naomi Oreskes n√£o conseguiu encontrar, entre artigos cient√≠ficos de climatologistas publicados entre 1993 e 2003, um √ļnico sequer que negasse a mudan√ßa clim√°tica antropog√™nica. Em 2013, o australiano John Cook refez a contagem em outros termos e chegou a um consenso de 97%. No fim de 2013, o americano James Powell publicou uma contagem de mais de 2000 artigos cient√≠ficos sobre clima e chegou a outro n√ļmero sobre a “pol√™mica”: 2.258 artigos aceitavam os humanos como causa do aquecimento global; um artigo rejeitava a tese. Para colocar em termos seguros, a rejei√ß√£o do consenso cient√≠fico sobre o aquecimento global varia de 0,04% a 3%.

A invectiva de Paulo Henrique Amorim contra Fernando Meirelles e o ambientalismo √© mais extensa e, por isso, mais dif√≠cil de comentar sem aborrecer o leitor. Fiquemos apenas com seus oximoros. O principal deles √© dizer que o que ele chama de “verdismo” √© uma “importa√ß√£o pol√≠tica” americana e de “direita”. Dizer isso √© ignorar, entre outros, um fato b√°sico da vida chamado Donald Trump. Assim como outros expoentes do Partido Republicano (vou pedir licen√ßa a Amorim para qualificar essa patota como “de direita”), Trump tamb√©m acredita que o ambientalismo √© uma “importa√ß√£o pol√≠tica” (europeia?) destinada a minar o desenvolvimento dos Estados Unidos e a substituir empregos por √°rvores (ou cata-ventos, ou pain√©is solares, escolha aqui seu tigre de papel favorito). Repito: n√£o h√° como Amorim e Trump estarem certos ao mesmo tempo, nem neste mundo, nem em nenhum dos universos mentais paralelos elaborados por alguns setores da autoproclamada “esquerda”.

O outro ponto √© o que ele chama de “pseudoci√™ncia” e “muamba pol√≠tico-partid√°ria” ao se referir ao aquecimento global. A tal Marina Silva deve ser mesmo muito poderosa, para convencer o mundo a esquentar 1 grau Celsius desde antes de ela nascer, as geleiras a derreterem, a Amaz√īnia a secar e as tempestades tropicais a ficarem mais violentas. Poderosa e mesquinha, pois faz tudo isso apenas para ganhar uma elei√ß√£o. O “miliciano” Meirelles, em nome dessa causa, propagaria por a√≠ “pseudoci√™ncia”. Mais eis que Amorim, algumas linhas antes, tece loas ao papel de lideran√ßa do Brasil… nas confer√™ncias do clima! Entenderam? Os verdes propagam uma fic√ß√£o para destruir o Brasil, mas o Brasil merece aplausos por seu papel de destaque atuando sobre essa mesma fic√ß√£o. Vou deixar voc√™s relerem isso at√© encontrarem alguma l√≥gica que eu tenha deixado escapar. Me avisem, porfa.

Sei que eu n√£o deveria gastar horas de trabalho nem meus escassos neur√īnios comentando isso aqui. Mas a polariza√ß√£o do debate p√ļblico no pa√≠s, onde cada lado insiste em olhar apenas no retrovisor enquanto briga pela barra de dire√ß√£o para guiar o pa√≠s rumo ao muro, exige que o bom senso se manifeste uma vez ou outra. Num mundo cada vez mais assolado pelas consequ√™ncias da mudan√ßa do clima, no qual a transi√ß√£o energ√©tica e econ√īmica passa a ser a pedra de toque do desenvolvimento e da competitividade (e, sim, PHA, da redu√ß√£o das desigualdades e da distribui√ß√£o de renda), dar sobrevida ao negacionismo clim√°tico — este sim, uma importa√ß√£o pol√≠tica perigosa — √© contra os interesses do Brasil. Jararacas e tucanos s√≥ t√™m a perder com isso.

 

PS: obrigado a Adriana Ramos e Délcio Rodrigues por chamarem atenção para os posts originais.

#tevegolpe, e j√° faz tempo

dilma.katia.boa

OS JORNAIS COME√áAM a inventariar as causas do vergonhoso colapso do governo Dilma e tentam identificar em que ponto a administra√ß√£o da petista come√ßou a fazer √°gua. Ser√° que foi na reelei√ß√£o? Ou nos protestos de junho de 2013? No c√Ęncer de Lula, que deixou Dilma sem supervis√£o de adultos e livre para barbarizar no governo? Ou na tentativa do PT de dar um toco em Eduardo Cunha com a indica√ß√£o de Arlindo Chinaglia para presidir a C√Ęmara? Incrivelmente ausente da narrativa que se desenha para o impeachment est√° a primeira grande derrota legislativa de Dilma, um momento que diz muito sobre a compuls√£o da quase-ex-presidente por perder oportunidades: a aprova√ß√£o do novo C√≥digo Florestal.

Em 2011, o governo rec√©m-eleito tentava costurar com sua sabidamente ruralista base aliada uma solu√ß√£o para a proposta do novo c√≥digo. No ano anterior, o c√©lebre parecer de Aldo Rebelo (PCdoB) fora aprovado por uma comiss√£o especial talhada pelo PMDB e de maioria ruralista. Dilma contava com seu vice, Michel Temer, para segurar os √Ęnimos do partido e evitar um desgaste logo no in√≠cio do governo.

Mas Temer sabia desde sempre com quem estava sua fidelidade: com os deputados a quem ele prometera o c√©u, meu bem, e seu amor tamb√©m, em troca do apoio dado quando era presidente da C√Ęmara – posi√ß√£o que o catapultou para o Jaburu. Em maio daquele ano, Temer viajou em miss√£o oficial √† R√ļssia e levou junto o l√≠der do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN). Voltaram de l√° com a infame emenda 164, de autoria do √ľber-ruralista Paulo Piau (PMDB-MG), que anistiava toda e qualquer recupera√ß√£o de √°reas de preserva√ß√£o permanente. O texto foi aprovado no plen√°rio da C√Ęmara por acachapantes 273 votos a 182. A “base aliada” de Dilma, formada numa ampla “coaliz√£o”, come√ßava a dizer a que viera. Ainda zonza, no final de uma reuni√£o de gabinete para decidir o que fazer depois da traulitada, Dilma desabafou com um dos presentes: “Fomos tra√≠dos pelo Michel”.

Diante desse diagn√≥stico preciso, Dilma fez o que fazia sempre que confrontada com uma falha em seu esquema: dobrou a aposta. Resolveu negociar uma redu√ß√£o de danos na C√Ęmara e mobilizou as tropas que ainda tinha no Senado para produzir um texto de C√≥digo Florestal pr√≥prio, negociado linha a linha com a bancada ruralista. De repente, a revis√£o do c√≥digo, um projeto do PMDB ruralista e cuja pr√≥pria origem era “n√£o merit√≥ria”, como admitiu um senador governista, virava um projeto do governo, com direito a mexidas sugeridas ao texto pela pr√≥pria presidente. Dilma reagiu √† “trai√ß√£o do Michel” como como a mulher tra√≠da que reage ao adult√©rio chamando a amante para morar em sua casa.

Como viraria regra no seu governo, o movimento desagradou a todos: Dilma perdeu ali a chance de acenar aos eleitores de Marina Silva, que pediam veto total √† sandice da nova lei. Alijou a esquerda do PT e a Contag, a confedera√ß√£o da pequena agricultura, que assistiam com revolta latente √† camarada presidenta virar BFF da rainha do latif√ļndio e mentora do C√≥digo, K√°tia Abreu. Deu uma banana √† comunidade cient√≠fica, que provou por A mais B por que n√£o era necess√°rio mexer na lei. E, por √≥bvio, n√£o saciou o apetite dos ruralistas, que passaram a exigir mais flexibiliza√ß√Ķes e votaram en masse pelo impeachment daquela que lhes deu tanto. Ah, a pol√≠tica, essa ingrata.

Mas Dilma soube dar o troco nessa cambada de filhos da puta turma, n√©? Sen√£o vejamos: Aldo Rebelo, o traidor original, que fez um relat√≥rio sob encomenda do PMDB por m√°goa contra o PT e favores devidos a Temer, teve o castigo que mereceu: virou ministro do Esporte, depois da Ci√™ncia (!) e, por fim, da Defesa. K√°tia Abreu, que no meio da negocia√ß√£o fora flagrada pelo jornal O Globo dizendo “Dilm√£o concordou com tudo”, virou ministra da Agricultura, confidente e afilhada de casamento. Michel Temer ganhou a articula√ß√£o pol√≠tica. E, de fato, articulou politicamente, mas n√£o exatamente como Dilma queria. O governo restaurou o passivo de imagem deixado pelo C√≥digo Florestal a golpes de Jo√£o Santana: a propaganda na campanha de reelei√ß√£o dizia que a “Cora√ß√£o Valente” havia pacificado o campo, ou algo assim. As a√ß√Ķes de inconstitucionalidade correm hoje no Supremo provam o contr√°rio. E a confus√£o criada pela condu√ß√£o pol√≠tica dilmista da lei de florestas ficar√° como um dos testamentos de seu governo.

Li√ß√Ķes aprendidas? Sei l√°. Obviamente Dilma n√£o caiu por causa do C√≥digo Florestal. Mas o epis√≥dio, ocorrido a partir dos primeiros meses de seu governo, j√° trazia todos os elementos de instabilidade que culminaram no 17 de abril. Com um elemento a mais, que tampouco teve papel pequeno nos cinco anos seguintes do desastre dilmista: o voluntarismo da presidente. As profundas convic√ß√Ķes antiambientalistas de Dilma impediram que ela enxergasse no veto ao C√≥digo Florestal e na proposi√ß√£o de uma alternativa (como vinha sendo negociada desde 2008 pelo ent√£o ministro Carlos Minc com os pequenos agricultores) a oportunidade de escolher um lado e de fazer de fato uma op√ß√£o √† esquerda. Provavelmente achou que estivesse fazendo a coisa certa, a op√ß√£o pelo “progresso”, pela “justi√ßa social” e pela “competitividade” do agroneg√≥cio, contra as “ONGs estrangeiras” e a “Marina Silva”. Meio de ladinho, ficou com os ruralistas, pingando a primeira gota de sangue no tanque dos tubar√Ķes.

Famosa por achar que sabia mais sobre tudo do que todo mundo, Dilma Rousseff recusou-se a aprender com o episódio sobre como se relacionar com o PMDB. Colheu o que plantou.

 

 

Atualizado ap√≥s vota√ß√£o do impeachment na C√Ęmara

O ambiente do impeachment

Quer que eu desenhe?

UM AMIGO MEU, paulistano de fam√≠lia italiana, costumava usar uma frase singela toda vez que tinha um chefe novo no trabalho: “Cambiano i cazzi, ma il culo √® sempre lo mio”. O ditado vale para o meio ambiente nesta crise pol√≠tica. Qualquer que seja o resultado do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, perder√° o patrim√īnio natural e ganhar√£o os agentes pol√≠ticos e econ√īmicos que nos deram o maior esc√Ęndalo de corrup√ß√£o da hist√≥ria da humanidade.

A gest√£o ambiental de Dilma decerto entrou nos anais. Por a√ß√£o ou omiss√£o, a governanta promoveu o maior desmonte de leis e salvaguardas ambientais de qualquer mandato presidencial. Fez uma esp√©cie de “50 anos em 5” do retrocesso: da mudan√ßa no C√≥digo Florestal ao Parecer 303 da Advocacia-Geral da Uni√£o; da menor taxa de cria√ß√£o de √°reas protegidas e demarca√ß√£o de terras ind√≠genas do regime democr√°tico ao infame processo de redu√ß√£o dessas √°reas para acomodar as hidrel√©tricas do Tapaj√≥s; do virtual abandono dos biocombust√≠veis em favor do petr√≥leo √† entrega do Mapitoba a K√°tia Abreu ao licenciamento criminoso de Belo Monte, que incluiu demiss√Ķes no Ibama e ruptura com a Comiss√£o de Direitos Humanos da OEA. Qualquer que seja o indicador, parece dif√≠cil superar os recordes negativos da Mulher Sapiens nessa √°rea. Mas s√≥ parece, como veremos.

Gra√ßas ao juiz S√©rgio Moro e aos outros “fascistas” de Curitiba, n√≥s hoje podemos dizer com seguran√ßa o que moveu boa parte dos assaltos do governo Dilma ao meio ambiente: os assaltos aos cofres p√ļblicos por verbas de campanha. √Č algo de que sempre se suspeitou desde a ditadura, mas que s√≥ come√ßou a vir √† tona em detalhes com a pris√£o dos empreiteiros por Moro em novembro de 2014 e as sucessivas confiss√Ķes de alguns deles. Se o seu caixa de campanha dependesse dos R$ 45 milh√Ķes que se estima serem o piso da propina paga por Belo Monte — segundo Delac√≠dio do Amaral –, voc√™ tamb√©m teria pressa no licenciamento.

T√£o assustador quanto a propina foi o esquema de favorecimento das empreiteiras armado dentro da m√°quina do Estado, com inje√ß√£o de recursos do Tesouro via BNDES para bancar projetos que qualquer calouro de faculdade de administra√ß√£o podia ver que n√£o paravam de p√©. O melhor exemplo disso novamente √© Belo Monte, cujo cons√≥rcio foi formado na marra pelo governo. Talvez nesse sentido a administra√ß√£o Dilma seja realmente socialista: os √īnus econ√īmicos e ambientais da loucura desenvolvimentista foram socializados para todos n√≥s, enquanto partidos captavam dinheiro e uma numerosa meia-d√ļzia de intermedi√°rios enriquecia no caminho

Quem diz que “sempre foi assim” e “todos os partidos fazem” (como se isso fosse argumento), ignora um detalhe hist√≥rico crucial: da crise da d√≠vida de 1982 at√© o come√ßo do segundo governo Lula, o Estado brasileiro simplesmente n√£o tinha caixa para bancar grandes obras. A gastan√ßa irrespons√°vel feita a partir de 2010 de certa forma nos devolveu a essa situa√ß√£o de pen√ļria que retarda o avan√ßo das m√°quinas (mas que traz outros √≥bvios efeitos colaterais nocivos ao pa√≠s).

Sem dinheiro no caixa, com empreiteiros na tranca e com sua j√° famosa in√©pcia para aprovar o que quer que seja no Congresso, Dilma em seu segundo governo acaba praticando um conservacionismo involunt√°rio. Mas seus sucessores est√£o prontos para virar essa p√°gina. O que quer que vire do processo de autogolpe do PT e golpe do PMDB-PSDB, ambos iniciados na semana passada (com a nomea√ß√£o de Lula e a forma√ß√£o da comiss√£o do impeachment, respectivamente), parece razo√°vel supor que resultar√° em menos controle ambiental e mais facilidades para as empreiteiras, que saber√£o agradecer a seus benem√©ritos. Afinal, no topo da lista de prioridades de ambos os lados est√£o o enfraquecimento da Lava Jato e do licenciamento ambiental — duas faces da mesma moeda.

Sen√£o vejamos. Ao mesmo tempo em que sagrou Lula ministro, a Mulher Sapiens transferiu o PAC do Planejamento para a Casa Civil. Lula, se um dia chegar a assumir o minist√©rio, ser√° o novo Pai do PAC. Em suas m√£os, espera-se que o programa (em grande parte suspenso por Joaquim Levy por falta de dinheiro) seja retomado, possivelmente com dinheiro subtra√≠do √†s reservas internacionais do Brasil, talvez algum capital chin√™s e um monte de acenos ao PMDB. Se conseguir alguma das tr√™s grandes fac√ß√Ķes peemedebistas para seu lado com a promessa de aliviar a barra na Lava Jato e de controle sobre cargos e recursos para obras, Lula poderia, em tese, at√© afastar o impeachment (pelo menos √© o que parecem achar os petistas). A√≠ √© s√≥ botar os acordos de leni√™ncia com as empreiteiras para rodar e “destravar” o licenciamento. Vida que segue.

Do lado do condom√≠nio PMDB-PSDB, a mesma l√≥gica se aplica. Quem prestou aten√ß√£o ao discurso de Michel Temer na conven√ß√£o nacional do partido no dia 12, na qual se deu aviso pr√©vio de abandono do governo e o vice-presidente falou como presidente rec√©m-eleito, h√° de ter notado duas men√ß√Ķes importantes: a Agenda Brasil e a Ponte para o Futuro, os dois programas liberalizantes peemedebistas. A Ponte √© supostamente uma estrat√©gia de desenvolvimento nacional, mas a √ļnica men√ß√£o que faz ao meio ambiente –indireta — est√° em sua √ļltima p√°gina: √© quando pede a “racionaliza√ß√£o” dos “licenciamentos ambientais”. Ou seja: para o PMDB, partido que antes do S√£o Jo√£o pode estar ocupando o Pal√°cio do Planalto, meio ambiente n√£o faz parte do debate sobre desenvolvimento. Bem-vindos a 1970.

A Agenda Brasil √© aquele conjunto de propostas do probo Renan Calheiros (PMDB-AL) para melhorar o “ambiente de neg√≥cios” no pa√≠s. Ela inclui flexibilizar a prote√ß√£o ao patrim√īnio hist√≥rico e ambiental, e cria o dispositivo do licenciamento “a jato” para obras “de interesse nacional” — definido, √© claro, por quem detiver a caneta na ocasi√£o. Tal dispositivo avan√ßa na surdina e a passos largos no Senado, com o Projeto de Lei 654, do tamb√©m probo Romero Juc√° (PMDB-RR). Em regime de urg√™ncia, o projeto pode ser votado a qualquer momento no Senado.

Em paralelo, no Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente), avan√ßa a proposta que √© o sonho dourado das empreiteiras: o autolicenciamento ambiental. Funciona assim: j√° que Ibama, ICMBio e Funai n√£o t√™m estrutura (uma vez que foram desmontados ao longo dos anos e especialmente no primeiro governo da Mulher Sapiens), as empresas cuidariam do licenciamento ambiental, sendo apenas fiscalizadas depois e supostamente punidas com o dobro do rigor (talvez com uma bronca por telefone seguida de um “unfollow” no Face?) caso a fiscaliza√ß√£o que j√° n√£o existe descobrisse que pisaram na bola. Como atesta a Samarco, o risco geralmente compensa.

Enquanto militantes de ambos os polos se engalfinham nas ruas e nas redes sociais, os dois lados supostamente em guerra na pol√≠tica brasileira trabalham por aquilo que os une: livrar os chefes das quadrilhas e seus financiadores privados das garras da turma de Curitiba. O desmanche do licenciamento ambiental √© a cenoura na ponta do cani√ßo sacudida pelos pol√≠ticos encrencados para as construtoras, como se a sinalizar anos de felicidade sem fim ap√≥s o t√©rmino do mart√≠rio paranaense. Com Lula ou Temer no governo, ambos arrastando consigo os “fodidos” Renan Calheiros e Eduardo Cunha, mais um Romero Juc√° e talvez um A√©cio Neves de troco, muito √≠ndio velho ainda pode sentir saudades de Dilma Rousseff.

O segundo governo Dilma ser√° bom para o meio ambiente

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OS JORNALISTAS DEIXARAM BARATO, mas a fala mais importante do segundo mandato de Dilma Rousseff at√© agora aconteceu no s√°bado, dia 11 de abril, na Cidade do Panam√°. Durante 23 minutos, Dilma relatou √† imprensa seu encontro com o presidente dos EUA, Barack Obama. E abjurou ali de mais um peda√ßo da ess√™ncia de seu primeiro mandato: sua est√ļpida pol√≠tica energ√©tica.

Nestes emocionantes cento e poucos dias de governo, Dilma vem, sem vontade e por for√ßa das circunst√Ęncias, destruindo uma a uma as horcruxes que abrigaram partes de sua alma no primeiro termo: nomeou para a Fazenda um “tucano” cuja f√≥rmula √© o “arrocho” (segundo ela mesma disse a A√©cio Neves durante a campanha); mandou para o vinagre direitos “dos trabalhadores”; desistiu de seu projeto de “pacto nacional” pela “reforma pol√≠tica” para botar o PMDB no centro das decis√Ķes de governo; enfim, escolha um equ√≠voco qualquer de Dilma 1, se for capaz de enumer√°-los, e voc√™ o ver√° sendo negado tr√™s vezes por Dilma 2. Melhor para o pa√≠s.

As declara√ß√Ķes da presidente no Panam√° sobre mudan√ßa clim√°tica e coopera√ß√£o com os EUA na √°rea de energia solar e etanol s√£o um desmentido espetacular da estult√≠cie proferida por ela em 2012, √†s v√©speras da confer√™ncia Rio +20. Na ocasi√£o, ela escarneceu nas energias renov√°veis, chamando-as de “fantasia”:

“Ningu√©m numa confer√™ncia dessas tamb√©m aceita, me desculpem, discutir a fantasia. Ela n√£o tem espa√ßo, a fantasia. Eu n√£o estou falando da utopia, essa da√≠ pode ter, eu estou falando da fantasia. Eu tenho que explicar para as pessoas como √© que elas v√£o comer, como √© que elas v√£o ter acesso √† √°gua, como √© que elas v√£o ter acesso √† energia. Eu n√£o posso falar: olha √© poss√≠vel s√≥ com e√≥lica de iluminar o planeta. N√£o √©. S√≥ com solar, de maneira alguma.”

Ap√≥s encontrar Obama, governante de um pa√≠s que teve na “fantasia” solar mais de um ter√ßo da nova capacidade energ√©tica instalada apenas em 2014, Dilma aparentemente pensou melhor, com a clareza verbal que lhe √© peculiar:

“A humanidade s√≥ vai poder continuar consumindo energia na quantidade que consome se buscar fontes alternativas que n√£o sejam de fontes n√£o-renov√°veis, que sejam fontes renov√°veis. Essa combina√ß√£o, em qualquer circunst√Ęncia, se voc√™ olhar o s√©culo XXI, ela √© fundamental.”

Aproveitou, ainda, para justificar a “responsabilidade de liderar” do Brasil no novo acordo do clima com a seca do Sudeste, que um m√™s antes ela mesma chamara de “coincid√™ncia”.

A entrevista coletiva permite vislumbrar um segundo mandato que, se n√£o for de avan√ßo determinado, poder√° ser pelo menos de arrefecimento dos retrocessos na √°rea ambiental. Obviamente Dilma Rousseff n√£o trocou de c√©rebro com Marina Silva, nem mudou suas convic√ß√Ķes da noite para o dia: elas seguem ali, no sistema l√≠mbico da presidente, no melhor estilo “sovietes e eletricidade”. Acontece que os fatos empurram o Pal√°cio do Planalto no rumo de um esverdeamento de baixo custo pol√≠tico.

Primeiro e mais importante, houve o Petrol√£o. Com a Petrobras rapada pela ladroagem companheira, processada nos Estados Unidos, rebaixada pelas ag√™ncias de rating e incapaz de tocar sozinha o pr√©-sal, a cesta f√≥ssil na qual Dilma 1 havia colocado todos os seus ovos rasgou. Em cima disso, despencou o pre√ßo do √≥leo. E a mesma pol√≠tica que foi capaz de levar ao ar na campanha o an√ļncio criminoso que acusava Marina de roubar o futuro das criancinhas ao tirar a prioridade do pr√©-sal diz hoje que “uma das √°reas que vai ser objeto de algumas transforma√ß√Ķes vai ser o que se chama de setor de transporte” e que “cada vez vai haver uma conviv√™ncia das diferentes formas de energia com o petr√≥leo”. Pode ser a senha para o retorno triunfal dos biocombust√≠veis, enxotados de Bras√≠lia ap√≥s a descoberta da bacia de Santos.

Depois, houve o Petrol√£o. O juiz S√©rgio Moro, que decerto tem sua foto cheia de dardos pendurada em alguma porta do terceiro andar do Pal√°cio do Planalto, esfriou o tes√£o da comandanta-em-chefa por fazer grandes hidrel√©tricas na Amaz√īnia ao botar na cadeia as pessoas que constroem essas hidrel√©tricas. O procurador Rodrigo Janot e os delatores da Lava-Jato completaram o servi√ßo ao explicitar que o crime pol√≠tico e o crime ambiental s√£o irm√£os xip√≥fagos. Como o ajuste fiscal tamb√©m n√£o deixou muita folga no or√ßamento para o governo derramar bilh√Ķes em buracos e concreto, o ambicioso programa de Dilma de meter uma barragem em cada queda d’√°gua da floresta amaz√īnica possivelmente vai ter de esperar.

Some-se isso √† amea√ßa de racionamento causada pela seca, e de repente voc√™ tem um ministro de Minas e Energia marcando leil√Ķes de energia fotovoltaica e falando em tirar o ICMS dos pain√©is solares, e sua superior hier√°rquica fazendo juras de amor √† “fantasia”.

O outro elemento dessa convers√£o tardia de Dilma em ambientalista est√° na confer√™ncia de Paris. √Č um velho h√°bito de pol√≠ticos em fim de mandato ou em dificuldades fazer acenos √† agenda verde para produzir boas not√≠cias. George W. Bush criou a maior reserva marinha do planeta no Pac√≠fico no fim de seu governo; FHC decretou o maior parque nacional do pa√≠s e assinou a homologa√ß√£o de v√°rias terras ind√≠genas; e Fernando Collor usou a Eco-92 para posar de estadista, assinando as conven√ß√Ķes do Clima e da Biodiversidade.

Dilma Rousseff, cujo governo em quase tudo lembra o de Collor – dos √≠ndices de crescimento ao Renan Calheiros -, ainda precisar√° plantar muita √°rvore para chegar ao desempenho do aliado alagoano na √°rea ambiental. Mas talvez agora tenha se encontrado com a sustentabilidade. √Č bom andar r√°pido, por√©m: Collor, n√£o custa lembrar, foi impichado tr√™s meses depois da Eco-92.

Como aprendi a parar de me preocupar e passei a amar o CO2

“HELLO, DIMITRI.”

A guerra fria contra o aquecimento global assistiu nesta ter√ßa-feira a um duelo entre as superpot√™ncias que faz lembrar o cl√°ssico “Dr. Fant√°stico”, de Stanley Kubrick. De um lado, os Estados Unidos, liderados por um presidente bonzinho, mas cercado de filhos da puta gente astuciosa e premido pelas circunst√Ęncias a fazer o pior poss√≠vel. Do outro, a R√ļssia, dando uma li√ß√£o de malemol√™ncia, brilhantismo pol√≠tico e mau-caratismo no rival. Cada um do seu jeito, e meio sem querer, os dois pa√≠ses acabam convergindo para um √ļnico fim: garantir um futuro sombrio para a humanidade.

Para quem n√£o se lembra do filme de Kubrick, a trama se passa nos anos 1960. Um general americano enlouquece e ordena um ataque nuclear √† Uni√£o Sovi√©tica. O presidente dos EUA (Peter Sellers, impag√°vel), re√ļne seu alto comando e o embaixador russo na ficcional Sala de Guerra da Casa Branca e descobre que ele mesmo havia assinado, sem saber, o protocolo para ataques do tipo. Ele tenta uma liga√ß√£o pelo telefone vermelho com o premi√™ sovi√©tico, que no entanto est√° mais interessado em vodca e mulheres do que nos altos destinos da humanidade. O embaixador, que at√© ent√£o vinha tentando espionar as entranhas do inimigo, revela que qualquer ataque ao territ√≥rio sovi√©tico dispararia a temida Arma do Ju√≠zo Final, que os falc√Ķes de Washington achavam que fosse mentira. Spoiler: o ataque acontece.

A corrida vista hoje entre EUA e R√ļssia teve declaradamente um fim mais nobre: evitar que as mudan√ßas clim√°ticas descontroladas acabem com a civiliza√ß√£o como a conhecemos. Os Estados Unidos, seguidos pela Federa√ß√£o Russa, registraram junto √† Conven√ß√£o do Clima da ONU suas propostas de Contribui√ß√£o Nacionalmente Determinada, ou INDC. Trata-se de uma carta de inten√ß√Ķes que todos os pa√≠ses-membros das Na√ß√Ķes Unidas foram convidados a enviar contando qual ser√° sua contribui√ß√£o para evitar o aquecimento global perigoso no per√≠odo 2020-2030, quando dever√° vigorar o acordo do clima a ser assinado em Paris no fim deste ano. As duas metas s√£o fruto de uma fant√°stica arquitetura pol√≠tica. E as duas s√£o receitas seguras para disparar antes do fim deste s√©culo uma esp√©cie de Arma do Ju√≠zo Final – a bomba de CO2.

A meta americana consiste em reduzir as emiss√Ķes do pa√≠s entre 26% e 28% at√© 2025 em rela√ß√£o aos n√≠veis de 2005. O pa√≠s √© o principal respons√°vel pelo aquecimento global observado hoje e a principal economia do mundo; sua redu√ß√£o em 2025 teria de ser de 132% abaixo dos n√≠veis de 1990 para ser justa com o mundo, segundo a Calculadora de Refer√™ncia de Equidade Clim√°tica. Ainda mais considerando que o pa√≠s aumentou suas emiss√Ķes entre 1990 e 2005 de 6,2 bilh√Ķes para 7,3 bilh√Ķes de toneladas de CO2 por ano, usar a segunda data como refer√™ncia para a meta √© quase um crime de guerra. Em 2025, se tudo correr como previsto na meta, os EUA estar√£o emitindo mais de 5 bilh√Ķes de toneladas por ano, ou 3,3 vezes o que o Brasil emite hoje.

Isso n√£o significa que os americanos estejam agindo de m√°-f√© com sua INDC. Ao contr√°rio: o presidente Barack Obama precisou rebolar para aprov√°-la, j√° que os falc√Ķes do Congresso americano, como o Estado-Maior do filme de Kubrick, acham at√© hoje que a Arma do Ju√≠zo Final de CO2 √© uma “fraude” montada pelos “comunistas” para “eliminar os empregos na Am√©rica”. Em seu primeiro mandato, Obama tentou (sem tentar de verdade) e n√£o conseguiu aprovar uma lei ampla de clima. Desta vez, resolveu passar por cima dos republicanos c√©ticos do clima e assumiu compromissos de redu√ß√£o que podem ser implementados apenas com regula√ß√Ķes do Executivo, sem necessidade de apoio do Congresso. Daria para fazer um tanto mais, mas n√£o muito mais do que isso. Infelizmente, os EUA s√£o uma “democracia”, e democracia tem dessas coisas: 40 senadores podem decidir ferrar com 7 bilh√Ķes de pessoas. Viva a democracia.

J√° a R√ļssia, que s√≥ algu√©m b√™bado de vodca poderia chamar de democracia, apresentou uma INDC de um cinismo extraordin√°rio, mas possivelmente mais esperta que a dos americanos. Os russos se prop√Ķem a cortar de 25% a 30% de suas emiss√Ķes de CO2 em rela√ß√£o a 1990, mas afirmam que isso est√° “sujeito √† m√°xima capacidade de absor√ß√£o poss√≠vel das florestas”. Em portugu√™s claro: n√£o vamos cortar um litro de √≥leo sequer, s√≥ deixaremos que nossas imensas florestas boreais cres√ßam e sequestrem carbono.

Assim como os EUA, os russos praticam uma tremenda filhadaputice manipulam as datas-base de acordo com o que lhes interessa. Em 1990, o pa√≠s emitia quase 3,5 bilh√Ķes de toneladas de CO2. Em 2000, as emiss√Ķes haviam despencado mais de 50%, para cerca de 2 bilh√Ķes de toneladas. O que aconteceu? Bem, a Guerra Fria acabou e a URSS quebrou. Com a depress√£o econ√īmica veio a queda nas emiss√Ķes de carbono. Portanto, ao dizer que v√£o chegar em 2030 emitindo 30% a menos do que em 1990, os russos est√£o realmente querendo dizer que v√£o aumentar suas emiss√Ķes para quase 3 bilh√Ķes de toneladas/ano, quando deveriam reduzi-las a 500 milh√Ķes se quisessem mesmo evitar um aquecimento global maior do que 2 graus Celsius neste s√©culo.

A l√≥gica pol√≠tica desta submiss√£o p√≠fia neste momento pode estar na Ucr√Ęnia: o vil√£o de filme de James Bond que comanda a M√£e R√ļssia anda precisando pagar de bom mo√ßo para aliviar a imagem desgastada com o massacre que promove na Ucr√Ęnia e com o “misterioso” assassinato de seu principal advers√°rio pol√≠tico. Al√©m disso, com o petr√≥leo a US$ 50, a R√ļssia pode estar querendo fazer um “hedge” e negociar alguma facilidade para si no futuro. Da√≠ o sentido daquele que para mim √© o principal trecho da INDC russa: “No entanto, a decis√£o final da Federa√ß√£o Russa sobre a INDC (…) ser√° tomada de acordo com o resultado do processo de negocia√ß√£o em curso no ano de 2015 (…)” Como bons pol√≠ticos, e ao contr√°rio dos americanos, os russos deixaram uma porta aberta para barganhar. Dificilmente, por√©m, larga o suficiente para evitar que a bomba de CO2 caia sobre as nossas cabe√ßas neste s√©culo.

No filme de Kubrick, o impasse é resolvido pelo Dr. Strangelove (também vivido por Peter Sellers), um cientista nazista emigrado que aconselha o presidente Merkin Muffley a encarar o apocalipse iminente à la Marta Suplicy: relaxe e goze. A gente constrói uns abrigos, enche de mulher e uísque e fica de boa.

Talvez seja mesmo a √ļnica coisa a fazer diante do atual teatro de opera√ß√Ķes da pol√≠tica internacional de clima.

O impacto ambiental da lista de Janot

Hidrelétrica de Belo Monte (PA): agora a gente já sabe por que o  ministro tinha tanta pressa

Hidrelétrica de Belo Monte (PA): agora a gente já sabe por que o ministro tinha tanta pressa

NO PRIMEIRO SEMESTRE DE 2011, quando o ministro Edison Lob√£o (Minas e Energia) prometeu para junho a licen√ßa de instala√ß√£o da hidrel√©trica de Belo Monte, v√°rias sobrancelhas se levantaram. O Ibama acabara de soltar um relat√≥rio dizendo que a maioria 40 condicionantes da licen√ßa pr√©via da usina n√£o estavam nem no meio do caminho de ser cumpridas. Pelo rito normal, n√£o haveria hip√≥tese de Lob√£o prometer a licen√ßa, muito menos de marcar uma data. Como sabemos, por√©m, o licenciamento aconteceu, no prazo previsto. As condicionantes, que j√° se arrastavam desde a licen√ßa pr√©via, obviamente n√£o foram cumpridas, mas Belo Monte aconteceu de qualquer forma. Na √ļltima sexta-feira, o Brasil come√ßou a vislumbrar por qu√™: Lob√£o aparentemente tinha bons motivos para botar press√£o na obra. Dez milh√Ķes de bons motivos, para ser preciso.

A den√ļncia dos delatores da Lava Jato de que o ent√£o ministro do PMDB, partido que controla o setor el√©trico no pa√≠s, havia levado R$ 10 milh√Ķes em propina na obra de Belo Monte, de um total de R$ 100 milh√Ķes pagos apenas pela Camargo, tornou expl√≠cito algo que at√© os cascudos dos pedrais do rio Xingu sempre souberam, mas que at√© agora ningu√©m nunca teve como provar: grandes obras desse tipo, que violam a legisla√ß√£o, o meio ambiente, a ordem econ√īmica, os direitos humanos e o bom senso, s√£o montadas para gerar caixa antes de gerar energia.

Ressalte-se que Lob√£o est√° sendo apenas investigado neste momento: dela√ß√Ķes premiadas s√£o, afinal, obras de criminosos confessos, e contradi√ß√Ķes entre depoimentos de delatores t√™m emergido na Lava Jato. Mas, mesmo que se revelem uma fantasia, as declara√ß√Ķes de Dalton Avancini, executivo da Camargo Corr√™a e suposto pagador da propina, s√£o t√£o veross√≠meis que colocam holofotes sobre licenciamentos feitos a patrola e toque de caixa para projetos de baixa viabilidade econ√īmica e alto custo socioambiental, cuja pressa n√£o encontre justificativa na realidade.

A pris√£o dos empreiteiros envolvidos no propinoduto da Petrobras, claro, deixou todas as obras de infraestrutura no Brasil sob suspeita, ao mostrar o que move licita√ß√Ķes, concess√Ķes e licen√ßas. A lista de agentes p√ļblicos entregue ao STF pelo procurador-geral da Rep√ļblica, Rodrigo Janot, apenas amarra as pontas. E pode fazer um favor imenso ao meio ambiente no Brasil.

A empreiteira Camargo Corr√™a, cujo presidente encontra-se em cana, √© tamb√©m uma das favoritas para construir a nova megapol√™mica hidrel√©trica do Brasil: S√£o Luiz do Tapaj√≥s, em Itaituba (PA), que j√° teve seu calend√°rio de licita√ß√£o definido antes mesmo dos estudos de impacto ambiental. A Camargo fez, com grana da Finep, o invent√°rio do potencial da bacia do Tapaj√≥s, e √© natural que entre na “disputa” para a obra. “Disputa” entre aspas, porque agora sabemos tamb√©m, gra√ßas ao juiz S√©rgio Moro, que n√£o impera exatamente um modelo de livre concorr√™ncia entre empreiteiras. Com o Belo Monte de merda que a construtora jogou no ventilador, S√£o Luiz e as outras seis ou sete usinas rio acima no Tapaj√≥s e no Jamanxim podem ganhar um bem-vindo freio de arruma√ß√£o. E √© bom que seja assim, porque o governo pretende empatar algo em torno de R$ 30 bilh√Ķes no projeto, que ainda corre o risco de ficar sem √°gua para gerar energia durante seu tempo de opera√ß√£o.

As den√ļncias sobre o canal de deriva√ß√£o de recursos p√ļblicos constru√≠do em Belo Monte somam-se a afli√ß√Ķes outras do PAC, o Programa de Acelera√ß√£o do Corrent√£o. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, j√° mandou avisar que acabou a mandracaria fiscal do programa, pela qual despesas com a rubrica PAC eram deixadas imunes a contingenciamento. A opera√ß√£o de multiplica√ß√£o de recursos do Tesouro repassados ao BNDES e oferecidos √†s empreiteiras a juros de pai para filho, que todo mundo sabia que era insustent√°vel, pode ter encontrado em Levy seu limite. Dado o contexto de barata-voa em Bras√≠lia, o ministro poder√° aproveitar (e estou especulando aqui) para tesourar parte do avan√ßo sobre a Amaz√īnia, projetado em R$ 212 bilh√Ķes em obras p√ļblicas e privadas.

O outro lado dessa hist√≥ria √© que a chance de o governo Dilma se engajar de forma robusta no esfor√ßo pol√≠tico de mitigar a mudan√ßa clim√°tica, na prepara√ß√£o para a confer√™ncia de Paris, cai a n√≠veis muito pr√≥ximos (mas mesmo assim diferentes) de zero. Recess√£o, infla√ß√£o, aperto fiscal e d√©b√Ęcle pol√≠tica interna s√£o a receita ideal para a ina√ß√£o no clima, mesmo que agir signifique uma oportunidade de retomar o crescimento gerando empregos.

A esperança é que Dilma perceba que seu governo precisa desesperadamente de boas notícias e que um choque de economia verde pode provê-las. Mas, como diz o ditado, de onde menos se espera é que não sai nada, mesmo.

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