Não ria agora, mas “a relatividade é uma ideologia”

Sintam o drama. Um professor de Política de uma universidade britânica publica um artigo no periódico “Social Epistemology” em que afirma ser a Relatividade, não uma teoria científica, mas uma ideologia.

A única reação digna seria proferir ofensas contra tal criatura que não seriam apropriadas para o espaço do blog, mas não culpo os leitores que o tenham feito ao ler o primeiro parágrafo.

De fato, a tolice é tamanha que tal artigo me passou despercebido até que ele recebeu uma matéria no “Inovação Tecnológica”.  O Inovação é famoso por ser um berço de bizarrices e má interpretação de artigos científicos – mau Jornalismo Científico, puro e simples – mas não costuma escrever sobre esse tipo de artigo obscuro. Alguém ainda mais insano teria levantado a bola. De fato, o rastro de bosta que segui aponta até o agregador de notícias de ciência europeu AlphaGalileo que publicou, em 12 de maio, um artigo reproduzindo matéria do site da universidade.

E qual o problema com o artigo? Além do fato de ter sido reproduzido copiosamente por aí  em sites de notícias, supostamente, de ciências sem uma palavra de confronto sequer? Todos! A começar pela foto do sujeito:

Se você quer ser levado à sério não seja fotografado riscando E=mc². Sério.

Vou citar trechos da matéria da Ciência Hoje portuguesa (que não tem nenhuma relação com a homônima brasileira), que é praticamente tradução direta do release da universidade. Peter Hayes diz que,

“A teoria da relatividade aborda inconsistências elementares, mas
quando em 1919 foi popularmente divulgada, o mundo passou por uma
guerra terrível e uma gripe pandémica e as ideias de Einstein surgiram
como o tónico que a sociedade precisava. Com a confusão estabelecida,
as pessoas deixaram de questionar as falhas que transpareciam”

Sério isso? A Relatividade foi aceita por causa da Gripe? Calma, tem mais. Hayes deve se achar O desbravador das ciências por dizer que a Relatividade é inconsistente por causa do Paradoxo dos Gêmeos, que ele chama de Paradoxo do Relógio:

“O Paradoxo do relógio ilustra de forma evidente as inconsistências da teoria que a tornam cientificamente problemática, mas ideologicamente poderosa”

Isso não é mais Paradoxo há muito tempo! Ao que parece, o autor leu um artigo de divulgação pela metade e saiu se achando máximo por ter percebido o furo na Teoria da Relatividade! E ainda parece ter gasto todo o artigo só com esse argumento pífio já que é o único citado nas matérias. 

Sabe o que é mais irônico? O cara muito provavelmente deve ter um aparelho de GPS, que seria inútil sem as correções relativísticas. Deve ter feito uma Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET), antipartículas essas que foram previstas na formulação relativística de Dirac da Equação de Schrödinger. E por aí vai.

Aí você me abre um artigo que se diz tratar de uma crítica à relatividade, e ao invés de encontrar algo, por exemplo, sobre violação de Lorentz, me encontra uma crítica baseada no Paradoxo dos Gêmeos. AHVAPAPUTAQUEPARIU. E essa joça ainda recebe atenção da mídia. Mereço isso?

Depois ficam de mimimi quando se fala mal das Ciências Sociais. Taí um representante típico delas. Se esse é o tipo de artigo aceito pela Social Epistemology, deve ter coisa lá muito mais engraçada que o do “Affair Sokal”. E com um bônus: assombrosamente sinceros.

Discussão - 17 comentários

  1. Será que a gripe suína também vai ajudar a encobrir falhas em alguma grande teoria que estar por vir??
    É bom espirrar direito antes de ler um artigo inovador…

  2. Karl disse:

    Pô, ressonância tem tudo isso? Caracs!

  3. Tiago Almeida disse:

    Se o tal do Hayes tá tão errado assim, basta argumentos para contrapô-lo, não precisa ser tão desrespeitoso e intolerante – ou por acaso ele violou algum dos dogmas de sua igreja científica?

  4. só se salvam história e geografia

  5. João Carlos disse:

    O que demonstra (como já tinha notado o John Baez) que “grau universitário não é prova de sanidade mental”…
    Por essas e outras que eu me recuso a aceitar como “ciência” algo que não possa ser expresso com base matemática. “Arte”, quando muito…

  6. luciane disse:

    Gostei do cara!!! Corajoso e com a auto-estima muito alta!!! Deveria escrever livros de auto ajuda.
    E, em relação às nossas ciências sociais, é complicado. Pode ter certeza que há muitos os que apóiam a idéia do cara. Entender os métodos científicos é trabalhoso demais e a crítica fica por conta da “alma do negócio”. Mas isso não é regra. Há muitos coerentes sim, em especial aqueles q n palpitam em áreas que não têm domínio.

  7. haroldo disse:

    Então este artigo que você critica está com a sua cara, pois veja o que está no seu perfil:
    “Renan gosta de Física e de escrever, apesar de não ser lá muito bom em nenhuma das duas…”
    Mas também não acho que aquele artigo está imparcial ou mesmo embasado, lembre-se que o texto de “Inovação Tecnológica” escreveu que o artigo do “cientista” está com cara de “teoria da conspiração” pois não menciona quem são os “eles” (os conspiradores a favor da teoria de E=MC2)…
    Para concluir: no ano em que Charles Darwin PUBLICOU seu livro, revolucionário, o presidente da associação inglesa para o progresso da ciência disse que aquele ano tinha sido um ano pobre em novidades…

  8. Igor Santos disse:

    Renan, por que só tem troll no seu blog? Que macumba você fez? Eu também quero, sinto falta de gente “tá com nada e tá prosa”…

  9. Climber disse:

    Esse paradoxo do relógio me lembrou outro relógio…Aquele q os testemunhas de Jeová exemplificam com um encontrado no meio do deserto. O relógio se montou no deserto ou alguem deixou ele lá? afff
    Mas poderia ter colocado mais o q esse maluco aí falou e rebatê-lo, e não simplesmente ficar xingando. Não ficou “erudito” hehehe

  10. carlos disse:

    1919? Peraí… A Relatividade restrita (e E=mc2) é de 1905.

  11. olh disse:

    Nem liga pros comentários toscos aí. Blog é o cantinho pra botar pra foder mesmo. Brincadeira (parcialmente).
    Tapado tem em todo lugar, mas generalizar *essa questão* com ciências sociais é meio duro. Mas o dífícil é fazer alguém, que não é muito chegado nas idéias por trás da matemática, ter consciência do real significado de um modelo.
    Generalizando mesmo, o pessoal das sociais costuma viajar muito mais, e muito mais longe, do que a turminha das outras áreas. Isso é experiência própria.

  12. Ana Arantes disse:

    Como representante – atípica, obrigada – das CIÊNCIAS Sociais, faço minhas as suas palavras: “AHVAPAPUTAQUEPARIU” (Renan, 2009).
    E a gente se esfaaaaaalfa pra publicar… e essas figuras são “repercutidas” em tudo que é lugar…
    AHVAPAPUTAQUEOPARIU!!! (Esse é meu mesmo.)
    Abçs,
    Aninha.

  13. sombriks disse:

    Relaxe. tome um copo d’água e arrume uma poltrona confortável;
    De vez em quando alguém que acha que sabe alguma coisa tira uma foto estilosa e impressiona um ou outro repórter menos ajuízado, só isso, 😉

  14. Pierre disse:

    Se ele está afirmando que está errada, ele deve ser capaz de demonstrar o erro, certo?
    Devemos cobrar isso dele, e não apenas condenar sua opinião de leigo tendencioso.

  15. Leônidas Bially disse:

    Este merece concorrer ao prêmio “Dragão Invisível”.

  16. Rafael René disse:

    A par de todo o preconceito que há dos cientistas das áreas de exatas (me perdoe a simplificação) com relação a diversas ciências sociais, coisas bizarras como essa publicação desse Fanfarrão Peter Hayes expõe uma faceta frágil da sociologia, antropologia, entre outros… Tal fragilidade reside justamente em querer analisar o contexto e reforçá-los por fatos como uma gripe sem querer entrar no “x” da questão e esgotar de fato A teoria da relatividade (e todas as suas hipóteses, postulados, etc. etc.) para aí então poder abrir a boca pra falar qualquer coisa. Por outro lado, por ter me formado na área de engenharia e “herdar de berço” um desprezo natural por essas ciências, eis que, com o passar do tempo, “acidentalmente” me aproximo delas e começo a perceber a complexidade das mesmas ao descrever fenômenos que considerem dimensões sociológicas, econômicas, históricas, psíquicas… e a importância desses estudos (muito mais invisíveis do que os da área, digamos, tecnológica) para a sociedade. Revelou-se então pra mim o confronto da racionalidade positivista (que justamente se opôs a Einstein quando começava a revelar suas descobertas) com essas ciências ditas sociais.
    ENFIM, há um preconceito muito grande com as ciências sociais por parte de físicos, engenheiros, mas por ignorância dos mesmos. Epistemologia social é foda (e física, engenharia são fodas também)!!!
    Peter Hayes é NOTA ZERO (e queima o filme das ciências ditas sociais). Tudo que tenho a fazer é lamentar…

  17. Aio disse:

    Paradoxo dos Gêmeos:
    Dê a cada gêmeo um exemplar de um mesmo livro. Qual dos gêmeos terá lido mais páginas ao final do experimento?
    Isso põe fim ao “paradoxo” … O tempo não depende do indíviduo …

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