Arquivo di√°rios:20 de setembro de 2018

Política e Ciência: Newton morde a maçã

N√£o se pode pensar Ci√™ncia sem Pol√≠tica. Ci√™ncia pressup√Ķe pesquisa, busca, inven√ß√£o. Politica significa antes de mais nada fazer escolhas. No mundo em que vivemos, uma convive com a outra, se interconecta com a outra. No Brasil tamb√©m sempre foi assim, com as suas peculiaridades. Existem muitos problemas a serem resolvidos e enfrentados usando ci√™ncia e usando pol√≠tica. Isso √© fazer pol√≠tica. E isso tamb√©m √© fazer ci√™ncia.

CIÊNCIA, NEWTON E A MAÇÃ

Uma ma√ß√£ caindo no ch√£o √© somente uma ma√ß√£. Para que essa ma√ß√£ vire ci√™ncia, √© preciso Newton observando a ma√ß√£ cair. Para que Newton observe a ma√ß√£ cair e isso vire ci√™ncia, Newton precisa subir no ombro de gigantes: isso pressup√Ķe escolas, professores, despesas com educa√ß√£o. E isso √© pol√≠tica: escolhas que devemos ter sobre quais escolas, quais professores e qual financiamento devermos controlar para que possamos ter Newton vendo a ma√ß√£ cair e isso vire ci√™ncia.

Newton e a ma√ß√£: uma alegoria (e uma lenda) da Ci√™ncia…

Voc√™ n√£o precisa de ci√™ncia para viver. Isso √© uma escolha. Pol√≠tica. Podemos viver naturalmente, tendo o que a natureza nos d√°. Algu√©m se habilita? N√≥s tamb√©m n√£o precisamos fazer Ci√™ncia. Se tivermos recursos, comprar ci√™ncia, comprar tecnologia. Como fizemos no passado, podemos vender borracha e comprar pneus. Vender ferro e comprar navios. √Č uma escolha pol√≠tica sem muitos riscos. Claro que continuaremos pobres. Alguns, que possuem o seringal e a mina de ferro, viver√£o confortavelmente. Aos demais, restar√° o trabalho duro e uma subsist√™ncia dif√≠cil. Mas, como sempre, √© uma escolha pol√≠tica da ci√™ncia que queremos ter em nossas vidas.

QUE CIÊNCIA QUEREMOS?

Mas, e se n√≥s quisermos ter Ci√™ncia? Ci√™ncia de verdade? Que tal n√£o viver com a lenda de Newton e a ma√ß√£, a qual, como j√° mostraram seus bi√≥grafos, n√£o passa de uma lenda? O que precisamos para ter nosso pr√≥prio desenvolvimento cientifico? O que precisamos para vencer nossos problemas de educa√ß√£o, sa√ļde, produ√ß√£o industrial, produ√ß√£o intelectual?

N√£o existe milagre na ci√™ncia. Ci√™ncia requer trabalho. Leitura, estudo, experiencia. Como recentemente disse uma colega, horas-bunda na cadeira. E isso requer que tenhamos pessoas que fa√ßam isso como profiss√£o. Pessoas que possam cada vez mais viver disso. E que tenham condi√ß√Ķes de fazer suas pesquisas, discutir livremente os seus resultados e suas ideias com outros cientistas, com os pol√≠ticos, com a sociedade.

QUE CAMINHOS TRILHAR?

Todos os pa√≠ses que tem um n√≠vel razo√°vel de vida para seu povo fizeram e fazem isso. A Inglaterra, desde o s√©culo XVIII tem uma cultura de manuten√ß√£o e financiamento de pesquisas. A Alemanha, desde que era Pr√ļssia, reformulou a sua universidade a partir de 1811 e num s√©culo deixou de ser um pa√≠s atrasado que era para se tornar uma potencia mundial.

No século XX tivemos a Coreia, um país pobre e arrasado por guerras. Em 1960, os índices de vida e renda da Coreia eram inferiores aos do Brasil. No entanto, o país investiu firmemente em educação e hoje é uma das principais potencias industriais do planeta.

Tudo isso são escolhas. Tudo isso é política. A forma como escolhemos nossa Ciência, por outro lado, impacta nossa maneira de ser e estar no mundo.

O BRASIL CONSTR√ďI SUA CI√äNCIA

Nos √ļltimos 100 anos, o Brasil tamb√©m investiu em ci√™ncia. Neste tempo, erradicamos diversas doen√ßas de nossas cidades. Ainda falta muito, mas a medicina brasileira progrediu. Hoje, conquistamos, com ajuda da ci√™ncia, solos que at√© ent√£o n√£o eram f√©rteis, e os fizemos produzir. Se hoje h√° agroneg√≥cio no Brasil, √© porque houve pesquisa agropecu√°ria, √© porque houve a Embrapa.

No in√≠cio do s√©culo XX, √©ramos um pa√≠s que n√£o conseguia se desenvolver porque n√£o t√≠nhamos fontes de energia suficientes e boas. Hoje, gra√ßas ao esfor√ßo de varias gera√ß√Ķes de ge√≥logos, temos uma reserva de petr√≥leo das maiores do Mundo, a qual s√≥ √© poss√≠vel explorar com alt√≠ssima tecnologia.

T√° OK. Mas e a parte vazia deste copo?

Ainda precisamos avan√ßar. Como ter uma ind√ļstria competitiva e inovadora? Como ter uma Ci√™ncia de alto impacto? Como resolver os grandes problemas de nossa sociedade, como sa√ļde, seguran√ßa, trabalho? Como resolver isso?

POL√ćTICA E CI√äNCIA. CI√äNCIA E POLITICA

Precisamos de uma politica que invista mais, e n√£o menos, em ci√™ncia. Se queremos realmente um futuro, devemos plantar as sementes hoje. Investimos pouco, e mal. Nossa despesa com ci√™ncia em 2015 (um ano ainda ‚Äúrico‚ÄĚ) foi de U$199 d√≥lares por habitante. Empatamos com a Turquia. Perdemos feio para os pa√≠ses do Leste Asi√°tico, Europa, Am√©rica do Norte.

E isso apesar de termos uma das maiores comunidades cientifica da Am√©rica Latina. Uma comunidade briosa, que vem aumentando sua participa√ß√£o no quinh√£o da ci√™ncia nos √ļltimos 15 anos. Mas que, como uma flor sens√≠vel, ainda corre s√©rios riscos.

A participa√ß√£o publica vem diminuindo sua participa√ß√£o no financiamento da ci√™ncia desde 2015. E a pol√≠tica, que poderia trazer solu√ß√Ķes, s√≥ nos tem trazido pesadelos. Claramente, ci√™ncia e a tecnologia n√£o s√£o prioridade de governo. As amea√ßas v√™m de todos os lados.

PARA ONDE VAMOS?

H√° os que sonhem com uma ci√™ncia sem estado. Houve o assessor de um candidato que chegou a dizer que ‚Äúas pessoas subestimam o poder da filantropia‚ÄĚ. Com isso, o douto senhor est√° nos dizendo que a contribui√ß√£o privada para a ci√™ncia era uma fonte que n√≥s n√£o exploramos direito. Por outro lado, o financiamento privado √© hoje irrelevante no financiamento da ci√™ncia.

Entre os candidatos a presidente, qual deles menciona em seu programa a palavra ciência? E dos que o fazem, quais deles confundem ciência com ensino? Embora sejam parceiras, ciência e educação são coisas distintas, com pautas necessidades distintas. Não se faz ciência tirando dinheiro do ensino.

A política vai ditar a ciência que queremos. Será que vamos escolher seguir um caminho de mais financiamento e uma busca maior de eficácia na resolução de nossos problemas? Ou será que vamos achar que não precisamos fazer ciência?

São Heisenberg, rogai por nós!