O Brasil no iGEM América Latina 2013

E lá fomos nós de novo viajar em nome do futuro da Biotecnologia do Brasil. Não só a gente, Manaus e Minas estavam lá junto , e nós junto com eles, é claro. Para começar a contar como tudo rolou, vamos começar falando da gente, os brazucas:

Os Brazucas

Os Brazucas todos juntos.

Minas, Manaus e São Paulo em um só lugar.

Foi muito legal ver times do iGEM surgindo pelo Brasil. Bonito em dois sentidos: em rela√ß√£o √† UFMG que surgiu com um time quase que espont√Ęneamente, e em rela√ß√£o √† UFAM e cia, onde mant√≠nhamos contatos a tempos com o professor Carlos Gustavo, com quem pudemos ajudar e inspirar de alguma forma a criar uma iniciativa firme e forte l√° na regi√£o ainda bem florestada do pa√≠s.

O Pedr√£o e o Grande Carlos.

O Pedr√£o e o Grande Carlos.

Eu gostaria de escrever uma b√≠blia aqui sobre os projetos de cada um dos Brazucas, mas para o bem do leitor eu vou dar uma “resumida” (a minha “resumida”):

Manaus

Como j√° disse antes, n√≥s j√° √©ramos amigos deles bem antes de n√≥s todos os conhecermos pessoalmente. Al√©m de uma conversa antiga com o Instructor deles, o Marcelo Boreto desfrutou das del√≠cias de ser um f√≠sico manjador de modelagem de sistemas biol√≥gicos e ganhou uma viagem l√° para Manaus para dar um workshop de modelagem para o iGEM, comer doces de cupua√ßu e fazer amizade √† moda antiga (na “RL”) com pessoas e outras criaturas, como a Costinha, a pregui√ßa de Lab – as piadas e trocadilhos ficam a cargo do leitor.

Marcelo e Preguiça

O Marcelo num dia que tava com preguiça

A grande ideia do time amazonense foi bem interessante. Eles usaram duas grandes coisas em seu projeto:

  1. o fato de que o chassi Shewanella putrefaciens consegue transportar elétrons (de uma maneira ainda não bem descrita, diga-se de passagem Рia escrever um post sobre isso outro dia) para o meio externo de maneira a gerar eletricidade (esse time alemão do iGEM se deu muito bem com esse tema),
  1. e a ideia de que a fonte desses elétrons poderia vir da degradação de lipídeos, mais especificamente de óleo de cozinha usado.

A grande tarefa deles foi tentar reprimir um inidor da via metabólica de degradação de lipídeos que a torna não-constitutiva e superexpressar genes relacionados ao transporte de lipídeos para a célula. Bem esperto. Levaram bronze medal pra casa e de quebra o prêmio de best presentation, dá um orgulho que só desse povo de Manaus! Veja a wiki deles aqui.

UFMG

O time de minas foi o mais “brasileiro”dos brasileiros, na minha opini√£o – e n√£o, n√£o √© porque nosso time da USP tem estrangeiros. Foi o mais brasileiro porque surgiu do nada, na ra√ßa, na gana, sem desistir nunca, e conseguiu o que precisava para ir pra final bem melhor do que n√≥s: que √© ter resultados concretos da caracteriza√ß√£o dos BioBricks. Tamb√©m foi time mais emocionante que foi pra final, o da comemora√ß√£o mais intensa. Sim, eu vi l√°grimas em alguns olhos mineiros ap√≥s a divulga√ß√£o dos finalistas. Fiquei genuinamente feliz por eles, senti o Brasil representado ali, principalmente com aquele jeitinho mineiro “comequieto” de ser.

Lembrando ainda que deve ser dado a C√©sar o que √© de C√©sar: conhecendo o time mais de perto como pude, consegui perceber o papel crucial e integrativo de cada membro da equipe (principalmente com os que conversei: Mariana, Carlos, J√ļlio – esse √ļltimo, grande companheiro dos rol√™s chilenos), mas gostaria de fazer jus principalmente ao comedido Lucas, que pelo o que senti, com toda sua mineirice, foi um dos grandes basti√Ķes que deu “liga” ao grupo (n√£o √© a t√īa que ele √© um dos idealizadores da Liga M√©dia, h√°!) e eu acho que todo mundo deve saber disso – a n√£o ser que ele me censure aqui, hahaha.

Os Mineiros e alguns argentinos (créditos portenhos às fotos).

O projeto deles foi interessant√≠ssimo. No iGEM o tipo de projeto que d√° para ser feito no tempo curto da competi√ß√£o sem deixar de atingir bons resultados pr√°ticos √©, sem d√ļvida, envolvendo biodetectores. Com uma excelente escolha de projeto integrando o know-how dos labs dos professores envolvidos e dos alunos (al√©m de ser completamente vi√°vel, diga-se de passagem), a proposta de biodetec√ß√£o foi criar um m√©todo completamente novo de diagn√≥stico de s√≠ndrome coron√°ria aguda (SCA) – que, em outras palavras avacalhadoras, √© praticamente um “pr√©-infarto”. Eles miraram em tr√™s biomarcadores dessa s√≠ndrome: uma albumina¬†modificada que aparece no sangue durante a SCA, um pept√≠deo¬†que em altas concentra√ß√Ķes indica fal√™ncia card√≠aca e um metab√≥lito que recentemente foi comprovado como indicador para ACS. Dentre os tr√™s, o m√©todo de detec√ß√£o mais esperto foi o albumina modificada, em que eles usaram o fato de ela ter uma taxa de liga√ß√£o menor a metais do que a albumina saud√°vel; o metal que “sobra” (que no caso era cobalto) ativa um promotor indicando a presen√ßa do biomarcador. Legal n√©? Vale a pena dar uma olhada na wiki bonitinha deles.

USP

Bem, e a gente? Nós tentamos fazer um biodetector do Metanol seguindo a ideia de uns posts (esse, e esse) que fizemos aqui no blog lá no começo de 2013. Esse ano fizemos um projeto bem mais completo e focado que o ano passado. Produzimos muito mais em diversos pontos que me 2012 tínhamos deixado de lado: biossegurança, a wiki, design, Human Practices e prototipagem. Dê uma olhada na wiki que fizemos, aqui.

√Č n√≥is! Ou melhor, √© metan√≥is!

√Č n√≥is! Ou melhor, √© metan√≥is!

Tivemos muito mais financiamento e apoio por causa dos trabalhos de 2012 e conseguimos nos unir em um coletivo que deu certo (unindo ainda mais gente de mais lugares diferentes da USP). √Č claro que com tudo isso havia a press√£o para que ganh√°ssemos a medalha de ouro para ir pra Boston, e ela foi grande! Muita gente ficou desapontada com a nossa medalha de prata, mas n√£o se deve negar que eles foram incr√≠veis: para caracterizarmos os BioBricks (que fatalmente √© o que d√° a desejada medalha), recebemos a s√≠ntese no come√ßo de agosto para entregar os resultados no final de setembro, e detalhe: ningu√©m do grupo tinha expri√™ncia com Pichia e n√£o t√≠nhamos padronizado a metodologia de utiliza√ß√£o do equipamento medidor de fluoresc√™ncia. Mesmo assim conseguimos levar √† competi√ß√£o pelo menos um resultado de fluoresc√™ncia de uma das linhagens que quer√≠amos testar para a caracateriza√ß√£o das partes, foi uma maratona insana de 2 meses (e inclua a escrita da wiki e a prepara√ß√£o da apresenta√ß√£o e poster nisso).

A cl√°ssica Jamboree picture - um pouco menos verticalizada que o de costume.

A cl√°ssica Jamboree picture – um pouco menos verticalizada que o de costume.

O que ficou engasgado mesmo √© que no evento dever√≠amos ter levado o best model. A argumenta√ß√£o usada pelo Ju√≠z, de que “um bom modelo deve usar dados experimentais”, apesar de ser verdadeira n√£o deveria valer para a premia√ß√£o espec√≠fica da modelagem. Afinal o que sendo est√° avaliado? O Modelo trabalhando nas hip√≥teses fixadas ou os resultados? Dessa maneira, um grupo de modelagem poderia elaborar o modelo mais inteligente e inovador da competi√ß√£o e mesmo assim n√£o ser premiado se seus dados experimentais forem insuficientes.

Conversando com os Ju√≠zes ap√≥s a competi√ß√£o, nos contaram que ficamos em segundo lugar para os “Best Prizes” em bastante coisa (best p√īster, best natural part, best modelling). O que explica isso √© a grande met√°fora da galinhada: preparamos aquele banquete super organizado, lindo e completo, mas faltou matar a galinha – e a galinha √© caracterizar o BioBrick.

Os HighLights Latinos do Jamboree

Aquele momento em que você acha que está dando highlights demais.

Aquele momento em que você acha que está dando highlights demais.

O Jamboree foi excelente. Principalmente porque dessa vez providenciaram mais oxig√™nio no ar colocando o evento em Santiago (e n√£o a algumas dezenas de centenas de metros acima do n√≠vel do mar). Essa cidade √© maravilhosa, √© tudo lindo, bonito e bem organizado. O tr√Ęnsito √© bem diferente de Bogot√°; fiquei com a impress√£o de que √© um tr√Ęnsito que funciona, sabe!? D√° vontade de fugir do Brasil e morar l√°, ainda mais sabendo que h√° um grande incentivo para empreendedores estrangeiros por parte do governo chileno, com inclusive brasileiros j√° espertos disso.

Todos devidamente abastecidos com produtos derivados de "l√£-de-lhama" (ou seria alpaca?).

Todos devidamente abastecidos com produtos derivados de “l√£-de-lhama” (ou seria alpaca?).

Os outros times do iGEM mandaram muito bem, o nível dos resultados atingidos pelas equipes realmente melhorou bastante Рainda há uma estrada levando além do horizonte que distancia os resultados que os times do hemisfério norte  e sul conseguem obter, mas isso fica pra um post futuro. Os grandes highlights latinos que precisamos fazer são:

  • Equipe UC Chile: Escolheram um tema de projeto bastante ambicioso e muito interessante, o de microcompartimentos bacterianos gen√©ricos para realiza√ß√£o de rea√ß√Ķes “localizadas”, assim como um vac√ļolo (em “plantinhas”), peroxissomo e lipossomo – da√≠ o nome do projeto deles “whateverisisome”. Al√©m disso, criaram tamb√©m um jogo (s√≥ que n√£o de cartas) como Human Prcatices. A wiki deles ficou muito linda, veja s√≥.
  • Equipe colombiana Uniandes: A equipe latinoamericana mais experiente no iGEM veio com dois projetos para o Jamboree: um sensor de glucocortic√≥ides que poderia ser um “sensor de stress” e um sistema de absor√ß√£o de n√≠quel que poderia ser usado para biorremedia√ß√£o. O highlight aqui √© a movimenta√ß√£o eficiente das c√©lulas do chassi que eles usaram em dire√ß√£o a um campo magn√©tico relativamente fraco. A wiki deles est√° muito legal tamb√©m, d√™ uma olhada. Sinceramente: eu pensei que eles seriam finalistas.
  • Equipe de Buenos Aires: Apesar de a wiki deles¬†aparentemente n√£o ter sido terminada a tempo, esse foi o projeto mais bem ranqueado no evento. A apresenta√ß√£o deles foi sensacional e envolvente. Conseguiram caracterizar otimamente os promotores sens√≠veis a ars√™nico que usaram para propor um biodetector desse contaminante na √°gua. O highlight aqui foi a colabora√ß√£o do time mexicano da TecMonterrey e o prot√≥tipo que eles proporam para um biodetector comercial.
  • Equipe mexicana de TecMonterrey: O projeto desse time¬†era sobre a biodetec√ß√£o e tratamento de c√Ęncer. Os grandes highlights s√£o a caracteriza√ß√£o conjunta de algumas partes para o time argentino – fazendo com que eles detectassem uma concentra√ß√£o absurda de ars√™nico em um dos rios de Monterey e fossem reconhecidos pelo governo de l√° por isso – e uma Human Practices genial: al√©m de workshops e eventos promovidos pelo grupo (que incluem um TEDx), eles traduziram um manual para auto-examina√ß√£o de c√Ęncer de mama para dois mais falados dialetos ind√≠genas no pa√≠s – Otom√≠ e Zapoteco. Muit√≠ssimo legal!

√Č l√≥gico que houveram outros resultados muito legais que estou me controlando pra n√£o mencionar. Mas highlights s√£o highlights e n√£o d√° pra destacar tudo sen√£o acaba a tinta da minha marca-texto mental.

The Good Fight

Enfim. Após esse ano cheio de altos e baixos como todo bom ano deve ser, estamos satisfeitos. Apesar de não termos correspondido às expectativas pressurizantes de alguns, conseguimos fazer muito bem aquilo que é mais importante: estimular as pessoas a criarem, saírem da ordem natural da academia e quebrar as paredes dos silos que contém (sim, contém, e não contêm!) a interdisciplinariedade efetiva. E também, é claro, estimular esse tipo de iniciativa por aí, papel do synbiobrasil que foi devidamente reconhecido conversando com o juízes. E é extamente isso que estamos fazendo agora: queremos espalhar essa experiência para outros campus da USP e outras universidades, bem como em nos formalizar institucionalmente aqui no campus da capital como uma organização devidamente reconhecida.

E √© isso a√≠. Let’s keep fighting the good fight. ūüôā

No pr√≥ximo post (que ser√° depois de um descanso merecido de final de ano), vamos come√ßar a contar como foi incr√≠vel evento mundial nos EUA com os “enviados especiais” (aka. penetras) que mandamos pra l√°, inflitrados no time mineiro. E esperamos j√° poder fazer isso vestindo o site novo com esses textos!

iGEM 2012 Latin America: Estivemos L√°!

√Č verdade que estivemos l√° mesmo. Pode acreditar!

USP &Unesp iGEM 2012 team

USP &Unesp iGEM 2012 team

Esse ano foi a primeira vez que houve um evento genuinamente da América Latina. A primeira divisão da competição em Jamborees regionais aconteceu no ano passado, durante a segunda participação brasileira pela Unicamp, mas as regionais para os latinos foram realizadas em Indianápoles, nos EUA.

Se voc√™ criar uma conta no Registry of parts, √© poss√≠vel ter acesso ao f√≥rum onde foi discutida onde seria a sede do evento regional na Am√©rica Latina em 2012. O Brasil at√© se ofereceu na √©poca atrav√©s das meninas do time da Unicamp de 2011, mas um time Panamenho e Colombiano j√° chegaram “com tudo”, apresentando propostas para tornar suas universidades sede do evento juntamente com uma an√°lise do transporte e hotelaria da regi√£o.

Bogot√°

Foi meio peculiar a sensa√ß√£o de explicar para as pessoas que encontr√°vamos na viagem que est√°vamos indo para a fase regional da “competi√ß√£o internacional de m√°quinas geneticamente modificadas”. Mas mais peculiar ainda foi a impress√£o de Bogot√°: uma metr√≥pole pouco vertical, com √īnibus engra√ßados, extremamente militarizada e com supermercados com produtos bem americanos (coisas grandes). Ah! E tem mais uma coisa que fomos perceber s√≥ depois de algum tempo: como motoristas colombianos curtem uma buzina!

Em Bogot√° quase todos os √īnibus t√™m uma cara bem maluca.

Em Bogot√° quase todos os √īnibus t√™m uma cara bem maluca.

Acreditem ou n√£o, o sistema de √īnibus de Bogot√° √© inspirado no de Curitiba. A grande diferen√ßa √© que em Curitiba aparentemente o neg√≥cio funciona, em Bogot√° n√£o – fiquei com saudade dos √īnibus e metr√īs de S√£o Paulo (menos da esta√ß√£o pra√ßa da S√©/Luz em hor√°rio de pico).

Fomos o √ļnico time a n√£o ficar no hotel recomendado pelos organizadores. Esse hotel cuidaria do nosso transporte at√© √† Universidade dos Andes, onde o evento aconteceu. Portanto, para eviar √°gio dos taxistas por causa da nossa cara de turista, usamos o sistema de √īnibus inspirado no an√°logo curitibano, o Transmil√™nio. S√≥ conseguimos sobreviver por l√° gra√ßas a nossa l√≠der de log√≠stica e tradutora Macarena – a chilena mais brasileira do iGEM.

Inscrição

O evento foi sediado na Univerdidade dos Andes, uma universidade particular com uma infra-estrutura sensacional (em alguns quesitos ganhava de “lavada” na USP), sendo uma das maiores universidades Colombianas.

U de Andes - terraço ecológico

Terraço ecológico da Universidade dos Andes. A infra-estrutura de lá é sensacional Рsó não é de graça!

Antes do evento em si, t√≠nhamos que fazer o check in da inscri√ß√£o para ganhar os cacarecos tradicionais de congressos. Foi o nosso primeiro contato com os outros times e tamb√©m quando caiu a ficha de muita gente: “caramba, √© o iGEM!”.

O pessoal do nosso time fez me sentir meio POP por me dizerem que haviam duas pessoas me procurando l√° j√° de cara. Minha rea√ß√£o mental habitual j√° engatilhou um “N√£o fui eu!”, mas descobri que se tratava da querida Meagan Lizarazzo (organiza√ß√£o do MIT) falando sobre minha inscri√ß√£o que ainda n√£o havia sido paga e do professor de Eng. Gen√©tica da Federal de Manaus, prof. Carlos Nunes, com quem trocava emails h√° tempos sobre Biologia Sint√©tica. O prof. Carlos Nunes acabou sendo o nosso “orientador posti√ßo” l√°. Ele deu um √≥timo apoio psicol√≥gico e acad√™mico durante todo o evento. Conversamos sobre projetos, ideias e principalmente sobre o futuro time da federal de Manaus no iGEM de 2013! √Č realmente uma honra enorme poder ter feito parte do est√≠mulo para o nascimento dessa nova iniciativa brasileira na competi√ß√£o. ūüôā

Times Participantes

A regional latina √© a menor das regionais. Nesse ano, apenas 13 times da regi√£o centro-sul (incuindo o m√©xico) da Am√©rica se inscreveram na competi√ß√£o. Em compara√ß√£o com o resto do mundo, houveram 60 times norte-americanos, 51 times asi√°ticos e 49 times europeus. A maioria dos times latinos era mexicano: 6 times; seguindo o retrospecto de tradi√ß√£o desse pa√≠s no iGEM, um dos primeiros da Am√©rica Latina a fazer parte de um dos eventos. Esse ano foi o de estr√©ia de outros dois pa√≠ses na cometi√ß√£o tamb√©m: Chile (que chegou “metendo-o-p√©-na-porta” no iGEM) e Argentina.

Após a inscrição, nos disponibilizaram uma sala e pizzas para treinarmos nossa apresentação. Ainda estávamos treinando  para falar tudo no tempo de 20 minutos de apresentação que taríamos Рnos treinos ainda estávamos estourando uns 5 minutos. Nesse momento o Carlos sacou seu celular e fez um pequeno registro do momento Рquando ainda estávamos decidindo como íamos dividir as tarefas e ensaiar a apresentação.

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Diferenças Culturais

Foi muito interessante observar o quanto n√≥s √©ramos culturalmente “isolados” do resto dos times participantes. V√≠amos uma integra√ß√£o cultural muito grande entre os outros pa√≠ses da Am√©rica Latina. Al√©m do fato de falarem a mesma l√≠ngua, eles compartilhavam gostos musicais parecidos e habilidades que n√≥s brasileiros n√£o temos, como dan√ßar mambo e todos aqueles g√™neros musicais tipicamente estereotipados como “latinos”, isso sem falar no “fen√≥tipo m√©dio” deles: n√≥s t√≠nhamos muita “cara de gringo” comparado com eles. Talvez o √ļnico outro time que compartilhava uma boa diferen√ßa cultural com os amigos andino-caribenhos foi o dos argentinos – com tamb√©m “cara de gringo” que n√£o manja dos mambos.

Conversei bastante com o time panamenho, um da universidade de Monterrey e com o time argentino. Aliás, o time argentino tinha um projeto (veja aqui, na wiki deles) com a mesma aplicabilidade que o nosso de Redes de Memória Associativa. Basicamente o nosso projeto era algo lindo e abrangente na teoria mas ambicioso demais na prática, o deles ela lindo e factível na prática, mas limitado na teoria (e portanto com uma abrangência de aplicabilidade menor).

Os abstracts que recebemos de todos os projetos do evento podem ser baixados aqui.

Apresenta√ß√Ķes que Assistimos

As apresenta√ß√Ķes dos trabalhos foram divididas em duas salas com duas comiss√Ķes julgadoras diferentes, fomos os terceiros a apresentar (veja o cronograma do evento).

UANL Mty-Mexico

A primeira apresenta√ß√£o foi de um dos times mexicanos. Foi a grande “injusti√ßa” do iGEM regional. Eles vieram com um projeto lindo e extremamente completo, mas n√£o puderam medalhar porque um de seus instructors n√£o preencheu corretamente os formul√°rios online – segundo o que os pr√≥prios membros do time mexicano nos disseram, ao encontr√°-los no aeroporto. √Č daqui que vem uma das “coisas que aprendemos” que listei no post anterior. Se eu tivesse feito parte desse time estaria chorando l√°grimas de sangue.

Foto da UANL apresentando sob nossa perspectiva.

Foto da UANL apresentando sob nossa perspectiva.

Apesar da ideia do projeto n√£o ser in√©dita, eles criaram um detector de ars√™nico com um design muito inteligente (para os ir√īnicos de plant√£o: isso n√£o √© um trocadilho), indo al√©m do simples sensor feito em 2006 pelo time de Edinburgo. Eles criram um sistema de segrega√ß√£o do ars√™nico com uma metaloprote√≠na¬†humana (rhMT) bem melhor que o time de Edinburgo de 2006 (que usava o fator de transcri√ß√£o ArsR), pois a rhMT se liga a seis mol√©culas de ars√™nico, enquanto o ArsR se liga apenas a uma. Otimizaram tamb√©m a internaliza√ß√£o de ars√™nico pelas c√©lulas expressando a porina¬†GlpF, que al√©m de facilitar o transporte de glicerol (qualidade por qual √© mais conhecida), tamb√©m importa ars√™nico (e antim√īnio! Mas isso n√£o vem ao caso). E para coroar (o que eu acho que foi o mais interessante),¬† eles criaram um sistema de recovery das bact√©rias com o ars√™nico captado: expressaram a prote√≠na ribossomal L2 nas membranas das E.coli, essa prote√≠na se adere fortemente √† superf√≠cies de s√≠lica; assim, as bact√©rias poderiam ser retiradas do meio por beads de s√≠lica¬†ou qualquer outra coisa de mesmo material! Vale a pena dar uma olhada na wiki deles¬†(que ali√°s, est√° complet√≠ssima e muito bonita) para tamb√©m saber mais dos sistemas de express√£o de prote√≠nas de membrana. E s√≥ para finalizar, eles ainda fizeram uma Human Practices “monstruosa”: criaram workshops de Biologia Sint√©tica e Modelagem de Sistemas Biol√≥gicos, deram confer√™ncias, organizaram palestras, foram a umas 5 High Schools, criaram um evento que uniu outros times do iGEM, chamado “Synthetic Rally“;¬† criaram outro evento chamado “T√ļnel da Biologia Sint√©tica“… Enfim: fizeram tudo e “um pouco mais” que podiam fazer em Human Practices. Deu d√≥ eles n√£o terem levado medalha por causa de uma bobeira – com certeza eles iriam para Boston e se dariam muito bem por l√°.

Panama INDICASAT

O projeto deles tinha uma aplicação importante, mas que também já não era tão novidade assim no iGEM: em 2007 o time Southern Utah fez exatamente a mesma coisa e ainda levou ouro!

Apresentação das simpáticas meninas panamenhas.

Apresentação de uma das simpáticas meninas panamenhas.

O desenvolvimento de um sensor r√°pido, barato e n√£o-t√≥xico de cianeto √© bem interessante para detec√ß√£o desse veneno. Aparentemente eles n√£o conseguiram chegar a resultados que pudessem ir al√©m de acrescentar informa√ß√Ķes √†s partes j√° existentes no Registry of Parts. Eles mostraram todos seus resultados na apresenta√ß√£o, uma vez que a wiki deles¬†n√£o tem informa√ß√£o nenhuma sobre os resultados do projeto. Levaram bronze!

Tec-Monterrey

O Instituto Tecnol√≥gico de Monterrey j√° tem tradi√ß√£o no iGEM. Esse ano veio com dois times, os quais conseguimos assistir ambas as apresenta√ß√Ķes. O primeiro que assistimos – o Tec-Monterrey EKAM – n√£o veio com muitas coisas novas, al√©m de ter uma wiki e apresenta√ß√£o um pouco “quadradinhas” demais, meio enroladas, sem ir muito direto ao ponto (bem diferente do time da UANL). A grande ideia do projeto desse time √© basicamente produzir terpen√≥ides¬†em levedura, aproveitando a via do Mevalonato existente em Pichia pastoris (uma esp√©cie de levedura), que produz os precursores necess√°rios para a s√≠ntese dos terpen√≥ides, veja a wiki desse time aqui. Ganharam silver medal!

Tec Monterrey wiki image

Wiki do time Tec-Monterrey (e n√£o do Tec-Monterrey EKAM!).

O outro time de Monterrey foi bem mais interessante. Apesar de terem atrasado muito na apresenta√ß√£o e precisarem dar um sprint no final para n√£o estourarem o tempo, o projeto deles foi muito interessante. Mesmo tendo sido em parte outro “repost” no iGEM – o time de Yale em 2011 trabalhou com a mesma coisa. Assim como n√≥s, eles levaram dois projetos diferentes. O “repost” em quest√£o √© a tentativa de produ√ß√£o de uma linhagem de E.coli que resista √† v√°rios ciclos de congelamento (usando a mesma prote√≠na usada pelo time de Yale), j√° o projeto original foi a produ√ß√£o de v√°rios al√©rgenos¬†em levedura para serem extra√≠dos e serem usados como um kit de detec√ß√£o de alergias. O sangue seria pingado em uma superf√≠cie com os al√©rgenos e em resposta haveria fluoresc√™ncia verde caso haja resposta al√©rgica – feito atrav√©s de uma GFP fusionada ao al√©rgeno. Legal n√©!? D√™ uma checada na wiki deles aqui. Assim como n√≥s, levaram classifica√ß√£o de prata.

Mas o mais legal mesmo foi poder conhecer a Anita Sifuentes, uma mexicana super simp√°tica que ficou respons√°vel pelo design da wiki do time de Monterrey (o segundo mencionado). Ano que vem ela estar√° aqui no Brasil e esperamos poder trabalhar com ela! (Tomara que sim!)

No pr√≥ximo post vou contar um pouco de como foi nossa apresenta√ß√£o e falar dos dois outros times que assistimos depois de apresentarmos. Os v√≠deos, apresenta√ß√Ķes e p√īsteres da fase regional ainda n√£o est√£o online, mas os fase mundial j√° est√£o. Voc√™ pode dar uma checada neles na p√°gina do evento!