Carlos II, o Zicado

ResearchBlogging.orgcarlossegundo192.jpgA vida de Carlos II, rei da Espanha morto em 1700, já foi descrita como uma mistura infeliz de infância prolongada além do normal e senilidade precoce. Apelidado por seus súditos de el Hechizado (“o Enfeitiçado”; pessoalmente, eu prefiro a tradução livre “o Zicado”), Carlos só aprendeu a falar aos quatro anos e começou a falar com oito. Relatos da época dão conta de que seus defeitos labiais o impediam de falar e comer direito. (As anomalias bucais são típicas da dinastia do monarca, os Habsburgos, mas aparecem de forma exagerada nele.) Sua cabeça era grande demais; ele sofria de fraqueza muscular, vômitos, impotência e/ou ejaculação precoce. De quem é a culpa? Do inbreeding, ou excesso de consanguinidade, ao longo de 200 anos de reinado dos Habsburgos na Espanha.
A poliesculhambose de Carlos II, acaba de mostrar um grupo de pesquisadores da Galícia na revista “PLoS One”, deriva do fato de que os Habsburgos, como forma de manter suas posses territoriais nas mãos da família, casarem com frequência estarrecedora entre parentes próximos. Por causa de gerações dessa prática, Carlos, o Zicado, que foi o último membro da dinastia na Espanha, era geneticamente equivalente a alguém gerado por um casamento entre pai e filha ou entre irmão e irmã. Confira minha reportagem completa sobre o tema em reportagem desta semana no G1.
Eu adoraria ver esse tipo de análise aplicado a outras dinastias cuja mania de se casar com parentes podia ser ainda mais extrema. Os Habsburgos, que curtiam uma união de prima com primo ou de tio com sobrinha, até que pegavam leve perto dos faraós ou dos Ptolomeus, os macedônios que tomaram conta do Egito da morte de Alexandre, o Grande até a conquista romana. Esses sujeitos costumavam casar irmão com irmã mesmo. Será que há uma correlação entre a decadência das dinastias faraônicas e o período prolongado de inbreeding?
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Em outra notícia arqueológica da semana, americanos identificaram ervas medicinais em amostras de vinho de 5.000 anos e também em outras mais recentes, de 1.500 anos, ambas obtidas no Egito. Já se sabia que a adição de condimentos era uma prática comum no vinho da Antiguidade, em parte porque as más condições de armazenamento transformavam a bebida num vinagre intragável depois de algum tempo.
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Alvarez, G., Ceballos, F., & Quinteiro, C. (2009). The Role of Inbreeding in the Extinction of a European Royal Dynasty PLoS ONE, 4 (4) DOI: 10.1371/journal.pone.0005174

Discussão - 4 comentários

  1. Liliane Catone disse:

    Achei muito interessante a sua análise… acho que é bem possível que haja a correlação entre o a decadência dessas dinastias com o inbreeding…
    Reinaldo, você têm idéia a partir de qual período da história começou a haver o repudio ao casamento consangüíneo? Ou melhor, isso começou com a Igreja Católica ou não?

  2. João Carlos disse:

    O que leva a reflexões interessantes sobre a pré-história humana… Eu li algures que toda a espécie ficou reduzida a alguns milhares de indivíduos, próximo ao fim da última Era Glacial.

  3. Oi Liliane!
    Brigadão pela visita. Então, depende do tipo de casamento consanguíneo. Quando você lê o Levítico e o resto da legislação do Antigo Testamento, já é clara a restrição a casamentos entre pessoas com nível de parentesco de 50% (pai com filha, irmão com irmã etc.) e, o que a mais curioso, ao casamento com parentes desse tipo por afinidade (alguém casar com a ex-sogra ou com a ex-cunhada).
    Mas no caso de primos a coisa é bem diferente. Em muitas sociedades antigas e da Idade Média havia até uma preferência por esse tipo de casamento. A impressão que eu tenho é que ele só passou a ser realmente condenado e comparado a incesto nos últimos séculos, com o aumento do conhecimento sobre os problemas da consanguinidade.
    Sobre a Igreja, mesmo para casamento entre primos de primeiro grau é necessária uma dispensa especial. É claro que os reis católicos do passado conseguiam isso fácil, fácil por influência política, como a gente vê com os Habsburgos (aliás, conseguiam até divórcio, dependendo do caso). Abraço!

  4. Oi João!
    De fato esse gargalo populacional ocorreu por volta de 60 mil anos atrás. É claro que não se compara a gerações de casamentos à la Habsburgos, mas certamente reduziu a diversidade genética humana moderna, que é beeeeem menor que a existente entre quase todas as espécies de mamíferos.

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