Vergonha alheia da Veja

Juro que eu gostaria de voltar a temas arqueológicos mais divertidos e agradáveis. Mas, até por uma questão de autoestima profissional, não dá para passar batido pela reação indiscutivelmente patética da revista Veja diante de um erro besta em sua última edição.
Meus honrados Sciblings Carlos Hotta e Rafael Soares já fizeram um ótimo trabalho descrevendo a escorregada aqui, aqui e aqui. (Para entender o caso, sugiro que você confira os posts exatamente na ordem acima.) Em resumo, o que acontece é que, num infográfico sobre a célebre dupla hélice do DNA, o pessoal da revista acabou representando os pares de nucleotídeos (os famosos A, T, C e G cuja aparição em trio contém o código para a fabricação de proteínas) como se eles fossem moléculas contínuas.
No entanto, o que realmente acontece é que os nucleotídeos interagem por meio de pontes de hidrogênio, que não são ligações moleculares no sentido estrito (como as que unem os átomos de hidrogênio e oxigênio na água, digamos). As pontes de hidrogênio são as mesmas interações que existem entre cada uma das moléculas de água num copo do líquido. Por isso, o certo é representá-las, como sempre se faz, com tracejadinhos ou coisa que o valha, simplesmente porque elas são mais fracas do que uma verdadeira ligação molecular.
Reação estapafúrdia
O mais maluco em relação a isso tudo é que, depois de um e-mail educado e respeitoso explicando o problema conceitual e sugerindo a correção, os caras me respondem (não a mim, quero dizer; estou só usando o pronome reflexivo com a função enfática, se é que você me entende) dizendo “desculpe, não somos uma revista científica, então podemos escrever com a bunda” (estou parafraseando um pouco aqui).
Oi? E um negócio chamado precisão? Eu até concordo que nem todo jornalista precisa nascer sabendo o que são pontes de hidrogênio. Simplificar as coisas é uma necessidade grande em muitos infográficos. Ok. Mas existe uma distância abissal entre simplificar e introduzir um erro no que você quer representar. A reação jornalística-padrão diante de um erro factual é simplesmente abaixar as orelhas e dar um Erramos. Não tem discussão.
Concordo com o Rafael quando ele diz que a reportagem até prestou um serviço interessante ao fugir da lengalenga do determinismo genético. Mas a falta de humildade na hora de reconhecer um erro factual é um sintoma muito preocupante de uma maneira de pensar. Por que diabos o jornalismo científico fica em categoria diferente de, por exemplo, o jornalismo político? Se alguém da Veja escrevesse “a primeira-dama Marcella” ou “o ministro Gilberto Mendes”, duvido que isso não virasse objeto de Erramos. Não se render a essa lógica óbvia denota uma arrogância e um apego às próprias certezas que não combina com bom jornalismo em lugar nenhum do mundo.
Alguém já disse que quem não é fiel nas pequenas coisas não será fiel nas grandes. Ficadica, Veja.

Discussão - 12 comentários

  1. Aline disse:

    Na gramática da Veja, ‘precisão’ deve ser a terceira pessoa do plural do presente do indicativo do verbo ‘precisar’, i.e. ‘eles precisão’ [sic]. Não duvido de mais nada…

  2. Luiz Bento disse:

    Reinaldo,
    Não esqueçamos que esta revista transcreve um grampo sem áudio como reportagem de capa, dentre outras reportagens políticas no mínimo questionáveis. Não me surpreendi lendo a resposta deles ao email. Esta revista não tem compromisso com a verdade, em nenhum tema, muito menos em relação a ciência.

  3. Pois é, Luiz, eu achei que compromisso político não necessariamente implicava em disregard pelos fatos. Pelo visto, estava enganado…
    Abraço!

  4. Luís Brudna disse:

    Burros empacam!
    A Veja…

  5. Rafael [RNAm] disse:

    Reinaldo,
    Valeu a citação e parabéns pelo blog e pelo texto.
    Só uma coisa. Segundo parágrafo, vc estava brincando ou se enganou ao falar “célebre TRIPLA hélice do DNA”?
    Só dá uma conferida.
    Abração

  6. Iberê disse:

    Engraçado é que é só dar um Google em “hélice dna” e aparecem dezenas de desenhos corretos.

  7. Oi Rafael,
    Foi distração pura mesmo. Incorporei o Pauling momentaneamente, heheheh… (o cara realmente achava que era a tripla hélice). Está corrigido. Obrigado pelo toque. Deve ter sido macumba da Veja…
    Abraço!

  8. Davi disse:

    Fiz questão de contar o acontecido pra todo mundo que eu encontrava na faculdade.. engraçado que ninguem ficou surpreso..afinal de contas.. é a VEJA né…

  9. Clarissa disse:

    Reinaldo, será que você não usou o “tripla hélice” por causa do livro do Richard Lewontin?

  10. Oi Clarissa,
    Pode até ter sido, hehehe… eu li esse livro há tempos e gosto bastante. Enfim, falta de atenção é um problema. Se é que serve de desculpa, eu tava tocando duas matérias ao mesmo tempo no dia da postagem :oP
    Abração!

  11. Clarissa disse:

    Ih, não precisava se desculpar! Todos somos passíveis de distrações e erros e, ao contrário da redação de Veja, os blogueiros não tem problema em admitir um erro. 😉
    Eu só achei achei interessante nesse caso porque eu imediatamente lembrei do livro.
    Abraço.
    Obs.: Seus textos no G1 sempre estão interessantes. Parabéns pelo bom trabalho.

  12. Oi Clarissa,
    Brigadão! É bom saber que alguém que curte ciência visita o G1 e lê o que a gente escreve, porque normalmente passamos um belo aperto com a massa dos leitores, hehehe!
    Abraço!

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