Artefatos que importam: a Coluna-Serpente

serpent column.jpgA mistura de concisão e redundância da linguagem antiga é irresistível, pungente como só o passado consegue ser: tôide tôn pôlemon epolemêon, ou “por estes a guerra foi guerreada”, se você quiser a tradução mais literal possível. A inscrição está na Coluna-Serpente, que ainda hoje, detonada por quase 2.500 anos de agressões, pode ser vista no Hipódromo de Constantinopla — aliás, Istambul. A Coluna-Serpente é uma das poucas lembranças materiais da vitória gloriosa, e totalmente inesperada, de um punhado de pôleis (cidades-Estado) gregas sobre o Império Persa em 479 a.C.
O que vem depois da frase que eu citei acima é uma lista dessas 31 pôleis, a qual, no geral, é compatível com a que aparece na obra do historiador grego Heródoto, embora haja algumas divergências. Talvez você esteja se perguntando porque esse artefato de bronze é chamado de Coluna-Serpente. É muito simples, Comissário: originalmente, o topo da coluna era encimado por três cabeças de réptil, as quais, por sua vez, serviam de apoio para um caldeirão de ouro.
O conjunto foi dedicado (isto é, ofertado) ao templo do deus Apolo em Delfos, o grande santuário “nacional” dos gregos, como sinal de gratidão pela vitória contra os persas. Nada mais natural do que oferecer uma serpente a Apolo, uma vez que o principal mito associado ao deus fala de sua vitória contra a serpente Píton na própria Delfos, evento que teria levado à fundação do santuário. A ironia é que, na época da invasão persa na Grécia, os sacerdotes do lugar adotaram discretamente uma linha colaboracionista de ação — estratégia rapidamente esquecida quando os gregos venceram.
Quando Constantinopla foi fundada no século IV da nossa era, o monumento foi levado para adornar o hipódromo da nova metrópole, onde está até hoje. Até o fim do século XVI as cabeças de serpente ainda faziam parte do objeto, como se pode ver nesta gravura da época otomana, abaixo. UPDATE, a pedidos dos leitores: embora não se saiba exatamente como as cabeças dos répteis caíram, pedaços de algumas delas foram recuperados e estão hoje num museu de Istambul. Clique aqui para ver uma delas.
serpent column2.jpg
Um último detalhe que me é um bocado caro: originalmente, a inscrição na Coluna-Serpente fazia referência não às cidades gregas, mas unicamente ao comandante-em-chefe da batalha decisiva contra os persas, o regente espartano Pausânias. Ao saber da insolência (Pausânias mandou gravar versos em seu louvor sem o conhecimento de sua pôlis), as autoridades de Esparta mandaram apagar a inscrição e substituí-la pela que conhecemos. Apesar de suas muitas falhas, os gregos tinham consciência de que os grandes feitos da história são forjados a muitas mãos.

Discussão - 4 comentários

  1. Karl disse:

    Pô, não sabia que o plural de pólis era pôleis!
    A história é digna de quem usa chapéu e chicote. Parabéns.

  2. E as cabeças, onde foram parar? E quem as arrancou?

  3. Acabo de explicar no próprio post, Pandinha 😉
    Abraço!

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