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O que os olhos nas asas de um inseto fóssil podem nos dizer?

Por Matheus P. dos Santos da Rocha & Cledston Matheus A. Mac√°rio

Quando falamos em Paleontologia, muitos a resumem como uma ciência meramente de descrição de aspectos morfológicos, como o simples trabalho de encontrar um osso, descreve-lo e, por sorte, dar nome a uma nova espécie. Porém, a Paleontologia vai muito além disso. Por meio dela, podemos especular sobre diversos aspectos da vida no passado. Até mesmo alguns cujas evidências, muitas vezes, são escassas no registro fossilífero. Um exemplo disso, seria encontrar uma resposta para a pergunta: como eram os olhos dos dinossauros não-avianos?

Como toda ciência, a paleontologia trabalha, inicialmente, com hipóteses, e essas, podem nos levar para linhas de raciocínio beeeem inusitadas, uma hora podemos estar debatendo sobre buracos negros e a extinção dos dinossauros e isso, mais à frente, pode terminar numa deliciosa (ou não) receita de macarrão com biscoito. A história de hoje começa com uma linhas de raciocínio inusitadas: ela parte de um grupo de insetos fósseis, os Kalligrammatidae…

O que s√£o os Kalligrammatidae?

Chrysoperla carnea – Foto de Julia Stoess

Você já viu em algum jardim por aí pequenas bolinhas sustentadas por um fio bem fino, presas nas folhas das plantas? Se sim, com quase toda certeza você viu ovos de bicho-lixeiro. Pertencentes a uma ordem de insetos chamada Neuroptera, esses inofensivos (para os humanos) insetos são predadores vorazes de ovos de aranhas e outros invertebrados. Essa ordem inclui desde a formiga-leão, até coisas estranhas como os mantispídeos (que parecem uma mistura bizarra entre um marimbondo e um louva-a-deus).

Apesar de n√£o serem um grupo muito comum nos dias de hoje, a representa√ß√£o f√≥ssil deles √© abundante. No Brasil, dados de um trabalho de revis√£o de 2018, d√£o conta que das 379 esp√©cies de insetos descritos para a Forma√ß√£o Crato, da Bacia do Araripe, 76 s√£o neur√≥pteros, ou seja, 20% da diversidade de insetos da forma√ß√£o est√° em uma √ļnica ordem, que atualmente representa 0,6% das esp√©cies de insetos viventes. 

No meio de toda essa diversidade, os f√≥sseis mais enigm√°ticos de Neuroptera s√£o os da fam√≠lia Kalligrammatidae. O primeiro de Kalligrammatidae foi descrito por Johannes Walther, em 1904, com base num material quase completo, encontrado no calc√°rio jur√°ssico de Solnhofen (Alemanha) – aquele mesmo do Archaeopteryx. Desde ent√£o, diversas esp√©cies de Kalligrammatidae foram encontradas em v√°rias localidades, com destaque para os achados na China e nos √Ęmbares birmaneses, ao norte de Mianmar. 

Diversidade dos kalligrammatidae. a. & b. da Forma√ß√£o Crato (Brasil); c., d., e., f., g., h. & p. das Forma√ß√Ķes Jiulongshan ou Haifanggou (China); i., j., k., l., m. & n. da Forma√ß√£o Yixian (China); o. da Forma√ß√£o Karabastau (Cazaquist√£o).” – Imagem original por Julian Kiely (Editado).

Em 1997, o lend√°rio paleont√≥logo Rafael G. Martins-Neto, descreveu, pela primeira vez, um Kalligrammatidae na Forma√ß√£o Crato, batizado de Makarkinia adamsi. De l√° pra c√°, outros trabalhos confirmaram a presen√ßa dessa fam√≠lia no Nordeste Brasileiro e, inclusive, descreveram novas esp√©cies, sendo este, at√© hoje, o √ļnico lugar fora da Europa e √Āsia a ter esses registros.

√Č uma sorte que esses animais ocorram em v√°rios afloramentos do tipo lagerst√§tten (s√≠tios com preserva√ß√£o excepcional) pelo mundo afora. A boa preserva√ß√£o dos f√≥sseis permitiu notar rapidamente a semelhan√ßa dos kalligrammat√≠deos f√≥sseis com as atuais borboletas e mariposas. Essa compara√ß√£o n√£o fica s√≥ por conta do formato, padr√Ķes de colora√ß√£o e desenhos das asas, mas alguns esp√©cimes bem preservados, principalmente em √Ęmbar, mostram tamb√©m a presen√ßa de uma ‚Äúboca‚ÄĚ modificada em um fino e comprido tubo chamado de prob√≥scide, caracter√≠stica marcante das mariposas e borboletas (ambas pertencentes √† ordem Lepidoptera). Mas isso aconteceu nos kalligrammat√≠deos num momento do tempo geol√≥gico em que as borboletas n√£o existiam e as mariposas n√£o eram t√£o abundantes e diversificadas como s√£o hoje.

Fora do Brasil, alguns Kalligrammatidae chegam a ser apelidados de ‚Äúgiant lacewings‚ÄĚ (crisop√≠deos gigantes) e isso chegou ao extremo em algumas esp√©cies f√≥sseis. Comparativamente, algumas esp√©cies f√≥sseis s√£o enormes em rela√ß√£o aos seus irm√£os ainda viventes. Estima-se que as esp√©cies encontradas no Araripe, por exemplo, alcan√ßavam entre 24 a 32 cent√≠metros de envergadura! 

A hist√≥ria dos ‚Äúolhos‚ÄĚ nas asas

Insetos grandes e chamativos podem virar comida facilmente, por isso, precisam ter alguma forma de se proteger da predação. Os kalligrammatídeos que viveram entre o Eojurássico ao Neocretáceo estavam dividindo espaço com lagartos, dinossauros avianos e não-avianos, pterossauros, entre outros predadores . Logo, teria que haver alguma forma deles não sucumbirem a seus colegas de habitat!

As mariposas e borboletas de hoje em dia t√™m algumas estrat√©gias para evitar a preda√ß√£o. Desde proje√ß√Ķes nas asas para desviar a aten√ß√£o do predador, como as mariposas do g√™nero Actias, at√© mimetizar (imitar) folhas secas, tal qual Zaretis itys faz. Outra forma √© ter ‚Äúolhos‚ÄĚ, ou melhor, ocelos em suas asas. Os ocelos s√£o desenhos circulares que aparecem em diversos animais, especialmente nos lepid√≥pteros. Esses c√≠rculos podem aparecer com 2 estrat√©gias diferentes de uso:

Mycalesis patnia – Foto por L. Shyamal
  • A primeira √© ter eles pr√≥ximos √†s margens da asa, fazendo com que a aten√ß√£o de um prov√°vel predador seja focada na ponta da asa e n√£o no centro do corpo do organismo.
  • A outra √© simplesmente aterrorizar! As mariposas da fam√≠lia Saturniidae e as borboletas-olho-de-coruja do g√™nero Caligo, por exemplo, fazem isso muito bem. Elas t√™m ocelos enormes no centro das asas, que imitam – algumas vezes de forma assustadora – os olhos de uma coruja, afastando assim qualquer predador que ouse atac√°-las.
Caligo beltrao – Foto por Quartl

E é nesse ponto que queríamos chegar. Justamente essa segunda estratégia é atribuída a várias espécies fósseis de kalligramatídeos. Desde o primeiro espécime descrito, os ocelos gigantes estão presentes nas asas, e há trabalhos que descrevem e comparam os diversos formatos encontrados.

Makarkinia irmae – Imagem de Machado et al. (2021).

O que isso tem a ver com dinossauros?

Agora, chegou a hora que, ou voc√™s sair√£o desse blog nos chamando de loucos, ou ter√£o o famoso ‚ÄúMind Blow‚ÄĚ. Vamos ao ponto principal: voc√™ j√° parou para pensar sobre o formato dos olhos dos dinossauros n√£o-avianos? Essa √© uma discuss√£o complicada, pois o n√ļmero de olhos de dinossauro preservados no registro fossil√≠fero √©: zero! Mas √© uma curiosidade leg√≠tima querer saber essa informa√ß√£o, tanto que pode ser encontrado por a√≠, em f√≥runs pela internet, pessoas debatendo sobre essa quest√£o.

Como esse tipo de material fóssil para dinossauros é inexistente, parte-se para a comparação com animais recentes, tanto seus parentes mais próximos ainda vivos, quanto possíveis análogos ecológicos. Mas existe ainda outra linha de raciocínio para se debater: não olhar para os dinossauros em si, mas para seus colegas de habitat e, no nosso caso especifico, os kalligramatídeos da Formação Crato.

A reação dos leitores daqui a alguns instantes, pelo menos, na expectativa dos autores…

Como j√° foi mencionado anteriormente, os ‚ÄúGiant Lacewings‚ÄĚ poderiam ter se utilizado da segunda estrat√©gia de uso dos ocelos: para assustar prov√°veis predadores, imitando os olhos de animais com os quais conviveram. A√≠ est√° o ‚Äúpulo do gato‚ÄĚ. Para um predador se assustar com os olhos desenhados nas asas das borboletas-olho-de-coruja √© preciso que tenha um animal no mesmo habitat, que v√° servir de gatilho (o “modelo” dos ocelos de Caligo, uma coruja, por exemplo: um predador assustador, que assuste o predador da Caligo). Mas h√° 120 milh√Ķes de anos n√£o existiam corujas no Cear√°, ent√£o‚Ķquem eram os modelos dos Kalligrammatidae do Crato?

Pantano do Crato – Arte de Olmagon.

Existem dois principais suspeitos: pterossauros e dinossauros, mas vamos por partes. Pterossauros na Bacia do Araripe, segundo Mendes et al. (2020), eram majoritariamente pisc√≠voros (comedores de peixes), com algumas exce√ß√Ķes como Lacusovagus magnificens, que provavelmente vagava pelos p√Ęntanos da regi√£o para ca√ßar anf√≠bios e outras pequenas presas. O trabalho de Mendes, inclusive, coloca os pterossauros como animais no topo da teia tr√≥fica da regi√£o na √©poca. 

‚ÄúTeia tr√≥fica da fauna Cret√°cea do Araripe‚ÄĚ – Mendel et al. (2020)

Mas se os pterossauros cearenses comiam peixes, majoritariamente, os possíveis predadores dos kalligramatídeos (outros insetos, anfíbios, pássaros, pequenos dinossauros, etc.) não estavam no cardápio deles, a priori. Por esse fator, seria compreensível a exclusão desses animais como possíveis modelos para os ocelos.

Escultura do Santanaraptor placidus do Museu Pl√°cido Cidade Nuvens, de Santana do Cariri, CE.

J√° os dinossauros, por outro lado, s√£o os candidatos perfeitos para esse quebra-cabe√ßas ecol√≥gico. Animais como Aratasaurus museunacionali, Mirischia asymetrica (que, assim como “Ubirajara“, foi traficado para Alemanha #MirischiaBelongtoBR) e Santanaraptor placidus, ocupavam o nicho de predadores de m√©dio a pequeno porte da regi√£o do Cariri. Como apontado por Julian Kiely, em seu artigo para o blog ‚ÄúPaleoflora‚ÄĚ,  a forma da asa dianteira na maioria das esp√©cies de kalligramat√≠deos, e o grande tamanho dessas asas,  correspondiam, aproximadamente, ao tamanho e a forma das cabe√ßas de muitos pequenos dinossauros predadores que conviviam com esses insetos (como as esp√©cies mencionadas acima). Desta forma, poder√≠amos inferir que as pupilas dos dinossauros de m√©dio a pequeno porte do Jur√°ssico Superior e do Cret√°ceo Inferior, como os maniraptores (pelo menos), deveriam ser arredondadas, j√° que os ocelos de todos os kalligramat√≠deos conhecidos at√© ent√£o, possuem esse mesmo formato. O que se soma √† evid√™ncia indireta parelela, que considera como base comparativa o formato da pupila dos dinossauros viventes, que s√£o as aves.

Mimetismo de Kalligrammatidae a um Maniraptora  – Imagem de Julian Kiely, 2022.

O poder da especulação

Alguns podem estar se perguntando: qual a import√Ęncia de especular aspectos biol√≥gicos e evolutivos t√£o dif√≠ceis de se comprovar por meio do registro fossil√≠fero? Muito da ci√™ncia come√ßa com especula√ß√£o. As descobertas cient√≠ficas, em geral, nascem de hip√≥tese de algu√©m. Um exemplo cl√°ssico foi a detec√ß√£o das ondas gravitacionais em 2015, que haviam sido previstas por Albert Einstein em 1916.

Focando na √°rea da Paleontologia, um exemplo muito interessante, e, √† √©poca, considerado extremamente especulativo, foi o da exist√™ncia de um radiodonte (grupo que inclui o Anomalocaris) filtrador, batizado de ‚ÄúCeticaris‚ÄĚ. Nada mais que uma especula√ß√£o concebida pelo artista John Meszaros, publicada no livro All Your Yesterdays, de 2013. Por√©m, para surpresa de muitos, em 2014 foi realmente descrito um radiodonte cambriano com h√°bito filtrador, Tamisiocaris borealis.

‚ÄúCeticaris‚ÄĚ – Arte de John Meszaros

Em homenagem √† previs√£o de Meszaros, Tamisiocaris foi inclu√≠do em um novo clado denominado Cetiocaridae. Infelizmente, o nome deste clado n√£o √© mais considerado v√°lido, de acordo com o C√≥digo Internacional de Nomenclatura Zool√≥gica, por n√£o existir nenhum g√™nero real chamado “Cetiocaris“, ent√£o foi formalmente substitu√≠do pelo nome Tamisiocarididae.

Reconstrução de Tamisiocaris РArte de Rob Nicholls

Finalmentes

Com base em todos os argumentos supracitados (Al√ī, professores de reda√ß√£o!), podemos inferir que a hip√≥tese levantada pode levar a especula√ß√Ķes e trabalhos futuros que respondam √†s nossas d√ļvidas (isso claro, se esse post, neste humilde blog, chegar nas pessoas certas, e para isso seu compartilhamento √© fundamental). Gostar√≠amos de agradecer a Julian Kiely do excelente blog ‚ÄúPaleoflora‚ÄĚ pelo artigo que inspirou este, e que isso inspire a todos os nossos leitores a imaginar e especular dentro da ci√™ncia, lan√ßar ideias, compartilh√°-las, pois s√≥ assim a ci√™ncia cresce e prospera, com uni√£o e partilha. 

Referências:

Martins-Neto, R. G. 1997. Neurópteros (Insecta, Planipennia) da Formação Santana (Cretáceo IInferior) Bacia do Araripe, Nordeste do Brasil. X Рdescrição de novos taxa (Chrysopidae, Babinskaiidae, Myrmeleontidae, Ascalaphidae e Psychopsidae). Revista Universidade Guarulhos , São Paulo, v. 2, n.4,. p. 68-83.

Frazer, J. 2016. Butterflies in the Time of Dinosaurs, with Nary a Flower in Sight. Scientific American.

Labandeira, C. et al. 2016. The evolutionary convergence of mid-Mesozoic lacewings and Cenozoic butterflies. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences. 283. 

Vinther, J., Stein, M., Longrich, N. et al. 2014. A suspension-feeding anomalocarid from the Early Cambrian. Nature 507, 496‚Äď499.

Moura-J√ļnior, D.A. et al. 2018. The Brazilian Fossil Insects: current scenario. Anu√°rio do Instituto de Geoci√™ncia – Ufrj, v. 41, n. 1, p. 142-166. Instituto de Geoci√™ncias – UFRJ.

Mendes, M. et al. 2020. Ecosystem Structure and Trophic Network in the Late Early Cretaceous Crato Biome. Brazilian Paleofloras. Springer, Cham. 

Machado, R.J.P. et al.2021. A new giant species of the remarkable extinct family Kalligrammatidae (Insecta: Neuroptera) from the Lower Cretaceous Crato Formation of Brazil. Cretaceous Research. Volume 120.

Kiely, J. 2022. Restoring the Kalligrammatids: The not-butterflies of the mesozoic. Paleoflora.

Um dinossauro no exílio e a luta contra o colonialismo científico

Poucos imaginariam que um dinossauro do tamanho de um ganso desencadearia uma das maiores pol√™micas da Paleontologia nos √ļltimos anos. Para bem ou para mal, ‚ÄúUbirajara jubatus‚ÄĚ tem chamado a aten√ß√£o como poucos f√≥sseis na hist√≥ria da Paleontologia.

Arte de Saulo Daniel, publicada no Twitter.

Quando foi revelado ao mundo no dia 13 de dezembro de 2020, “Ubirajara jubatus” deveria ter sido visto como uma descoberta interessante do ponto de pista cient√≠fico, pois tratava-se do primeiro dinossauro n√£o-aviano com penas do Hemisf√©rio do Sul. Contudo, a sua import√Ęncia foi rapidamente ofuscada por um emaranhado de problemas √©ticos e legais. O estudo de “Ubirajara” representa um t√≠pico caso de colonialismo cient√≠fico: um f√≥ssil brasileiro que foi parar de maneira suspeita num museu alem√£o (Museu Estadual de Hist√≥ria Natural de Karlsruhe) e uma pesquisa feita exclusivamente por cientistas estrangeiros.

O conceito de colonialismo cient√≠fico foi definido em 1967 por Johann Galtung como ‚Äúo processo pelo qual o centro de adquisi√ß√£o do conhecimento sobre uma na√ß√£o est√° fora a pr√≥pria na√ß√£o‚ÄĚ. Isto se aplica ainda √† Paleontologia de v√°rios pa√≠ses, cujas pesquisas, em pleno s√©culo XXI, s√£o predominantemente feitas por estrangeiros.

Al√©m do Brasil, pa√≠ses como China, Mong√≥lia, Marrocos, Rep√ļblica Dominicana e Myanmar, t√™m estado na mira, tanto de traficantes de f√≥sseis, como de pesquisadores sem escr√ļpulos. Os f√≥sseis atraem a curiosidade do p√ļblico e s√£o um valioso recurso em muitos aspectos: cient√≠fico, educacional, cultural e at√© econ√īmico, gerando turismo e beneficiando o com√©rcio local. Por√©m, todos estes benef√≠cios ficam num pa√≠s estrangeiro, quando os f√≥sseis s√£o levados (legal ou ilegalmente) ao exterior e terminam estudados por equipes de outros pa√≠ses, o que cria depend√™ncia cient√≠fica e perpetua desigualdades sociais.

No Brasil, assim como em toda a Am√©rica Latina e na maior parte dos pa√≠ses do mundo, os f√≥sseis pertencem legalmente √† Na√ß√£o onde s√£o encontrados. Durante d√©cadas, contudo, milhares de f√≥sseis t√™m sa√≠do ilegalmente da regi√£o do Araripe, no Nordeste do Brasil, regi√£o muito rica em termos paleontol√≥gicos, mas com um baixo √≠ndice de desenvolvimento humano. Estes f√≥sseis s√£o adquiridos a pre√ßos irris√≥rios por estrangeiros, chegam ilegalmente a feiras e leil√Ķes na Europa e terminam em cole√ß√Ķes privadas ou em museus estrangeiros.

Centenas destes f√≥sseis no ex√≠lio t√™m sido estudados por cientistas estrangeiros de maneira impune nas √ļltimas d√©cadas. Este problema √© mais do que conhecido pela comunidade cient√≠fica brasileira, por√©m estamos acostumados a que as nossas vozes n√£o sejam escutadas no exterior. Problema que n√£o enfrentam, por exemplo, os autores do estudo de “Ubirajara ” e de v√°rios outros f√≥sseis extra√≠dos irregularmente do Brasil. Eberhard Frey (ex-curador da cole√ß√£o de vertebrados do museu onde ainda hoje est√° “Ubirajara”) era, at√© 2021, nada menos que o presidente da Associa√ß√£o Europeia de Paleontologia de Vertebrados (EAVP, sigla em ingl√™s), enquanto que David Martill, tamb√©m autor do estudo de “Ubirajara”, publicou um artigo defendendo abertamente que os paleont√≥logos desrrespeitem as leis locais.

√Č uma luta que sempre tem sido desigual. Por√©m, desta vez foi diferente. Estamos na era das redes sociais, da comunica√ß√£o cient√≠fica online e das hashtags. O uso de hashtags como #BlackLivesMatter e #MeToo t√™m mostrado que as redes sociais podem unir esfor√ßos em torno de uma causa. #UbirajaraBelongstoBR (Ubirajara pertence ao Brasil), criada no Twitter pela paleont√≥loga e divulgadora cient√≠fica Aline Ghilardi, se espalhou como fogo na internet, poucas horas ap√≥s a not√≠cia do novo dinossauro. No Youtube, foram feitas v√°rias lives denunciando o caso, uma delas, pediu ao p√ļblico pra desenhar “Ubirajara” e protestar nas redes usando a hashtag #UbirajaraBelongstoBR. Em poucos dias este era o dinossauro mais desenhado do mundo: artistas, crian√ßas e p√ļblico geral participavam da campanha. O ru√≠do produzido foi t√£o alto que em duas semanas a revista Cretaceous Research retirou a pesquisa do ar e anunciou que investigava o caso.

Em setembro de 2021, o museu de Karlsruhe contra-atacou, publicando no Instagram um comunicado no qual afirmavam que o dinossauro Ubirajara era ‚Äėpropriedade do estado de Baden-W√ľrttemberg‚Äô e que n√£o seria devolvido ao Brasil. Em poucos dias acumularam-se mais de 10 mil coment√°rios pouco amig√°veis de brasileiros usando a hashtag #UbirajaraBelongstoBR. O museu teve que desativar a sua conta no Instagram. Poucos dias depois, a revista Science revelou que “Ubirajara” foi importado pela Alemanha em 2006 por uma empresa privada e, ent√£o, comprado pelo Museu Estadual de Historia Natural de Karlsruhe, em 2009, o que contradizia a alega√ß√£o de Eberhard Frey, que afirmava tanto que ele mesmo tinha transportado o f√≥ssil para Alemanha em 1995, portando uma suposta autoriza√ß√£o do governo brasileiro.

No 15 de novembro de 2021, publicamos uma carta na revista Nature Ecology and Evolution, na qual explicamos os problemas legais e √©ticos envolvendo n√£o s√≥ “Ubirajara”, mas v√°rios outros f√≥sseis que encontravam-se no museu de Karlsruhe e em outros museus do pa√≠s. Enviamos essa carta √† ministra de Ci√™ncia e Cultura do estado alem√£o de Baden-W√ľrttemberg e, um m√™s depois, ela nos respondeu prometendo investigar o caso e tomar a√ß√Ķes contra os respons√°veis.

Em mar√ßo de 2022 publicamos, ent√£o, um amplo estudo onde denunciamos o colonialismo cient√≠fico em centenas de estudos sobre f√≥sseis do Brasil e do M√©xico. E, finalmente, em julho de 2022, o Minist√©rio de Ci√™ncia e Cultura de Baden-W√ľrttemberg anunciou que o Museu Estadual de Historia Natural de Karlsruhe tinha atuado de maneira desonesta e ordenou a devolu√ß√£o do f√≥ssil ao Brasil. Al√©m disso, solicitou ao museu que informasse sobre todos os f√≥sseis que se encontram irregularmente na sua cole√ß√£o.

Eberhard Frey aposentou-se prematuramente em 2022 e Norbert Lenz, também autor do estudo e diretor do museu, foi removido do seu cargo em julho de 2022.

Devido √† repercuss√£o gerada pelo caso, algumas revistas acad√™micas t√™m adaptado pol√≠ticas mais r√≠gidas sobre a origem legal dos f√≥sseis nas suas publica√ß√Ķes. Adicionalmente, alguns pa√≠ses come√ßaram a retornar voluntariamente f√≥sseis ao Brasil, como em outubro de 2021, quando uma universidade dos EUA entregou 36 aranhas f√≥sseis ao Museu de Paleontologia de Santana do Cariri, e em fevereiro de 2022, quando a B√©lgica devolveu ao Brasil um pterossauro.

No momento em que estas linhas s√£o escritas, seguimos esperando pela repatria√ß√£o, n√£o s√≥ do dinossauro “Ubirajara”, mas de centenas de outros f√≥sseis que se encontram irregularmente em Karlsruhe e em outros museus da Alemanha. Aconte√ßa o que acontecer, a Ci√™ncia n√£o ser√° a mesma ap√≥s este caso. “Ubirajara” est√° j√° no sal√£o da fama dos maus exemplos na Paleontologia, junto a Archaeoraptor e ao Homem de Piltdown.

*Este texto foi originalmente publicado em espanhol em http://saberesyciencias.com.mx/2023/02/10/dinosaurio-exilio-la-lucha-colonialismo-cientifico/

Referências:

Smyth, R.S.H. et al. 2020. WITHDRAWN: A maned theropod dinosaur from Gondwana with elaborate integumentary structures. Cretaceous Research.

Martill, D. 2018. Why palaeontologists must break the law: a polemic from an apologist. The Geological Curator 10: 641-649.

Padilha, P. K. 2020. ROUBARAM mais um DINOSSAURO DO BRASIL #UbirajarabelongstoBR. https://youtu.be/Uf_QjXwbEDU

P√©rez Ortega, R. 2021. Retraction is ‚Äėsecond extinction‚Äô for rare dinosaur. Science 374: 14-15.

Cisneros, J.C. 2021. The moral and legal imperative to return illegally exported fossils. Nature Ecology & Evolution, 6:2-3.

Cisneros, J.C. 2022. Digging deeper into colonial palaeontological practices in modern day Mexico and Brazil. Royal Society Open Science 9:210898.

Sacos a√©reos evolu√≠ram m√ļltiplas vezes!?

A esp√©cie humana est√° na Terra h√° apenas 300 mil anos. Somos jovens nesse pequena planeta azul e din√Ęmico. Os dinossauros, por sua vez, est√£o por aqui h√° pelo menos 233 milh√Ķes de anos, desde o Per√≠odo Tri√°ssico e, n√£o custa lembrar, permanecem vivos at√© hoje na forma das aves. Esse grupo de animais tolerou e se adaptou a uma grande variedade de climas e mudan√ßas dram√°ticas na configura√ß√£o dos continentes ao longo do tempo. Por isso s√£o um modelo excelente para estudarmos evolu√ß√£o biol√≥gica. Eles t√™m muito a nos ensinar sobre os segredos da sobreviv√™ncia.

Durante o auge do reinado dos dinossauros, na Era Mesozoica, o clima do nosso planeta era muito mais quente do que hoje. Uma das caracter√≠sticas que favoreceu este grupo de animais foi a evolu√ß√£o de sacos a√©reos, um tipo de upgrade do sistema respirat√≥rio. Os sacos a√©reos s√£o estruturas conectadas aos pulm√Ķes, que se espalham por toda cavidade tor√°xica e abdominal desses animais, penetrando inclusive os ossos. Est√£o presentes nas aves atuais e n√£o apenas tornam sua respira√ß√£o mais eficiente, mas tamb√©m ajudam a deixar os seus esqueletos mais leves, o que favorece, por exemplo, o voo. Apesar de muito caracter√≠sticos das aves, os sacos a√©reos n√£o s√£o uma exclusividade dos delas. Eles tamb√©m estavam presentes nos dinossauros n√£o-avianos (todos os outros dinossauros, que n√£o as aves) muito antes da evolu√ß√£o do voo.

Esquema mostrando os sacos aéreos em aves atuais. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sacos_a%C3%A9reos

Imagina-se que os sacos a√©reos originalmente favoreceram os dinossauros por funcionarem como um sistema eficiente de capta√ß√£o de oxig√™nio e tamb√©m por serem um sistema de refrigera√ß√£o natural. Se voc√™, hoje, fica ofegante fazendo exerc√≠cios no ver√£o quente, saiba que os dinossauros eram (e s√£o!) muito mais eficientes que voc√™ em captar oxig√™nio e se refrigerar. N√£o √© √† toa que eles sa√≠ram na frente na corrida evolutiva (enquanto nosso grupo, o dos mam√≠feros, ficou por quase 150 milh√Ķes de anos no banquinho de reservas evolutivo).

Já é bem sabido que dinossauros do Período Cretáceo, como o T. rex e alguns pescoçudos, como o Ibirania, tinham um extenso sistema de sacos aéreos pelo corpo. Inclusive, bem parecido com os das aves atuais. Só que a origem e evolução deste sistema tem sido um enigma por várias décadas. Será que os primeiros dinossauros, lá do período Triássico, já tinham sacos aéreos?

O que sabíamos era que a pneumaticidade do esqueleto relacionada a um sistema de sacos aéreos estava presente tanto em dinossauros derivados, ou seja, aqueles que viveram durante o Período Cretáceo, quanto em pterossauros, répteis voadores parentes próximos dos dinossauros. Ambos os grupos seguiram um caminho evolutivo independente a partir do Período Triássico. Uma explicação para a presença de sacos aéreos tanto em dinossauros quanto em pterossauros seria que a origem dessas estruturas se deu bem antes deles terem seguido seu caminho evolutivo independente, isto é, ainda em seus ancestrais.

Por√©m, a quest√£o permaneceu em aberto. Faltavam estudos avaliando a presen√ßa dessas estruturas tanto em dinossauros mais antigos quanto em ancestrais dos pterossauros e dinossauros…

Para nossa sorte, o Brasil têm os fósseis dos mais antigos dinossauros e é aí que entra o estudo publicado agora em Dezembro de 2022 pelo nosso grupo de pesquisa, na revista Scientific Reports:

Para tentar solucionar este enigma, um grupo de pesquisadores brasileiros da Unicamp, UFRN, UFSCar e UFSM e um colaborador da Western University of Health Sciences, dos E.U.A., analisaram tr√™s f√≥sseis de alguns dos mais antigos dinossauros do mundo, Buriolestes, Pampadromaeus e Gnathovorax, do Per√≠odo Tri√°ssico do Rio Grande do Sul. Estes s√£o alguns dos dinossauros mais antigos conhecidos at√© o momento, com 233 milh√Ķes de anos de idade!

Reconstrução do dinossauro herrerassaurídeo Gnathovorax. Arte por Márcio L. Castro.

Foi possível notar que os ossos da coluna vertebral (vértebras) desses animais apresentavam pequenos orifícios nas laterais. Sabemos que os sacos aéreos ingressam no esqueleto através de estruturas semelhantes a isso. Porém, os orifícios encontrados eram muito pequenos, o que talvez indicasse uma outra função.

Realizamos, ent√£o, tomografias de alta resolu√ß√£o (micro-tomografias) para investigar a estrutura interna dos f√≥sseis. A an√°lise revelou uma arquitetura bastante densa nas v√©rtebras desses animais, bem diferente do que conhecemos em esqueletos permeados por sacos a√©reos de dinossauros que viveram no Cret√°ceo ou mesmo as Aves. Por√©m, Buriolestes e Pampadromaeus mostraram uma vascularidade mais complexa no interior das v√©rtebras, do que Gnathovorax. Uma vascularidade mais desenvolvida pode ter servido de alicerce para o surgimento das estruturas pneum√°ticas conhecidas como c√Ęmaras e camelas, t√≠picas da invas√£o das v√©rtebras por sacos a√©reos.

Reconstrução do dinossauro Pampadromaeus. Arte por Márcio L. Castro.

A ausência de pneumaticidade no esqueleto pós-craniano desses dinossauros mais antigos contradiz a hipótese de que os sacos aéreos invasivos presentes em dinossauros e pterossauros são homólogos, ou seja, de que teriam surgido no ancestral comum desses animais. Isso indica que a pneumaticidade óssea associada à sacos aéreos evoluiu pelo menos três vezes independentemente em Avemetatarsalia, grupo que inclui dinossauros, pterossauros e seus parentes. Ou seja, evoluiu de forma independente em pterossauros, dinossauros terópodes (grupo dos dinossauros carnívoros) e sauropodomorfos (grupo dos dinossauros pescoçudos).

Uma árvore simplificada dos dinossauros e seus parentes mostrando a evolução independente dos sacos aéreos em pterossauros, dinossauros terópodes e sauropodomorfos.

Essa descoberta muda a forma como compreend√≠amos os dinossauros e seus parentes. Passo a passo estamos entendendo melhor a sua evolu√ß√£o e o segredo do seu sucesso. √Č poss√≠vel que algum fator ambiental tenha sido o gatilho para a evolu√ß√£o desse sistema sacos a√©reos em diferentes grupos de avemetatarsalianos, mas isso s√£o cenas para os pr√≥ximos cap√≠tulos!

Gostaríamos de agradecer as agências de fomento que tornaram possível esta pesquisa: o CNPq, a FAPESP e a FAPERGS.

Acesse o artigo completo: Aureliano et al. 2022. The absence of an invasive air sac system in the earliest dinosaurs suggests multiple origins of vertebral pneumaticity. Scientific Reports. https://www.nature.com/articles/s41598-022-25067-8

E assista o vídeo de divulgação: https://youtu.be/8XenPxROthY

Um dinossauro pescoçudo nanico é o mais novo dinossauro brasileiro

Os maiores animais a caminharem em terra firme foram os dinossauros saur√≥podes, apelidados de pesco√ßudos. Algumas esp√©cies de pesco√ßudos,¬† como o Argentinosaurus ou o Patagotitan, encontrados na Argentina, podiam ultrapassar 30 metros de comprimento. Verdadeiros colossos capazes de fazer a terra tremer! Mas nem todos os saur√≥podes eram assim… Existiram centenas de esp√©cies desses dinossauros em quase todos os continentes e, apesar da maioria ser conhecida pelo seu grande tamanho, algumas formas adotaram uma tend√™ncia contr√°ria. Existem alguns casos de pesco√ßudos an√Ķes, formas com a altura de um cavalo ou de um camelo, como Magyarosaurus ou Europasaurus, encontrados em ambientes de ilhas antigas. Via de regra, essas formas an√£s s√£o encontradas em ambientes de ilhas, pois devido a restri√ß√£o de √°rea e recursos, a miniaturiza√ß√£o do corpo pode ser uma vantagem. Por√©m, para nossa surpresa, f√≥sseis de uma nova esp√©cie de dinossauro pesco√ßudo an√£o foram encontradas aqui no interior do Brasil, em um lugar que esteve bem longe do mar durante toda a Era dos Dinossauros. Essa esp√©cie de dinossauro foi descoberta na cidade de Ibir√°, no interior de S√£o Paulo, e se tornou uma das menores esp√©cies de dinossauros pesco√ßudos conhecidas do mundo!

Reconstituição da nova espécie de dinossauro anão de Ibirá. Arte por Matheus Gadelha.

Por mais de 15 anos o Prof. Marcelo Fernandes (UFSCar) e seu grupo de pesquisa, eu inclusa, t√™m coletado f√≥sseis no Noroeste Paulista, em uma localidade onde s√£o encontrados abundantes f√≥sseis de dinossauros. As rochas e f√≥sseis dessa localidade datam do Per√≠odo Cret√°ceo e t√™m aproximadamente 80 milh√Ķes de anos. Dentre os f√≥sseis recuperados est√£o restos de dinossauros carn√≠voros, crocodilos, tartarugas e v√°rios outros animais da “Era dos Dinossauros”. Muitos restos de dinossauros herb√≠voros foram encontrados na localidade, mas at√© o momento nenhuma esp√©cie de pesco√ßudo havia sido nomeada para a regi√£o.

Eu procurando por fósseis no sítio onde foram encontrados fósseis do pequeno pescoçudo em Ibirá, SP. Foto por Tito Aureliano.

Fui eu quem trabalhou pela primeira vez, durante a minha gradua√ß√£o, com os f√≥sseis do pequeno dinossauro pesco√ßudo de Ibir√°. √Äquela √©poca, o dinossauro n√£o ganhou nome, mas foi reconhecido como diferente das outras esp√©cies descritas para o Brasil at√© ent√£o. Muito tempo se passou, mais f√≥sseis desse pequeno dinossauro foram encontrados e, finalmente, alguns anos atr√°s, a miss√£o de liderar a descri√ß√£o da esp√©cie desse misterioso dinossauro nanico foi dada ao paleont√≥logo Bruno Navarro, atualmente estudante de doutorado no Museu de Zoologia da USP, e especialista em dinossauros saur√≥podes. Bruno, Marcelo e eu contamos com a ajuda de uma excelente equipe de colaboradores nesse processo e, no √ļltimo dia 15 de setembro, apresentamos formalmente essa nova esp√©cie de dinossauro ao mundo cient√≠fico.

O colega Bruno Navarro em Ibirá, SP, procurando por fósseis. Foto do arquivo pessoal de Bruno.

Comparando os f√≥sseis do pequeno dinossauro de Ibir√° com materiais de outros animais do mesmo grupo encontrados no Brasil e no mundo, foi poss√≠vel concluir que ele pertencia √† fam√≠lia dos saltassauros, um grupo de titanossauros que inclui algumas esp√©cies de j√° de tamanho bastante reduzido. Al√©m disso, o pequeno dinossauro de Ibir√° apresentava v√°rias caracter√≠sticas √ļnicas, n√£o compartilhadas com seus parentes mais pr√≥ximos, logo, uma nova esp√©cie poderia ser batizada. O nome escolhido foi Ibirania parva. Ibirania √© a jun√ß√£o das palavras Ibir√° – cidade onde a esp√©cie foi encontrada – e ania que em grego significa ‚Äúcaminhante, peregrino‚ÄĚ. J√° parva √© o latim para ‚Äėpequeno‚Äô. Como a palavra Ibir√° vem do Tupi para ‚Äú√Ārvore‚ÄĚ – √© poss√≠vel traduzir o nome desse dinossauro como ‚Äúo pequeno peregrino das √°rvores‚ÄĚ.

Reconstituição artística de Ibirania parva por Hugo Cafasso.

Desde o princípio era possível notar que os fósseis desse pescoçudo de Ibirá eram muito pequenos quando comparado a outros titanossauros, mas ao estimar o tamanho aproximado de um dos espécimes analisados, nos surpreendemos. Ele teria entre 5 e 6 metros de comprimento e seria da altura de uma vaca, o que o colocaria entre as menores espécies de saurópodes já descritas do mundo! Para checar se o tamanho reduzido seria porque o  espécime era apenas um jovem quando morreu, resolvemos analisar o tecido ósseo fossilizado do dinossauro ao microscópio. Essas amostras foram analisadas pelo paleontólogo Tito Aureliano, atualmente estudante de doutorado da Unicamp. A partir da análise do tecido ósseo foi possível concluir que Ibirania realmente era uma espécie de titanossauro anão, já que os fósseis pertenciam a um animal adulto no momento de sua morte, ou seja, ele não cresceria mais ao longo de sua vida.

Tamanho estimado de Ibirania parva comparado a um humano de 1,80m. Em destaque as partes descobertas do esqueleto.

Vértebra dorsal de Ibirania parva. Imagem de Navarro et al. (2022). Escala = 10cm.

No interior de S√£o Paulo, durante o final do Per√≠odo Cret√°ceo, h√° 80 milh√Ķes de anos, caminharam muitos dinossauros pesco√ßudos de grande tamanho, e at√© gigantes, como o Austroposeidon. Mas havia algo de especial na regi√£o de Ibir√°, que favoreceu a exist√™ncia de pesco√ßudos nanicos. Diferente de outros an√Ķes que viviam em ilhas tropicais onde hoje √© a Europa, como Magyarosaurus ou Europasaurus, Ibirania vivia no interior do Brasil, em um ambiente semi-√°rido com per√≠odos chuvosos intercalados por secas intensas. Foi esse ambiente hostil, com recursos limitados periodicamente, que selecionou esses pequenos dinossaurinhos herb√≠voros, que ao inv√©s de migrar, provavelmente permaneciam residentes na regi√£o.

Ibirania √© a primeira esp√©cie comprovadamente an√£ das Am√©ricas e viveu em um contexto muito diferente dos outros dinossauros pesco√ßudos an√Ķes j√° encontrados. Ela acrescenta novas informa√ß√Ķes sobre a evolu√ß√£o dos titanossauros e tamb√©m sobre a ocorr√™ncia de nanismo em dinossauros saur√≥podes. Ibirania recebeu o apelido carinhoso de ‚ÄúBilbo‚ÄĚ, em refer√™ncia ao hobbit de “O Senhor dos An√©is”, por ser um nanico entre gigantes. Se voc√™ quiser saber todas as descobertas que este ‚Äėdinossauro-Hobbit‚Äô j√° forneceu, assista √† playlist: https://www.youtube.com/watch?v=_kH96sPGjfg&list=PLHPifkNwYyYYNFP-wvUXNti7NGkfNQ8hz.

O estudo foi publicado na revista Ameghiniana e pode ser acessado AQUI.

Assista também ao vídeo de divulgação:

Referência:

A. Navarro, B., M. Ghilardi, A. ., Aureliano, T., Díez Díaz, V., N. Bandeira, K. L., S. Cattaruzzi, A. G., V. Iori, F., M. Martine, A., B. Carvalho, A., Anelli, L. E., A. Fernandes, M., & Zaher, H. (2022). A NEW NANOID TITANOSAUR (DINOSAURIA: SAUROPODA) FROM THE UPPER CRETACEOUS OF BRAZIL. Ameghiniana, 59(5), 317-354. https://doi.org/10.5710/AMGH.25.08.2022.3477

Prehistoric Planet, o guia de episódios

Breves considera√ß√Ķes sobre cada cap√≠tulo, do litoral da Zel√Ęndia √†s florestas congeladas do Polo Norte.

Ainda d√° pra falar da s√©rie? Depois de discorrer sobre as expectativas da produ√ß√£o e minhas primeiras impress√Ķes, chegou a hora de revisitar os cinco epis√≥dios de Prehistoric Planet. A s√©rie da AppleTV+ possui uma abordagem padr√£o dos document√°rios de natureza atuais, com cada epis√≥dio focado num ecossistema, o que garante uma salada de diversidade para a tela, tanto de criaturas como de seus habitats e condi√ß√Ķes clim√°ticas. Somadas, elas perfazem o mais assombroso esfor√ßo paleoart√≠stico conjunto j√° realizado.

Resolvi rever toda a s√©rie e fazer coment√°rios breves, apenas minhas impress√Ķes, a respeito de cada epis√≥dio. Para deixar a leitura mais din√Ęmica, decidi trazer uma refer√™ncia aos document√°rios pr√©vios da BBC para cada cap√≠tulo. Em alguns casos, esses momentos claramente serviram de inspira√ß√£o √† algumas sequ√™ncias de Prehistoric Planet (ou a coincid√™ncia √© muito braba, quem garante?). Cabe a voc√™ identific√°-las enquanto assiste (e depois dizer se concorda comigo!)

Sem mais delongas, Prehistoric Planet, capítulo por capítulo:

Epis√≥dio 1 ‚Äď Costas (Coasts)

Prehistoric Planet n√£o √© uma s√©rie sobre dinossauros, √© uma s√©rie sobre a fauna de nosso planeta durante o Maastrichtiano, o finalzinho do per√≠odo Cret√°ceo. “Costas” deixa isso claro desde o princ√≠pio: os Tyrannosaurus s√£o os √ļnicos dinossauros num epis√≥dio que est√° cheio de pterossauros, plesiossauros e tartarugas.
Um episódio que se destaca por ser simplesmente o primeiro, aquele que, se assistirmos a série na ordem, representa o início da nossa viagem ao tempo. Tudo é novo, você não sabe o que esperar. Quem veio pelos clichês do gênero se surpreende com peixinhos limpando a pele de um mosassauro, amonites bioluminescentes, Tuarangisaurus engolindo pedra, e por aí vai. Prehistoric Planet não apenas almeja mostrar a vida do Cretáceo como nunca antes vista, mas se orgulha em fazer isso.

Amonite bioluminescente do epis√≥dio 1, “Costas”.

Sequ√™ncia favorita: no Norte da √Āfrica, beb√™s Alcione (A Voz do Samba) precisam fazer um voo dos rochedos onde eclodiram √†s florestas seguras, passando por um verdadeiro corredor a√©reo de predadores. Tudo aqui funciona: as paisagens s√£o lindas, a diversidade de pterossauros impressiona, os comportamentos especulativos s√£o sensacionais (os filhotes “caindo” durante o voo √© o ponto alto) e, principalmente, o trabalho dos cinegrafistas √©, no m√≠nimo, realista. Filmar aves em voo n√£o √© tarefa f√°cil, ainda mais durante persegui√ß√Ķes, e essa dificuldade √© transposta em Prehistoric Planet: perceba como as imagens do Barbaridactylus em voo s√£o tremidas, como eles saem e entram do enquadramento, √†s vezes fora de foco, tal qual um falc√£o seria filmado hoje em dia. Sublime.

O que n√£o gostei: aqui temos os √ļnicos momentos de toda a s√©rie em que o CGI claramente me pareceu CGI. Alguns movimentos dos r√©pteis marinhos n√£o me soaram naturais, especialmente a aus√™ncia de qualquer mudan√ßa de dire√ß√£o da cabe√ßa dos mosassauros. Mas nada foi mais artificial do que quando as imagens de recifes de corais reais deram lugar, abruptamente, a recifes de CGI.

Parece que, enquanto assistia a Blue Planet, alguém mudou de canal e colocou em Procurando Nemo.

Momento “j√° vi isso na BBC”:

Epis√≥dio 2 ‚Äď Desertos (Deserts)

O epis√≥dio sobre as regi√Ķes des√©rticas do planeta vem como um perfeito ant√≠doto pra quem sentiu falta de dinossauros no epis√≥dio anterior: temos aqui o maior n√ļmero de cabe√ßas por minuto de proje√ß√£o – s√≥ a sequ√™ncia do o√°sis asi√°tico tem mais figurantes que uns 3 epis√≥dios juntos. Lawrence da Ar√°bia, vers√£o cret√°cea.

Hadrossauros n√īmades (duas vezes!), pequenos especialistas do deserto, duelos de saur√≥podes e at√© mesmo lagartinhos garantem uma sequ√™ncia mais impressionante que a outra, ainda que, como de costume, pouco seja explicado para al√©m do que os dinossauros est√£o fazendo. Prehistoric Planet n√£o almeja ser o tipo de document√°rio did√°tico cheio de informa√ß√Ķes sobre o mundo, daqueles que a professora passava pra gente na escola. √Č uma obra muito mais contemplativa, art√≠stica. E, nesse quesito, a s√©rie acerta em cheio.

Mononykus retratato no epis√≥dio “Desertos”.

Sequ√™ncia favorita: mais uma vez, temos a prova da qualidade audiovisual de Prehistoric Planet logo de cara. No meio do deserto, Dreadnoughtus se re√ļnem para disputar acesso √†s f√™meas de maneira extremamente violenta, praticamente uma vers√£o terrestre de elefantes-marinhos. O grande macho l√≠der est√° sujo de areia; no inevit√°vel embate com um concorrente, a gente consegue enxergar o p√≥ lan√ßado ao ar a cada tranco que o bicho d√°, um detalhe m√≠nimo, mas que nos lembra do alt√≠ssimo n√≠vel da anima√ß√£o. Sem falar os efeitos sonoros bizarr√≠ssimos usados durante toda a sequ√™ncia. Fino, coisa fina.

O que não gostei: embora seja um comportamento notável (e visto e revisto em outros documentários com o caso das sépias-gigantes do sul da Austrália), a cena das estratégias reprodutivas peculiares do Barbaridactylus perde ponto pelo antropomorfismo exagerado, em minha opinião (mais sobre isso, abaixo).

Momento “j√° vi isso na BBC”:

Epis√≥dio 3 – √Āgua Doce (Freshwater)

Ap√≥s rever a s√©rie inteira, confirmei minhas impress√Ķes iniciais: esse √© meu epis√≥dio favorito. Acredito que aqui temos um √≥timo equil√≠brio entre criaturas “wtf?!” pulando (literalmente) na tela e bichos mais conhecidos vistos sob uma nova perspectiva. Se, por um lado, os famosos Velociraptor e Tyrannosaurus fazem uma reprise, somos brindados com um Deinocheirus flatulento e um grupinho fofo de Masiakasaurus (talvez um dos √ļnicos bichos que n√£o foi exibido na divulga√ß√£o pr√©via do document√°rio).

Mas preciso dizer, o tema do epis√≥dio √© ainda mais vago que os demais: apesar de se referir como ‚Äú√°gua doce‚ÄĚ, a tal da √°gua s√≥ t√° ali pra servir de plano de fundo e conectar frouxamente minidramas do mundo natural. A aus√™ncia de crocodilos, um grupo extremamente diverso durante o Cret√°ceo, tamb√©m n√£o faz muito sentido.

M√£e Quetzalcoatlus e seu ninho, no epis√≥dio “√Āgua Doce”.

Sequ√™ncia favorita: os pterossauros em Prehistoric Planet roubam todas as cenas. Mesmo com uma bela sequ√™ncia envolvendo uma m√£e Quetzalcoatlus, por√©m, nada bate a arrepiante descida de tr√™s Velociraptor num desfiladeiro, atr√°s de… mais pterossauros, disparada minha cena favorita de toda a s√©rie. O neg√≥cio √© t√£o bem feito que realmente parece algo filmado hoje em dia; o fato de o ‚Äúataque final‚ÄĚ ter sido filmado numa tomada longa em plano aberto, com os bichinhos bem pequeninos e distantes, √© s√≥ uma pequena parte disso. Quem j√° viu as in√ļmeras cenas de leopardos-das-neves em document√°rios sabe que n√£o √© f√°cil filmar ca√ßadas completas em escarpas e penhascos, e a emula√ß√£o dessa limita√ß√£o t√©cnica em Prehistoric Planet foi s√≥ mais uma nota do seu primor t√©cnico.

E, convenhamos, ver os Velociraptor usando suas penas como vantagem para saltos mais longos é simplesmente impagável.

O que não gostei: a sequência dos Elasmosaurus, que fecha o episódio, é um tanto confusa geograficamente (ora parece que eles sobem o rio, ora que estão descendo), e não chega no mesmo nível de tudo o que foi mostrado antes. Não é necessariamente ruim, mas, para mim, serviu como um anticlímax.

Momento “j√° vi isso na BBC”:

Epis√≥dio 4 ‚Äď Mundos Congelados (Ice Worlds)

Ainda hoje, mesmo dentro da academia (experi√™ncia pr√≥pria), muitas pessoas vivem sob o antigo dogma de que dinossauros s√£o lagart√Ķes de sangue frio, limitados a uma exist√™ncia em √°reas tropicais, √ļmidas e quentes. Um epis√≥dio inteiro dedicado √† fauna cret√°cica das altas latitudes joga um banho de √°gua fria (R√Ā!) nessa vis√£o, nos apresentando uma cole√ß√£o extraordin√°ria de dinossauros na neve. Como padr√£o quando o tema √© regi√Ķes sazonais, o quarto epis√≥dio se desenrola no ritmo das esta√ß√Ķes, come√ßando no in√≠cio da primavera e terminando com as nevascas de inverno.

E sim, aqui temos o recorde de ornitísquios de Prehistoric Planet, com cinco formas diferentes dando as caras. O Olorotitan provavelmente reina soberano, e sua sequência é facilmente uma das mais bonitas de toda a série.

Troodont√≠deo usando fogo para ca√ßar durante o epis√≥dio “Mundos congelados”.

Sequ√™ncia favorita: embora o duelo final entre Pachyrhinosaurus e Nanuqsaurus seja o cl√≠max perfeito, em termos t√©cnicos e narrativos, para mim, toda e qualquer coisa que envolva a Ant√°rtida j√° √© um destaque, ent√£o fico com o jovem Australopelta em busca de um ref√ļgio no inverno. Al√©m de possuir ecos diretos de Esp√≠ritos da Floresta de Gelo, meu epis√≥dio favorito de Caminhando com Dinossauros, acho que devemos lembrar que sempre √© bom ver representa√ß√Ķes dos rar√≠ssimos anquilossauros gondw√Ęnicos.

O que não gostei: nada realmente problemático, mas achei a sequência original envolvendo Edmontosaurus e Dromaeosauridae um tanto genérica e previsível. Os Dromeosaurídae, por outro lado, são os Maniraptora mais bonitos da série (desculpa, Corythoraptor).

Momento “j√° vi isso na BBC”:

Epis√≥dio 5 ‚Äď Florestas (Forests)

Das selvas do que √© hoje a Argentina √†s florestas dec√≠duas autunais do Extremo Oriente, o Planeta Pr√©-hist√≥rico era um Planeta Verde (Green Planet, ah l√° o Attenborough fazendo jab√° pra ele mesmo). Ao tratar de florestas, esse talvez seja o mais did√°tico dos epis√≥dios, com brev√≠ssimas men√ß√Ķes √† sucess√£o ecol√≥gica, papel ecol√≥gico do fogo e mudan√ßa de esta√ß√Ķes.

Mesmo assim, esse foi o com o qual menos me identifiquei (e veja abaixo o porquê). Pelo menos temos o Brasil, representado aqui pelo belíssimo Austroposeidon, da região de Presidente Prudente, SP.

Anquilossaur√≠deo que aparece no epis√≥deo “Florestas”.

Sequ√™ncia favorita: eu tenho uma queda por Abelisauridae, posso passar horas vendo as propor√ß√Ķes bizarras de bichos como o Majungasaurus, Aucasaurus e, claro, o Carnotaurus. Mas tamb√©m posso fazer isso com os Azhdarchidae, e como torci o nariz pra um pequeno detalhe envolvendo o Carnotaurus, minha sequ√™ncia favorita ficou com o gigante Hatzegopteryx dando um rol√™ pelas florestas pr√©-hist√≥ricas da Transilv√Ęnia. Os pequenos Zalmoxes s√£o um detalhe √† parte. O √ļnico contra √© essa cena ter acabado t√£o r√°pido!

O que n√£o gostei: criaturas antropomorfizadas t√™m sido comuns (infelizmente) em boa parte dos document√°rios atuais, e em Prehistoric Planet, n√£o poderia ser diferente. Na minha interpreta√ß√£o, esse epis√≥dio traz mais momentos emotivos do que todos os outros. √Č o Carnotaurus visivelmente frustrado, o beb√™ Therizinosaurus admirado com o adulto e a m√£e Triceratops apreensiva com sua filhote perdida na caverna. Passa a impress√£o de que o simples fato de os Triceratops adentrarem uma caverna n√£o seja espetacular o bastante, precisa ser inserido um drama narrativo (e que nos distrai do que realmente √© importante). Ainda que n√£o chegue a um n√≠vel Disney de bobose, esses artif√≠cios narrativos soam um bocado exagerados (e a trilha sonora contribui muito com isso), caminhando na contra m√£o do realismo proposto pela s√©rie.

Momento “j√° vi isso na BBC”:

Um breve adendo: a m√ļsica da s√©rie

Eu sou um grande reclam√£o das trilhas sonoras dos document√°rios atuais. Para mim, elas s√£o altas, onipresentes e sem inspira√ß√£o, m√ļsicas compostas com o claro e √ļnico intuito de gerar emo√ß√Ķes. Logo, j√° esperava que ia encontrar esse problema aqui, mas fui surpreendido positivamente: em algumas sequ√™ncias, √© poss√≠vel apreciar o sil√™ncio, o som do ambiente e dos animais.

Mas, quando presente, a trilha soa gen√©rica demais. Em alguns casos, at√© lembra as de um filme de super-her√≥i (a pr√≥pria m√ļsica t√≠tulo pode ter sa√≠do de um filme da Marvel). Essas caracter√≠sticas negativas ficaram ainda mais claras quando me lembrei da m√ļsica de Caminhando com Dinossauros, que de gen√©rica n√£o tem nada, e percebi como ela foi importante para deixar a s√©rie de 1999 t√£o atmosf√©rica, at√© meio sombria.

Felizmente algu√©m tamb√©m notou isso, pois descobri uma sequ√™ncia de Prehistoric Planet com a m√ļsica de Caminhando com Dinossauros substituindo a original. Olha a diferen√ßa!

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Link para meu texto sobre expectativa da série: https://www.blogs.unicamp.br/colecionadores/2022/04/20/de-caminhando-com-dinossauros-ate-prehistoric-planet/

Link para meu texto sobre primeiras impress√Ķes da s√©rie, e sua inspira√ß√£o: https://www.blogs.unicamp.br/colecionadores/2022/06/05/prehistoric-planet-um-baita-exercicio-de-especulacao/¬†

Prehistoric Planet est√° na Apple TV+: https://tv.apple.com/us/show/prehistoric-planet/umc.cmc.4lh4bmztauvkooqz400akxav

Descrição do Austroposeidon magnificus: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0163373

Sépias espertas: https://www.youtube.com/watch?v=KT1-JQTiZGc&ab_channel=BBCEarth

Leopardo-das-neves: https://www.youtube.com/watch?v=GgDHvl1wD20&ab_channel=WildFilmsIndia

The Green Planet: https://www.youtube.com/watch?v=3G1arGl8RvA&ab_channel=BBC