Vai um Táquion aí?

A que ponto chega a charlatanice (negritos meus):

Introdu√ß√£o √† energia de Tachyon, os produtos da Galaxy N¬ļ1 e uma sabedoria muito antiga

Por diversos anos a Galaxy N¬ļ1 tem produzido os primeiros produtos europeus Tachyon. Desde 1998, estes produtos s√£o conhecidos internacionalmente como produtos Terra Tachyon. Os produtos constroem um campo constante da energia Tachyon ao redor deles, com sua habilidade de atrair e focalizar esta energia.

O f√≠sico americano Gerald Feinberg foi a primeira a pessoa a predizer e definir a exist√™ncia dos Tachyons em 1964. Escolheu o termo tachyon,¬† da palavra grega tachys ‘rapidamente’ e¬† √≠on ‘mover’. Isto para definir as part√≠culas subat√īmicas hipot√©ticas que viajam mais rapidamente do que a velocidade de luz. Estas part√≠culas s√£o conhecidas por n√£o ter nenhuma massa, mas conter a energia. De acordo com as defini√ß√Ķes mais atrasadas, Tachyons √© um tipo da energia c√≥smica livre, que nos cercam e a nosso planeta em toda parte e que normalmente permeia a mat√©ria continuamente. A defini√ß√£o da Galaxy N¬ļ1 de Tachyons expande a compreens√£o desta palavra como tamb√©m tendo uma consci√™ncia independente e sendo portadores da informa√ß√£o do universo. Sua habilidade de viajar aos cantos distantes do universo em um instante, os faz onipresente.

Com nossos produtos não há nenhum risco de over-dose porque seu corpo aprende como usar os Tachyons. Isto se dá pela integração do princípio criativo da árvore da vida no processo de alterar os materiais. A árvore da vida é um símbolo antigo e poderoso da Kabbala.

A Fabricação dos produtos Terra Tachyon

Muitos perguntam como o conhecimento para produzir produtos Tachyon foi gerado e porque n√£o √© mais conhecido. A resposta √© muito simples: (1) Primeiramente, a exist√™ncia dos Tachyons √© ainda cientificamente controversa. (2) Em segundo, a informa√ß√£o de fundo da Galaxy N¬ļ1 n√£o veio das vias normais: √© baseada na informa√ß√£o canalizada. Voc√™ √© bem-vindo a ler mais sobre canalizar e o significado tipo do trabalho para a Galaxy N¬ļ1, em outra parte deste site.

Apoiado por seres espirituais elevados, n√≥s desenvolvemos o procedimento de Tequence. Este √© um processo t√©cnico e energ√©tico que altera subst√Ęncias como o vidro, a seda, o metal, os l√≠quidos e mesmo a espuma de borracha em um centro de drop-in (em gota) terreno (pequenos portais que os trazem a nossa realidade f√≠sica) para permitir a energia c√≥smica dos Tachyons.

Este processo altera permanentemente a estrutura molecular e energética destes materiais. Com exceção da espuma de borracha, os materiais nunca perderão sua nova qualidade. Mesmo que o material quebre, ou danifique permanecerá a trabalhar como uma antena para os Tachyons.

(…)

Tachyons pode trazer a informa√ß√£o do futuro. Por isso s√£o capazes de permitir ao seres humanos a liberar seu passado e realizar seus potenciais. Este √© reconhecido agora como um processo interdimensional, visto que d√° credibilidade √†s recentes teorias da ci√™ncia (tais como a teoria das Super cordas), que reconhece at√© 12 dimens√Ķes na estrutura at√īmica, e v√™ o “tempo” como uma fus√£o de passado e do futuro.

“Ah… Renan… mas ningu√©m √© est√ļpido, ou ing√™nuo, o suficiente para gastar dinheiro com isso!”

Au contraire, caro leitor. H√°, sim, gente disposta a desperdi√ßar dinheiro com esse tipo de lixo. Mas nem precisa ir t√£o longe quanto esse produtos de “T√°quions”.

Filtros Magnetizadores de √Āgua, Filtros com Infravermelho, Colch√Ķes e Paumilhas com √ćm√£s, Purificadores de Ar que “emitem √≠ons Negativos”, Secadores de Cabelo com √ćons s√£o todos produtos que alardam propriedades absurdas e que s√£o bastante comprados pelos consumidores ing√™nuos.

Essas coisas me deixam revoltado… como n√£o tive esse tipo de id√©ia antes?

Quanta ‘Qu’oisa Qu√Ęntica, n√£o?

Sempre digo que “F√≠sica Qu√Ęntica” virou uma palavra-coringa para se falar de coisas que n√£o se faz id√©ia do que s√£o. “I don`t know how it works, but it’s surely quantum!”. Com o lan√ßamentos de “filmes” (seria mais preciso cham√°-los de mockumentaries, mas…), como Quem Somos N√≥s e O Segredo, a F√≠sica Qu√Ęntica virou sin√īnimo de doideira m√≠stica. Mas n√£o s√≥ isso. Essa “populariza√ß√£o” fez com que qualquer coisa que envolvesse probabilidades e incertezas fosse automaticamente atribu√≠da √† F√≠sica Qu√Ęntica.

Na Inglaterra, uma poeta resolveu criar poemas construídos aleatoriamente com a ajuda de ovelhas. Cada ovelha foi pintada com uma palavra e, de acordo com os ritmos de movimento e descanso dos animais, os poemas são escritos. Da BBC [1]:

A North East writer has been given a grant of £2,000 to use sheep to create random poems, which also utilise the deepest workings of the universe.

The money has been provided by Northern Arts for Valerie Laws to create a new form of “random” literature.

Each of the animals has a word from a poem written on their backs and as they wander about the words take a new poetic form each time they come to rest.

But the exercise is not just an attempt to create living poems, it is also, according to the poet, an exercise in quantum mechanics.

The animals being sprayed belong to farmer Donald Slater of Whitehouse Farm Centre, Morpeth, in Northumberland.

Mrs Laws, 48, said: “I like the idea of using living sheep to create a living poem, and creating new work as they move around.
“Quantum mechanics is a branch of physics which a lot of people find hard to understand, as it seems to go against common sense.
“Randomness and uncertainty is at the centre of how the universe is put together, and is quite difficult for us as humans who rely on order.
“So I decided to explore randomness and some of the principles of quantum mechanics, through poetry, using the medium of sheep.”
Mrs Laws created a poem for the project, based on the traditional Japanese haiku form of poetry.
Each sheep had a word from the poem sprayed on their back, and when they came to rest a new text was created.
Farmer Donald Slater said: “After last year’s devastation (of foot-and-mouth) we all needed cheering up and this might just do it.”
A spokesman for Northern Arts called the scheme “an exciting fusion of poetry and quantum physics”.
One of the poems created by the sheep reads:
Warm drift, graze gentle, White below the sky, Soft sheep, mirrors, Snow clouds.

Na parte que grifei lê-se:

“Ent√£o eu decidi explorar a aleatoriedade e alguns princ√≠pios da Mec√Ęnica Qu√Ęntica, atrav√©s da poesia, usando as ovelhas como meio.”

Explora√ß√£o de aleatoriedade pode at√© ser, mas est√° longe de se relacionar de qualquer maneira, mesmo metaforicamente, com Mec√Ęnica Qu√Ęntica. At√© porque todo mundo sabe que os √ļnicos animais sujeitos a efeitos qu√Ęnticos s√£o os gatos.

De outro artigo [2], dessa vez sobre esportes:

“Every year, each team has just as much chance to win every game as it does to lose every game,” Morris said. “It’s called quantum physics and the laws of chance and probability. Thirty-one other teams have already gone down in flames. But the Titans have a 50-50 chance each week to win, and those chances never improve beyond 50-50, because on any given Sunday, anyone can win. As long as you keep that in perspective, you have a chance to win every game.”

A vit√≥ria de um time est√° relacionada com acaso e probabilidades mas nem um pouco com F√≠sica Qu√Ęntica. Bem, h√° alguns casos de Tunelamento de times de futebol brasileiros para a primeira divis√£o quando deveriam ser rebaixados, mas isso √© totalmente metaf√≥rico.

Mas n√£o podemos rir apenas da ignor√Ęncia estrangeira. Aqui vai uma p√©rola de uma atriz brasileira [3]. N√£o √© exatamente sobre F√≠sica Qu√Ęntica, mas √© prov√°vel fruto da leitura desses livros mistic√≥ides qu√Ęnticos de gosto duvidoso:

Quais são os outros? A amorosa reprodução. Quando você gera um filho amorosamente, você se sente Deus, sabe? Você é mãe?

Não. As pessoas não querem mais ser mãe. Se você for, vai ver. Vai entender o lado divino do ser humano e vai passar para uma segunda dimensão. Os físicos falam isso, não é?

Pois é caro leitor, você era uma Reta e nem sabia disso. Vai ver é algum tipo de metáfora para o quanto as mulheres engordam depois que tem filhos. Sei lá.

√Č claro que existem utiliza√ß√Ķes e cita√ß√Ķes bem piores, principalmente as vindas dos meios “intelectuais” (Qwa Qwa Qwa). Mais dessas coisas ficar√£o para outra hora. O que j√° ouvi de Psic√≥logo (ah, como eles gostam do Quem Somos N√≥s…) e “Cientista” Social falando besteira em nome da F√≠sica Qu√Ęntica, Teoria do Caos, Fractais…

[1] Encontrado no blog do Michael Nielsen.

[2] Encontrado no Physics and Physicists.

[3] Enviado por uma amiga.

Pipocas de Celular?

O leitor deve ser um dos quazilh√Ķes de pessoas que assistiram ao v√≠deo abaixo do YouTube em que tr√™s amigos usam seus celulares para estourar pipocas. Se voc√™ acreditou no v√≠deo, meus parab√©ns. Voc√™ √© oficialmente um trouxa.

Wired traz uma mat√©ria em que o F√≠sico Louis Bloomfield comenta o Fen√īmeno. N√£o que fosse realmente necess√°rio. Se as ondas emitidas pelos celulares transferissem energia o suficiente para estourar um caro√ßo de pipoca em 20 segundos, imagine a quantidade de pessoas com queimaduras severas ap√≥s telefonarem!

As pessoas deveriam pensar um pouco mas antes de aceitar toda besteira que assistem nos tubos. Se para cada besteira espalhada pela internet for necessário que um Físico se movimente para refutar, eles não vão fazer mais nada na vida.

Guia da Prática Impostora, Lição 112: A Exaltação do Irrelevante

Caro Leitor,

√Č notavel a incr√≠vel quantidade de novos produtos fabricados todos os anos que simplesmente n√£o funcionam da forma como s√£o anunciados. Um exemplo s√£o os in√ļmeros produtos para emagrecimento.  H√°, inclusive, certa parcela que alarda capacidades terap√™uticas e medicinais a partir de propriedades que s√£o simplesmente in√≥cuas.

A li√ß√£o de hoje se destina aos adeptos desse tipo de impostura industrial. Vamos aprender como se faz para, em face da pouqu√≠ssima cultura cient√≠fica da popula√ß√£o em geral, fazer algumas montanhas de dinheiro.

Analizemos os famosos jarros/bebedouros/filtros magn√©ticos, por exemplo este:

Com refil filtrante, que e purifica a √°gua e elimina o cloro, o filtro magnetizador ainda magnetiza a √°gua, proporcionando propriedades ben√©ficas a sa√ļde. Al√©m disso √© de f√°cil limpeza, pr√°tico e higi√™nico.
A √°gua imantada proporciona:
Рuma melhora da circulação sanguínea, diminuindo a fadiga e o cansaço;
– o melhor funcionamento dos rins, bexiga e sistema digestivo;
– qualidade f√≠sico-qu√≠mica do sangue, ajudando a combater o colesterol, √°cido √ļrico, triglic√©rides, glicose e creatina.

Vamos por partes.

De forma simples, o que significa imantar/magnetizar um material?

Considere as mol√©culas de uma material qualquer. Elas possuem uma propriedade chamada Momento de Dipolo Magn√©tico (que pode ser natural ou induzido). Vamos representar essa propriedade por uma setinha em cada mol√©cula.

Quando um campo magn√©tico (de um im√£, por exemplo) √© aplicado ao material, suas mol√©culas tender√£o a se alinhar com o campo. Se a subst√Ęncia √© Paramagn√©tica as setinhas apontam no mesmo sentido do campo (ou paralelamente), mas se √© Diamagn√©tica as setinhas apontam no sentido contr√°rio (ou antiparalelamente). A esse alinhamento, tanto paralelo com antiparalelo, damos o nome de Magnetiza√ß√£o.

Entretanto, a Magnetiza√ß√£o n√£o √©, nem de longe, perfeita. As mol√©culas de um material se movimentam aleatoriamente, se chocando umas com as outras e com as paredes do recipiente, que chamamos de Agita√ß√£o T√©rmica.

Nos s√≥lidos as mol√©culas se movimentam pouco, praticamente s√≥ vibram em torno de uma posi√ß√£o. Nos L√≠quidos, e em grau maior nos Gases, as mol√©culas est√£o livres para se movimentar.

Ent√£o, quando aplicamos o campo magn√©tico, as mol√©culas tender√£o a alinhar suas setinhas com o campo. Por√©m, elas continuam se movimentando e se chocando o tempo todo, perdendo continuamente seu alinhamento com o campo. Quanto maior a intensidade do campo aplicado, maior √© a tend√™ncia ao alinhamento e menor √© o efeito da Agita√ß√£o T√©rmica. Num s√≥lido, com um campo forte o suficiente, √© relativamente f√°cil magnetizar a boa parte das mol√©culas. Mas num L√≠quido ou G√°s isso √© muito dif√≠cil em condi√ß√Ķes ambiente.

Quando, ent√£o, retiramos o campo magn√©tico, o efeito da Agita√ß√£o T√©rmica se torna dominante e o material √© rapidamente desmagnetizado. Exceto por algumas subst√Ęncias, tipicamente s√≥lidos, que pondem manter a magnetiza√ß√£o por um grande per√≠odo de tempo mesmo depois da retirada do campo, sendo chamadas de Ferromagn√©ticas.

Agora podemos avaliar o que acontece com a √°gua magnetizada:

  • A √°gua √© uma subst√Ęncia Diamagn√©tica, ou seja, suas “setinhas” alinham-se antiparalelamente ao campo magn√©tico.

  • Por ser um l√≠quido, a magnetiza√ß√£o que adquire est√° longe de significativa para campos de baixa intensidade, como o de um im√£ pequeno.

  • Quando retiramos a √°gua da influ√™ncia do campo magn√©tico ela perde rapidamente sua magnetiza√ß√£o j√° que ela n√£o √© uma subst√Ęncia Ferromagn√©tica.

Ora, evidentemente, para bebermos a √°gua do filtro devemos retir√°-la do mesmo e coloc√°-la num copo, ou algo equivalente.

E o que acontece? A √°gua do copo n√£o est√° mais sob influ√™ncia do campo magn√©tico do im√£ que est√° no filtro, suas “setinhas” n√£o tendem mais a ficar alinhadas com o campo, ou seja, magnetizadas. Ent√£o a √°gua perde sua magnetiza√ß√£o assim que a colocamos no copo para beb√™-la. Ent√£o para todos os efeitos, inclusive biol√≥gicos, ela nunca esteve magnetizada.

O que n√£o impede os fabricantes desses filtros de alardarem a “√Āgua Magnetizada” como uma panacea. O que eles n√£o falam √© que ela estar√° magnetizada apenas, no m√°ximo, enquanto estiver DENTRO do filtro, ent√£o pouco importa se a √°gua magnetizada cura realmente alguma coisa, j√° que a √°gua que voc√™ beber√° n√£o estar√° magnetizada.

Existe outra infinidade de produtos como o acima. Fazem quest√£o de anunciar que funcionam por tais e tais processos, e que emitem tais e tais “ondas”, e curam tais e tais doen√ßas, mas no fim s√£o, quase completamente, in√ļteis.

S√£o eles: os Colch√Ķes “Magn√©ticos”, os Secadores de Cabelo com “√ćons” ou “Infravermelho”, Filtros com “Infravermelho”, Purificadores de ar que emite “√ćons Negativos” e outros.

Entretanto, o leitor pode argumentar: “Mas eu tenho o Produto X que voc√™ falou e ele funcionou muito bem comigo. Estou mais Saud√°vel/Bonito/Rico, ent√£o o Produto X funcionou, certo?

ERRADO!

Todo impostor desenvolve seu produto para parecer que funciona. Para mais detalhes leia a Li√ß√£o 314 deste guia.

Ent√£o lembre-se, querido impostor, que voc√™ deve sempre atribuir ao seu produto propriedades incr√≠veis devido a mecanismos que o p√ļblico n√£o faz id√©ia do que significam, citando, quando poss√≠vel, termos cient√≠ficos inintelig√≠veis aos leigos.

Ignor√Ęncia √© Dinheiro deve ser o mote de todo impostor eficiente.

Agora mãos à massa. Façam os seguintes exercícios para praticarmos os conceitos dessa lição.

Exerc√≠cio 1: Voc√™ precisa anunciar um produto feito de “mol√©culas inst√°veis” e outro que emite “Quarks Charm de Alta Energia”. Atribua-lhes qualidades que atrairiam potenciais compradores.

Exerc√≠cio 2: Determinado produto diz aumentar as capacidades ps√≠quicas dos usu√°rios. Descreva seu funcionamento.

Coloquem suas respostas para os exerc√≠cios nos coment√°rios abaixo.

Até a próxima lição.

Guia da Prática Impostora, Lição 314: Validação Seletiva

Caro Leitor,

Benvindos a mais uma lição do Guia da Prática Impostora. Na lição de hoje veremos mais um dos métodos ao qual você, pequeno impostor, deve estar antento ao desenvolver e popularizar sua impostura.

√Č evidente que sua Impostura n√£o funciona de verdade, afinal n√£o a chamar√≠amos de Impostura se ela funcionasse. Contudo, mais importante que ela funcionar, devemos tomar medidas para que nossos clientes tenham certeza que ela funcionou com eles. Assim, nossa impostura pode ser espalhada no “boca-a-boca” a despeito do que os c√©ticos chatos possam falar.

√Č sabido que n√≥s, humanos, tendemos a favorecer, em nossa mem√≥ria, acontecimentos que validam nossa vis√£o de mundo e que tendemos a favorecer as observa√ß√Ķes sobre um fen√īmeno que se adequam ao que esper√°vamos. Em outras palavras: n√≥s contamos os acertos e esquecemos os erros.

Qualquer impostura que dependa da confirma√ß√£o do p√ļblico-alvo deve valer-se desse fato. Nossa estrat√©gia √© fazer com que o p√ļblico se lembre de quando a impostura funcionou e se esque√ßa de quando ela falhou. Chamaremos isso de Valida√ß√£o Seletiva.

Aliás, é bem possível que você mesmo, pequeno impostor, tenha sido vítima de um efeito semelhante enquanto desenvolvia sua impostura.

Chamemos ent√£o de Observa√ß√£o Seletiva quando o impostor escolhe os “dados bons” de uma experi√™ncia de acordo com o que se esperava dele. √Č uma t√°tica interessante porque no fim o impostor s√≥ mostrar√° os “dados bons” ao p√ļblico, que n√£o ter√° motivos para desconfiar. Bom, exceto por aquele punhado de c√©ticos chatos espalhados por ai. A Observa√ß√£o Seletiva nem sempre √© consciente, por isso que em muitos testes de medicamentos, por exemplo, usam-se grupos de controle e testes duplo-cegos para evitar esse tipo de efeito. Mas n√£o se preocupe, querido impostor, n√≥s n√£o precisamos desse tipo de precau√ß√£o em nossa imposturas.

Tome o seguinte exemplo:

Desde o lan√ßamento do document√°rio “Quem Somos N√≥s?” (talvez mesmo antes) um certo cientista foi al√ßado √† notoriedade. Masaru Emoto teria descoberto que a forma de cristais de √°gua era afetada por palavras escritas em pap√©is que eram colados nos frascos onde estavam.

Ent√£o, os cristais no frasco escrito “Voc√™ me deixa doente, eu vou te matar” se formariam bastante deformados (abaixo, √† esquerda), enquanto os do frasco em que estava escrito “Obrigado” se formariam perfeitamente (abaixo, √† direita).

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Aprenda com o senhor Emoto, pequeno impostor. Ele, muito provavelmente, j√° tinha em sua mente o que queria achar. Emoto acreditava que a consci√™ncia, as inten√ß√Ķes e os sentimentos seriam capazes de interferir com o mundo externo. Ent√£o ele estava, mesmo que inconscientemente, propenso a favorecer oberva√ß√Ķes que confirmavam aquilo que esperava.

Numa √ļnica gota de √°gua congelada, se formam uma quantidade enorme de cristais. Ao olharmos atrav√©s de um microsc√≥pio ver√≠amos uma infinidade de cristais diferentes e de forma alguma seria dif√≠cil encontrar entre eles um que se adequasse √† hip√≥tese inicial. E tendo em vista que valorizamos aquelas observa√ß√Ķes que concordam conosco e ignoramos as que nos contradizem, a hip√≥tese de Emoto est√° confirmada. Por ele mesmo √© claro.

E se não era ele quem manipulava os microscópios? Pode-se perguntar. Ora, considerem que eram assistentes que observavam os cristais pelo microscópio e os fotografavam, se eles sabiam a conclusão a que o senhor Emoto queria chegar, eles, mesmo inconscientemente, favoreceriam aqueles cristais que confirmassem suas espectativas. Ou você afirmaria tão facilmente que seu empregador estaria errado.

Pois bem, com todos esses defeitos metodol√≥gicos (incluindo ainda a falta de um grupo de controle) a impostura de Masaru Emoto prosperou. O p√ļblico-alvo n√£o se importa com esse pequenos detalhes, ent√£o a Observa√ß√£o Seletiva de Emoto acabou se mostrando uma vantagem no concorrido mundo das imposturas (rendendo in√ļmeros livros, por exemplo).

Mas a Observa√ß√£o Seletiva n√£o esgota o assunto desta li√ß√£o. Veremos agora alguns casos em que √© a Valida√ß√£o Seletiva do p√ļblico-alvo que entra em a√ß√£o. Dois exemplos s√£o o bastante para ilustrar o quanto o c√©rebro humano √© capaz de ajudar-lhe, caro impostor, na propaga√ß√£o de imposturas.

Tomemos como primeiro exemplo as descri√ß√Ķes de personalidades que podemos encontrar em livros de astrologia. Imaginemos que uma pessoa cujo signo astrol√≥gico seja G√™meos. Ela abre o livro no cap√≠tulo dedicado a tal signo. Lendo o texto, √© certo que ela se identificar√° com a maioria das caracter√≠sticas ali presentes (incluindo os defeitos). Enquanto se ela ler o cap√≠tulo de outro signo, digamos Escorpi√£o, n√£o estar√° t√£o disposta a aceitar como verdadeiras para si as caracter√≠sticas daquele signo.

Ora, ser√° ent√£o que as descri√ß√Ķes feitas pelo livro s√£o t√£o precisas assim? √Č um fato, que pode ser averiguado por qualquer um, que esse tipo de livro √© escrito da forma mais gen√©rica poss√≠vel (quanto menos incisiva for uma afirma√ß√£o mais dif√≠cil dela ser considerada falsa) e as caracter√≠sticas (qualidades e defeitos) se distribuem e se repetem mais ou menos uniformemente. H√° igual probabilidade de uma pessoa se identificar ou n√£o com qualquer um dos signos ao l√™-lo sem saber de qual deles se trata.

Praticamente a partir do nascimento, √© martelado na cabe√ßa de cada um de n√≥s o signo a que “pertencemos” e dessa forma somos inconsientemente levados a favorecer e considerar v√°lidos aqueles textos que falam explicitamente de nosso signo. E mais uma impostura prospera. J√° viu a quantidade de livros que existem sobre astrologia? (Ali√°s, livros e imposturas possuem uma liga√ß√£o bastante estreita, mas isso fica para outra li√ß√£o).

Outro exemplo pode ser encontrado nas chamadas “Medicinas Alternativas“. Todos j√° ouviram falar de dezenas de receitas “caseiras” para curar resfriados e gripes. Ora, √© tamb√©m sabido que resfriados e gripes comuns costumam ser curados naturalmente pelo corpo dentro de uma semana. Algumas “medicinas alternativas” se valem desse fato para sua prolifera√ß√£o.

O c√©rebro humano √© √≥timo para associar rela√ß√£o de causa entre dois eventos quaisquer que se sucedam no tempo, ou seja, se um evento B aconteceu logo depois de um evento A, √© comum que nosso c√©rebro considere que A causou B. Ent√£o, se fizermos uso de alguma “medicina alternativa” l√° pelo sexto dia do resfriado, no s√©timo ou oitavo dia, quando o resfriado ceder, estaremos condicionados a aceitar que aquela medida que tomamos foi o que curou o resfriado. Mas se fizermos uso da mesma “medicina alternativa” no primeiro ou segundo dia do resfriado e ela n√£o fizer efeito (ignorando o Efeito Placebo) n√£o consideraremos aquilo como uma falha. Como ela j√° “funcionou” antes com tanta gente, n√≥s simplesmente ignoraremos a falha.

Ent√£o, nobre aspirante a impostor, se quiser que sua impostura seja um sucesso, fique atento para que ela explore a Valida√ß√£o Seletiva do p√ļblico-alvo, como os exemplos acima o fazem. Assim, n√£o importa o que aqueles c√©ticos chatos falem, se o p√ļbico achar que “se comigo funcionou √© verdade” sua impostura possui grandes chances de figurar entre as mais bem sucedidas.

Agora mãos à massa. Façam os seguintes exercícios para praticarmos os conceitos dessa lição.

Exercício 1: Pense em quantas vezes algo que você sonhou alguma noite se realizou no dia seguinte ou num dia próximo. O que você pode concluir disso?

Exercício 2: Agora pense em quantos sonhos você teve que NÃO se realizaram no dia seguinte ou num dia próximo. O que você pode concluir disso?

Exerc√≠cio 3: Pense em quantas de suas “preces” foram atendidas. O que voc√™ pode concluir disso?

Exerc√≠cio 4: Pense em quantas de suas “preces” N√ÉO foram atendidas. O que voc√™ pode concluir disso?

Coloquem suas respostas para os exercícios nos comentários abaixo.

Até a próxima lição.

~6,02 x 10²³ motivos para rejeitar a Homeopatia

Será que há qualquer argumento em defesa dessa prática que é simplesmente absurda dos pontos de vista físico, químico e biológico? Veremos que não.

Mas, para começarmos, o que é a Homeopatia, afinal? Segundo o site da Associação Médica Homeopática Brasileira (AMHB), a Homeopatia:

√Č um m√©todo de tratamento criado pelo m√©dico alem√£o Samuel Hahnemann, em 1796, que se fundamenta na Lei dos Semelhantes, citada pelo Pai da Medicina Hip√≥crates no ano 450 a.C. Segundo esta lei, os semelhantes se curam pelos semelhantes, isto √©, para tratar um indiv√≠duo que est√° doente √© necess√°rio aplicar um medicamento que apresente (quando experimentado no homem sadio) os mesmos sintomas que o doente apresenta.

Exemplificando: Se uma pessoa s√£ ingerir doses t√≥xicas de certa subst√Ęncia, ir√° apresentar sintomas como dores g√°stricas, v√īmitos e diarr√©ia; se, por outro lado, for administrada essa mesma subst√Ęncia, preparada homeopaticamente, ao enfermo que apresenta dores g√°stricas, v√īmitos e diarr√©ia, com caracter√≠sticas semelhantes √†quelas causadas pela subst√Ęncia em quest√£o, obt√™m-se, como resultado, a cura desses sintomas.

Hummm… ent√£o a Homeopatia √© um tratamento criado h√° mais de 200 anos baseado numa “Lei” de Hip√≥crates de 2450 anos atr√°s, quando a medicina apenas engatinhava? Putz…

Um dos preceitos mais fundamentais, depois da “cura pelos semelhantes” (que¬†faz t√£o pouco sentido que n√£o vou nem me dignar a comentar), √© a Dilui√ß√£o da subst√Ęncia do futuro medicamento

Mas como funciona essa Dilui√ß√£o? √Č um princ√≠pio da Homeopatia (para n√£o dizer Dogma) que quanto mais diluida uma subst√Ęncia maior √© o efeito posterior.

Tomemos uma subst√Ęncia¬†W. H√° dois m√©todos de Dilui√ß√£o: num deles faz-se dilui√ß√Ķes sucessivas em 1 parte de W para 10 partes de √°gua, noutro m√©todo as dilui√ß√Ķes s√£o de 1 parte de W para cada 100 partes de √°gua. Como para fins de argumenta√ß√£o ser√° irrelevante qual o m√©todo escolhido, vou utilizar o primeiro.

Suponhamos que eu tenho certa quantidade de W. A primeira coisa a fazer √© dilu√≠-la em 10 partes de √°gua. Essa √© a primeira dilui√ß√£o ou 1X (o “X” nos diz que a dilui√ß√£o √© de 1 para 10, a dilui√ß√£o de 1 para 100 √© denotada “C”).

Agita-se a solu√ß√£o. Retira-se a d√©cima parte da solu√ß√£o e dilui-se em outras 10 partes de √°gua.¬†Temos 2X. √Č f√°cil notar que temos em cada parte dessa segunda solu√ß√£o aproximadamente 100 vezes menos subst√Ęncia que originalmente, ou seja, continuamos com 1 cent√©simo¬†das mol√©culas que t√≠nhamos anteriormente.

Retiramos uma décima parte da nova solução e repetimos o processo sucessivamente até a diluição desejada. Então, teremos:

  • 3X¬†: Um mil√©simo dos √°tomos originais ou 1/1000.

  • 4X : 1/10000

  • 5X : 1/100000

E assim em diante diminuindo em dez vezes a concentra√ß√£o da subst√Ęncia W original.

Agora vem o pulo: uma concentra√ß√£o comum¬†para medicamentos homeop√°ticos √©¬†30X, ou 30 dilui√ß√Ķes sucessivas. O que isso significa? Que esperamos ter:

1/1000000000000000000000000000000

da subst√Ęncia original.

Mas e se tivermos um mol da subt√Ęncia original, ou seja, cerca de 6,02 x 10¬≤¬≥ √°tomos da subst√Ęncia W?¬†Na 24¬į dilui√ß√£o possivelmente j√°¬†ter√≠amos¬†¬†cerca de um √°tomo do soluto na solu√ß√£o inteira. E na 30¬į solu√ß√£o¬†ter√≠amos¬†UMA chance em¬†UM Milh√£o de existir UMA mol√©cula da subst√Ęncia W na solu√ß√£o.

Mas isso √© bobagem perto de outras solu√ß√Ķes homeop√°ticas. Algumas dilui√ß√Ķes alcan√ßam a incr√≠vel marca de 200C, ou seja, a subst√Ęncia W seria sucessivamente dilu√≠da em¬†100 partes¬†de¬†√°gua¬†por 200 vezes. No final ter√≠amos 1 parte de subst√Ęncia para 100200 ou 10400 de √°gua (1 seguido de 400 zeros). Segundo nossa conta anterior, ter√≠amos ent√£o¬†UMA chance¬†em 10376 de encontrarmos UMA mol√©cula da subst√Ęncia W na solu√ß√£o!!!

Ora, como a Homeopatia pode ter qualquer efeito se n√£o sobra nem sombra da subst√Ęncia original? Como pode haver efeito molecular na aus√™ncia de mol√©culas? Ora, N√ÉO H√Ā EFEITO ALGUM ou ser√° que toda¬†a F√≠sica e Qu√≠mica estar√£o erradas?

Pense no seguinte caso: pegamos um mol de HCl e fazemos uma solução 200C. Em seguida, misturamos a solução à um mol de NaOH. Algum de vocês acha que se formaria alguma molécula de NaCl?

Entretanto, segundo esse princ√≠pio da homeopatia deveriam ser formados at√© mais mol√©culas de NaCl que o normal, afinal a dilui√ß√£o torna a subst√Ęncia mais potente, ou n√£o? Ser√° que essa “pot√™ncia” n√£o tem a ver com a capacidade de reagir com outras subst√Ęncia? N√£o √© nisso que est√° baseado todo conhecimento m√©dico atual?

Mas um bom impostor nunca desiste, n√£o √©?¬†Os Homeopatas, para escaparem desse beco sem sa√≠da, postulam uma misteriosa “Mem√≥ria da √Āgua”, que¬†√© t√£o misteriosa quanto ris√≠vel.

Guia da Prática Impostora, Lição 231: Quote Mining

Caro Leitor,

Apresento agora um passo importante para ingressar no maravilhoso mundo da impostura. Não se preocupe caso não possua experiência anterior, prometo ser o mais didático possível. Posso até desenhar. O importante é que essa lição seja aprendida devidamente.

Considerarei que voc√™ j√° possui uma Impostura pronta, e que seguiu todas as li√ß√Ķes anteriores. Mas para o caso de ter come√ßado a leitura deste guia por esta li√ß√£o, procurarei apresentar diversos exemplos ilustrativos de como aplic√°-la para que n√£o se perca no processo.

Muito bem. Voc√™ acabou de criar sua impostura novinha em folha — que n√£o seja muito original, afinal, um impostor que se preze apenas recicla id√©ias antigas. N√£o estamos aqui para criar nada novo ou explicar nenhum fen√īmemo novo, os cientistas j√° fazem isso — e precisa agora de alguns elementos para autentific√°-la e dar-lhe credibilidade?

Ora, at√© que seria poss√≠vel fazer com que cientistas famosos escrevessem algumas palavras gentis sobre sua impostura, mas sabemos que dificilmente fariam isso j√° que s√£o muito chatos, sempre preocupados com “a avalia√ß√£o dos resultados experimentais”, “a concord√Ęncia com a realidade observ√°vel” e outros mitos.

Mas que tal fingirmos que eles falaram bem de sua impostura? Ou pelo menos que falaram algo que serve de apoio para ela? Como se faz isso? Pelo processo de Quote Mining.

O Quote Mining √© uma express√£o inglesa que pode ser traduzida como Minera√ß√£o de Cita√ß√Ķes e que consiste em selecionar, dentre um grande n√ļmero, uma cita√ß√£o de determinado autor que, ao ser analisada fora de contexto, pare√ßa dizer algo totalmente diferente do que o autor dizia originalmente. Tamb√©m pode ser chamado de Cherry Picking ou Contextomy. Essa pr√°tica pode estar misturada √†s fal√°cias do Espantalho e Argumento √† Autoridade.

Difícil? Vamos para um exemplo:

Todos devem conhecer a frase de Einstein:

A Religião sem a Ciência é cega, a Ciência sem a Religião é aleijada,

usada frequentemente para afirmar que Einstein de alguma forma apoiava a Religião Institucionalizada. Mas o trecho completo é este:

Even though the realms of religion and science in themselves are clearly marked off from each other, nevertheless there exist between the two strong reciprocal relationships and dependencies. Though religion may be that which determines the goal, it has, nevertheless, learned from science, in the broadest sense, what means will contribute to the attainment of the goals it has set up. But science can only be created by those who are thoroughly imbued with the aspiration toward truth and understanding. This source of feeling, however, springs from the sphere of religion. To this there also belongs the faith in the possibility that the regulations valid for the world of existence are rational, that is, comprehensible to reason. I cannot conceive of a genuine scientist without that profound faith. The situation may be expressed by an image: science without religion is lame, religion without science is blind.

Though I have asserted above that in truth a legitimate conflict between religion and science cannot exist, I must nevertheless qualify this assertion once again on an essential point, with reference to the actual content of historical religions. This qualification has to do with the concept of God. During the youthful period of mankind’s spiritual evolution human fantasy created gods in man’s own image, who, by the operations of their will were supposed to determine, or at any rate to influence, the phenomenal world. Man sought to alter the disposition of these gods in his own favor by means of magic and prayer. The idea of God in the religions taught at present is a sublimation of that old concept of the gods. Its anthropomorphic character is shown, for instance, by the fact that men appeal to the Divine Being in prayers and plead for the fulfillment of their wishes.

Publicado em “Out of My Later Years” (1950)

Ou, para os leitores pouco familiarizados com o inglês:

Apesar dos reinos da religião e da ciência serem claramente demarcados separados um do outro, ainda assim existe entre eles fortes dependências e relacionamentos recíprocos. Apesar de ser a religião que determina seus objetivos, ela aprendeu com a ciência, no mais amplo senso, quais meios contribuirão para alcançar esses objetivos. Mas a ciência só pode ser criada por aqueles que estão profundamente carregados com a aspiração pela verdade e pela compreensão. A fonte desse sentimento, entretanto, vem da esfera da religião. A ela também pertence a fé na possibilidade que as regras válidas para o mundo da existência são racionais, isto é, compreensíveis pela razão. Eu não posso conceber um cientista sem esta profunda fé. A situação pode ser ilustrada por uma imagem: ciência sem religião é aleijada, religião sem ciência é cega.

Apesar de ter afirmado acima que, na verdade, um conflito leg√≠timo entre religi√£o e ci√™ncia n√£o pode existir, eu devo, entretanto, qualificar essa afirma√ß√£o mais uma vez num ponto essencial, com refer√™ncia ao conte√ļdo real das religi√Ķes hist√≥ricas. Essa qualifica√ß√£o tem a ver com o conceito de Deus. Durante o per√≠odo juvenil da evolu√ß√£o espiritual da humanidade, a fantasia humana criou deuses √† sua pr√≥pria imagem, que, pela opera√ß√£o de suas vontades, deveriam determinar, ou de alguma forma influenciar, o mundo dos fen√īmenos. O Homem procurava alterar a disposi√ß√£o desses deuses em seu favor por meio de magias e preces. A id√©ia de Deus nas religi√Ķes ensinadas atualmente √© uma sublima√ß√£o daquele velho conceito de deuses. Sua personalidade antropom√≥rfica √© revelado, por exemplo, pelo fato de que a humanidade apela ao Ser Divino em preces e imploram pela realiza√ß√£o de seus desejos.

O trecho completo mostra que Einstein queria dizer, basicamente, o contrário do que a citação isolada parecia afirmar, já que mesmo a definição de religião do texto parece ser diferente daquela comumente utilizada. Entretanto, nada impede que tomemos certa liberdade criativa de separar a frase de seu contexto e usá-la para os propósitos que quizermos, certo?

Àqueles que ainda não conseguiram compreender o processo de Quote Mining, mostrarei um outro exemplo. Não se preocupem. Não os censuro. Eu sei que o processo de criação da Impostura é intelectualmente exaustivo.

Muitos são os Criacionistas que utilizam, em seus argumentos contra a Teoria da Evolução, a seguinte frase escrita por Charles Darwin em A Origem das Espécies:

To suppose that the eye, with all its inimitable contrivances for adjusting the focus to different distances, for admitting different amounts of light, and for the correction of spherical and chromatic aberration, could have been formed by natural selection, seems, I freely confess, absurd in the highest possible degree.

The Origin of Species, 1st Edition, Chapter 6, pp. 186-7

Ou:

Supor que o olho, com seus inimit√°veis mecanismos para ajustar o foco para diferentes dist√Ęncias, para controlar a entrada de diferentes quantidades de luz, e para corre√ß√£o de aberra√ß√Ķes esf√©ricas e crom√°ticas, possam ter sido formadas pela sele√ß√£o natural parece, eu confesso, absurdo no mais alto grau poss√≠vel.

Tal cita√ß√£o pode ser usada, mais espec√≠ficamente, para apoiar a hip√≥tese de Michael Behe da “Complexidade Irredut√≠vel” do olho humano. Hip√≥tese que n√£o encontra qualquer apoio na Biologia moderna, e por isso mesmo precisamos fazer parecer que at√© mesmo Darwin apoiaria tal id√©ia.

O trecho n√£o para ali, mas continua:

Yet reason tells me, that if numerous gradations from a perfect and complex eye to one very imperfect and simple, each grade being useful to its possessor, can be shown to exist; if further, the eye does vary ever so slightly, and the variations be inherited, which is certainly the case; and if any variation or modification in the organ be ever useful to an animal under changing conditions of life, then the difficulty of believing that a perfect and complex eye could be formed by natural selection, though insuperable by our imagination, can hardly be considered real.

Ou:

Ainda assim a Raz√£o me diz que se numerosas gradua√ß√Ķes, de um olho perfeito e complexo a um muito imperfeito e simples, mas com cada grau sendo √ļtil ao seu possuidor, puderem ter sua exist√™ncia mostrada; se al√©m disso, o olho variar apenas levemente, e as vari√ß√Ķes forem herdadas, o que √© certamente o caso; e se cada varia√ß√£o ou modifica√ß√£o no org√£o for √ļtil ao animal sob mudan√ßas em suas condi√ß√Ķes de vida, ent√£o a dificuldade de acreditar que um olho complexo e perfeito pode ser formado por sele√ß√£o natural, apesar de insuper√°vel por nossa imagina√ß√£o, pode dificilmente ser considerada real.

E continua por outras tr√™ p√°ginas a tratar desse assunto. Podemos ver que Darwin n√£o considerava o olho “irredutivelemente complexo” como a cita√ß√£o parecia afirmar. O que realmente n√£o importa para quem esta usando a cita√ß√£o, n√£o √© mesmo?

Até aqui espero ter deixado claro como o Quote Mining funciona. Mas como fazer na prática? Como fazer parecer que algum cientista aprova nossa Impostura? Não se inquiete pequeno Impostor. Observe o esquema abaixo (Clique para ampliar):

quote-mining.gif

N√£o existe possibilidade de erro se seguirmos as instru√ß√Ķes acima. Mas se mesmo assim voc√™ n√£o conseguir executar o Quote Mining corretamente n√£o se preocupe. Existem outras formas de fazer sua impostura parecer cientificamente leg√≠tima, que abordaremos em li√ß√Ķes futuras.

Agora mãos à massa. Façam os seguintes exercícios para praticarmos os conceitos dessa lição.

Exercício 1: Imagine que sua impostura diga que todas as doenças são causadas pelo baixo consumo de água, e que todas elas podem ser curadas apenas aumentado a quantidade de água ingerida diariamente. Use o mecanismo aprendido nessa lição para encontrar uma citação que apóie sua afirmação.

Exerc√≠cio 2: Encontre cita√ß√Ķes, atrav√©s do mecanismo aprendido nessa li√ß√£o, de Bi√≥logos especializados na Teoria da Evolu√ß√£o que ap√≥iem a impostura criacionista.

Exerc√≠cio 3: Encontra cita√ß√Ķes, atrav√©s do mecanismo aprendido nessa li√ß√£o, que ap√≥iem uma impostura de sua pr√≥pria cria√ß√£o.

Coloquem suas respostas para os exercícios nos comentários abaixo.

Até a próxima lição.

Se a Física não concorda com você, modifique a Física!

O que uma pessoa normal faria se, ao desenvolver uma determinada argumentação, esbarrasse em um pequeno detalhe: as Leis da Física não apoiam seus argumentos?

√Č de se esperar que a pessoa modifique seu argumento de forma que n√£o mais v√° de encontro √† F√≠sica, ao menos se ela quiser ser levada minimamente a s√©rio.

Mas o que o Impostor faria?

Modificaria a Física é claro!

Em 20 de Julho de 1969 quando a Apollo 11 pousou na superf√≠cie lunar, marcando “um grande salto para a humanidade”, marcou tamb√©m uma nova classe de conspiracionistas: aqueles que diziam que a Nasa havia forjado o pouso da Apollo 11 e, ap√≥s algum tempo, das outras 5 miss√Ķes (Apollo 12, 14, 15, 16 e 17) que tamb√©m levaram tripulantes √† Lua. Esses conspiracionistas nunca tiveram muito espa√ßo. Isto √©, at√© o advento da Internet e de sua capacidade de dar espa√ßo a todo tipo de lun√°tico (com o perd√£o do trocadilho).

Um desses é André Basílio, o autor do site A Fraude do Século. Dentre a grande quantidade de erros que Basílio comete, abrangendo diversas áreas, encontra-se um que chama à atenção pelo absurdo de sua construção.

Observe a foto abaixo (clique para ampliar) :

Bas√≠lio argumenta que a Penunbra vista na foto, no traje do astronauta, √© uma prova da fraude das miss√Ķes lunares porque, pasmem, n√£o existe forma√ß√£o de penumbra na Lua porque ela n√£o possui atmosfera! N√£o, voc√™ n√£o leu errado. Confira abaixo o trecho do site em que Bas√≠lio comete essa p√©rola:

(…)

Agora, note como s√£o perfeitas as defini√ß√Ķes de sombra na roupa do astronauta Edwin Aldrin sendo que, na Lua, n√£o h√° refra√ß√£o da luz. Ou seja, n√£o existe penumbra. Ou a sombra √© total (totalmente preta), ou n√£o h√° sombra. Penumbras como estas, perfeitamente vis√≠veis na roupa de Aldrin, s√£o imposs√≠veis de existirem na Lua porque na Lua n√£o h√° atmosfera. E s√£o os gases existentes na atmosfera os respons√°veis pelas penumbras no nosso planeta.

(…)

Como √© que funciona a refra√ß√£o? Para ficar mais f√°cil de voc√™ entender, utilize a sua m√£o pr√≥xima ao tampo de uma mesa. Veja como √© a sombra de sua m√£o incidindo sobre a mesa. Aproxime a sua m√£o do tampo da mesa e perceba que a sombra passa a ficar mais escura. Aproxime mais ainda, quase encostando a sua m√£o na mesa e voc√™ ver√° que a sombra ficou ainda mais escura. Se voc√™ fizer isso √† noite, com uma luz acesa, voc√™ ver√° que a tend√™ncia √© de se criar uma sombra t√£o escura que fique imposs√≠vel conseguir ver a mesa com perfei√ß√£o quanto mais pr√≥xima da mesa estiver a sua m√£o. Por qu√™ isso acontece? √Č devido √†s part√≠culas de oxig√™nio (e outros gases) existentes no ar. Quando a sua m√£o est√° mais distante da mesa, h√° uma sombra, mas voc√™ ainda consegue enxergar esta parte da mesa com perfei√ß√£o. Isto ocorre porque a luz que incidiria diretamente sobre a mesa foi barrada pela sua m√£o. Mas, parte da luz ainda conseguiu chegar √† mesa porque entre a sua m√£o e a mesa existem part√≠culas de oxig√™nio; e a luz que estava incidindo, de cima para baixo, conseguiu fazer uma pequena curva, atrav√©s da refra√ß√£o da luz, uma vez que uma part√≠cula iluminada de oxig√™nio conseguiu iluminar, em menor escala, uma part√≠cula de oxig√™nio ao lado, que refletiu esta luminosidade para outra part√≠cula, para outra, outra, at√© que chegasse ainda um pouco de luz na mesa. Portanto, com sua m√£o um pouco distante da mesa, voc√™ v√™ a sombra da sua m√£o, mas ainda consegue enxergar a parte da mesa na qual h√° a sombra. Mas, quanto mais perto sua m√£o fica da mesa, menos part√≠culas de oxig√™nio existem para refletir a luz. Ent√£o, a sombra fica mais escura. Portanto, esta √© a explica√ß√£o sobre a forma√ß√£o da penumbra no nosso planeta, que existe devido √†s part√≠culas de gases existentes no ar. Mas, e na Lua? Por qu√™ n√£o deveria haver penumbra na Lua? Simplesmente porque na Lua n√£o existe atmosfera. Muito menos oxig√™nio! N√£o h√° g√°s algum sobre a superf√≠cie lunar, o que impede que haja penumbra. Portanto, se a foto acima possui penumbra, pode ter certeza que ela n√£o foi tirada na Lua! Foi tirada na Terra! No nosso pr√≥prio planeta! E nos fizeram todos de trouxas!

(…)

Ou seja, segundo Bas√≠lio √© o fen√īmeno da Refra√ß√£o da Luz o respons√°vel pela forma√ß√£o da penumbra, e como a Refra√ß√£o ocorre devido reflex√£o da luz nas mol√©culas da atmosfera, e como a Lua n√£o possui atmosfera n√£o √© poss√≠vel haver Penumbra na Lua. Brilhante n√£o?

Mas completamente ERRADO!

O surgimento de penumbra n√£o t√™m qualquer rela√ß√£o com a refra√ß√£o da luz, fen√īmenos que Bas√≠lio parece n√£o conhecer j√° que sua explica√ß√£o, e a suposta liga√ß√£o entre os dois, n√£o passa nem perto da verdade.

As sombras s√£o formadas quando um corpo se encontra no caminho da luz emitida por uma fonte qualquer, seja primaria ou secund√°ria. Quando a fonte √© pontual, ou seja, √© possivel desprezar suas dimens√Ķes, a sombra formada √© completamente escura. Entretanto, quando a fonte √© extensa a sombra formada √© composta de duas partes distintas: uma escura, a Umbra, e uma clara, a Penumbra. Note que em nenhum momento √© necess√°ria a presen√ßa de atmosfera para a forma√ß√£o de penumbra, o √ļnico pr√©-requisito para o fen√īmeno √© a presen√ßa de uma fonte de luz extensa.

Mas quais as fontes extensas que iluminam a Lua?

Primeiramente o Sol. Assim como sombras formadas aqui na Terra devido √† luz solar apresentam penumbra, tamb√©m o fazem as formadas na Lua. O Sol n√£o est√° a uma dist√Ęncia suficientemente grande para que o consideremos como fonte pontual. Como fontes extensas secund√°rias (fontes de luz refletida) podemos citar a reflex√£o da luz solar no solo lunar e a na pr√≥pria atmosfera da Terra . Essa ultima, a prop√≥sito √© a respons√°vel por podermos, √†s vezes, perceber mais nitidamente a parte da Lua n√£o iluminada pelo Sol nas fases Crescente e Minguante.

Ora, e a refra√ß√£o? O fen√īmeno da refra√ß√£o ocorre quando a luz passa de um meio de propaga√ß√£o para outro (do ar para a √°gua, por exemplo) o que, devido √† mudan√ßa de velocidade de propaga√ß√£o (que depende do meio), provoca altera√ß√£o na dire√ß√£o de propaga√ß√£o da luz. Mas pode ocorrer refra√ß√£o sem mudan√ßa de meio? Sim, desde que o meio possua “camadas” com, por exemplo, densidades diferentes, fazendo com que a luz tenha velocidades diferentes para cada camada do meio. Entretanto, n√£o h√° diferen√ßas significativas de densidade no ar entre sua m√£o e uma mesa. E muito menos a refra√ß√£o t√™m qualquer rela√ß√£o com a reflex√£o da luz nas mol√©culas de g√°s da atmosfera.

Enfim, Basílio ou erra feio ao tentar definir penumbra, refração etc ou mente descaradamente apenas para tentar convencer seus leitores (tipicamente adolescentes com um forte sentimento anti-EUA), menos familiarizados com a Física, de que a ida do Homem à Lua foi uma farsa. Mentir para provar que algo é uma mentira parece não ser contraditório para Basílio afinal.

Ali√°s, se Bas√≠lio comete um erro t√£o b√°sico de F√≠sica de Ensino M√©dio, como algu√©m pode confiar nas outras informa√ß√Ķes, ou “provas”, de que as miss√Ķes √† Lua foram forjadas?

Uma análise mais completa pode ser encontrada no site Projeto Ockham, com refutação de boa parte dos argumentos conspiracionistas.

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