A morte de Yuri Gagarin

Faltando 7 km para tocar o solo, o Astronauta sovi√©tico Yuri Gagarin ejetou da sua c√°psula na Vostok 1, abriu seu paraquedas e desceu com seguran√ßa at√© o ch√£o. Um fazendeiro e sua filha se espantaram ao encontrar aquela criatura com roupa espacial. “N√£o se assustem, sou cidad√£o sovi√©tico. Preciso fazer uma liga√ß√£o para Moscou” .

Gagarin se tornou her√≥i nacional (e mundial, sua turn√™ incluiu o Brasil em duas ocasi√Ķes). Ap√≥s o acidente fatal da Soyouz 1, foi afastado do programa espacial sovi√©tico e entrou para a pol√≠tica.

Em tempos de guerra fria, nem todas informa√ß√Ķes eram confi√°veis.

Para a Federa√ß√£o Internacional de Avia√ß√£o, os sovi√©ticos disseram que o astronauta pousou dentro da Vostok. Para evitar a revela√ß√£o da localiza√ß√£o de bases secretas, o local do lan√ßamento tamb√©m foi trocado nas divulga√ß√Ķes. E ainda h√° quem acredite que o Ortod√≥xo Yuri Gagarin realmente falou que foi ao c√©u e n√£o viu Deus.

Em 27 Março de 1968, o Mig-15 tripulado por Gagarin e Vladimir Seryogin se acidentou. Os dois morreram.

O acidente levantou muitas suspeitas. A explica√ß√£o oficial √© que os tripulantes do Mig receberam informa√ß√Ķes incorretas sobre as condi√ß√Ķes clim√°ticas. A outra explica√ß√£o oficial diz que a aeronave precisou desviar de um objeto n√£o identificado. P√°ssaros ou um bal√£o meteorol√≥gico. Conspiracionistas sugeriram que Gagarin precisou desviar de um OVNI de origem extraterrestre. Ou que foi assassinado pelo Governo.

A verdade (ou n√£o) foi revelada em 2014.

Alexei Leonov, primeiro homem a realizar uma atividade extraveicular no espaço, amigo e colega de Gagarin, estava no mesmo local em que ocorreu o acidente, e finalmente pode falar o que realmente aconteceu.

Um Sukhoi que também estava agendado para voar naquele dia, não seguiu o correto procedimento de voo ficando muito abaixo da altura que deveria estar.

O Su-15 passou em alta velocidade fazendo com que o Mig de Yuri Gagarin entrasse em uma espiral até se chocar com o chão.

Leonov conta que, enquanto esperava a ordem de cancelamento, devido ao mau tempo, de um teste de paraquedismo, ouviu o som caracter√≠stico de um jato supers√īnico, e logo em seguida, um som de explos√£o. No relat√≥rio oficial foi publicado que o intervalo entre os sons foi de mais de 20 segundos.

Também segundo Leonov, há uma gravação do General Zapolskiy com o piloto do Sukhoi, que confirmaria o erro humano como causa do acidente.

A identidade do piloto que causou o acidente foi mantida em segredo. O mistério agradece.

Ciência em Show no The Noite

Com fogo, eletricidade e explos√Ķes o pessoal do Ci√™ncia em Show animou a noite da ultima Quinta, dia 29, no talk show The Noite do Danilo Gentili. Para ver (ou rever) as experi√™ncias e dar boas risadas com o lado divertido da Ci√™ncia √© s√≥ dar o play.

The Race for Space

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Depois de usar os antigos filmes de utilidade p√ļblica para as composi√ß√Ķes do primeiro √°lbum, Inform – Educate – Entertain, a banda inglesa Public Service Broadcasting lan√ßou no come√ßo do ano seu segundo √°lbum, ambientado na Corrida Espacial.

The Race for Space tem cada uma de suas faixas inspirada em algum evento histórico que marcou a disputa pelo espaço entre EUA e URSS nos anos 60.

O instrumental do Public Service Broadcasting se mistura com as grava√ß√Ķes originais do famoso discurso de Kennedy, do primeiro voo de Yuri Gagarin em √≥rbita da Terra, e de momentos do Projeto Apollo, incluindo o acidente fatal na Apollo 1.

A faixa Go (que voc√™ pode ouvir logo abaixo) √© inspirada no √°pice da Corrida Espacial, quando em 1969 a Apollo 11 cumpriu a miss√£o de pousar os primeiros humanos na Lua, e usa as grava√ß√Ķes do protocolo Go/No Go que o Controle da Miss√£o utilizava para garantir que todos os sistemas estavam em ordem, antes de realizar algum procedimento.

Um dos maiores mistérios da humanidade foi solucionado e a resposta é melhor que aquela que todo mundo imaginava

Separando a regi√£o dos famosos e a dos casinos, entre a Calif√≥rnia e Nevada, est√° o Death Valley National Park. Al√©m de preservar as esp√©cies do oeste americano tamb√©m preservava um dos maiores mist√©rios da humanidade (segundo as listas de “maiores mist√©rios da humanidade”, da lista de “melhores listas”).

Numa região de 7 km² do Death Valley, chamda de Racetrack Playa, pedras caminham.

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O cenário é o seguinte: um lago seco, pedras, e rastros. Nenhuma evidência de interferência de humano ou animal. As pedras se movem sozinhas.

Especularam que as pedras deslizavam sobre pedaços de gelo. Especularam que fossem fortes ventos, e até calcularam qual seria a velocidade necessária pra movimentar as pedras. E, claro, especularam a atividade de seres extraterrestres.

S√£o as especula√ß√Ķes que alimentam os mitos, mas tamb√©m s√£o elas que n√£o deixam sossegar os curiosos.

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No começo do ano, a equipe do pesquisador Chuck Richard Norris conseguiu pela primeira vez na história observar as pedras se movimentando. Spoiler: não são extraterrestres empurrando.

Trivial at√© para um padre, cada GPS colocado nas pedras foi preparado para automaticamente registrar qualquer movimento. C√Ęmeras em¬†time lapse porque¬†pics or didn’t happen. E uma esta√ß√£o meteorol√≥gica, pra cruzar os dados dos movimentos com os dados das condi√ß√Ķes do local.

Disseram que ele estava na pior seria o experimento mais chato de todos os tempos. Norris esperava ver resultados em 5 ou 10 anos, mas com apenas 2 anos de observação, seu grupo conseguiu ser o primeiro a observar as pedras se movimentando.

Melhor que isso. Eles estavam l√° quando aconteceu!

Os dados mostraram que algumas pedras se movimentaram por até 16 minutos e algumas chegaram a percorrer até 65 metros. A velocidade das pedras ficou em torno de 2 a 5 metros por minuto. Bastante difícil de ser percebida sem algum ponto de referência, o que pode explicar porque ninguém havia visto antes.

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No dia 21 de Dezembro de 2013, perto do meio dia, o barulho do gelo se quebrando tomou conta do ambiente. Richard olhou para Jim, que al√©m de co-autor √© seu sobrinho (ou √© seu sobrinho al√©m de co-autor…), e disse: “√Č isso!”

Chove, e um lago com cerca de 10 cm de profundidade se forma. Com a noite fria, uma fina camada de gelo √© criada. Na manh√£ seguinte, o gelo come√ßa a derreter e se quebrar em placas com espessura de poucos mil√≠metros. O vento e o fluxo da √°gua empurram as placas de gelo, eeeee as placas de gelo empurram as pedras, que acabam deixando um rastro no solo √ļmido. Quando o lago seca, sobram as pedras e, agora n√£o mais misteriosos, rastros.

√Č interessante notar que a velocidade do vento √© inferior a necess√°ria para mover sozinho as pedras, e que a placa de gelo √© muito fina para que uma pedras pudesse deslizar sobre ela. √Č o conjunto de fatores que torna o evento poss√≠vel, e tamb√©m raro.

Diferente dos casos de OVNI’s, a sequ√™ncia de fotos mostra uma das pedras se movendo. Veja:

Link para o artigo aqui, e para o comunicado de imprensa aqui.

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Uma viagem pessoal (no tempo)

Ano de Copa do Mundo, países ameaçando guerras, e os fãs de Ciência no Brasil aguardando ansiosamente a estreia de Cosmos. Não, não estou falando de hoje. Estou falando de Abril de 1982.

Na capa do Jornal do Brasil de 24 de Abril de 82, junto da treta entre Argentina e Inglaterra pelas Falklands, de um novo pacote econ√īmico do governo e dos treinos do Flamengo, a chamada para a mat√©ria do Caderno B (incluindo um resumo de cada um dos treze epis√≥dios) sobre a estreia de Cosmos.

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O primeiro epis√≥dio de Cosmos foi exibido no Domingo, √†s 23:15 (depois do seriado Dallas e do Fant√°stico). Se por um lado os cr√≠ticos gostaram da s√©rie e do conte√ļdo, por outro, v√°rias reclama√ß√Ķes sobre o hor√°rio e a periodicidade (Cosmos estava programado para ser exibido mensalmente) apareceram.

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A Globo então passou a reprisar o capítulo do Domingo no Sábado seguinte, e pela manhã. Mas por causa da Copa e do período eleitoral, Cosmos foi retirado da grade depois de apenas 3 dos 13 episódios exibidos.

A alegria daqueles que não gostavam da série acabou no dia 9 de Janeiro de 1983, quando Cosmos retornou para a programação da Globo, e dessa vez semanal, todo Domingo de manhã.

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O que também voltou foram os elogios para a série que, além de nos ensinar a fazer uma torta de maçã, está na lista de muita gente (eu) como a principal obra da divulgação científica.

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Daft Punk e o olho do Le√£o da Apollo 17

Antes de Eugene Cernan se tornar o √ļltimo humano a ter pisado na Lua. Antes de Harrison “Jack” Schmitt ter sido o √ļltimo humano a cair na Lua. E antes dos dois terem feito o √ļltimo dueto na Lua, a tripula√ß√£o da Apollo 17 avistou um objeto desconhecido.

Tripulação da Apollo 17. Da esquerda pra direita: Ronald Evans, Harrison Schmitt e Eugene Cernan

Tripulação da Apollo 17. Da esquerda pra direita: Ronald Evans, Harrison Schmitt e Eugene Cernan

Cernan: Hey, Bob, estou olhando para aquilo que o Jack estava falando, e definitivamente n√£o √© uma part√≠cula pr√≥xima, porque h√° outras que eu consigo comparar. √Č um objeto brilhante e obviamente est√° rodando, porque est√° piscando. Ele est√° distante de n√≥s, e posso dizer isso porque h√° outras part√≠culas pr√≥ximas e ele n√£o √© uma delas. Aparentemente est√° rodando em um certo ritmo, porque ele pisca de tempos em tempos. Olhando pra Terra, ele est√° √†s 11 horas. Talvez 10 ou 12 di√Ęmetro da Terra. Eu n√£o sei se √© algo bom, mas com certeza h√° algo ali.

Vencedor do Grammy 2014 na categoria Melhor √Ālbum, Random Access Memories, do Daft Punk, traz Contact (clique pra ouvir) como a faixa que fecha o √°lbum. Aquela voz no come√ßo da m√ļsica, descrevendo um objeto n√£o identificado rodando e piscando, √© justamente essa conversa do Eugene Cernan. O DJ franc√™s Falcon participou da produ√ß√£o de Contact e selecionou o trecho dentre as grava√ß√Ķes originais das miss√Ķes Apollo cedidas pela NASA.

Contact coloca a fala do Astronauta em um contexto de um avistamento de OVNI e provavelmente há conspiracionista que deve usar esse trecho como evidência da visita de seres extraterrestre. Mas, afinal, o que os Astronautas da Apollo 17 estavam vendo?

Ou n√£o.

Ou n√£o

A conversa continuou, e entre dados técnicos da missão e o resultado do jogo do Cowboys (venceram por 34 a 24, conseguindo uma vaga nos playoffs da NFC), Robert Parker (o tal Bob) do Controle da Missão pediu aos Astronautas para usarem os instrumentos ópticos da nave e determinar a posição do objeto.

Durante esse procedimento, Jack suspeitou que o objeto poderia ser um dos estágios (S-IVB) do Saturno V. Alguns minutos depois veio a confirmação de Houston.

Bob: “Isso √© para o Jack e o Gene. Calculamos a posi√ß√£o do S-IVB em rela√ß√£o ao seu eixo, e o azimute ficou dentro de um grau, muito pr√≥ximo. N√≥s calculamos que ele deveria estar, visto da janela, a 62 graus do eixo X, e voc√™ reportou 45 graus, o que √© apenas 17 graus de erro. √Č realmente perto. Sabe, √© como um movimento do olho.”

Jack: “Isso √© √≥timo. Ent√£o √© o S-IVB, n√©?”

Bob: “Ok, n√≥s… voc√™ pode checar isso dessa forma, Jack. Alinhe a estrela Denebola e Rigel… digo, Regulus; Desculpa, Regulus. Denebola e Regulus. E ent√£o, nessa linha, v√° perpendicularmente em uma linha logo acima de Regulus e ali deve estar o S-IVB. Ele forma um ponto de um tri√Ęngulo com Denebola e Regulus.”

Jack: “O que voc√™ est√° dizendo √© que ele √© o olho de Le√£o?”

Bob: “Positivo.”

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Sim, no céu tem pão

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A imagem mostra a Astronauta Peggy Whitson e o Cosmonauta Valery Korzun, na Expedição 5 da Estação Espacial Internacional, saboreando deliciosos (ou nem tanto, é o que dizem) hamburgers.

Sim, no céu tem pão. Há um tempão.

Em 1961, na Vostok 1, Yuri Gagarin levou um sandu√≠che de salame. Quatro anos depois, um “p√£o contrabandeado” na Gemini 3 causou um incidente pol√≠tico.

O Comandante Gus Grissom e o Piloto Jonh Young tinham justamente o objetivo de estudar alguns alimentos no espaço. Mas além dos alimentos listados para o teste, John levou escondido em seu bolso um sanduíche de carne.

Alimentação da Gemini 3

Alimentação da Gemini 3

O Senador George Shipley n√£o gostou. Alegando quest√Ķes de seguran√ßa, Shipley afirmou que era desagrad√°vel que depois de todo o tempo e dinheiro gastos, um dos astronautas levasse escondido para a nave um sandu√≠che.

Dr. Mueller, do Departamento de Voo Espacial Tripulado foi a primeiro a vir em defesa do Astronauta da Gemini. Afirmou que a NASA não aprovava objetos não autorizados, como sanduíches, nas espaçonaves, e que tomariam providências para evitar que isso se repetisse no futuro. Mas garantiu que o polêmico sanduíche não afetou as pesquisas que estavam sendo realizadas.

Dr. Gilruth, Diretor do Centro de Voo Espacial Tripulado em Houston tamb√©m defendeu Young, alegando que as miss√Ķes sempre foram cumpridas com sucesso e que esse tipo de brincadeira serve para quebrar o estresse dos Astronautas.

James Webb, chefão da NASA na época, ficou do lado do Senador, e o lanchinho de Jonh Young resultou em uma série de novas medidas em relação ao envio de comida ao espaço. Só comida homologada.

A Apollo 10 foi a primeira miss√£o a receber a autoriza√ß√£o para levar p√£o “em seu estado natural”. Na Apollo 11, o card√°pio dos Astronautas que pisariam pela primeira vez na Lua inclu√≠a p√£o e sandu√≠ches em fatias ou pequenos peda√ßos. Em solo lunar, o kit que Aldrin usou para realizar a Comunh√£o, al√©m do vinho e de um c√°lice, tamb√©m continha um peda√ßo de p√£o.

Mini sanduíches de "uma mordida" (em cima) e pão fatiado (em baixo). - Apollo 11

Mini sandu√≠ches de “uma mordida” (em cima) e p√£o fatiado (embaixo). – Apollo 11

Quando os tripulantes do √Ēnibus Espacial Atlantis acoplaram na Mir, em 17 de Maio de 1997, foram recebidos pelos russos com a tradicional Cerim√īnia do Bread and Salt. Como o nome sugere, p√£o e sal (e ch√°) foram servidos aos visitantes americanos.

Falando nos russos, eles também adotaram os pãezinhos em cubinhos como alternativa para as migalhas que, se já são chatas pra você que deixa cair no teclado do computador, imagina pra quem está em uma cápsula ou estação espacial.

Atualmente os americanos estão substituindo o pão tradicional por tortilhas, que não fazem migalhas, são mais fáceis de manusear na microgravidade e duram até 18 meses.

P√£ezinhos russos (acima) e o Astronauta Chris Hadfield com uma tortilha (abaixo).

P√£ezinhos russos (acima) e o Astronauta Chris Hadfield com uma tortilha (abaixo).

 

√ďrbitas, padr√Ķes e divindades

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Essa figura apareceu na minha timeline um dia desses. As páginas que estavam compartilhando diziam quer era das orbitas de Vênus e da Terra durante 8 anos. Eu achei estranho porque, pra mim, o desenho das órbitas de Vênus e da Terra durante 8 anos são só duas elipses.

Fui ver o que era isso.

A imagem foi criada por Howard Arrington, inspirado no livro A Little Book of Coincidence, de John Martineau, que trata de rela√ß√Ķes geom√©tricas. O que ela mostra, na verdade, s√£o linhas que ligam a Terra at√© V√™nus ao passar do tempo. Como os planetas completam uma volta ao redor do Sol em tempos diferentes, o padr√£o formado se repete a cada 8 anos.

Nesse vídeo o ponto médio da linha que liga os dois planetas é usado para traçar o desenho, e fica mais fácil de ver como a figura se forma.

E esses s√£o os desenhos que Arrington fez com outros planetas:

Terra e Marte

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Saturno e J√ļpiter

saturnojupiter

Terra e Merc√ļrio
terramercurio

Urano e Saturno
uranosaturno

 

Nos coment√°rios, muitos associaram a figura criada pelas linhas que ligam os dois planetas com divindades. A ideia de que somente um ser com poderes especiais, um Deus, poderia colocar os planetas nas posi√ß√Ķes “exatas” para formar os desenhos.

Aqui, as divindades somos n√≥s. √Č a geometria das √≥rbitas, a dist√Ęncia entre os dois planetas e o tempo que levam para dar uma volta em torno do Sol, que cria naturalmente os padr√Ķes, mas foi um humano que resolveu que tra√ßaria uma linha entre dois planetas, √© a nossa interpreta√ß√£o que nos faz considera-los como figuras bonitas (ou feias, eu acho o de V√™nus e da Terra mais bonito que o de Terra e Merc√ļrio, por exemplo).

As pessoas gostam de padr√Ķes e simetrias. N√£o somos rob√īs. Reconhece-los √© t√£o humano quanto uma mandala divina, ou um pentagrama sat√Ęnico.

Um pouco de Física e uma conversa com Albert Fert

Algumas tecnologias surgem para suprir alguma necessidade humana. A necessidade de armazenar cada vez mais pornografia, por exemplo, nos trouxe mídias com capacidades cada vez mais alta em tamanhos cada vez menores. Em algum momento da história, os discos rígidos magnéticos foram dominantes no mercado de computadores.

O funcionamento do HD se baseia em um fen√īmeno f√≠sico chamado de magnetorresist√™ncia gigante, descrito em 1988¬†com uma importante participa√ß√£o do F√≠sico brasileiro Mario Baibich. Em 1997, a Academia Real das Ci√™ncias da Su√©cia premiou a descoberta com o Nobel. Foram laureados¬†Albert Fert, chefe do laborat√≥rio franc√™s onde o Baibich fez a descoberta, e Peter Gr√ľnberg que obteve os resultados de forma independente na Alemanha.

Peter Gr√ľnberg e Albert Fert.

Peter Gr√ľnberg e Albert Fert.

Um sandu√≠che muito, muito fino. P√£es de material ferromagn√©tico e recheio de um material n√£o magn√©tico. Nessa configura√ß√£o, cada um dos p√£es tem uma orienta√ß√£o magn√©tica para um lado diferente (anti paralelas). Quando sandu√≠che recebe um campo el√©trico externo, as orienta√ß√Ķes se alinham (paralelas), e a resist√™ncia do sistema cai drasticamente. Isso, minha gente, √© a magnetorresist√™ncia gigante.

Na presença do campo, a orientação é paralela e a resistência cai.

Na presença do campo, a orientação é paralela e a resistência cai.

Na semana passada Fert esteve em Porto Alegre para receber da UFRGS o título de Doutor Honoris Causa. Uma das atividades do Físico francês foi uma especie de encontro com os alunos da Universidade. Uma hora, disponível para responder qualquer uma das nossas perguntas.

Entre perguntas sobre a carreira de físico e a pesquisa que levou ao prêmio, alguns pontos chamaram a minha atenção.

Acho curioso como a opini√£o do Fert sobre o pr√™mio seja muito parecida com a do Feynman, que diz no seu livro algo como o Nobel ser quase um fardo a ser carregado para o resto da vida. Fert n√£o vai t√£o longe, mas nos contou que a posi√ß√£o de “Rela√ß√Ķes P√ļblicas da Ci√™ncia” que assume todo laureado, fez com que ele tivesse que parar de dar aulas, por exemplo, algo que ele diz gostar muito por “renovar o conhecimento”.

Ainda sobre o pr√™mio, comentou que existem muitos pesquisadores bons que n√£o ganham, e que a pesquisa √© emocionante por si mesma, “explorar” o conhecimento √© divertido, um Nobel √© s√≥ “uma cereja no bolo”.

Sobre a pesquisa no Brasil, Fert falou não conhecer muito, mas destacou um ponto que eu confesso nunca ter considerado. O isolamento. Colaboração é importante na Ciência, e estar distante dos grandes centros na Europa e EUA pode ser um dificultador. Fert falou que é muito prático poder sair da França, visitar um colaborador na Alemanha, e voltar pra casa no mesmo dia.

A colabora√ß√£o com a iniciativa privada tamb√©m √© importante na vis√£o do franc√™s. Ele v√™ com entusiasmo aplica√ß√Ķes pr√°ticas para os resultados das pesquisas.

E vocês, o que acham?

Nobel da Folia

Jo√£o Paulo do Rio Branco era o Secret√°rio de Turismo do Estado da Guanabara em 1966. Uma das fun√ß√Ķes da Secretaria de Turismo do Estado da Guanabara era organizar o Carnaval da cidade do Rio de Janeiro. Uma das tarefas ao organizar o carnaval do Rio de Janeiro √© selecionar as personalidades que receber√£o o convite oficial do Governo do Estado para fazer parte das festividades.

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Jornal do Brasil – 26/01/1966

Em 1966 a lista de convites internacionais tinha nomes como Salvador Dal√≠, o 007 Sean Connery, as Princesas Ira von F√ľrstenberg e¬†Soraya Esfandiary-Bakhtiari, as atrizes Ingrid Bergman e Gina Lollobrigida, e por √ļltimo mas n√£o menos importante, um cientista vencedor do pr√™mio Nobel de F√≠sica do ano anterior, Richard Feynman.

Pipocou na imprensa internacional rumores de uma epidemia de tifo no Rio e até o Itamaraty foi acionado para tranquilizar os turistas que viriam para o Carnaval. Não sei se funcionou, mas pelo menos nenhum dos convidados oficiais utilizou a epidemia como motivo para não vir ao Carnaval.

Jornal do Brasil - 02/02/1966

Jornal do Brasil – 02/02/1966

Salvador Dal√≠ alegou compromissos profissionais. Soraya, problemas com a sa√ļde da sua m√£e. Ira, compromissos pessoais. Sean Connery e Ingrid Bergman n√£o foram vistos no Rio. E a Gina Lollobrigida, filmando em Paris, ficou em cima do muro e deixou o pessoal do Tursimo da Guanabara esperando at√© o √ļltimo dia, mas n√£o apareceu.

Jornal do Brasil - 03/02/1966

Jornal do Brasil – 03/02/1966

√Č isso mesmo que voc√™ est√° lendo. Como quando voc√™ √© uma crian√ßa, √© seu anivers√°rio, e voc√™ tem medo que ningu√©m venha na sua festinha. Ningu√©m veio.

Feynman veio. Não foi sua primeira vez no Brasil, nem no Carnaval do Rio. Ele já havia tocado frigideira em um bloco, e passou a se interessar bastante pelos instrumentos utilizados no samba. Notícias que corriam pela época falavam que um dos motivos que fizeram a sua primeira esposa pedir o divórcio foi o barulho da cuíca.

Jornal do Brasil - 04/02/1966

Jornal do Brasil – 04/02/1966

Richard e sua segunda esposa, Gweneth, seriam recebidos pelo Secretário Rio Branco e 200 passistas do Salgueiro, Mangueira, Portela e Império Serrano, ao som da Bateria da Mocidade, mas parece que as autoridades do aeroporto não permitiram. Participaram de ensaios, dos principais bailes e assistiram aos desfiles das escolas de samba.

Jornal do Brasil - 18/02/1966

Jornal do Brasil – 18/02/1966

Al√©m da “imensa saudade dessa festa grandiosa” Feynman levou na bagagem um agog√ī com a inscri√ß√£o O maior foli√£o de 1966, presente da Associa√ß√£o das Escolas de Samba.

A seguir, IBAGENS IN√ČDITAS fotos que voc√™ talvez ainda n√£o tenha visto do Carnaval em que por falta de celebridades, um f√≠sico virou a principal atra√ß√£o.

Ultima Hora - 19/02/1966

Ultima Hora – 19/02/1966

Ultima Hora - 19/02/1966

Ultima Hora – 19/02/1966

 

Jornal do Brasil - 24/02/1966

Jornal do Brasil – 24/02/1966

Ultima Hora - 23/02/1966

Ultima Hora – 23/02/1966

A prop√≥sito, Jo√£o Paulo do Rio Branco deixou a Secretaria de Turismo antes do fim daquele ano. Feynman n√£o achou que foi coincid√™ncia…