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Meu primeiro fóssil, o pai de todos.

Quando eu tinha uns 16 ou 17 anos e ainda morava na Venezuela, nas f√©rias fomos com a minha fam√≠lia para a cidade de Cucuta na Col√īmbia, que fica pr√≥xima √† fronteira. Nessas f√©rias meu pai me presenteou com um f√≥ssil de uma concha. Algum tempo depois descobri que se tratava de uma concre√ß√£o de um ammonite que viveu no Cret√°ceo da Col√īmbia, na famosa localidade de Villa de Leyva.

Ammonite, Villa de Leyva
Meu fóssil mais antigo

Na √©poca estava quase terminando o colegial, teria que ir para universidade e tinha aquele grande dilema: o que ser√° eu vou ser? Enfim, achei muito legal o presente do f√≥ssil. Na realidade, era um dos primeiros que via na minha frente e n√£o em imagens dos livros, cinema, tv… O primeiro que era tang√≠vel e era meu. Penso que esse ammonite selou a minha escolha:

Рpai quem estuda os fósseis?

РAh, são os paleontólogos.

– Bom, ent√£o j√° sei o que vou ser… (como fazer para me tornar um … isto levou mais tempo, como a Carolina j√° contou, num post).

Lembrei de toda essa história esta semana, quando estava dando a aula prática dos ammonites. Tenho um carinho especial por eles, pois graças a eles descobri muita coisa, embora nunca os tenha estudo de fato.

Mas n√£o fui s√≥ eu que fiquei maravilhada com esses f√≥sseis, eles vem encantando a humanidade desde os tempos dos eg√≠pcios. O motivo √© que o seu registro √© bem abundante ao redor do planeta, sempre associados a rochas sedimentares que se formaram em ambientes marinhos. Na verdade, foram um grupo de moluscos cefal√≥podes, hoje extinto mas muito exitoso na sua √©poca, que habitou nos mares. Eles surgiram no Per√≠odo Devoniano (400 – 360 milh√Ķes de anos atr√°s) e desapareceram junto com os dinossauros, na grande extin√ß√£o do final do Cret√°ceo (h√° 65 milh√Ķes de anos), aquela do meteorito que eu j√° comentei aqui.

Os ammonites formam um grupo de cefal√≥podes que possu√≠ram no in√≠cio uma concha plano espiral, e que com o passar do tempo modificaram o formato da concha para formas espiraladas, retas, etc. Alcan√ßaram tamanhos de poucos cent√≠metros at√© quase dois metros de di√Ęmetro, nas formas planoespirais. Eles receberam esse nome, porque os f√≥sseis das suas conchas lembram chifres enrolados, que na √©poca do imp√©rio eg√≠pcio foram atribu√≠dos ao deus Ammon e que, ali√°s, eram considerados provas irrefut√°veis da passagem dessa divindade pela terra, segundo conta Her√≥doto nas suas cr√īnicas acerca do Egipto que foram escritas 500 anos antes de Cristo.

Os Ammonoides podiam nadar livremente e controlavam com grande precis√£o a profundidade na qual habitavam nos mares, pois as suas conchas foram divididas internamente em c√Ęmaras que se comunicavam umas com outras por meio de um canal interno, de modo que o animal conseguia encher com l√≠quido ou gases as diferentes c√Ęmaras e, por conseguinte, subir ou descer na coluna de √°gua, calcula-se que at√© uns 500 metros de profundidade ou mais. O corpo do animal ocupava a √ļltima c√Ęmara, que sempre era a de maior tamanho. Os ammonites foram predadores ativos e o seus corpo possivelmente foi semelhante ou lembrava ao dos polvos e lulas atuais.

Por serem muito abundantes, eles s√£o utilizados para data√ß√£o relativa de camadas de rochas, pois apresentam diferen√ßas muito evidentes e f√°ceis de observar a olho nu entre os primeiros do Devoniano e os √ļltimos do Cret√°ceo. A fei√ß√£o morfol√≥gica que permite organiz√°-los em categorias temporais √© a sutura interna que ser forma no local em que a parede (septos) que divide as c√Ęmeras se une √† parede interna da concha. Esta fei√ß√£o recebe o nome de sutura, e vai evoluindo de uma sutura sinuosa a uma sutura sumamente complexa, formada por um padr√£o de lobos dentados. Assim, com base nas suturas se conhecem tr√™s grupos principais de Ammonoides: (1) Goniatites (sutura simples com algumas ondula√ß√Ķes), que viveram do Devoniano ao Permiano; Ceratites (sutura na qual come√ßam a se definir lobos) encontrada do Permiano ao Tri√°ssico; e por fim, a mais complexa ou Ammonitica, que √© encontrada nos exemplares do Jur√°ssico ao final do Cret√°ceo. A sutura √© bem f√°cil de ver em f√≥sseis onde se observe o molde interno da concha, ou seja, naqueles em que a concha foi preenchida e a parte externa foi dissolvida total ou parcialmente.

Embora no meu ammonite não seja possível ver as suturas, pelos fósseis que também são encontrados associados eu soube que ele data do Cretáceo, mas isso eu descobri um longo tempo depois de ganhar meu primeiro fóssil.