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Eu, Amonite

Meu nome é Hildoceras crassum, e sou um amonite.

Este sou eu, Hildoceras crassum

Na Desciclopédia dizem que sou simplesmente um molusco, o que realmente sou. Mas sou mais que isso: na classificação zoológica pertenço à classe dos amonitas, e a família Hildoceratidae.

A esta altura da vida (ou da morte), não tenho mais problemas em ser um Hildoceras crassum. Segundo vários cientistas, nós apresentávamos dimorfismo sexual, ou seja, os machos eram diferentes das fêmeas. Mas isso foi há muito tempo atrás. Como eu não lembro mais se sou um ou uma amonite, segundo o moderno costume,  podem me chamar de Hildx.

Nasci e morri no Andar¬†toarciano, no Jur√°ssico inferior. Isso em linguagem de gente significa que nasci e morri num per√≠odo de tempo entre 184 a 175 milh√Ķes de anos atr√°s. Alguns de voc√™s podem perguntar: “Como era isso, Hildx?“. Eu n√£o me lembro muito bem, minhas crian√ßas. Faz tempo. S√≥ sei que nad√°vamos livres por mares pouco profundos, ca√ßando pequenos crust√°ceos e outros animais. Um per√≠odo feliz, sabe?

Meu Primo Endemoceras, dando um rolê pelas águas quentes do Jurássico

Nós conseguíamos nadar muito bem e podíamos controlar a profundidade em que estávamos, simplesmente enchendo de gás ou fluido a nossa cavidade externa. Morávamos na ultima parte da concha, que era a mais larga. Como os nossos  modernos primos polvos e lulas, éramos terríveis predadores. O terror dos mares do Jurássico inferior!

 No entanto, estamos extintos!

Mesmo o mais terr√≠vel dos predadores morre. Quando morri, fui depositado em meio a uma vasa argilosa, no fundo do mar. Fui lentamente recoberto por essa fina argila. Meu corpo e meus tent√°culos (t√£o graciosos! ) desapareceram. Restou s√≥ a minha fina casca espiralada. E mesmo esta fina casca foi mudando: lentamente, mol√©cula a mol√©cula, ela foi sendo substitu√≠da por outras subst√Ęncias, at√© eu virar isso que sou hoje. Acho que voc√™s chamam isso de biomineraliza√ß√£o.

Estas s√£o as condi√ß√Ķes que fazem de mim um f√≥ssil. Os cientistas dizem que todo f√≥ssil tem uma hist√≥ria para contar. No entanto, quem conta a hist√≥ria dos f√≥sseis s√£o eles, os cientistas. Por isso, quero mudar um pouco e contar a minha hist√≥ria. Eu sou um amonite f√≥ssil e conto a hist√≥ria de depois de mim.¬†E n√£o me confundam, por favor: n√£o sou um autor f√≥ssil, desses que se biomineralizam em vida. Eu n√£o. Eu, o amonite Hildx, sou um f√≥ssil autor. Original, n√£o?

Nós amonitas, estamos há muito tempo por aqui. Vivemos e fomos muito abundantes  na era que vocês chamam de Mesozóico, quando finalmente fomos extintos. Por termos sido tão abundantes e por sermos característicos de um determinado período de tempo, somos muito usados para datação relativa do tempo geológico. Somos o que se chama  fósseis índices ou fósseis guia.

Eu e voc√™, voc√™ e eu…

Mas nosso período geológico mais interessante é o período que vocês humanos chegaram por aqui. Interessante e engraçado. Vocês não entenderam nada!! Quando vocês achavam um de nós no chão ou os tiravam do meio das pedras, vocês ficavam feito bobos nos olhando seguidamente. Não é para menos.

Nosso formato elegantemente espiralado, que lembra uma sequ√™ncia de Fibonacci, chama mesmo a aten√ß√£o. Alguns, embalados em leituras r√°pidas, v√£o dizer que somos os primeiros illuminati! Ou que somos produtos de algum designer inteligente. H√£, sei. S√≥ esp√©cies antigas e extintas como n√≥s sabem o trabalho que d√° evoluir…

O Chakra de Vishnu e o amonite como objeto religioso na India; Estes objetos s√£o chamados de Saligramas

J√° fomos confundidos com v√°rias coisas. Na √ćndia, n√≥s amonitas somos chamados de Saligramas. Somos representados como um dos chacras do deus Vishnu. Bacana, n√£o?

No tempo dos gregos e dos romanos clássicos, confundiam nosso formato com os chifres de uma cabra. Não demorou para que nos associassem a deuses e formas caprinas. Amon, divindade egípcia também conhecida como Amon-Ra, e que era portador de belos chifres caprinos, foi logo associado conosco.

Pl√≠nio, o velho, o grande naturalista romano, anotou na sua Hist√≥ria Natural que n√≥s √©ramos conhecidos na antiguidade como ‚Äúcornos de Amon‚ÄĚ. ¬†E assim efetivamente fomos conhecidos em quase todo o mundo romano.

um tipico snakestone: um amonita com a cabeça de uma serpente esculpida

Todo o mundo romano, menos naquela ilhazinha, que os romanos chamavam de Bretanha. L√°, fomos durante algum tempo associados ‚Äď vejam voc√™s ‚Äď a serpentes enroladas. As snakestones eram muito comuns nas camadas jur√°ssicas da velha ilha. Nossa ocorr√™ncia era t√£o comum que em algumas vilas √©ramos usados como enfeites e mesmo como pesos nos mercados. Imagine algu√©m chegando na feira da vila: “quero um corno de Amon de Batatas e dois de chuchu!“.

 Santa Hilda e os amonites
Memorial de Santa Hilda em Whitby; notar os amonitas, como serpentes enroladas, aos pés da Santa

Surgiram mesmo associa√ß√Ķes estranhas. Mais do que voc√™s possam imaginar. Uma importante abadessa bret√£, Santa Hilda (614-670 AD), foi associada, muito tempo ap√≥s sua morte, com lendas que lhe atribu√≠am o poder de transformar serpentes em pedras. As serpentes petrificadas, claro, √©ramos n√≥s, amonites.

Existem inclusive est√°tuas e mesmo bras√Ķes mostrando santa Hilda transformando serpentes em pedra. Sir Walter Scott, autor de Ivanho√© e grande medievalista ingl√™s, chegou a escrever um poema onde falava dos milagres de santa Hilda.

Eu não entendo de milagres, pois estou extinto. Mas entendo de ironias. Alpheus Hyatt (1838-1902), paleontólogo americano, deu o nome de Hildoceras a uma ordem de amonitas do jurássico inferior. Este é, por assim dizer, o meu nome de família. O mistério da transformação das serpentes em pedra já estava resolvido.

Mas, graças a Hyatt, Santa Hilda estava de novo e inadvertidamente ligada a nós pelo nome. Santa Ironia. Quantas risadas Hyatt deve ter dado!

O estilo amonite

Houve inclusive uma época em que nossas graciosas

Capitel com motivos inspirados em amonites. Esta casa também pertenceu ao paleontólogo Gideon Martell

formas serviram de inspiração para os arquitetos. Em vários locais da Inglaterra, foi de muito bom gosto a incorporação de elementos de decoração que lembravam as formas do amonites. Isso foi no inicio do seculo XIX.

Um dos arquitetos responsáveis por estes edifícios não foi ninguém mais que Amon Wilds. Inspirado provavelmente pelo seu próprio nome, ele construiu diversos edifícios com motivos amoníticos. Um dos mais celebrados destes edifícios era localizado em Castel Place 166 High Streets, em Sussex.

Por motivos que só pertencem à Paleontologia, esta casa foi construída para Gideon Mantell. Mantell foi o primeiro a descrever o Iguanodon, um dos primeiros  dinossauros gigantes. De modo que tudo terminou literalmente em casa.

O filho de Amon Wilds, que tinha o nome do pai, continuou sua obra, construindo diversas casas no sul da Inglaterra com motivos amoníticos na década de 1820.

por que eu?

tenho muitas mais historias pra contar. Algu√©m vai dizer: “conta mais, Hildx“. Eu conto, minhas crian√ßas. Hoje n√£o, que estou cansadx e com sono. Ontem mudou o hor√°rio de ver√£o e, mesmo para n√≥s, seres j√° extintos, isso d√° um cansa√ßo medonho.

Sou um amonite, com muito orgulho. N√£o nadamos mais alegres pelos mares como outrora. Somo umas pedras estranhas

A moderna congregação de Santa Hilda apresenta a sua imagem segurando uma casa, simbolo de sua abadia. Na outra mão, não uma serpente mas um amonite. Uma santa em paz com a modernidade.

desencavadas das rochas. Dos nativos americanos aos hindus, dos ingleses aos alem√£es, dos bret√Ķes do condado de Witby aos modernos museus de paleontologia, n√≥s continuamos brilhando.

Ora somos objeto de adora√ß√£o ou objetos de cultos estranhos. Ora somos rem√©dios potentes contra picadas de cobra, amuletos para sonhos ruins ou meras decora√ß√Ķes em casas de prov√≠ncia. O fato √© que n√≥s causamos.

Nossa concha elegantemente espiralada e nossas suturas graciosas chamam a atenção por serem objetos geométricos de grande simplicidade e beleza. Nossa presença em rochas antigas nos faz testemunhos importantes da história da Terra.

Semana passada a professora Frésia escreveu aqui mesmo neste blog que um exemplar de amonite que ela ganhou de seu pai alterou seu destino. Hoje, ela é uma feliz paleontóloga. Que bacana! E que orgulho!  Este é nosso mistério.  Nós, amonitas, podemos mudar suas vidas!

E quem quiser que conte outra.

Para saber mais:

Kracher, Alfred. “AMMONITES, LEGENDS, AND POLITICS THE SNAKESTONES OF HILDA OF WHITBY.”¬†European Journal of Science and Theology¬†8, no. 4 (2012): 51-66.