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CAmpo de golfe e as antigas cavas de argila mostrando pegadas de Dinossauros e mamíferos, alem de restos de plantas.

No Mesozoico, jogando golf com Fred Flintstone

Estaria o blogueiro pirando? Golf? Mesozoico? Fred Flintstone?

Sim, desta o blogueiro viajou. Era no mês de junho. Estava um sol forte aquela hora da manhã, e eu estava caminhando por uma trilha que levava a estação de trem de Jefferson County, no estado americano do Colorado. Vez em quando passava alguém de bicicleta pela trilha. Foi quando eu vi a plaquinha indicando: Triceratops Trail. Será que eu ia encontrar com um feroz Triceratops na minha frente se eu seguisse aquele caminho? meio receoso, entrei.

CAmpo de golfe e as antigas cavas de argila mostrando pegadas de Dinossauros e mamíferos, alem de restos de plantas.Campo de golfe e as antigas cavas de argila mostrando pegadas de Dinossauros e mamíferos, alem de restos de plantas. Ao fundo o Morro da Mesa (Table mountains), onde estão os basaltos Terciários.

Quando entrei na trilha do Triceratops, a primeira coisa que eu vi foram algumas cavas, com uma vegetação secundaria crescendo de dentro delas. Todavia, eu havia visto algumas maquinas grandes enferrujando no meio do mato. Já nem dava pra reconhecer, mas eu estava entrando numa área antiga de mineração. No entanto,o que isso tinha a ver com o Triceratops?

ENTRANDO NA CAVA DE ARGILA

Soube pelos cartazes que tinham por ai que aquelas perigosas cavas que estava vendo, com v√°rios metros de altura, eram antigas cavas de argila. Estas cavas foram exploradas pela Fam√≠lia Parfet, que produzia cer√Ęmicas, tijolos e tubos de esgoto para todo o pais.¬† Primeiramente, uma foto num cartaz na entrada de uma destas cavas mostrava¬† patriarca George Parfet, sua esposa Mattie e seus seis filhos. Alem do mais, outras fotos antigas mostrava o febril trabalho de escava√ß√£o realizado pela empresa dos Parfett.

Como o cartaz orgulhosamente descrevia, a mans√£o do governador, varias escolas publicas e a antigas sede do f√≥rum do condado de Jefferson foram constru√≠dos com tijolos feitos aqui. Durante quase 70 anos, escavadeiras e draglines escavaram as argilas da forma√ß√£o Laramie para fazer objetos cer√Ęmicos. Nesta hora, eu estava ali andando por entre o que sobrou desas cavas. Parte era um campo de golf, parte um museu geol√≥gico.

Placa na Cava de Argila, mostrando o Triceratops e as marcas deixadas pelo animal
PASSANDO PELO CAMPO DE GOLFE

A maior parte da área era tomada pelo campo de golfe, ocupando as partes mais baixas das antigas cavas de argila. Contudo, a parte do campo de golf não me interessava. Não me interessava aquela grama verdinha e rente. Não me interessava aqueles carrinhos com aqueles senhores de bermuda e camiseta polo. Todavia, com seus chapeuzinhos ridículos, eles passavam acelerados, e nos atropelavam indiferentes em busca de suas ignominiosas bolinhas. Senti o risco iminente de ser uma vitima do golf e me afastei daqueles maniacos.

Alem do mais, o mato ao redor estava cheio de bolinhas de golf, o que provava cabalmente a imperícia dos senhores de tênis e meias brancas. Contudo, lembrei-me de Fred Flintstone, um dos poucos jogadores de golfe pelo qual eu tinha alguma estima. Assim, pela primeira vez, senti alguma conexão ali. Golfe, Fred Flintstone, dinossauros: fui ver os bichinhos.

A GEOLOGIA DE GOLDEN: O COLORADO FRONT RANGE

A geologia de Golden √© muito interessante. Durante o Mesozoico, aquela √°rea era uma grande plan√≠cie deltaica, cheia de p√Ęntanos, rios e lagos. Da mesma forma, nos rios, uma areia fina era depositada, formando barra de meandros. Por outro lado, nas plan√≠cies, uma fina argila branca ia se depositando. Camadas de turfa tamb√©m eram comuns neste ambiente.¬† Al√©m do mais, nesta √°rea, num clima mais quente que hoje, t√≠nhamos muitas palmeiras e muitas especies de animais.

Geologia de Golden, Colorado
Bloco-Diagrama mostrando a geologia de Golden simplificada. a √°rea do Triceratops trail est√° no centro da foto, onde as camadas est√£o verticalizadas.

Mais para o fim do Cret√°ceo, este ambiente √ļmido e quente foi se alterando. Quando houve na regi√£o a transi√ß√£o do Mesozoico para a¬† Terci√°rio, com a extin√ß√£o dos dinossauros, a regi√£o j√° havia se tornado mais quente e seca. Finalmente, lavas bas√°lticas aparecem j√° no paleoceno, indicando uma mudan√ßa na din√Ęmica da regi√£o.

Contudo, o desenvolvimento de grandes falhas geol√≥gicas, como a Zona de falha de Golden (Golden Fault) e a Falha da Margem da Bacia (Margin Basin fault), marcam a transi√ß√£o da regi√£o das Grandes Plan√≠cies com as Montanhas¬† Rochosas. Assim, por a√ß√£o destas falhas, o terreno mais a oeste, predominantemente gran√≠tico, literalmente “cavalga” sobre as rochas Mesozoicas/Terci√°rias e termina por dobra-las. Desta forma, pequenos morrotes, formados por rochas mesozoicas e terciarias dobradas marcam a transi√ß√£o geogr√°fica da montanha para a plan√≠cie. √Č o chamado Colorado Front Range.

DINOSSAUROS SUBINDO PELAS PAREDES

Como dissemos antes, o Triceratops trail esta situado no contexto do  Colorado Front Range. Aqui, as camadas da formação Laramie, do Mesozoico, estão todas verticalizadas, por ação da Clay Pits fault, a falha local do sistema. Com isso, a sensação que temos é a de que os dinossauros estão subindo pelas paredes. No entanto, não foi isso que aconteceu. centenas de milhares de anos após terem vivido por ali é que as camadas nas quais deixaram seus rastos foram basculadas e verticalizadas.

marca de pegada de Tiranossauro
Pegada de Tiranossauro

Desta forma, a exposição das pegadas e das diversas marcas ficou muito facilitada. Ali, podemos ver pegadas gigantes do gigante tiranossauro. Também podemos ver as marcas das pegadas do Triceratops.

Da mesma forma, podemos ver tamb√©m pegadas de pequenas aves e mam√≠feros. De modo similar, nas Clay Pits podemos ver os restos de folhas de palmeiras. Alem das palmeiras, podem ser encontradas sic√īmoros, nogueiras, um tipo de gengibre e um parente distante do abacate.

Esta vegetação, juntamente com a ocorrência comum de marcas de animais pequenos e grandes mostra uma região que, no Mesozoico era quente e talvez por isso, muito rica em vida.

UM OUTRO MUNDO √Č POSS√ćVEL
marcas de palmeiras fósseis
Marcas de folhas de antigas palmeiras; As especies de pnatas indicam um clima muito mais quente que o de hoje na regi√£o.

No final do Mesozoico, durante o per√≠odo Cret√°ceo, a Am√©rica do Norte era coberta por um mar raso, com algumas por√ß√Ķes mais elevadas. Provavelmente, estas por√ß√Ķes elevadas eram pequenas ilhas, das quais a regi√£o de Golden era uma delas. Ao redor, uma serie de . Com o passar do tempo, o soerguimento das Montanhas Rochosas acabou por acabar com este mar raso. Neste per√≠odo, estava provavelmente localizada em latitudes menores. Este era o ambiente perfeito para o desenvolvimento, nas partes mais √ļmidas, de uma fauna abundante e diversificada.

A medida em que que as placas tect√īnicas continuavam se movimentando, a regi√£o das montanhas rochosas come√ßa a ser “empurrada” para o leste. De fato, esta movimenta√ß√£o deu origem as falhas que conformariam a estrutura da regi√£o de Golden, onde eu me encontro agora, olhando pegadas de dinossauros na parede. Afinal, ver pegadas de animais extintos na parede de uma cava de argila nos d√° no√ß√£o de que vivemos num planeta din√Ęmico e em perpetua transforma√ß√£o. Desta forma, ao contrario do que alguns pensam, n√≥s humanos n√£o somo s o suprassumo da cria√ß√£o. Isto √©, supondo que tenha havido uma cria√ß√£o.

SAINDO DA CAVA

Desta forma, assim que sa√≠ da cava, comecei a pensar em quantas informa√ß√Ķes diferentes havia ali naquela pequena √°rea. Contudo, ser√° que as pessoas que passavam aqui e ali teriam no√ß√£o disso? Ser√° que os caras do golfe ali do lado, mesmo que somente perseguindo suas in√ļteis bolinhas, saberiam disso?

O tempo da vida humana √© muito curto. Decerto, algum grego ou romano j√° falou sobre isso. o detalhe √© que, por certo, n√£o temos condi√ß√Ķes de enxergar estas grandes mudan√ßas no decorrer de nossas vidas. Primeiramente, para enxergar isso, o senso comum n√£o ajuda. os vest√≠gios da natureza, por outro lado, s√£o muito sutis e complexos. Ali, saindo da cava do Triceratops trail, me dei conta do quanto as Ci√™ncias da Terra nos ajudam a enxergar o mundo.

AJUDA FRED FLINTSTONE!!

Num mundo em que a Ci√™ncia encontra-se t√£o amea√ßada, certamente o conjunto de evidencias como o que havia ali no Triceratops trail √© muito relevante. Estavam expostas ali, a c√©u aberto, muitas discuss√Ķes interessantes sobre o passado, o presente e o futuro de nosso Planeta. Por certo, a maior parte das pessoas n√£o est√° nem ai pra essas coisas. Da mesma forma, o fato de Fred Flintstone conviver com dinossauros parece plaus√≠vel para muita gente. Entretanto, como se sabe, o ser humano s√≥ conviveu com os dinossauros nos √ļltimos duzentos anos. Somente quando come√ßamos a entender que aqueles esqueletos estranhos n√£o eram obra do acaso ou restos de gigantes √© que eles come√ßaram a habitar entre nos, em nossas ideias, em nossos¬† pensamentos.

Por tudo isso √© que repito: a Ci√™ncia deve entrar mais na vida das pessoas. Independente de sua posi√ß√£o no mundo, o letramento cientifico √© cada vez mais necess√°rio para um numero cada vez maior de pessoas. Temos que fazer de cada esquina um museu da historia da terra. Podemos n√£o ter em todos os lugares historias t√£o interessantes como a do Triceratops trail e seu mergulho de cabe√ßa nos p√Ęntanos do Mesozoico.

CIÊNCIA, LAZER E BICICLETAS
Projeto Geobike
Logo do Projeto Geobike, do Prof Wagner Amaral: trilhas geológicas em Campinas

Da mesma forma, aqui em Campinas, temos o  Projeto  Geobike, mais uma boa ideia do professor Wagner Amaral, do Instituto de Geociências da Unicamp. Assim, apaixonado por Geologia e por sua querida Campinas, o professor Wagner leva os amantes da bicicleta a locais nos quais eles até já poderiam andar, mas cuja historia (natural) ignoravam. Que enriquecedor! Juntar esporte, lazer e Ciência foi uma boa sacada. Que tal na sequencia juntar Ciência e Arte, juntar Ciência com tudo?

Entretanto, no caso das Ciências da Terra e do ambiente, nós precisamos de mais e mais trilhas como estas, que nos levem ao passado da Terra. Trilhas que nos ajudem a pensar melhor nosso presente e projetar melhor nosso futuro.

Bora l√°?

Eu, Amonite

Meu nome é Hildoceras crassum, e sou um amonite.

Este sou eu, Hildoceras crassum

Na Desciclopédia dizem que sou simplesmente um molusco, o que realmente sou. Mas sou mais que isso: na classificação zoológica pertenço à classe dos amonitas, e a família Hildoceratidae.

A esta altura da vida (ou da morte), não tenho mais problemas em ser um Hildoceras crassum. Segundo vários cientistas, nós apresentávamos dimorfismo sexual, ou seja, os machos eram diferentes das fêmeas. Mas isso foi há muito tempo atrás. Como eu não lembro mais se sou um ou uma amonite, segundo o moderno costume,  podem me chamar de Hildx.

Nasci e morri no Andar¬†toarciano, no Jur√°ssico inferior. Isso em linguagem de gente significa que nasci e morri num per√≠odo de tempo entre 184 a 175 milh√Ķes de anos atr√°s. Alguns de voc√™s podem perguntar: “Como era isso, Hildx?“. Eu n√£o me lembro muito bem, minhas crian√ßas. Faz tempo. S√≥ sei que nad√°vamos livres por mares pouco profundos, ca√ßando pequenos crust√°ceos e outros animais. Um per√≠odo feliz, sabe?

Meu Primo Endemoceras, dando um rolê pelas águas quentes do Jurássico

Nós conseguíamos nadar muito bem e podíamos controlar a profundidade em que estávamos, simplesmente enchendo de gás ou fluido a nossa cavidade externa. Morávamos na ultima parte da concha, que era a mais larga. Como os nossos  modernos primos polvos e lulas, éramos terríveis predadores. O terror dos mares do Jurássico inferior!

 No entanto, estamos extintos!

Mesmo o mais terr√≠vel dos predadores morre. Quando morri, fui depositado em meio a uma vasa argilosa, no fundo do mar. Fui lentamente recoberto por essa fina argila. Meu corpo e meus tent√°culos (t√£o graciosos! ) desapareceram. Restou s√≥ a minha fina casca espiralada. E mesmo esta fina casca foi mudando: lentamente, mol√©cula a mol√©cula, ela foi sendo substitu√≠da por outras subst√Ęncias, at√© eu virar isso que sou hoje. Acho que voc√™s chamam isso de biomineraliza√ß√£o.

Estas s√£o as condi√ß√Ķes que fazem de mim um f√≥ssil. Os cientistas dizem que todo f√≥ssil tem uma hist√≥ria para contar. No entanto, quem conta a hist√≥ria dos f√≥sseis s√£o eles, os cientistas. Por isso, quero mudar um pouco e contar a minha hist√≥ria. Eu sou um amonite f√≥ssil e conto a hist√≥ria de depois de mim.¬†E n√£o me confundam, por favor: n√£o sou um autor f√≥ssil, desses que se biomineralizam em vida. Eu n√£o. Eu, o amonite Hildx, sou um f√≥ssil autor. Original, n√£o?

Nós amonitas, estamos há muito tempo por aqui. Vivemos e fomos muito abundantes  na era que vocês chamam de Mesozóico, quando finalmente fomos extintos. Por termos sido tão abundantes e por sermos característicos de um determinado período de tempo, somos muito usados para datação relativa do tempo geológico. Somos o que se chama  fósseis índices ou fósseis guia.

Eu e voc√™, voc√™ e eu…

Mas nosso período geológico mais interessante é o período que vocês humanos chegaram por aqui. Interessante e engraçado. Vocês não entenderam nada!! Quando vocês achavam um de nós no chão ou os tiravam do meio das pedras, vocês ficavam feito bobos nos olhando seguidamente. Não é para menos.

Nosso formato elegantemente espiralado, que lembra uma sequ√™ncia de Fibonacci, chama mesmo a aten√ß√£o. Alguns, embalados em leituras r√°pidas, v√£o dizer que somos os primeiros illuminati! Ou que somos produtos de algum designer inteligente. H√£, sei. S√≥ esp√©cies antigas e extintas como n√≥s sabem o trabalho que d√° evoluir…

O Chakra de Vishnu e o amonite como objeto religioso na India; Estes objetos s√£o chamados de Saligramas

J√° fomos confundidos com v√°rias coisas. Na √ćndia, n√≥s amonitas somos chamados de Saligramas. Somos representados como um dos chacras do deus Vishnu. Bacana, n√£o?

No tempo dos gregos e dos romanos clássicos, confundiam nosso formato com os chifres de uma cabra. Não demorou para que nos associassem a deuses e formas caprinas. Amon, divindade egípcia também conhecida como Amon-Ra, e que era portador de belos chifres caprinos, foi logo associado conosco.

Pl√≠nio, o velho, o grande naturalista romano, anotou na sua Hist√≥ria Natural que n√≥s √©ramos conhecidos na antiguidade como ‚Äúcornos de Amon‚ÄĚ. ¬†E assim efetivamente fomos conhecidos em quase todo o mundo romano.

um tipico snakestone: um amonita com a cabeça de uma serpente esculpida

Todo o mundo romano, menos naquela ilhazinha, que os romanos chamavam de Bretanha. L√°, fomos durante algum tempo associados ‚Äď vejam voc√™s ‚Äď a serpentes enroladas. As snakestones eram muito comuns nas camadas jur√°ssicas da velha ilha. Nossa ocorr√™ncia era t√£o comum que em algumas vilas √©ramos usados como enfeites e mesmo como pesos nos mercados. Imagine algu√©m chegando na feira da vila: “quero um corno de Amon de Batatas e dois de chuchu!“.

 Santa Hilda e os amonites
Memorial de Santa Hilda em Whitby; notar os amonitas, como serpentes enroladas, aos pés da Santa

Surgiram mesmo associa√ß√Ķes estranhas. Mais do que voc√™s possam imaginar. Uma importante abadessa bret√£, Santa Hilda (614-670 AD), foi associada, muito tempo ap√≥s sua morte, com lendas que lhe atribu√≠am o poder de transformar serpentes em pedras. As serpentes petrificadas, claro, √©ramos n√≥s, amonites.

Existem inclusive est√°tuas e mesmo bras√Ķes mostrando santa Hilda transformando serpentes em pedra. Sir Walter Scott, autor de Ivanho√© e grande medievalista ingl√™s, chegou a escrever um poema onde falava dos milagres de santa Hilda.

Eu não entendo de milagres, pois estou extinto. Mas entendo de ironias. Alpheus Hyatt (1838-1902), paleontólogo americano, deu o nome de Hildoceras a uma ordem de amonitas do jurássico inferior. Este é, por assim dizer, o meu nome de família. O mistério da transformação das serpentes em pedra já estava resolvido.

Mas, graças a Hyatt, Santa Hilda estava de novo e inadvertidamente ligada a nós pelo nome. Santa Ironia. Quantas risadas Hyatt deve ter dado!

O estilo amonite

Houve inclusive uma época em que nossas graciosas

Capitel com motivos inspirados em amonites. Esta casa também pertenceu ao paleontólogo Gideon Martell

formas serviram de inspiração para os arquitetos. Em vários locais da Inglaterra, foi de muito bom gosto a incorporação de elementos de decoração que lembravam as formas do amonites. Isso foi no inicio do seculo XIX.

Um dos arquitetos responsáveis por estes edifícios não foi ninguém mais que Amon Wilds. Inspirado provavelmente pelo seu próprio nome, ele construiu diversos edifícios com motivos amoníticos. Um dos mais celebrados destes edifícios era localizado em Castel Place 166 High Streets, em Sussex.

Por motivos que só pertencem à Paleontologia, esta casa foi construída para Gideon Mantell. Mantell foi o primeiro a descrever o Iguanodon, um dos primeiros  dinossauros gigantes. De modo que tudo terminou literalmente em casa.

O filho de Amon Wilds, que tinha o nome do pai, continuou sua obra, construindo diversas casas no sul da Inglaterra com motivos amoníticos na década de 1820.

por que eu?

tenho muitas mais historias pra contar. Algu√©m vai dizer: “conta mais, Hildx“. Eu conto, minhas crian√ßas. Hoje n√£o, que estou cansadx e com sono. Ontem mudou o hor√°rio de ver√£o e, mesmo para n√≥s, seres j√° extintos, isso d√° um cansa√ßo medonho.

Sou um amonite, com muito orgulho. N√£o nadamos mais alegres pelos mares como outrora. Somo umas pedras estranhas

A moderna congregação de Santa Hilda apresenta a sua imagem segurando uma casa, simbolo de sua abadia. Na outra mão, não uma serpente mas um amonite. Uma santa em paz com a modernidade.

desencavadas das rochas. Dos nativos americanos aos hindus, dos ingleses aos alem√£es, dos bret√Ķes do condado de Witby aos modernos museus de paleontologia, n√≥s continuamos brilhando.

Ora somos objeto de adora√ß√£o ou objetos de cultos estranhos. Ora somos rem√©dios potentes contra picadas de cobra, amuletos para sonhos ruins ou meras decora√ß√Ķes em casas de prov√≠ncia. O fato √© que n√≥s causamos.

Nossa concha elegantemente espiralada e nossas suturas graciosas chamam a atenção por serem objetos geométricos de grande simplicidade e beleza. Nossa presença em rochas antigas nos faz testemunhos importantes da história da Terra.

Semana passada a professora Frésia escreveu aqui mesmo neste blog que um exemplar de amonite que ela ganhou de seu pai alterou seu destino. Hoje, ela é uma feliz paleontóloga. Que bacana! E que orgulho!  Este é nosso mistério.  Nós, amonitas, podemos mudar suas vidas!

E quem quiser que conte outra.

Para saber mais:

Kracher, Alfred. “AMMONITES, LEGENDS, AND POLITICS THE SNAKESTONES OF HILDA OF WHITBY.”¬†European Journal of Science and Theology¬†8, no. 4 (2012): 51-66.

Vamos deixar o mamute extinto

H√° poucos anos se v√™m noticiando mundo a fora tentativas mirabolantes de trazer animais j√° extintos de volta √† vida, como o grandioso mamute. Este grande animal pleistoc√™nico √© o maior alvo desta ideia por raz√Ķes diferenciadas, dentre elas, a facilidade de encontrar seus corpos mumificados extremamente bem preservados devido ao aparecimento de diversos esp√©cimes por conta do derretimento do gelo em regi√Ķes como a Sib√©ria. N√£o √© de se estranhar que, vendo-os assim t√£o bem preservados, a ideia de ‚Äúreviv√™-los‚ÄĚ fica extremamente atraente, seja pelo fasc√≠nio que estes grandes animais despertam, seja pela ambi√ß√£o de ser dono de um grande feito como este.

Bebê mamute mumificado. Créditos: Martin Meissner
Bebê mamute mumificado. Créditos: Martin Meissner

Mas será que a interferência nos caminhos que foram traçados naturalmente pela história do nosso planeta seria realmente uma boa ideia? O que seria do pobre mamute, que fora adaptado para os períodos glaciais da Terra, a habitar grandes espaços, correr atrás de suas presas e se defender de seus predadores, bem ao modo da Era do Gelo? Os tempos eram outros, as características físicas e ambientais de nosso planeta eram outras.

O surgimento de novas tecnologias na √°rea da biologia molecular tende a agu√ßar a mente dos pesquisadores mais ambiciosos, o que √© excelente para novas descobertas, chances de desenvolvimento de cura e tratamento de doen√ßas, e principalmente, um maior dom√≠nio e possibilidade de manipula√ß√£o do genoma de in√ļmeras esp√©cies, incluindo o ser humano. E por que n√£o os mamutes?

Em meados de 2015, o geneticista George Church, de Harvard, e seus colaboradores, anunciaram que utilizaram uma t√©cnica de ‚Äúedi√ß√£o de genes chamada CRISPR (do ingl√™s¬†Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, ou seja, Repeti√ß√Ķes¬†Palindr√īmicas¬†Curtas Agrupadas e Regularmente Interespa√ßadas) para inserir genes de mamute em elefantes. Estes genes inseridos seriam os respons√°veis pela express√£o de alguns caracteres dos mamutes, como tamanho das orelhas mais reduzido, cor e comprimento dos pelos e a presen√ßa de gordura subcut√Ęnea. √Č claro que pesquisadores como estes t√™m em mente que, apesar da ideia soar simples, h√° muitas quest√Ķes em jogo, como a rea√ß√£o das c√©lulas √† express√£o desses genes, se de fato conseguiriam dar origem √† tecidos especializados, etc.

Pensando em um futuro n√£o muito distante, e se por acaso um experimento como este tivesse sucesso? E se nascesse um mamute de um elefante vivo? Outra quest√£o importante a se pensar √© com rela√ß√£o aos efeitos do meio externo ao fen√≥tipo (caracter√≠sticas f√≠sicas do organismo que t√™m origem da express√£o dos genes). Seria um h√≠brido com caracter√≠sticas t√£o semelhantes assim aos mamutes pleistoc√™nicos? S√£o in√ļmeras quest√Ķes a serem pensadas al√©m do experimento em laborat√≥rio. Pensando em um sucesso ainda maior (que √© com rela√ß√£o √† sobreviv√™ncia desses h√≠bridos), at√© quanto tempo viveriam? Ou seriam saud√°veis por quanto tempo? E penando na manuten√ß√£o desses animais, teriam eles, obviamente, que ficarem restritos √† ambientes polares, com alimenta√ß√£o fornecida e especializada, etc.

Quero deixar claro que n√£o estou querendo levantar somente os aspectos negativos deste tipo de pesquisa, at√© por que acho que a ousadia √© um est√≠mulo para mover a Ci√™ncia, e nela h√° espa√ßo para qualquer experimento, desde que esteja de acordo com as quest√Ķes √©ticas. Mas o objetivo deste post √© levantar as implica√ß√Ķes √† longo prazo e gerar uma reflex√£o do quanto valeria a pena realizar tal fa√ßanha. Apenas sou mais adepta da ideia de se utilizar t√©cnicas como esta, por enquanto, para tentar auxiliar na luta contra a extin√ß√£o de esp√©cies atuais devido √†s a√ß√Ķes antr√≥picas, por exemplo.

Como diz a famosa express√£o, a natureza sabe o que faz. ¬†Os eventos de extin√ß√£o que ocorreram ao longo da hist√≥ria da vida na Terra, sejam eles por causa da pr√≥pria evolu√ß√£o da geosfera (por exemplo, o movimento das placas tect√īnicas e vulcanismo, que expeliram enormes quantidades de gases na atmosfera), ou por intera√ß√Ķes ecol√≥gicas (competi√ß√£o entre esp√©cies, preda√ß√£o, etc), ou como obra do acaso (como os impactos de corpos celestes), apesar de terem sido catastr√≥ficos para os seres que viviam nestes per√≠odos, foram respons√°veis pela ‚Äúreciclagem‚ÄĚ da vida na Terra, ou seja, possibilitaram o surgimento de novos organismos, de novos nichos, at√© a vida se moldar ao que conhecemos hoje. Estamos aqui devido √†s extin√ß√Ķes ocorridas? Provavelmente elas t√™m grande parte nisso.

A evolu√ß√£o da vida tende a acompanhar as mudan√ßas que a Terra vai sofrendo com o passar do tempo geol√≥gico, mas o tempo sentido pelo homem √© curto demais, tem uma escala muito, mas muito menor. Ent√£o tendemos a n√£o enxergar os benef√≠cios causados por eventos catastr√≥ficos ou mudan√ßas naturais, quanto menos ainda perceber os efeitos que o ambiente causa, √† longo prazo, no sucesso ou ‚Äúfracasso‚ÄĚ da sobreviv√™ncia de uma esp√©cie. Pensando desta maneira, apesar de tamb√©m sermos agentes causadores de mudan√ßas, nossas a√ß√Ķes est√£o causando um preju√≠zo √† biodiversidade do planeta muito mais al√©m da conta para a recupera√ß√£o natural dessas extin√ß√Ķes provocadas. Mas isto seria uma discuss√£o para outro post.

Quanto aos mamutes? Por mim é melhor deixá-los extintos, para o bem deles, e para o bem do nosso planeta. Sim, a natureza sabe o que faz, e às vezes o acaso faz bem também!