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Mais próximo dos dias de hoje: como chegamos até aqui e quem ficou pelo caminho

Como os registros da Era Cenozoica, s√£o bem mais novos, seus f√≥sseis s√£o abundantes e, em muitos casos, muito bem preservados. Antes de continuar vou fazer uma pausa para comentar que a Era Cenozoica √© dividida em tr√™s per√≠odos: Paleogeno, Neogeno e Quatern√°rio. Estes per√≠odos, por sua vez, s√£o divididos em √©pocas, distribu√≠das da seguinte forma: Paleoceno, Eoceno e Oligoceno pertencem aos Paleogeno. O Neogeno, √© formado pelo Mioceno e pelo Plioceno, e por √ļltimo o Quatern√°rio √© dividido em Pleistoceno e Holoceno onde estamos h√° uns 10.000 anos.

Bacia de Taubaté, 1 e 2 são pólens de gimnospermas.
Figura 1- Bacia de Taubaté, 1 e 2 são pólens de gimnospermas.

Retomando o fio do registro f√≥ssil no estado de S√£o Paulo, como tinha adiantado no final do √ļltimo texto, com a extin√ß√£o em massa acontecida no final do Cret√°ceo e as mudan√ßas na paleogeografia do nosso planeta, houve oportunidade para a renova√ß√£o tanto da flora como da fauna ao redor do mundo. Estas mudan√ßas foram influenciadas pela presen√ßa de regimes clim√°ticos mais √ļmidos e quentes, que permitiram a distribui√ß√£o de florestas, dominadas por angiospermas pelas regi√Ķes subtropicais (localizadas depois 23¬ļ de latitude norte e sul) e at√© no continente Ant√°rtico, que foi durante milh√Ķes de anos coberto por densas florestas at√© que, a partir do Mioceno, paulatinamente, o clima come√ßou a mudar, ficando mais seco e frio, o que conduziria √†s grandes glacia√ß√Ķes do Quatern√°rio.

Os registros f√≥sseis do Paleogeno e do in√≠cio do Neogeno no estado apresentam florestas formadas por fam√≠lias de angiospermas (p.ex. leguminosas, gram√≠neas), de gimnospermas (Podocarpaceae) e samambaias, que existem ainda hoje, embora os g√™neros e esp√©cies possam ser diferentes dos atuais. As rochas sedimentares que cont√©m os f√≥sseis deste tempo foram depositadas dentro de um sistema de lagos distribu√≠das na margem atl√Ęntica que se estendia desde o sul do estado do Rio de Janeiro (Niter√≥i) at√© o Paran√° (Curitiba), e que hoje compreende, entre outras, as bacias de Taubat√© (SP), Resende (RJ), Volta Redonda (RJ) e Itabora√≠ (RJ).

O conjunto e diversidade da vida preservada dentro da bacia de Taubat√© (Oligoceno-Mioceno) √© considerado como o mais rico desse tempo no Brasil. Os afloramentos onde os f√≥sseis v√™m sendo coletados desde mediados do s√©culo passado localizam-se, principalmente, nas pedreiras de argila da cidade de Taubat√©. Na bacia s√£o encontrados abundantes f√≥sseis de folhas, sementes, polens (Figura 1), esporos, etc. A an√°lise do conjunto dos vegetais preservados indica que no local estava presente uma mata subtropical √ļmida. Junto aos vegetais tamb√©m encontramos registros de insetos, peixes (Figura 2), anf√≠bios, tartarugas, serpentes, jacar√©s, aves, mam√≠feros, al√©m de evid√™ncias da sua atividade metab√≥lica (icnof√≥sseis) como excrementos, pegadas, galhas, etc. Os oste√≠tes (peixes √≥sseos) s√£o os vertebrados mais abundantes, contudo os mam√≠feros s√£o de longe o grupo mais diversificado em esp√©cies, entre os que deixaram registros f√≥sseis. Dentre os mam√≠feros encontramos marsupiais identificados a partir de dentes e ossos das patas (tarsais), quir√≥pteros (morcegos), al√©m de dentes e mand√≠bulas de roedores.

Figura 2 - Osteite, Tele√≥steo muito abundante na Bacia de Taubat√©. 1- Vista geral; 2, 3, 4, e 5 - microfotgorafias obtidas em Microsc√≥pio Eletr√īnico de Varredura (MEV); 2- Costelas; 3- Pirita framboidal associada √† preserva√ß√£o dos tecidos; 4 e 5- Escama.
Figura 2 – Osteite, Tele√≥steo muito abundante na Bacia de Taubat√©. 1- Vista geral; 2, 3, 4, e 5 – microfotgorafias obtidas em Microsc√≥pio Eletr√īnico de Varredura (MEV); 2- Costelas; 3- Pirita framboidal associada √† preserva√ß√£o dos tecidos; 4 e 5- Escama.

Outros grupos de mam√≠feros que a partir deste momento se tornaram mais frequentes e que integraram a megafauna sul americana tamb√©m foram coletados nas rochas sedimentares da bacia de Taubat√©. Assim, por exemplo, encontramos os cingulata (tatus), com f√≥sseis das suas caracter√≠sticas placas d√©rmicas que comp√Ķem a suas carapa√ßas. Os Liptotermos formam parte desse grupo, embora hoje estejam extintos, e que re√ļnem um grupo de ungulados herb√≠voros que experimentaram uma extraordin√°ria diversifica√ß√£o durante a Era Cenozoica. Al√©m destes, temos tamb√©m registros dos Astrapotheria, Nothoungulata e Pyrotheria, todos hoje extintos.

Por fim, os registros paulistas do Neogeno são representados por camadas sedimentares que contém conjuntos de microfósseis vegetais (polens) e que a partir deste momento (Mioceno) mostram evidências da deterioração climática relacionada ao início da glaciação no continente antártico. Esta tendência, que levará ao resfriamento geral do planeta, se manifesta nos conjuntos polínicos com o surgimento, diversificação e aumento da porcentagem de pólens de gimnospermas e algumas angiospermas (p.ex. Drimys).

No pr√≥ximo cap√≠tulo, falarei acerca dos acontecimentos do Quatern√°rio que merecem um texto √† parte por causa da sua import√Ęncia para a distribui√ß√£o da vida como hoje a conhecemos.