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Hip√≥teses filogen√©ticas dos Amniotas e a import√Ęncia dos f√≥sseis na compreens√£o da evolu√ß√£o da vida

Ol√° caros leitores, depois de um breve per√≠odo de pausa nas postagens, voltamos com grande estilo. Hoje apresento a voc√™s um interessante texto redigido pelo Mestrando em Zoologia do Museu Nacional/UFRJ Geovane Alves de Souza, O assunto abordado se refere as primeiras discuss√Ķes hist√≥ricas sobre as hip√≥teses filogen√©ticas dos Amniotas (grupo que tradicionalmente inclui os r√©pteis, aves e mam√≠feros e suas formas relacionadas) e a import√Ęncia dos f√≥sseis para um melhor entendimento da evolu√ß√£o das esp√©cies. Ent√£o,  sem mais delongas, vamos ao texto!
 
Editado em 19/08/2018.

Em plena Era da Filogen√īmica, na qual o DNA possui papel central na busca pela compreens√£o da evolu√ß√£o da vida na Terra, √© comum pensarmos nos f√≥sseis como uma fonte de dados um tanto quanto ultrapassada, trabalhosa e que demanda muito tempo para estudar. A diretora do Jurassic World, Claire Dearing (encenada pela atriz Bryce Dallas) enfatiza isso muito bem em sua fala: ‚ÄúAprendemos mais com a gen√©tica em 10 anos do que em um s√©culo, escavando‚ÄĚ. Hoje √© consenso no meio acad√™mico a import√Ęncia dos vest√≠gios da vida pret√©rita, os f√≥sseis (para melhores detalhes acerca de sua defini√ß√£o veja aqui), quando inferimos rela√ß√Ķes de parentesco dos organismos viventes. Contudo, nem sempre os f√≥sseis tiveram sua import√Ęncia reconhecida e passando por momentos de gl√≥ria e queda ao longo dos √ļltimos s√©culos.


Ap√≥s a publica√ß√£o da obra A Origem das Esp√©cies por Meio da Sele√ß√£o Natural por Charles Darwin em 1859, no qual o autor defendia as teorias de Evolu√ß√£o Biol√≥gica, Sele√ß√£o Natural e Ancestralidade Comum, os f√≥sseis passaram a desempenhar um papel chave na compreens√£o de como a vida evoluiu. Contudo, foi na metade do s√©culo XX, que o registro fossil√≠fero enfrentou uma queda brusca de sua supremacia. O respons√°vel foi o advento de uma nova maneira de se estudar a evolu√ß√£o: a Sistem√°tica Filogen√©tica de Willi Hennig (1950). A nova metodologia e filosofia da sistem√°tica nos seus primeiros anos de exist√™ncia n√£o exigia a necessidade de determinar uma dada esp√©cie f√≥ssil conhecida como ancestral entre duas linhagens. Pod√≠amos estudar a evolu√ß√£o das esp√©cies viventes, tratando o ancestral comum entre elas como uma esp√©cie hipot√©tica. Esse modo de vislumbrar as √°rvores filogen√©ticas (diagramas ramificados que representam a evolu√ß√£o de uma linhagem e que s√£o gerados a partir de uma an√°lise computacional ou an√°lise filogen√©tica), conhecido como Modelo Cladogen√©tico, √© antag√īnico ao antigo modelo vigente, o Anagen√©tico. De fato, determinar em qual ponto exato da evolu√ß√£o de uma linhagem uma esp√©cie f√≥ssil esta inserida n√£o √© uma tarefa f√°cil, eu diria que um tanto quanto imposs√≠vel, a menos que tenhamos uma m√°quina do tempo para voltarmos e acompanharmos o passo a passo da evolu√ß√£o de determinada linhagem ao longo dos milhares de anos. Muitas cr√≠ticas contra o uso dos f√≥sseis foram levantadas na √©poca. O pr√≥prio Hennig reconhecia que os dados f√≥sseis poderiam ser √ļteis na hora de conduzir uma an√°lise filogen√©tica. Contudo, devido √† tamanha incompletude do registro fossil√≠fero, ou seja, tanta informa√ß√£o biol√≥gica era perdida no processo de forma√ß√£o de um f√≥ssil, que estes deveriam ser preferivelmente menos utilizados na hora de reconstruir as rela√ß√Ķes de parentesco.


Petterson (1981) mostrou, através de vários exemplos, o quanto os fósseis prejudicavam a compreensão sobre as hipóteses de evolução dos animais. Ax em 1987 defendeu em seu livro The Phylogenetic System que os dados fósseis são tão incompletos que as árvores deveriam ser construídas com base apenas nos grupos viventes e só depois que a análise computacional fosse feita é que se deveriam adicionar os fósseis. Dessa maneira e com muito sucesso, os críticos rapidamente conseguiram marginalizar o uso dos dados paleontológicos nos estudos da evolução das linhagens de organismos viventes.

A Hipótese Clássica da evolução dos Amniotas

In√ļmeras √°rvores foram constru√≠das ao longo dos anos seguintes, a maioria delas ignorando as informa√ß√Ķes provindas dos f√≥sseis. O estudo que mais me chamou a aten√ß√£o foi o trabalho cl√°ssico de Gardiner em 1982, no qual este autor tentou reconstruir a at√© ent√£o, pouco compreendida hist√≥ria evolutiva dos amniotas. Amniota √© um grupo de animais vertebrados que possuem, dentre muitas caracter√≠sticas, uma membrana extraembrion√°ria ao redor do feto chamada de amnion, membrana a qual √© fundamental para a independ√™ncia da √°gua do ambiente durante o desenvolvimento do filhote no ovo, permitindo que estes animais colonizassem completamente o habitat terrestre. Estamos falando ent√£o da maioria esmagadora de vertebrados terrestres (e os que secundariamente retornaram ao ambiente aqu√°tico) que dominaram a Terra: desde as formas extintas famosas como dinossauros, pterossauros, ictiossauros, plesiossauros at√© as esp√©cies contempor√Ęneas de tartarugas, crocodil¬≠os, lagartos, serpentes, aves e mam√≠feros.


Gardiner utilizou v√°rios dados morfol√≥gicos dos cinco grupos de amniotas viventes em suas an√°lises (tartarugas, lagartos, jacar√©s, mam√≠feros e aves). Gardiner observou que as aves e os mam√≠feros eram evolutivamente relacionados, sendo agrupados por uma s√©rie de caracter√≠sticas que eram adapta√ß√Ķes √†s suas altas taxas metab√≥licas (metabolismo alto leva a uma temperatura corp√≥rea alta, sendo estes animais equivocadamente chamados de animais de ‚Äúsangue quente‚ÄĚ).
Gardiner ressuscitou o antigo termo Haeomothermia para nomear o grupo de animais de ‚Äúsangue quente‚ÄĚ formado por aves e mam√≠feros (o termo vem de homeotermia, do grego homo: igual, thermia: temperatura; que √© como chamamos os animais que possuem temperaturas corporais constantes). Haemothermia, por sua vez era relacionado evolutivamente com o Crocodylia (crocodilos, jacar√©s e gaviais) formando o grupo Thecodontia. Tartarugas, c√°gados e jabutis (Chelonia) eram mais aparentados com Thecodontia (Crocodylia+(Aves+Mammalia)). Por fim, o grupo mais basal de Amniota era Lepidosauria, o qual abrange tuataras, serpentes e lagartos (Figura 1).

Esta imagem possu√≠ um atributo alt vazio; O nome do arquivo √© Fig.1.-√Ārvore-Gardiner-recent.jpg
Fig. 1. Rela√ß√Ķes entre as cinco assembleias de amniotas viventes defendida por Gardiner (1982; ver tamb√©m Lovtrup, 1985) modificado de Gauthier e colaboradores (1988)

 
O trabalho experimental de Gauthier


Os resultados de Gardiner¬†se baseam exclusivamente em animais viventes, conforme j√° foi dito e ecoaram por quase uma d√©cada. Lovtrup (1985) publicou um trabalho no qual afirmou ter encontrado maior suporte √† hip√≥tese de Gardiner. At√© que, em 1988, um c√©lebre manuscrito chegou para revolucionar a vis√£o que a comunidade cient√≠fica da √©poca tinha sobre os dados paleontol√≥gicos. Gauthier e seus colegas (1988), baseados na hip√≥tese de filogenia dos amniotas proposto por Gardiner, publicaram o primeiro estudo demonstrando empiricamente (ou seja, atrav√©s de experimentos pr√°ticos e n√£o calcados apenas em conjecturas) que os f√≥sseis poderiam contribuir e muito na elucida√ß√£o das hip√≥teses de parentesco dos seres vivos atuais. Para isso, eles¬†conduziram¬†uma nova an√°lise, s√≥ que dessa vez incluindo esp√©cies extintas, obtendo uma √°rvore marcadamente diferente e depois a submeteram a alguns testes para confirmar sua validade. Para entendermos como os autores chegaram a suas conclus√Ķes precisamos compreender os experimentos que a equipe realizou. Gauthier partiu de uma pergunta: os F√≥sseis poderiam alterar as nossas hip√≥teses de parentesco entre as biotas recentes? Para responder isso, ele conduziu um estudo em tr√™s etapas.


(1) Primeiramente, antes de rodar uma nova an√°lise incluindo os f√≥sseis, os pesquisadores destrincharam e reviram todas as caracter√≠sticas utilizadas por Gardiner e perceberam que havia alguns equ√≠vocos e erros na interpreta√ß√£o dos caracteres. Gardiner afirmara, por exemplo, que um cora√ß√£o dividido em quatro c√Ęmaras √© hom√≥logo (mesma origem; para melhor entendimento desta terminologia veja aqui) em crocodilos, aves e mam√≠feros, o que refor√ßava a rela√ß√£o de parentesco entre eles. Contudo, quando acompanhamos o desenvolvimento embrion√°rio do septo interventricular destes animais, vemos que nos mam√≠feros ele se desenvolve a partir de uma crista de tecido endoc√°rdico na parede de tr√°s do ventr√≠culo, enquanto que nas aves e nos crocodilos o septo surge de varias protuber√Ęncias musculares pouco recobertas por endoc√°rdio na lateral do ventr√≠culo. Apesar de serem estruturas semelhantes nos adultos, elas n√£o possuem a mesma origem no embri√£o, ou seja, n√£o s√£o hom√≥logas. Logo, os equ√≠vocos nas interpreta√ß√Ķes de Gardiner o levaram a estabelecer homologias entre mam√≠feros e aves que n√£o condiziam com a realidade.


(2) Depois de corrigir a lista de características, Gauthier rodou duas análises, uma contendo apenas os dados morfológicos dos cinco grupos viventes de Gardiner e outra incorporando 29 espécies de amniotas extintos. Foi então que uma nova hipótese começou a tomar forma.


A an√°lise com dados dos animais viventes


A √°rvore filogen√©tica obtida utilizando apenas os cinco grupos de amniotas viventes se assemelhou √† hip√≥tese cl√°ssica de Gardiner de 1982, com apenas uma pequena diferen√ßa: os crocodilos e n√£o os mam√≠feros eram mais relacionados com as aves, trazendo d√ļvidas quanto a validade do antigo grupo Haemothermia (Ver figura 2). Isso implica em infer√™ncias important√≠ssimas para nossa compreens√£o da evolu√ß√£o da homeotermia. Primeiro, que um jacar√© √© o parente mais pr√≥ximo das aves do que qualquer outro animal vivo hoje. Al√©m disso, muitas caracter√≠sticas que antes eram vistas como hom√≥logas entre aves e mam√≠feros e que estariam presentes no suposto ancestral comum destas duas linhagens, na verdade surgiram duas vezes independentemente na √°rvore da vida dos vertebrados. Talvez em resposta provavelmente as mesmas press√Ķes evolutivas.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é Fig.-2.-Arvore-Gatuhier-recent.jpg
Fig. 2. √Ārvore obtida da an√°lise de Gauthier (1988) apenas com amniotas viventes. Note que ela se assemelha √† √°rvore anterior de Gardiner (1982), contudo as aves est√£o mais relacionadas com crocodilos do que com os mam√≠feros.

 
A an√°lise com dados combinados (animais viventes + extintos)


Na segunda an√°lise na qual Gauthier acrescentou os f√≥sseis, uma √°rvore completamente diferente surgiu (ver figura 3). N√£o s√≥ aves e crocodilos estavam agrupados juntos, mas lagartos e serpentes (Lepidosauria) agora estavam mais relacionados a Aves + Crocodylia do que as tartarugas. O mais estranho foi que os mam√≠feros agora estavam na base da √°rvore, formando uma grande dicotomia inicial: Mam√≠feros e todos seus parentes extintos de um lado versus lepidossauros, qu√™lonios, crocodilos, aves e todos seus parentes extintos relacionados do outro. Ao primeiro grupo, chamamos de Synapsida (amniotas que apresentam uma fenestra temporal no cr√Ęnio) e ao segundo, Reptillia (que compreende tanto amniotas que possuem duas ou nenhuma fenestra temporal, Diapisida e Anapsida, respectivamente). Contudo, n√£o bastava obter uma √°rvore completamente diferente, ela precisava ser mais bem justificada.

Esta imagem possu√≠ um atributo alt vazio; O nome do arquivo √© Fig.-3.-√Ārvore-Gauthier-fossilrecent.jpg
Fig. 3. √Ārvore obtidida por Gauthier (1988) combinando tanto esp√©cies f√≥sseis quanto viventes. Note que h√° uma dicotomia basal, separando mam√≠feros e seus parentes extintos (Synapsida) de um lado versus todos os r√©pteis atuais + Aves (Reptilia) do outro.

 
An√°lises posteriores ‚Äď Esmiu√ßando a nova hip√≥tese obtida


Na √ļltima etapa do estudo (3), uma s√©rie de experimentos computacionais foram conduzidos por Gauthier, alguns ser√£o explicados mais adiante e que culminaram em um achado esperan√ßoso, principalmente para n√≥s paleont√≥logos: F√≥sseis s√£o fundamentais para elabora√ß√£o das hip√≥teses de rela√ß√£o entre as esp√©cies viventes.
Gauthier e seus colegas queriam saber o porquê que as árvores diferiram tanto nas análises com e sem os fósseis. Para isso, eles fizeram algumas análises posteriores, contudo só irei detalhar três delas neste texto que acredito serem mais interessantes para nossa discussão. Primeiro, os autores compararam o índice de consistência de sua nova árvore com o índice da árvore de Gardiner. Este índice mostra o quão robusto e conciso estão seus resultados, no caso, sua hipótese de evolução de uma linhagem. O interessante foi que mesmo adicionando várias espécies fósseis na sua análise, Gauthier encontrou um valor de índice de consistência semelhante ao de Gardiner, mostrando que mesmo os fósseis alterando drasticamente a hipótese, a árvore continuava tão confiável quanto uma utilizando apenas espécies viventes.


Numa an√°lise posterior, Gauthier e colaboradores removeram todos os grupos f√≥sseis do lado ‚Äúsinaps√≠deo‚ÄĚ da √°rvore, deixando apenas os animais viventes desse ramo (mam√≠feros) junto com todos do lado ‚ÄúReptillia‚ÄĚ (viventes e extintos) e rodaram a an√°lise. Paralelamente, foi feito o oposto, todas as linhagens extintas de Reptillia foram retiradas deixando apenas seus representantes viventes e o lado ‚Äúsinaps√≠deo‚ÄĚ da √°rvore (viventes e extintos) e rodaram a an√°lise. Os autores viram que n√£o importava qual f√≥ssil de Reptillia fosse retirado, a √°rvore final n√£o se alterava. Por√©m,  quando os f√≥sseis de sinaps√≠deos eram retirados, a √°rvore adquiria o novo padr√£o proposto por Gardiner (1982; Figura 3).

Gauthier então percebeu que os principais responsáveis pela nova topologia da árvore eram os fósseis de sinapsídeos. Mas por que isso?
De acordo com os autores, quanto mais antiga √© a origem de uma linhagem e quanto mais derivada for a morfologia de seus representantes atuais (como √© o caso dos mam√≠feros), mais os f√≥sseis ser√£o importantes para elucidar sua evolu√ß√£o. Basta compararmos os mam√≠feros atuais com seus parentes extintos, os ‚Äúpelicossauros‚ÄĚ como Casea, Ophiacodon, Edaphosaurus, Sphenacodon (figura 4) para ver o ‚Äúabismo morfol√≥gico‚ÄĚ que separam essas linhagens. Quando observamos os mam√≠feros atuais, dificilmente conseguimos relaciona-los com outro grupo de animal vivente e quando tentamos, certamente estaremos fadados ao erro, assim como Gardiner, em 1982 equivocadamente agrupou Aves e Mammalia no antigo grupo Haeomothermia. Por√©m, quando olhamos para os f√≥sseis vislumbramos um mundo completamente ‚Äúnovo‚ÄĚ. As formas extintas possuem combina√ß√Ķes √ļnicas de caracter√≠sticas basais e derivadas que frequentemente se apresentam numa serie gradual de mudan√ßas, que nos permitem acompanhar suas hist√≥rias evolutivas de maneira tal que possamos observar esp√©cies diferentes ficando cada vez mais semelhantes conforme voltamos no tempo. Os f√≥sseis s√£o uma das poucas evid√™ncias diretas da evolu√ß√£o e √© por isso, que os dados paleontol√≥gicos se tornam t√£o fundamentais para elucidar as rela√ß√Ķes evolutivas dos grupos viventes. Principalmente, quando o objeto de estudo s√£o animais t√£o diferentes como seu cachorro e um pardal na janela de casa.


Outro experimento que a equipe de Gauthier conduziu consistiu basicamente em retirar todas as linhagens viventes da matriz de caracter√≠sticas e fazer uma nova an√°lise. Apesar de ser um experimento simples, o resultado obtido foi revelador: a nova hip√≥tese representada na figura 3 veio √† tona novamente, por√©m sem os animais viventes. Este resultado, associado √† an√°lise inicial das caracter√≠sticas utilizadas no trabalho de Gardiner (1982), derruba os argumentos dos cr√≠ticos a respeito da incompletude do registro f√≥ssil. De fato a informa√ß√£o que provem dos fosseis √© mais incompleta do que as que podemos retirar dos animais viventes, mas mesmo assim os f√≥sseis est√£o longe de serem menos informativos em uma an√°lise filogen√©tica. Gauthier demonstrou isso quando retirou todas as esp√©cies viventes da an√°lise e mesmo assim alcan√ßou a nova hip√≥tese. Al√©m disso, Gauthier enfatizou que incompletude n√£o √© exclusiva de f√≥sseis. Ela pode ocorrer naturalmente nos animais. Quatro das caracter√≠sticas utilizadas na an√°lise de Gardiner eram do osso quadrado, um osso na base do cr√Ęnio dos vertebrados no qual se articula a mand√≠bula. Contudo, nos sinaps√≠deos mais derivados, os cinodontes (o qual mam√≠feros fazem parte), esse osso foi gradativamente sendo reduzido e alocado cada vez mais para tr√°s do cr√Ęnio junto com uma s√©rie de ossos da mand√≠bula. Esta condi√ß√£o alcan√ßou o extremo nos mam√≠feros, onde o osso quadrado e um grupo de ossos que uma vez pertenceram √† mand√≠bula, se reduziram e modificaram sua fun√ß√£o ao ponto de formarem o que hoje s√£o nossos oss√≠culos do ouvido m√©dio (o quadrado dos outros vertebrados √© a bigorna nos mam√≠feros). Logo, aquelas quatro caracter√≠sticas baseadas na morfologia do osso quadrado, n√£o se aplicam aos mam√≠feros, pois o quadrado deles se alterou tanto que fica dif√≠cil comparar com os outros animais, ou seja, este √© um dado naturalmente faltante. Al√©m disso, Gauthier percebeu que Casea (o f√≥ssil mais basal e antigo de sinaps√≠deo e que consequentemente esper√°vamos maior incompletude) apresentava 26% de informa√ß√£o faltando, enquanto que os mam√≠feros atuais tinham em m√©dia 15% de dados morfol√≥gicos faltando ou dif√≠ceis de interpretar. Esses 11% de diferen√ßas s√£o realmente significantes? Gauthier n√£o s√≥ provou que n√£o h√° diferen√ßa significante como tamb√©m nos mostrou que informa√ß√£o incompleta n√£o √© exclusiva dos f√≥sseis.

Fig. 4. Outra √°rvore filogen√©tica, dessa vez apenas com sinaps√≠deos. Note a variedade de formas desde as mais basais, como Casesauria (um ‚ÄúPelicossauro‚ÄĚ), at√© os parentes mais pr√≥ximos dos mam√≠feros, um cinodonte n√£o-mam√≠fero.
Fig. 4. Outra √°rvore filogen√©tica, dessa vez apenas com sinaps√≠deos. Note a variedade de formas desde as mais basais, como Casesauria (um ‚ÄúPelicossauro‚ÄĚ), at√© os parentes mais pr√≥ximos dos mam√≠feros, um cinodonte n√£o-mam√≠fero.


A Renascença dos fósseis


Ap√≥s demonstrar empiricamente qu√£o importante os f√≥sseis s√£o para nossa compreens√£o da evolu√ß√£o das linhagens viventes, Gauthier deu um solavanco nos sistematas, convidando-os a se debru√ßarem no assunto. Desde ent√£o, estudos importantes v√™m sendo conduzidos, cada vez mais enaltecendo o uso de dados paleontol√≥gicos em reconstru√ß√Ķes filogen√©ticas e desenvolvendo metodologias para minimizar o efeito da incompletude dos dados de organismos tanto viventes quanto extintos, o famigerado missing data que os cladistas tanto abominam (veja Donoghue et al., 1989; Smith, 1998; Wilkinson; Benton, 1995).
Exemplos como estes de Gardiner e Gauthier nos mostram como a Ci√™ncia √© din√Ęmica. O que antes era tido como verdade e que hoje √© obsoleto, n√£o necessariamente deixa de ser √ļtil. Se Gardiner n√£o tivesse se aventurado nas rela√ß√Ķes de Amniota, Gauthier e toda uma gera√ß√£o de sistematas n√£o seriam impulsionadas a refletir sobre o assunto e talvez o reconhecimento da import√Ęncia dos f√≥sseis na reconstru√ß√£o da evolu√ß√£o da vida na Terra poderia ser ainda mais postergada. Por fim, quando ignoramos as informa√ß√Ķes contidas no registro f√≥ssil, estamos ferindo o princ√≠pio da Evid√™ncia Total (um tema que ser√° abordado em postagens futuras do blog). Este princ√≠pio pode ser exemplificado com uma √≥tima analogia que um estimado amigo uma vez me fez: n√£o usar os dados paleontol√≥gicos para inferir filogenia √© como ter um beb√™ de colo e joga-lo pela janela s√≥ porque ele n√£o √© um adulto.


Referências:


AX, Peter. 1987. The phylogenetic system: the systematization of organisms on the basis of their phylogenesis.
DARWIN, C. A Origem das Esp√©cies. Hemus ‚Äď Livraria Editora Ltda, S√£o Paulo, SP.


DONOGHUE, Michael J. 1989. Phylogenies and the analysis of evolutionary sequences, with examples from seed plants. Evolution, v. 43, n. 6, p. 1137-1156.


GARDINER, BRIAN G. 1982. Tetrapod classification. Zoological Journal of the Linnean Society, v. 74, n. 3, p. 207-232.


GAUTHIER, Jacques; KLUGE, Arnold G.; ROWE, Timothy. 1988. Amniote phylogeny and the importance of fossils. Cladistics, v. 4, n. 2, p. 105-209.
HENNIG, Willi. 1950. Grundzuge einer Theorie der phylogenetischen Systematik.


LOVTRUP, Soren. 1985. On the classification of the taxon Tetrapoda. Systematic Zoology, v. 34, n. 4, p. 463-470.


PATTERSON, Colin. 1981. Significance of fossils in determining evolutionary relationships. Annual Review of Ecology and Systematics, v. 12, n. 1, p. 195-223.
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SMITH, Andrew B. 1998. What does palaeontology contribute to systematics in a molecular world?. Molecular phylogenetics and evolution, v. 9, n. 3, p. 437-447.


WILKINSON, Mark; BENTON, Michael J. 1995. Missing data and rhynchosaur phylogeny. Historical Biology, v. 10, n. 2, p. 137-150.

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Geovane Alves de Souza, Graduado em licenciatura e bacharelado em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Londrina. Atualmente é mestrando em Zoologia pelo Museu Nacional/UFRJ. Já desenvolveu pesquisas na área de parasitologia de animais silvestres, hoje conduz estudos de osteohistologia com titanossauros.


Um bicho tinhoso!! Conheça o mais novo predador do Cretáceo do Brasil

Durante do¬†Cret√°ceo Superior, h√° cerca de 80 milh√Ķes de anos atr√°s, a regi√£o hoje correspondente ao noroeste do estado de S√£o Paulo e Tri√Ęngulo Mineiro em Minas Gerais, abrigava uma rica e diversificada fauna de¬†crocodiliformes terrestres¬†¬†(parentes distantes dos crocodilos e jacar√©s atuais), que prosperava em meio aos gigantes dinossauros.

Recentemente uma nova esp√©cie de crocodiliforme desse per√≠odo foi descoberta em uma cidade do interior de S√£o Paulo. Descrita por pesquisadores brasileiros, o novo animal, com o cr√Ęnio extraordinariamente bem preservado, ganhou um nome de dar medo:¬†Gondwanasuchus scabrosus. Quer entender o por qu√™ desse estranho nome de batismo? Vamos primeiro conhecer um pouco mais sobre esse animal:

Gondwanasuchus scabrosus_Rodolfo Nogueira
Arte de Rodolfo Nogueira.

– Texto por Thiago Marinho –

O mais novo representante dos crocodiliformes terrestres do Cret√°ceo do Brasil,¬†Gondwanasuchus scabrosus, √© um pequeno predador da Fam√≠lia Baurusuchidae, composta por importantes predadores e carniceiros que poderiam at√© mesmo competir por presas com pequenos dinossauros. Essa nova esp√©cie foi descrita com base em um cr√Ęnio parcialmente completo e muito bem preservado, proveniente de rochas da Forma√ß√£o Adamantina do munic√≠pio de General Salgado, noroeste do estado de S√£o Paulo. Gondwanasuchus n√£o passaria de 1,30 m de comprimento, mas o que esses animais n√£o tinham em tamanho, tinham em adapta√ß√Ķes que os tornavam eficientes predadores.

O nome do g√™nero,¬†Gondwanasuchus,¬†faz alus√£o a distribui√ß√£o da fam√≠lia dos baurussuqu√≠deos, restrita a regi√Ķes do antigo supercontinente Gondwana¬†(que durante o Cret√°ceo agrupava a Am√©rica do Sul, √Āfrica, Madagascar, √ćndia, Oceania e Ant√°rtica) e, suchus, que significa crocodilo. O nome que define a esp√©cie, scabrosus, √© uma palavra em Latim que significa ‚Äútinhoso‚ÄĚ, um apelido dado pelos pesquisadores que descreveram a esp√©cie, devido √† apar√™ncia “mal-encarada” do animal.

Figure 5 colourO f√≥ssil de Gondwanasuchus scabrosus √© representado por um cr√Ęnio parcialmente completo, que foi encontrado em 2008 em associa√ß√£o a um grande indiv√≠duo de Baurusuchus salgadoensis, um crocodiliforme tamb√©m da fam√≠lia dos baurussuqu√≠deos. Gondwanasuchus scabrosus convivia n√£o s√≥ com outros baurussuqu√≠deos, mas tamb√©m com crocodiliformes herb√≠voros da fam√≠lia dos esfagessaur√≠deos. A presen√ßa de esfagessaur√≠deos e o fato de os dep√≥sitos da Forma√ß√£o Adamantina no munic√≠pio de General Salgado serem basicamente compostos por paleossolos (solos que foram preservados no registro geol√≥gico), sugerem que pelo menos algumas partes do habitat de Gondwanasuchus eram compostas por¬†√°reas com vegeta√ß√£o ¬†arbustiva e arb√≥rea.

Cr√Ęnio peculiar:

O cr√Ęnio de Gondwanasuchus ¬†√© altamente comprimido lateralmente, como o de muitos dinossauros carn√≠voros – bastante diferente dos crocodilos atuais!¬†Suas narinas eram posicionadas lateralmente na regi√£o anterior do focinho e o animal possu√≠a grandes √≥rbitas oculares voltadas para frente.

Dentes modificados:

Cr√Ęnio em vista lateral anterior dorsal e ventralOs dentes posteriores de G. scabrosus s√£o altamente comprimidos e com bordas serrilhadas, como os dentes de alguns dinossauros carn√≠voros. Outra peculiaridade da denti√ß√£o desses animais √© a presen√ßa de profundas estrias que percorrem os dentes da base para o topo,¬†possivelmente garantindo uma maior resist√™ncia a quebra durante o processo de ca√ßa e alimenta√ß√£o.

Vis√£o especializada:

Os olhos de Gondwanasuchus scabrosus eram ¬†destacadamente voltados para frente, diferentemente do observado na maioria dos outros crocodiliformes, que possuem os olhos orientados lateralmente. Essa caracter√≠stica permitia que esses animais tivessem vis√£o binocular, ou seja, eles¬†poderiam enxergar tridimensionalmente, o que seria muito √ļtil para uma melhor avalia√ß√£o da dist√Ęncia dos objetos observados e melhor precis√£o de seus ataques.

Quer mais detalhes? Clique no infogr√°fico para ampliar!

esse
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Interessado em mais informa√ß√Ķes sobre esse animal?? Escreva pra gente (colecionadoresdeossos@gmail.com)!! Thiago da Silva Marinho, o primeiro autor do artigo, √© membro aqui do Colecionadores de Ossos!!¬†

Thiago da Silva Marinho

Bi√≥logo pela Universidade Federal de Uberl√Ęndia (UFU), Mestre e Doutor em Geologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), hoje √© professor efetivo da Universidade Federal do Tri√Ęngulo Mineiro (UFTM).
Desenvolve estudos com ênfase em arcossauros mesozóicos, especialmente crocodyliformes e dinossauros.
Clique aqui para ver o Currículo Lattes.
 
 

MARINHO, T. S. et al. Gondwanasuchus scabrosus gen. et sp. nov., a new terrestrial predatory crocodyliform (Mesoeucrocodylia: Baurusuchidae) from the Late Cretaceous Bauru Basin of Brazil. Cretaceous Research. 2013 (on-line).

Bambiraptor? Pintosaurus!?‚Äď Os nomes mais estranhos da Paleontologia!

Com contribuição de Thiago Marinho

O bicho é meu e eu coloco o nome que eu quiser nele!!!

Pintossauro, Gasossauro, Dinheirossauro, Fodonyx, Bambiraptor…? A lista √© longa! Um mais estranho que o outro! Mas porque eles foram batizados assim?

Veja aqui uma amostra dos nomes mais estranhos da Paleontologia!

Ai Ai Estou Morrendo Seu Idiota da Silva Sauro

Quem n√£o lembra do epis√≥dio da Fam√≠lia Dinossauro em que Baby √© levado para o grande s√°bio afim de receber um nome, mas algo inesperado acontece? Ele acaba recebendo um nome meio que, digamos… incomum:¬†“Ai Ai Estou Morrendo Seu Idiota da Silva Sauro”.

(se voc√™ nunca assistiu, veja o epis√≥dio¬†AQUI¬†ūüôā ).

Isso nos leva a pensar: Afinal, como são escolhidos os nomes dos dinossauros??

Certamente n√£o √© como no epis√≥dio da fam√≠lia dinossauro (ver post anterior), mas ainda assim parecem surgir alguns resultados meio… incomuns.

Neste post vamos reunir alguns dos nomes mais inusitados já escolhidos por paleontólogos.

N√£o s√£o s√≥ os dinossauros que sofrem, mas toda ‘sorte’ de criatura extinta…

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Os 10 mais!

And the Oscar goes to:

1)¬†PINTOSAURUS:¬†g√™nero basal de procolofon√≠deo.¬†Procolofoqu√™?¬†Procolofon√≠deo!¬†Procolofon√≠deos s√£o parar√©pteis que lembram muito um “tipo robusto de lagarto”, mas na verdade n√£o tem nada a ver com eles (Veja¬†AQUI¬†e¬†AQUI¬†para saber mais).¬†Pintosaurus ¬†foi descrito em 2004, encontrado em rochas de idade Permo-tri√°ssicas do Uruguai.¬†Pinto-¬†foi escolhido para homenagear o¬†Dr. Iraja Damiani Pinto, paleont√≥logo ga√ļcho que contribuiu substancialmente para paleontologia sulamericana. (…)

2)¬†CHUPACABRACHELYS: Trata-se de uma tartaruga do per√≠odo Cret√°ceo, que foi encontrada no Texas, USA. N√£o tem muito a dizer… o nome realmente foi em homenagem ao¬†“chupa-cabra”

3)¬†GASOSAURUS CONSTRUCTUS: Dinossauro ter√≥pode chin√™s de m√©dio porte. O nome foi escolhido para homenagear uma empresa de combust√≠vel. O dinossauro foi encontrado durante sua constru√ß√£o, por isso o nome da esp√©cie √© ‘constructus‘.

4) DINHEIROSAURUS LOURINHANENSIS: Uma espécie de dinossauro saurópode gigante, aparentado ao Diplodocus. Ele foi encontrado na região da Praia de Porto Dinheiro, concelho de Lourinhã, em Portugal. O nome deriva do local aonde ele foi encontrado. Tinha que ser um dinossauro português..

5)¬†BAMBIRAPTOR: Sim, esse √© um dinossauro que foi nomeado em homenagem ao¬†Bambi. Isso mesmo, aquele personagem da¬†Disney¬†(…!!). Trata-se de um pequeno dinossauro carn√≠voro, com menos de 1m de comprimento. O nome foi escolhido porque aparentemente o esp√©cime encontrado era um juvenil.

6)¬†FODONYX:¬†Rincossauro¬†do Tri√°ssico M√©dio da Inglaterra. O nome significa “garra escavadora”. Em latim “fodere“=escavar e “onyx“=garra. “Tchau! vou ‘fodere’ dinossauros!”

7)¬†MINOTAURASAURUS: Tipo de dinossauro anquilossaur√≠deo proveniente da √Āsia. Foi descrito em 2008. O nome significa “Homem-touro-lagarto”.

8)¬†GOJIRASAURUS: G√™nero d√ļbio de dinossauro ter√≥pode encontrado em rochas tri√°ssicas do Novo M√©xico, EUA. O nome foi em homenagem ao monstro mitol√≥gico japon√™s.¬†Gojira…. Gojira….Gojira…

Incisivosaurus – n√£o √© s√≥ o nome que √© feio…

9) INCISIVOSAURUS: Um pequeno dinossauro terópode da China, provavelmente de hábito herbívoro. Sua dentição peculiar, com dentes proeminentes como os e um roedor, foi o que lhe rendeu o nome estranho.

10)¬†PIKAIA: Representante basal do grupo dos cordados. O nome dessa criaturinha Cambriana encontrada em¬†Burgess Shale¬†significa “da Pika”.¬†Pika¬†√© um tipo de pequeno mam√≠fero aparentado dos coelhos, comumente encontrado na regi√£o aonde os f√≥sseis de Pikaia foram descobertos. (Eu ri!)

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No mínimo exóticos:

–¬†Enigmosaurus: Grande dinossauro ter√≥pode herb√≠voro (Therezinosaur√≥ide) do Cret√°ceo da Mong√≥lia. Quando os seus restos foram encontrados, a anatomia n√£o usual da p√©lvis do bicho deixou os seus descobridores t√£o confusos, que lhes pareceu um verdadeiro enigma. Assim sendo, resolveram nome√°-lo dessa forma.

–¬†Camelotia:¬†G√™nero de um dinossauro prossaur√≥pode do Tri√°ssico Inglaterra. Seu nome significa “de Camelot”.¬†Camelot¬†trata-se do lugar lend√°rio na Gr√£-Bretanha, que teria abrigado o castelo e a corte do Rei Arthur.

–¬†Erectopus: Dinossauro ter√≥pode allossaur√≥ide do Cret√°ceo da Fran√ßa. Descoberto no final do S√©culo XIX, o seu nome significa: “Erecto=em p√©”, “Pous=P√©”. Hm…

–¬†Minmi: Dinossauro australiano da infraordem Ankylosauria.¬†O nome √© devido √†¬†Minmi Crossing, o lugar onde seus f√≥sseis foram descobertos.

–¬†Hallucigenia: G√™nero de invertebrado f√≥ssil do Per√≠odo Cambriano. O nome √© devido a sua forma bizarra, que aos olhos dos descobridores mais parecia uma alucina√ß√£o. J√° viu n√©!!

–¬†Drinker: Pequeno dinossauro hypsilofodont√≠deo do Jur√°ssico da Am√©rica do Norte. O nome, traduzido do ingl√™s significa “bebedor”, mas essa n√£o foi a inten√ß√£o, ele foi proposto para homenagear o renomado paleont√≥logo Edward Drinker Cope.

–¬†Gargoyleosaurus: Um dos mais antigos anquilossauros j√° descobertos. Gargoyleasaurus foi encontrado em Wyoming, em rochas de idade Jur√°ssica. Seu nome significa “lagarto g√°rgula”.

–¬†Xixiasaurus: Dinossauro ter√≥pode troodont√≠deo descrito em 2010. Seus restos foram encontrados na regi√£o administrativa de Xixia, na prov√≠ncia de Henan, China.

–¬†Pawpawsaurus:¬†G√™nero de dinossauro da fam√≠lia Nodosauridae, da infraordem Ankylosauria. Seus restos foram encontrados na¬†Forma√ß√£o Paw Paw, Texas, USA. Eu n√£o consigo falar sem rir!
–¬†Pedopenna: Dinossauro manirraptor do Jur√°ssico da China.¬†Pedopenna¬†significa “pena no p√©”. Este dinossauro recebeu esse nome por apresentar evid√™ncias da exist√™ncia de longas penas inseridas ao longo de seus metatarsos.
–¬†Ozraptor:¬†Dinossauro ter√≥pode encontrado na Austr√°lia, descrito em 1998. “Oz” faz refer√™ncia ao apelido dado aos australianos,“Ozzies”.
–¬†Borogovia:¬†O nome deste dinossauro carn√≠voro troodont√≠deo √© derivado dos¬†“borogoves”, criaturas de um poema de Lewis Carroll, ¬†Jabberwocky,¬†parte da obra “Alice no pa√≠s das Maravilhas”.
–¬†Appalachiosaurus: G√™nero de dinossauro ter√≥pode tiranossaur√≥ide do Cret√°ceo da Am√©rica do Norte. O nome faz refer√™ncia a regi√£o estadunidense conhecida como Appalachia, onde o f√≥ssil do animal foi encontrado.

–¬†Petrobrassaurus¬†puestohernandezi: Dinossauro saur√≥pode¬†argentino. Foi descrito em 2011. O nome do g√™nero realmente √© devido a companhia de petr√≥leo brasileira,¬†Petrobr√°s,¬†e o nome espec√≠fico se refere a “Puesto Hernandez”, um dos centros de extra√ß√£o da companhia, aonde o dinossauro foi encontrado. ¬†Ahhh, invejosos! Queridos!!

–¬†Atlascopcosaurus: Este dinossauro australiano recebeu seu nome em homenagem a companhia Atlas Copco. Esta companhia forneceu o equipamento para a expedi√ß√£o paleontol√≥gica que resultou na descoberta do novo dinossauro. Capessaurus, Fapespsaurus, Cnpqsaurus, vamo l√°, galera!!

–¬†Qantassaurus: Este dinossauro hypsilofodont√≠deo foi nomeado para homenagear a empresa a√©rea australiana, Qantas, que ajudou no transporte dos f√≥sseis. Conclus√£o: australiano n√£o sabe dar nome pra dinossauro!!

–¬†Panamericansaurus: Outro g√™nero de dinossauro saur√≥pode da Patag√īnia argentina. Foi descrito em 2010. O nome foi para homenagear a companhia petrol√≠fera¬†Pan American Energy, que deu apoio financeiro √†s pesquisas.

ArgentinosaurusAh…Esse s√≥ pra sacanear mesmo. Bonito nome.

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Homenagens curiosas:

Utahraptor spielbergi – Esse dinossauro raptor foi descoberto na semana de estr√©ia do filme Jurassic Park. O nome da esp√©cie foi escolhido para homenagear Stephen Spielberg, diretor de “Jurassic Park”. Posteriormente re-descrito, o nome da esp√©cie mudou para¬†ostrommaysorum. Depois de ganhar milh√Ķes com Jurassic Park, acho que S. Spielberg n√£o deve ter ficado chateado….

Arthurdactylus conan-doylensis¬†– Este pterossauro recebeu seu nome em homenagem a Sir Arthur Conan-Doyle, autor de “O Mundo Perdido“, mais conhecido pela sua s√©rie de livros “Sherlock Holmes”.

Tianchisaurus nedegoapeferima¬†(Informalmente chamado de Jurassosaurus) – Tendo doado dinheiro para pesquisa de dinossauros na China, Stephen Spielberg sugeriu para esse dinossauro o nome de Jurassosaurus – em raz√£o do lan√ßamento do filme Jurassic Park em 1993. ¬†O nome esdr√ļxulo s√≥ pegou na informalidade. Por√©m ainda assim, o nome da esp√©cie (nedegoapeferima) homenageia Jurassic Park: ele √© formado pelas letras iniciais dos sobrenomes dos principais atores/atrizes que participaram do filme:¬†Sam¬†Neil, Laura¬†Dern, Jeff¬†Goldblum, Richard¬†Attenborough, Bob¬†Peck, MartinFerrero, Ariana¬†Richards e Joseph¬†Mazzello.

Dracorex hogwarsia¬†– O coitado desse bicho foi batizado como um tributo a obra de J.K. Rowling, “Harry Potter“. –¬†hogwarsia¬†faz alus√£o a ‘Hogwarts’, a escola de magia.

Mimatuta morgoth –¬†O Professor da Universidade de Chigado, Leigh Van Valen, nomeou uma s√©rie de mam√≠feros paleoc√™nicos com base em personagens da s√©rie de livros “Senhor dos An√©is”. Morgoth foi em homenagem ao “The Dark Lord”, mas al√©m dele ainda temos:

Alletodon mellon¬†– mellon √© a palavra √©lfica para “amigo” e a senha para a entrada nas minas de Moria.

Mithrandir onostus РMithrandir sendo outro nome para Gandalf.

Oxyprimus galadrielae РEm homenagem a Lady Galabriel.

Protungulatum gorgun¬†– ‘gorguns’ s√£o os orcs.

Bom gosto esse cara.

Masiakasaurus knopfleri – Esse pequeno dinossauro predador recebeu seu nome em homenagem a¬†Mark Knopfler, guitarrista da banda Dire Straits. De acordo com Scott Sampson, seu descobridor, o time resolveu batizar assim o dinossauro depois de escutar Dire Straits durante a escava√ß√£o. De acordo com eles, novos dinossauros s√≥ eram encontrados quando esse som estava no r√°dio. J√° tentamos essa t√°tica, mas pra gente s√≥ funciona com “Hotel California” do Eagles… #sarcasmo

Aegrotocatellus jaggeri¬†– ¬†Essa esp√©cie de trilobita foi nomeada realmente a fim de homenagear estrelas do rock! O nome da esp√©cie (jaggeri) ¬†foi um tributo a¬†Mick Jagger, vocalista do Rolling Stones, enquanto que o nome do g√™nero “Aegrotocatellus” significa em latim “Sick Puppie” (ver a banda de rock alternativo australiana ‘Sick Puppies‘).

aegrotocatellus-jaggeri
Jagger e seu trilobita

Um dos caras que ajudou a descrever esse trilobita (Greg Edgecombe), não satisfeito, nomeou uma outra série desses artrópodes primitivos com nomes de integrantes de bandas!  Ele homenageou Sex Pistols (Arcticalymene viciousi, A. Rotteni, A. jonesi, A. cooki, A. matlocki), Ramones (Mackenziurus johnnyi, M. joeyi, M. deedeei, M. ceejayi), John Lennon, Ringo Star e Simon & Garfunkel (Avalanchurus lennoni, A. starri, A. simoni, A. Garfunkeli).

Norasaphus monroae Esse trilobita foi uma homenagem de Richard Fortey, paleontólogo inglês, a Marlin Monroe.

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Trava-línguas:

РMalawisuchus mwakayasyunguti  Malawisuchus m(coloque-letras-nesse-espaço)

Piatzinigkosaurus РWTF? Isso foi sacanagem dos argentinos.

Huehuecanauhtlus tiquichensis –¬†uheuheueheuh!!¬†

– Nqwebasaurus¬†– Primeiro dinossauro com o som de “CLICK” em seu nome. Pronuncia-se: N – (som de click com a l√≠ngua) – KWE – BA – SAU – RUS. Nqweba √© o nome do lugar aonde o dinossauro foi encontrado, na √Āfrica do Sul. Trata-se de uma palavra na l√≠ngua da tribo Bantu.

РJinfengopteryx РChina 1

Jingshanosaurus РChina 2

РSzechuanosaurus РChina 3

РJinzhousaurus China 4. Os nomes chineses sempre são os mais impossíveis!

– Phuwiangosaurus¬†– Tail√Ęndia.

– Bruhathkayosaurus¬†– √ćndia. Corre√ß√£o: Os nomes asi√°ticos s√£o sempre os mais imposs√≠veis.

– Parapropalaehoplophorus¬†–¬†fale-3-vezes-r√°pido!

–> Agora-fale-tudo-junto!!!!

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“√Č√©√©√© do brasiiilll!!!”

Como se já não bastasse o Baurusuchus e lanches salgadoensis (Veja o post anterior), ainda temos uma série de crocodilos tupiniquins com nomes estranhos:

Morrinhosuchus¬†– Ganhou seu nome em homenagem a um morro ¬†(!) que fica pr√≥ximo ao local de coleta do f√≥ssil, o “Morrinho de Santa Luzia”.

Barreirosuchus – Mais uma alus√£o ao local de coleta, o bairro de Barreiros, em Monte Alto, SP;

Caipirosuchus paulistans –¬†que significa “o crocodilo caipira de S√£o Paulo”.

РPepesuchus РO nome foi uma homenagem ao Prof. José Martin Suárez (conhecido pelos colegas como Pepe).

Fora os dinossauros:

Oxalaia quilombensis¬†–¬†O g√™nero √© uma refer√™ncia a divindade africana ‘Oxal√°’ e a esp√©cie refere-se aos alojamentos quilombolas da Ilha do Cajual (local onde o f√≥ssil foi encontrado).

– Irritator challengeri –¬†Dinossauro brasileiro nomeado por pesquisadores estrangeiros (David Martill e colegas) que ficaram “extremamente irritados” devido a “restaura√ß√£o” feita pelo seu coletor amador. Buscando fazer o f√≥ssil parecer mais completo e valioso, o coletor clandestino acabou obscurecendo a real natureza do animal e dificultando o trabalho dos pesquisadores.¬†Isso que d√° comprar f√≥ssil ilegalmente Dr. Martill!!! ¬†O nome da esp√©cie foi uma homenagem ao Prof. Challenger, personagem do livro “O Mundo Perdido” de Arthus Conan Doyle.

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E para encerrar, Panamericansaurus pra vocês:

[youtube_sc url=”http://www.youtube.com/watch?v=NXZdvgzOvY4″]

* Agradecimentos aos colegas paleontólogos que contribuíram ajudando (pelo facebook!) a reunir os nomes mais bizarros de seus respectivos campos do conhecimento!

>Novo Croc gigante do Paleoceno Colombiano e pistas sobre a origem dos Dyrosauridae

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Ilustração acima: Danielle Byerley, Florida Museum of Natural History

A Formação Cerrejo, no Nordeste Colombiano, estimada como do Paleoceno Médio-Tardio Рbaseado em estudos de isótopos de carbono e palinomorfos Рapresenta o primeiro bom registro de ecossistemas continentais terrestres para essa brecha no tempo na América do Sul.

As descobertas mais recentes, feitas numa √°rea de explora√ß√£o de carv√£o, indicam n√£o s√≥ a mais antiga evid√™ncia macrof√≥ssil de florestas neotropicais, como tamb√©m, a presen√ßa da maior serpente f√≥ssil j√° descoberta, Titanoboa cerrejonensis. Al√©m disso, h√° registros de c√°gados gigantes, peixes dipn√≥icos e elopomorfos e de um raro Crocodiliforme Dyrossaur√≠deo de focinho curto, conhecido como Cerrejonisuchus improcerus.

Num trabalho rec√©m-publicado de Alexander Hastings, Jonathan Bloch e Carlos Jaramillo, um novo dyrossaur√≠deo de focinho longo, Acherontisuchus guajiraensis foi descrito para a regi√£o. O material f√≥ssil havia sido coletado em 1994, mas ficou retido na mina de carv√£o at√© 2004, quando foi levado a Universidade da Fl√≥rida para estudos. O que chama aten√ß√£o, √© o tamanho do animal.

H√° 60 milh√Ķes de anos atr√°s, Acherontisuchus guajiraensis, de 9 m de comprimento, coexistiu com a gigantesca Titanoboa cerrejonensis em um sistema de rios semelhante ao atual Amazonas, atravessando uma as primeiras florestas tropicais √ļmidas do mundo, at√© desembocar no que seria um dia o Mar do Caribe.

O focinho longo do Acherontisuchus deve ter sido utilizado para capturar peixes e os autores ainda sugerem que o animal deveria ter competido com Titanoboa por alimento.

As an√°lises nos f√≥sseis descritos no artigo mencionado ecaixam Acherontisuchus em um grupo de Crocodiliformes chamado de Dyrossaur√≠deos, animais que usualmente habitavam ambientes marinhos e fluviais costeiros. 

Vale √† pena checar o artigo tamb√©m porque os autores realizam uma nova an√°lise clad√≠stica para os Dyrosauridae, utilizando 82 caracteres do cr√Ęnio e mand√≠bula para encaixar Acherontisuchus guajiraensis em sua posi√ß√£o dentro do grupo. Eles incluem dyrossaur√≠deos do Novo Mundo e do Velho Mundo como Hyposaurus rogersii, Congosaurus bequaerti, Atlantosuchus coupatezi, Guarinisuchus munizi, Rhabdognathus keiniensis e Rhabdognathus aslerensis.

Os resultados s√£o consistentes com rela√ß√£o a origem africana dos Dyrosauridae, com dispers√Ķes para o Novo Mundo durante o Cret√°ceo Tardio, passando por uma transi√ß√£o de habitats marinhos em taxa ancestrais, para ambientes fluviais em taxa mais derivados.

Bibliografia:
. HASTINGS, A.K., BLOCH, J. I., JARAMILLO,.C.A. 2011. A NEW LONGIROSTRINE DYROSAURID (CROCODYLOMORPHA, MESOEUCROCODYLIA) FROM THE PALEOCENE OF NORTH-EASTERN COLOMBIA: BIOGEOGRAPHIC AND BEHAVIOURAL IMPLICATIONS FOR NEW-WORLD DYROSAURIDAE. [Palaeontology, Vol. 54, Part 5, 2011, pp. 1095‚Äď1116]

>O Brasil pr√©-hist√≥rico era realmente dos crocodilos…

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Neste √ļltimo m√™s, novas descobertas sobre o Cret√°ceo brasileiro vieram afirmar que neste per√≠odo os Crocodyliformes realmente dominavam nosso pa√≠s. Enquanto os dinossauros reinavam com soberania na maioria dos ecossistemas terrestres, aqui no territ√≥rio tupiniquim os crocodyliformes se diversificavam e ocupavam os mais diversos nichos. Desde animais com cerca de 4 metros de comprimento, √°geis e carn√≠voros, como o Baurusuchus, at√© pequenos on√≠voros, como o Mariliasuchus e o Adamantinasuchus. Haviam esp√©cies escavadoras, oportunistas e at√© mesmo consumidoras de plantas e ra√≠zes.

Estas descobertas t√™m elucidado como teriam sido as rela√ß√Ķes ecol√≥gicas pret√©ritas do paleoambiente hoje representados pelas rochas do Grupo Bauru. As rochas do Grupo Bauru s√£o de idade Neocret√°cica (Final do per√≠odo Cret√°ceo, do Cenomaniano ao Maastrichiano, 99-65 milh√Ķes de anos atr√°s) e foram depositadas em um contexto continental fluvial e lacustre de clima quente e √°rido. Elas est√£o bem distribu√≠das nos estados de S√£o Paulo e Minhas Gerais, mas tamb√©m s√£o encontradas no Paran√° e Goi√°s, e at√© mesmo no estado do Mato Grosso. Estas rochas representam um antigo ecossistema que possu√≠a uma diversificada fauna de vertebrados, incluindo dinossauros saur√≥podes (titanossauros) e ter√≥podes (abelissauros, carcharodontossauros e maniraptores, incluindo as aves), lagartos, cobras, quel√īnios, anf√≠bios, pequenos mam√≠feros, mas principalmente crocodyliformes. Estes √ļltimos englobavam at√© seis distintos grupos: os notossuqu√≠deos, os sphagessaur√≠deos, candidodont√≠deos, peirossaur√≠deos, trematocamps√≠deos e baurussuqu√≠deos.

Ao que se deve esta incr√≠vel diversidade de crocodilomorfos? O que pode ter favorecido o desenvolvimente deste grupo de arcossauros neste particular contexto pret√©rito? Os pesquisadores ainda procuram uma resposta. A solu√ß√£o para o enigma pode estar envolvida com o fato deste local pret√©rito ter sido geograficamente isolado e ter produzido uma situa√ß√£o ecol√≥gica e ambiental √ļnica, que favoreceu estes animais. Teriam eles ocupado o nicho at√© mesmo de dinossauros? Competido com eles? Ou o nicho de mam√≠feros, t√£o raros neste registro por algum prop√≥sito? A continuidade dos estudos vai ajudar a resposder estas perguntas.
Campinasuchus, o novo crocodyliforme do Cret√°ceo brasileiro

Fantástica reconstituição artística de Campinasuchus em vida por Rodolfo Nogueira.

Campinasuchus √© um novo g√™nero de Baurusuchidae descrito com base em alguns cr√Ęnios parciais e esqueletos encontrados na regi√£o de Campina Verde, MG, contexto da Forma√ß√£o Adamantina, Grupo Bauru, Bacia Bauru.
Os Baurusuchidae incluem crocodyliformes com cr√Ęnios lateralmente comprimidos e gracilmente alongados. S√£o conhecidos para o Cret√°ceo Tardio do Brasil, Argentina e Paquist√£o. Todos os membros podem ser considerados de m√©dio e grande porte, cursoriais (caminhavam ativamente sem encostar a barriga no ch√£o, com os membros posicionados mais verticalmente) e predadores. Outras esp√©cies de Baurusuchidae incluem: Baurusuchus pachecoi, Baurusuchus salgadoensis, Baurusuchus albertoi e Stratiosuchus maxhechti do Brasil, al√©m de Cynodontosuchus e Wargosuchus da Argentina.
Campinasuchus se diferencia dos outos Baurusuchidae por possuir um focinho mais curto e afilado, uma dentição diferenciada e peculiaridades no seu osso palatal (céu da boca).
A sua presen√ßa refor√ßa a id√©ia de que a aridez, ou possivelmente um regime espec√≠fico de sazonalidade (altern√Ęncia de per√≠odos quentes e secos com per√≠odos de alta pluviosidade), dirigiram a diversifica√ß√£o dos crocodyliformes terrestres neste ecossistema peculiar do Cret√°ceo Tardio brasileiro.
O trabalho foi publicado por Ismar de Souza e Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e colaboradores, na revista Zootaxa, de distribuição on line e gratuita, em 9 de maio de 2011.
O primeira icnoespécie de ovos fossilizados da América do Sul


Ovo fossilizado de crocodyliforme , foto de Carlos de Oliveira.


Ninhos de 70 milh√Ķes de anos foram encontrados nas proximidades da cidade de Jales, interior do estado de S√£o Paulo, por Carlos de Oliveira, da Funda√ß√£o Educacional de Fernand√≥polis (SP). A descoberta foi publicada este m√™s na revista Paleontoloy por ele e colaboradores. Os ovos foram encontrados em 2006 em rochas da Forma√ß√£o Adamantina, Grupo Bauru. A grande concentra√ß√£o deste material chamou a aten√ß√£o de Carlos, que com o prosseguimento das escava√ß√Ķes encontrou o que seria equivalente a 17 ninhadas situadoas em 3 diferentes n√≠veis de deposi√ß√£o sedimentar (o que corresponderia a tr√™s eventos temporais diferentes).


Foto por Carlos de Oliveira.


Os ovos são alongados e tem forma elíptica. O tamanho varia entre 5,8 e 6,5 cm. A maioria estava quebrada, o que pode sugerir que os filhotes haviam nascido e deixado os ovos. Apenas alguns estavam completos.

Esqueleto parcial de Baurusuchus encontrado em associação com os ninhos. Foto: Carlos Oliveira.

Todos eles foram considerados como pertencentes a um g√™nero de crocodyliforme, Baurusuchus, devido a in√ļmeros ossos, e inclusive cr√Ęnios e esqueletos parciais destes animais, que foram encontrados associados aos ninhos. Mas n√£o foi s√≥ isso que ajudou os pesquisadores a definirem os produtores destes ovos. A microestrutura da casca tamb√©m revela detalhes sobre quem os depositou:

Ovos de aves, dinossauros, crocodyliformes, quel√īnios, lagartos e cobras t√™m estruturas macro e microsc√≥picas diferentes. Al√©m do tamanho e formato ovo, aspectos histoestruturais da casca, como a organiza√ß√£o do sistema de poros e a forma de deposi√ß√£o de c√°lcio (existem diferentes morfotipos estruturais: testudin√≥ide, crocodil√≥ide, dinossaur√≥ide, ornit√≥ide e geck√≥ide por exemplo) ajudam a identificar o produtor.

Tipos de ovos de acordo com sua microestrutura. A micro-estrutura pode ser avaliada por meio de cortes histol√≥gicos da casca, que s√£o ent√£o observados com o aux√≠lio da microscopia eletr√īnica de varredura.

O estudo dos ovos fossilizados se chama Paleo-oologia e está inserida numa área da paleontologia chamada de Paleoicnologia, palaios=antigo, iknos=vestígios e logos=estudo, ou seja, O estudo dos vestígios antigos.

A Paleoicnologia estuda todo tipo de vestígio fóssil indireto ou evidência comportamental de uma atividade biológica (produzida por um organismo extinto). Os ovos constituem vestígios do comportamento de reprodução de animais extintos, logo estão no escopo de estudo da Paleoicnologia, assim como as pegadas fósseis, por exemplo, que são vestígios de locomoção.

A Paleoicnoloia tem toda uma taxonomia pr√≥pria para definir diferentes tipos de vest√≠gios. Essa ‘parataxonomia’, √† modo do sistema de nomenclatura biol√≥gica, √© binomial e latinizada. Se as caracter√≠sticas gerais de uma estrutura paleoicnol√≥gica foram parecidas com as de materiais j√° conhecidos, elas recebem o mesmo nome destes, mas se foram diferentes, ganham uma nova designa√ß√£o, como uma nova esp√©cie. A prop√≥sito, ICNOesp√©cie e icnog√™nero s√£o a maneira correta de se denominar estas estruturas, para n√£o se confundir com o sistema de nomenclatura biol√≥gica – o que √© muito comum.

Por exemplo, o icnog√™nero de pegadas de mam√≠feros conhecido como Brasilichnium elusivum ( descrito para Fm. Botucatu, Bacia do Paran√°) comumente √© confundido com o nome do produtor das pegadas… que na verdade n√£o √© conhecido por nenhuma evid√™ncia de f√≥ssil corporal! O nome B. elusivum se refere somente √†s pegadas, n√£o ao seu produtor. At√© mesmo animais diferentes poderiam ter produzido o mesmo tipo de vest√≠gio. Cuidado…

No caso do material de Jales, SP, os autores consideraram que todas as características identificadas poderiam sustentar um novo icnogênero, que denominaram de Bauruoolithus fragilis. Esta seria a primeira icnoespécie de ovos fossilizados descrita para a América do Sul (mas não os primeiros ovos fósseis descritos nem para o Brasil, nem para a América Latina! Há abundantes registros de ovos fossilizados na Argentina e vários também aqui no Brasil. Referências em nosso país são os ovos de dinossauro encontrados na região de Uberaba e os ovos atribuídos a Mariliasuchus em Marília, SP).

As fei√ß√Ķes encontradas nos ovos, segundo os autores, s√£o muito diferentes daquelas encontradas em outros crocodilomorfos, o que leva a suspeita de que os produtores de Bauruoolithus teriam um modo de reprodu√ß√£o peculiar. Isto pode estar diretamente ligado com o sucesso ecol√≥gico do grupo e pode fornecer respostas interessantes quanto a adapta√ß√£o destes animais √†s condi√ß√Ķes ambientais do sudeste brasileiro durante o Cret√°ceo Tardio.

O estudo de ovos f√≥sseis pode revelar detalhes de aspectos biol√≥gicos e ecol√≥gicos dos seus produtores. –estrat√©gias ou comportamentos de reprodu√ß√£o est√£o intimamente ligadas ao rigor ambiental e estresse ecol√≥gico (competi√ß√£o, preda√ß√£o, etc), assim como aspectos paleoambientais – recuperados direta (tafonomia) ou indiretamente (um estresse ambiental -uma grande seca, per√≠odo de escassez de alimentos, etc. – pode ser detectado estudando-se a microestrutura dos ovos)-, e paleoclim√°ticos (inferidos utilizando-se an√°lise de is√≥topos). Estes estudos s√£o um passo al√©m da simples descri√ß√£o.

H√° muito a ser feito!