“Risco de morte”

Durante séculos, escritores e falantes da língua portuguesa, dos clássicos aos mundanos, usaram a bela expressão “risco de vida” para se referir a situações que põem a vida em – isso mesmo – risco. De uma hora para outra, algum jornalista decidiu que o que é bom para José de Alencar não presta para as redações modernas, e inventou o hediondo “risco de morte” (mais feio que isso, só “estadunidense”…).

O argumento é de que “risco de vida” dá a impressão de que o fulano de quem se fala está em “risco de viver”. Bom, só tem essa impressão quem nunca ouviu ou leu o português em toda a vida, e é totalmente alheio às tradições da língua.

Alguém poderia redargüir que a tradição, nesse caso, desafia a lógica, e a lógica é mais importante.

Mas esse é um argumento que tem uma base falsa — de que a língua deve ser perfeitamente, explicitamente, lógica em cada uma de suas expressões e estruturas. Trata-se de uma falácia óbvia. Se fosse levada a sério, morreriam todas as figuras de linguagem.

De resto, os defensores dessa logicidade total deveriam, por coerência, parar de usar expressões como “não tinha ninguém” ou “ninguém fez nada”. Mais dia menos dia, então, veremos algo assim no noticiário político: “O pronunciamento do presidentre do Senado foi ouvido por ninguém no plenário”.

Discussão - 10 comentários

  1. Patola disse:

    “Estadunidense” pode ser feio, mas acho que essa é a idéia; usar uma palavra ridícula como “revanche” por essas pessoas terem usurpado o nome do continente inteiro. Se chamamos paulistas e paulistanos de nomes diferentes, por que não também os americanos (quem mora nas Américas) dos estadunidenses (quem mora nos Estados Unidos da América)?E sobre a língua ser lógica, também devo dar um palpite. Quanto mais lógica for a língua, mais fácil se torna para aprender. Nesse sentido, eu acho que o risco de morte, por desengonçado que seja, merece seu lugar. Não dói, dói?P.S. Por que você usa pré-moderação? Fazendo posts controversos, imaginava que entendesse a necessidade de haver abertura na postagem de comentários. Se uma pessoa discorda de ti e tem bons argumentos, mas sabe que será pré-moderada, não perderá tempo esmiuçando sua lógica para eventualmente ver você não aprovar o que ela disse. Imagine-se postando, sei lá, no blog do Júlio Severo, que também é pré-moderado. Você perderia tempo nele ou em blog parecido que não fosse moderado?

  2. Daniel disse:

    Não tenho muita certeza se línguas mais lógicas são mais fáceis de aprender (talvez sejam mais fáceis de aprender para estrangeiros adultos que estudam o vocabulário e a gramática, mas não para aqueles que aprendem desde cedo pelo contato constante com a língua).Mas observo que “risco de vida” não me parece realmente ilógico (“risco de viver” seria realmente ilógico). A referência ao “risco de vida” pode ser entendida como uma referência ao fato que “a vida está correndo risco”, isto é, há um risco no que diz respeito à vida.

  3. Patola disse:

    Bom, se são mais fáceis de aprender por estrangeiros adultos, Daniel, por que não seriam por crianças? Está certo que eles têm um mecanismo inato que permite um aprendizado muitíssimo mais eficiente, mas uma língua menos lógica exige de qualquer jeito mais esforço de memorização.Aliás, eu queria lembrar que a língua é um eterno aprendizado. Mesmo falantes nativos adultos estão sempre aprendendo palavras, expressões, estilos. Por que não torná-la mais fácil? Por que deixar a língua complicada e portanto menos acessível, menos apreensível?Eu acho que “risco de vida” não nos parece ilógico porque nos acostumamos à expressão. Se você está na beira de um penhasco você sofre “risco de queda” e não “risco de flutuação no ar”. Certo? Mas pra dar um exemplo mais parecido com o “risco de vida”, se você toma muito LSD, você tem risco de insanidade, não risco de sanidade.

  4. Daniel disse:

    Eu não sei se línguas mais lógicas são mais fáceis/difíceis de serem aprendidas por adultos ou se são mais fáceis/difíceis de serem aprendidas por crianças. Não tenho dados empíricos para chegar a uma conclusão ou outra, só para especular um pouco.1) Parece-me que adultos e crianças aprendem línguas de formas qualitativamente diferentes, não se trata apenas de eficiência (adultos estudam conjugação de verbos, regras de gramática, etc; crianças nunca se preocupariam com isso se não houvesse escola, mas aprenderiam a falar a língua). Portanto é possível que uma língua L1 seja mais fácil de ser aprendida por adultos do que uma língua L2, mas a língua L2 seja mais fácil de ser aprendida por crianças do que a língua L1.2) Suspeito que se línguas mais lógicas fossem sempre mais fáceis de serem aprendidas, então as línguas que estão aí pelo mundo seriam mais lógicas do que são (a facilidade de aprendizado das línguas mais lógicas faria com que essas se tornassem predominantes, por um processo tipo seleção natural).Mas, como já disse, tudo isso que escrevi aí em cima é especulação.Voltando ao “risco de vida”: “risco de sanidade” me parece bom (assim como “risco de vida”), mas “risco de flutuação no ar” não. Penso que a palavra “risco” pode ser usada para dois tipos diferentes de construção.1) Podemos dizer “risco de X” significando algo como “há uma possibilidade de X”, sendo que X não é algo bom. Nesse caso, a frase X tipicamente começa com um verbo no infinitivo. Exemplos: “risco de tropeçar”, “risco de cair da escada”, “risco de tomar um choque”, etc.2) Podemos dizer “risco de X” significando algo como “X está em risco” ou “pode ocorrer algo que afete X”. Nesse caso, X deve ser um substantivo. Exemplos: “risco de vida”, “risco de sanidade”, “risco de saúde”.Suspeito que “risco de queda” deve ser pensada como uma construção do tipo (1) em que um verbo foi omitido: “risco de ocorrer uma queda”, seria a forma completa (certamente não é o caso que se quer dizer que “a queda está em risco”).

  5. Moc disse:

    Oi, gente! Hoje minha banda larga deu pau, então estou entrando rapidamente, via acesso discado, primeiro para agradecer a audiência e a qualidade dos comentários e, segundo, para defender minha crítica a “estadunidense”: se quem nascia nos Estados Unidos do Brasil (que foi o nome da república brasileira até os anos 60, creio) era “brasileiro” e quem nasce nos Estados Unidos do México é “mexicano”, quem nasce nos Estados Unidos da América é…?Quanto ao cabotinismo dos EUA de terem tomado o nome do continente lá para o país deles, reconheço que é meio sem-vergonha, mas lembrem-se de que eles foram os primeiros na fila dos nomes… A gente é que chegou 30 anos depois!Ah, sim, sobre a moderação: Patola, o único critério obrigatório para postar comentários no blog é ter uma conta google. Pus essa exigência pra evitar “enlarge your penis” e outras atrocidades, e por questões de responsabilidade civil — se alguém violar o código penal por aqui, será mais fácil rastrear… :-)Novamente, muito obrigado a todos! E espero ter novas postagens assim que meu provedor tirar o pé da lama.

  6. Patola disse:

    daniel, primeiro me desculpe a memória, estou num projetinho pessoal que tem me tomado muito tempo.Bom, dado o que eu li nos livros “The language Instinct” e “Words and Rules” do Steven Pinker, sou levado a concluir que, sim, as crianças têm maior dificuldade com línguas não-lógicas, isto é, as línguas com maior número de irregularidades. Tanto é que é principalmente as crianças que nos vêm com construções que nos parecem engraçadas, como dizer “eu fazi” ao invés de “eu fiz” e que nada mais são do que usar a suposta lógica da língua por não conhecer a parte ilógica.Concordo que as crianças aprendem de jeito qualitativamente diferente – são até bem conhecidas as “janelas de aprendizado” adequadas para línguas, que fazem com que um adulto não consiga nunca aprender uma língua estrangeira perfeitamente. Mas essa diferença qualitativa mão muda o fato de que de qualquer jeito, uma língua com mais exceções demora mais tempo e gera mais dificuldade pra ser incorporada. Afinal, nesse caso específico, um dos principais mecanismos dessa diferenciação qualitativa é a capacidade das crianças de fazerem inferências lingüísticas profundas para captar a sintaxe própria da língua (ou seja, a parte “lógica”). Memória maior para memorizar as exceções também acontece, mas é numa fase posterior e de qualquer jeito dificulta as inferências.Sobre “risco de X” podendo significar tanto uma coisa quanto outra, você me pegou. É verdade, olhando pela sua óptica, as duas coisas parecem sensatas. Por outro lado, também não me parece absurdo o esforço de uniformizar este tipo de expressão e, de minha parte, não me furtarei a usar “risco de morte”.moc, sobre estadunidenses, bom, a idéia de chegar primeiro pode ser igualmente aplicada ao continente – os povos de todas as Américas já eram americanos antes deles, então por que dar a eles esse privilégio? Continuo insistindo que é não só razoável como um imperativo tratá-los por essa denominação ridícula. O engraçado é que eu percebo que em alguns países miguelitos [falantes de língua espanhola] essa é a denominação preferida, cheguei até a ver um filme legendado em espanhol, na Venezuela, onde o sujeito dizia “I am american” e na legenda aparecia “Yo soy estadunidense”.Ainda, sobre a moderação: veja, não tenho nada contra captchas não, e nem é delas que eu reclamava! Elas são boas e necessárias pra evitar SPAM. O que eu reclamo é o fato de um comentário ter que esperar sua aprovação pra aparecer – e até onde sei, sua responsabilidade civil também não é afetada se você optar por remover o comentário apenas quando o vir ou for avisado da ilegalidade dele (na época em que eu tive um sítio de advocacia de Linux, o LinuxFUD, consultei um advogado especialidade em direito de internet para saber essas coisas).

  7. Moc disse:

    Oi, Patola!Mas eu não tenho de aprovar rodos os comentários! Eles entram direto (tanto que minhas respostas muitas vezes só aparecem hooooooooras depois).Ainda sobre o “estadunidense”, lembre-se que os povos pré-colombianos não chamavam o continente de “América”! Aliás, eles eram ainda mais chovinistas: muitos povos chamavam-se de “seres humanos”, ou o equivalente lá na língua deles…

  8. Daniel disse:

    patola,também li “The Language Instinct” (por sinal, agora estou lendo “The Stuff of Thought”, também de Steven Pinker; é muito bom). Lembro-me de que crianças generalizam o que ouvem (assumindo a regularidade da língua), que aprendem os casos irregulares separadamente (como não poderia deixar de ser) e que as formas irregulares funcionam como uma espécie de bloqueio das formas regulares.Parece então que não há meios de escapar da conclusão de que as línguas mais lógicas (mais regulares, com menos exceções) são mais fáceis de serem aprendidas por crianças.Mas por que será então que as irregularidades não tendem a desaparecer? Você se lembra se Pinker tem alguma explicação para isso?

  9. Patola disse:

    daniel,Eu te odeio, cara! Hahahuahua, um dos meus autores preferidos, eu nem sabia que esse livro tinha sido lançado e você já está lendo? Caramba, eu te invejo! Fui direto pra Amazon e já encomendei o meu.Sobre as irregularidades não tenderem a desaparecer, não, não lembro de nenhuma explicação específica do Pinker para isso, e acho que ele não deu mesmo. Mesmo porque se existisse essa tendência talvez nem tivéssemos línguas como o alemão (o Pinker fala bastante do alemão no seu livro “Words and Rules” que é uma espécie de continuação do The Language Instinct com uma abordagem diferente – o capítulo 8 do livro se chama “The Horrors of the German Language”. Recomendo, achei melhor que o Language Instinct apesar do título insosso).

  10. Carla disse:

    A gramática existe pra não haver dúvida. “O QUE CORRE RISCO É NOSSA VIDA POIS NOSSA MORTE ESTA ASSEGURADA”.
    Em todas as linguas modernas conhecidas o RISCO É DE “PERDER A” VIDA, ou seja uma elipse do “perder a” , ninguém corre o risco de perder a morte.
    Elipse é a omissão de um termo ou oração que facilmente podemos subenteder no contexto.
    NOSSAS LEIS falam em “gratificação por risco de vida”, o CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA fala de “iminente risco de vida” e o DICIONÁRIO DO HOUAISS e o Dicionário RAPHAEL BLUTEAU, no verbete “RISCO”, exemplificam com RISCO (PERIGO) DE VIDA.
    O termo “RISCO DE MORTE” pode ser usado obedecendo a um CRITÉRIO DIFERENTE, deve vir acompanhado de um adjetivo (risco de MORTE SÚBITA, de morte PRECOCE, de morte INDIGNA) ou sugere uma estrutura verbal subjacente (risco de morte POR AFOGAMENTO, de morte POR PARADA RESPIRATÓRIA, de morte NO 1º ANO DE VIDA, etc.) – ficando evidente a impossibilidade de optar por risco de vida nessas duas situações.
    Risco de vida e risco de morte são, portanto, duas coisas distintas e agora, com o pasqualês, estão todos falando risco de morte quando deveriam usar risco de vida.
    Um profissional de saúde, humana ou ambiental, um advogado, quem mexe com seguros, PERDE PONTOS EM UMA PROVA OU REDAÇÃO, simplesmente por NÃO SABER DIFERENCIAR entre risco de vida e risco de morte.

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