Como o Congresso é parecido com uma pilha de areia

O que decis√Ķes tomadas por parlamentares numa casa legislativa t√™m em comum com avalanches numa pilha de areia? Ambas seguem o mesmo tipo de gr√°fico, chamado “Escadaria do Diabo”, no qual longos patamares de ina√ß√£o de repente d√£o lugar a grandes saltos (de areia caindo, ou de deputados aderindo em massa a uma nova ideia).
A modelagem foi feita por dois caras da UCLA.
O problema das pilhas de areia √© um velho conhecido de quem se interessa por quest√Ķes como criticalidade, propriedades emergentes, caos e coisas assim: conforme se derrama mais areia sobre o topo da pilha, ela em princ√≠pio cresce, ate que se chega a um ponto cr√≠tico, no qual ocorre uma avalanche, o que reequilibra as for√ßas e permite que a pilha volte a crescer… mas a partir de um patamar inferior.
No caso de uma casa legislativa (o modelo usado pelo povo da UCLA foi, obviamente, o Congresso americano), os grãos de areia, bem como as forças que atuam sobre os eles (atrito, gravidade) foram substituídos por unidades de pressão política.
Uma “avalanche” seria a decis√£o de um grupo de deputados de passar a apoiar uma determinada pe√ßa legislativa, o que levaria a uma redu√ß√£o moment√Ęnea dessa press√£o.
No modelo, os “gr√£os” de press√£o t√™m duas fontes: os colegas congressistas e os eleitores. Uma diferen√ßa b√°sica entre a pilha de press√£o pol√≠tica e a pilha de areia √© que um deputado n√£o pode “entrar na avalanche” (isto √©, passar a apoiar a proposta) mais de uma vez, enquanto que um mesmo gr√£o de areia podem se envolver em in√ļmeras avalanches.
O modelo gerou um gr√°fico de apoio ao longo do tempo muito parecido com o que descreve o n√ļmero de assinaturas dadas a uma proposta real (HR 1207, pedindo uma auditoria no Banco Central americano, o Fed). E produziu duas peculiaridades em que as pessoas deveriam pensar, principalmente neste ano eleitoral:
Todos os deputados s√£o iguais: O modelo funciona sem que seja preciso dar pesos diferentes a cada deputado — na hora da avalanche, tanto faz se o cara √© l√≠der de bancada ou baixo clero.
Alguém poderia imaginar, diz o paper, que os degraus mais altos na escadaria são causados pela adesão de um congressista muito influente, que traz consigo muitos novos apoiadores, que ele influenciou. Em nosso modelo, os degraus altos são resultado da evolução do Congresso para uma espécie de estado crítico, onde qualquer congressista pode desencadear uma avalanche de apoios.
A press√£o popular √© um fator decisivo: Diz o texto: Nem todas as resolu√ß√Ķes apresentadas ao Congresso obt√™m o mesmo n√≠vel de apoio. A diferen√ßa entre resolu√ß√Ķes entra em nosso modelo por meio do par√Ęmetro de press√£o p√ļblica, lambda. Se for pr√≥ximo de zero, a resolu√ß√£o n√£o obter√° apoio consider√°vel num tempo razo√°vel.
Os autores reconhecem que ainda falta modelar outro tipo de for√ßa — por exemplo, a desaprova√ß√£o popular da medida.
Ainda assim, são resultados curiosos e que tiram um pouco do gás dos velhos mitos dos caciques políticos que resolvem tudo na base do conchavo e do descolamento entre parlamento e população (que talvez só exista quando o eleitorado se omite).
Como os estudos estat√≠sticos que provaram que n√£o existe “m√£o quente” no basquete, e que foram duramente contestados por t√©cnicos, f√£s e jogadores, o resultado da UCLA poder√° chocar muitos especialistas em pol√≠tica — de pol√≠ticos profissionais a analistas e jornalistas. E, claro, n√£o h√° garantias de que um modelo que funcionou bem em um √ļnico caso possa ser generalizado.
Mas uma vis√£o da pol√≠tica que d√° menos √™nfase (e poder) aos caciques e p√Ķe mais peso (e responsabilidade) nos ombros do eleitor merece ser explorada. Ainda que, talvez, s√≥ como teoria.

SOS liberdade de express√£o

Um espectro assombra o país: o espectro da relativização da liberdade de expressão e informação. Não se trata, no entanto, de um espírito novo, mas de uma assombração antiga, quase um membro da família, o nosso fantasma de Canterville particular.
Est√° presente, por exemplo, na criminaliza√ß√£o da “apologia do crime”; aparece nas leis e propostas de lei, supostamente bem-intencionadas, proibindo express√Ķes de “preconceito”, “ofensa” e “discrimina√ß√£o” contra grupos, reais ou imaginados, dentro da sociedade; consubstancia-se na decis√£o recente do STF que mant√©m aberta a possibilidade de censura pr√©via √† imprensa; e ganha corpo no novo Plano Nacional de Direitos Humanos, em cujo cap√≠tulo sobre liberdade de express√£o, numa manobra de novil√≠ngua digna de Orwell, o verbo “coibir” aparece quatro vezes, e onde se pede a ado√ß√£o de medidas judiciais contra a defesa da pena de morte — como se discutir a legisla√ß√£o penal de repente virasse crime.
Estamos, como sociedade, embarcados num processo tr√°gico onde quem se sente ofendido ou contrariado por uma opini√£o ou informa√ß√£o n√£o adota mais as sa√≠das cl√°ssicas que existem desde tempos imemoriais — ofender de volta, contra-argumentar — mas prefere chamar o advogado e a pol√≠cia.
A sociedade brasileira parece ter se esquecido de que, do mesmo modo que pornografia e mau gosto s√£o o pre√ßo da liberdade art√≠stica, opini√Ķes repugnantes s√£o o pre√ßo da livre circula√ß√£o de ideias, que deveria ser um valor fundamental. Se n√£o pelo fato de que a livre express√£o √© um direito b√°sico, pelo simples fato de que a luz do dia √©, sempre, o melhor desinfetante.
Claro, liberdade de expressão não é o mesmo que liberdade de ação. Até mesmo a lei brasileira reconhece uma distinção entre apologia do crime e o crime em si. Liberdade de expressão também não é liberdade de incitação: uma coisa é (a) escrever um artigo dizendo que os blogueiros de ciência são uma raça inferior e parasitas da sociedade, outra é (b) montar um comício para juntar uma turba e sair à caça deles para linchá-los.
Algu√©m poderia argumentar que “b” √© consequ√™ncia l√≥gica de “a”, logo se “b” √© proibido, “a” tamb√©m deveria ser. Mas isso n√£o √© verdade: se quem acredita em “a” n√£o tiver meios de ventilar suas ideias, a no√ß√£o de que os blogueiros s√£o uma praga para a sociedade n√£o ser√° contestada publicamente e crescer√° √†s escondidas, o que s√≥ torna a ocorr√™ncia de “b” ainda mais prov√°vel.
Repassando os quatro argumentos de John Stuart Mill em defesa da liberdade de express√£o, que continuam t√£o v√°lidos hoje quanto duzentos anos atr√°s:

1. Uma opinião proibida pode acabar se mostrando verdadeira; afinal, ninguém é infalível;
2. Mesmo errada, a opini√£o proibida pode conter uma verdade parcial, e √© apenas pela colis√£o entre a opini√£o consensual da sociedade — que raramente est√° de todo correta — e alternativas a ela √© que a verdade mais completa tem alguma chance de surgir;
3. Mesmo se a opini√£o consensual da sociedade for a verdade mais perfeita e completa, a menos que seja duramente atacada e defendida, ser√° sustentada apenas como mais um preconceito, com pouca compreens√£o de sua base racional;
4. O próprio significado da verdade corre o risco de se perder quando ela, protegida de todo tipo de contestação, se transforma em dogma.

P√īquer: quanto mais se ganha, mais se perde

A maioria dos jogos de azar tem aquilo que se chama de “vantagem da casa”, uma pequena distor√ß√£o no que seria a propor√ß√£o justa entre probabilidade de vencer e pr√™mio pago, que √© o que garante que mesmo cassinos honestos deem lucro.
Na roleta, por exemplo: teoricamente s√£o 36 n√ļmeros, metade vermelha, metade preta. A chance de ganhar apostando no vermelho √© 50%, e o pagamento √© 1:1 (ganhando, voc√™ recebe o seu dinheiro apostado de volta, mais uma quantia igual). Parece justo. Mas…
Mas, as roletas têm uma (ou duas, dependendo das regras do cassino) casa verde, o zero e/ou duplo-zero. Assim, a chance de ganhar apostando no vermelho não é 18/36, mas 18/37 Р48% Рou 18/38 Р47%. Parece pouco, mas no longo prazo faz uma bela diferença.
Um bom jeito de avaliar apostas √© usar a equa√ß√£o conhecida como “Crit√©rio de Kelly”:
kelly.png
Onde “f*” √© a propor√ß√£o do seu capital a apostar; “b” √© a propor√ß√£o pr√™mio/aposta (no caso de uma aposta de preto-vermelho na roleta, b = 1, por exemplo); “p” √© a probabilidade de vencer; e “q” √© a probabilidade de perder, ou 1-p.
No caso da aposta no vermelho em uma roleta com apenas um zero, b=1, p=0,48, q=0,52. Isso d√° f* = -0,04. Um valor negativo significa que o jogador deve apostar contra a posi√ß√£o analisada. Ou seja, o racional nesse caso seria apostar 4% de seu capital na op√ß√£o “vai sair preto ou verde”. Como o cassino dificilmente aceitar√° essa proposta, o melhor √© n√£o apostar.
A f√≥rmula de Kelly permite definir algo chamado “a vantagem” (the edge). A vantagem √© zero se b = q/p; e negativa se b < q/p. Uma situa√ß√£o de vantagem zero geralmente √© uma onde o mais s√°bio √© abster-se de apostar. J√° uma vantagem negativa significa que (como no caso da roleta) o melhor √© apostar contra a op√ß√£o analisada, se poss√≠vel. Num cassino, todos os jogos t√™m vantagem negativa, e a posi√ß√£o contr√°ria √© sempre, claro, a da casa.
Jogos como p√īquer, onde o jogador n√£o enfrenta a casa, mas outros apostadores “pessoa f√≠sica”, s√£o considerados mais seguros por conta dessa aus√™ncia de uma vantagem negativa pr√©-programada nas regras. Mas isso n√£o √© necessariamente verdade: um estudo sobre p√īquer online, realizado pela Universidade Cornell, mostrou que quanto mais partidas um jogador principiante ganha, mais dinheiro ele tende a perder.
O motivo √© psicol√≥gico: o grande n√ļmero de vit√≥rias geralmente envolve pequenas quantias, mas deixa o jogador autoconfiante; e ele continua a jogar at√© sofrer uma derrota que leva embora mais dinheiro que todos os ganhos somados. H√° algo skinneriano nisso, acho.
O trabalho est√° publicado onine no site do Journal of Gambling Studies.

Sherlock Holmes e as artes marciais

Todo mundo anda falando de Avatar, e Sherlock Holmes, uma joia de filme, acaba passando quase despercebido, o que √© uma pena. O que eu queria comentar a respeito √© uma certa disson√Ęncia que tenho visto nas (poucas) resenhas do filme que encontrei na imprensa, e que se referem ao filme como uma esp√©cie de “releitura” do personagem, como se Holmes tivesse sido recriado como “super-her√≥i” ou “her√≥i de a√ß√£o”.
Disson√Ęncia que mostra que os cr√≠ticos talvez estejam familiarizados com os filmes anteriores do grande detetive, mas certamente n√£o com os livros.
Porque o personagem de Conan Doyle era, afinal, um her√≥i de a√ß√£o: em O Signo dos Quatro, por exemplo, Holmes n√£o s√≥ protagoniza uma excitante persegui√ß√£o de lancha pelo T√Ęmisa √† noite, como ainda √© reconhecido por um ex-pugilista profissional, que se lembra de ter sido nocauteado por ele numa luta.
Al√©m disso, em A Aventura da Casa Vazia, o detetive revela ser um mestre de “baritsu”, uma arte marcial japonesa cujo correspondente no mundo real √© um certo mist√©rio — a palavra parece ter sido cunhada por Conan Doyle ou a partir de “bartitsu” — uma vers√£o de jiu-jitsu introduzida na Inglaterra em 1899 por um sujeito chamado Barton-Wright (“Barton”… “bartitsu”… sacou?) — ou de bujitsu, um termo gen√©rico para artes marciais.
Holmes também é descrito por Watson como um exímio lutador com bastão, uma habilidade que salva a vida do detetive quando um bando de malandros de rua tenta atacá-lo em O Cliente Ilustre.
Além disso, é importante lembrar que o detetive, após travar luta corporal com o professor Moriarty em O Problema Final, escala as escarpas suíças com as mãos nuas, e se envolve numa peregrinação que o leva ao Tibete.
No cinema, no entanto, o personagem sempre havia sido interpretado por atores mais velhos — como Peter Cushing — e as limita√ß√Ķes de or√ßamento e efeitos especiais impediam que esse lado de Holmes florescesse nas telas.
Ah, sim: o Sherlock do novo filme n√£o “aposentou” a capa e xadrez e o chap√©u de ca√ßador: ele simplesmente nunca os usou (i.e., nunca foi descrito por Conan Doyle envergando esse tipo de traje). A capa inverness e o chap√©u deerstalker s√£o adi√ß√Ķes feitas pelo ilustrador original das hist√≥rias, Sidney Paget.
Por fim, Watson: ao contr√°rio dos retratos cinematogr√°ficos anteriores, o doutor John H. Watson dos livros nunca foi um velhote paspalho. Ele entra na vida de Holmes ainda relativamente jovem, rec√©m-dispensado do ex√©rcito por ter se ferido na guerra. √Č n√£o s√≥ um soldado treinado e homem de a√ß√£o, como faz sucesso com as mulheres (Jude Law est√° bem no personagem quanto a isso!) e gosta de apostar em cavalos. Como no filme.
O filme em si trapaceia um bocado com o espectador — n√£o √© um mist√©rio “fair play”, daqueles em que todas as pistas est√£o ao alcance do leitor/espectador mais atento — mas o enredo tem coer√™ncia, o que √© mais do que se pode dizer de muito blockbuster por a√≠.
Enfim: foi necessário esperar que se passasse uma década inteira do século 21 para que o herói mais emblemático do 19 aparecesse por inteiro na tela.
(Antes que me perguntem o que raios este post está fazendo no SbB: a sherlockologia também é uma ciência. Se não acredita, visite a Sherlockian Net)

Apurando a previs√£o

Os leitores mais fi√©is v√£o se lembrar que comecei a semana passada pedindo que se tentasse determinar, de duas previs√Ķes astrol√≥gicas, qual se referia a 2010 e qual a 2009. Obtive, ao todo, sete respostas, das quais tr√™s adivinharam corretamente (primeira previs√£o, 2010; segunda, 2009), tr√™s consideraram que as previs√Ķes eram indistingu√≠veis/irrelevantes e uma errou.
Infelizmente, o n√ļmero de respostas obtido foi insuficiente para que o resultado fosse estatisticamente significativo. Por puro acaso, a chance de tr√™s acertos em sete tentativas, com tr√™s alternativas poss√≠veis (9/10; 10/9; tanto faz) √© de de 48% — mais exatamente, p= 0,4801 — bem fora do n√≠vel de signific√Ęncia. Na verdade, mesmo cinco respostas corretas em sete teriam uma probabilidade de 11% de ocorrer, um p bem acima do n√≠vel tradicional de 0,05.
A distribui√ß√£o obtida — dois grupos de tr√™s resultados iguais e um resultado solit√°rio — √© muito prov√°vel no arremesso de sete dados de tr√™s faces (que d√° para simular jogado sete dados de seis faces e dividindo o resultado por dois), segundo o Wolfram Alpha.
Se mais algu√©m quiser lan√ßar um desafio semelhante, poderemos tentar uma meta-an√°lise daqui a alguns meses… (mas sinceramente n√£o consigo imaginar um motivo para isso).

Por que terapias fajutas parecem funcionar?

Minha postagem sobre os gastos do governo com terapias placebentas (homeopatia, acupuntura, etc) atraiu cr√≠ticas, como eu esperava — se bem que em menor quantidade do que estava esperando. O que pode, at√©, ser um bom sinal.
Eu vinha j√° preparando uma resposta para as obje√ß√Ķes que certamente surgiriam, mas eis que o Comit√™ de Investiga√ß√£o C√©tica resolveu disponibilizar online um artigo cl√°ssico sobre o assunto. O texto, de um importante cientista da √°rea de psicologia e comportamento humano, diz tudo que eu gostaria de dizer, e melhor — portanto, ofere√ßo o link aqui.
A √ļnica coisa contra o texto √© que ele est√° em ingl√™s, ent√£o ofere√ßo aqui um pequeno resumo de dois de seus pontos principais:
1. Correla√ß√£o n√£o √© causa√ß√£o: esta frase deveria ser gravada em m√°rmore no frontisp√≠cio de toda institui√ß√£o de ensino da gal√°xia. Para dar um exemplo simples: suponha que eu diga que existe um comportamento que √© compartilhado por 100% de todas as pessoas que morrem de c√Ęncer. Suponha que, depois de um intervalo adequado para gerar suspense, eu esclare√ßa que esse comportamento √© beber pelo menos um copo de √°gua ao dia…
Sempre que surge a suspeita de uma correla√ß√£o entre os fen√īmenos A e B, √© preciso olhar para as quatro possibilidades: em que propor√ß√£o dos casos A e B ocorrem juntos? E A sem B? E B sem A? E nem A e nem B?
2. Relatos aned√≥ticos sugerem, mas n√£o provam nada: o caso cl√°ssico √© o de um m√©dico americano que, durante uma epidemia de febre amarela no sul do pa√≠s no s√©culo 19, convenceu-se de que p√≠lulas √† base de merc√ļrio (um metal altamente t√≥xico) eram a cura, porque tinha dado o tal comprimido a um ou dois pacientes e eles tinham sarado…
Como eu disse, estes par√°grafos apenas resumem dois pontos de uma argumenta√ß√£o muito maior. Vale a pena ler a √≠ntegra — nem que seja com o dicion√°rio do lado.

Um sonho de liberdade: pi a 2,7 trilh√Ķes de d√≠gitos

Um programador de computadores franc√™s, Fabrice Bellard, alega ter calculado o valor de pi com uma precis√£o de 2,7 trilh√Ķes de d√≠gitos. Isso √© cerca de 10 vezes o n√ļmero de estrelas na Via-L√°ctea, ou mais de 20 vezes o n√ļmero de seres humanos que j√° pisaram na Terra.
Pi, a raz√£o entre o comprimento e o raio di√Ęmetro de uma circunfer√™ncia, √© um n√ļmero irracional e transcedental. Irracional, porque n√£o existe uma fra√ß√£o, formada por dois n√ļmeros inteiros, capaz de express√°-lo (embora haja boas aproxima√ß√Ķes, como 355/113, precisa at√© a s√©tima casa decimal).
E transcedental n√£o porque os autores da B√≠blia o desconhecessem, mas porque n√£o existe uma equa√ß√£o em n√ļmeros racionais capaz de produzi-lo — ao contr√°rio do que ocorre com outro famoso n√ļmero irracional, raiz quadrada de 2, que (obviamente) √© a solu√ß√£o da equa√ß√£o x2=2.
A determina√ß√£o do valor de pi at√© 2,7 trilh√Ķes de casas tem pouco valor pr√°tico (cerca de 40 casas bastam para calcular praticamente qualquer coisa com toda a precis√£o necess√°ria para qualquer finalidade pr√°tica imagin√°vel), mas √© √ļtil para testar computadores e novas t√©cnicas matem√°ticas. Que mais? Ah, sim: √© tamb√©m uma √≥tima oportunidade para relembrar a implica√ß√£o filos√≥fica desse n√ļmero.
Pi √© um daqueles n√ļmeros quebrados com infinitas casas decimais. At√© a√≠, nada demais: 1/3 √© 0,333333333333333333…, por exemplo. A quest√£o, no entanto, √© que os n√ļmeros racionais que geram as chamadas d√≠zimas peri√≥dicas (express√£o que me faz pensar em um massacre que se repete de tempos em tempos) s√£o, como o nome diz, peri√≥dicas: o per√≠odo pode ser bem longo — a fra√ß√£o 1/83 tem um per√≠odo de 41 d√≠gitos, por exemplo — mas, cedo ou tarde, a expans√£o decimal come√ßa a se repetir. √Č previs√≠vel.
Pi, n√£o. At√© hoje, ningu√©m foi capaz de achar um padr√£o nos d√≠gitos desse n√ļmero, nem mesmo algo do tipo, “depois do segundo 3 sempre aparece um 8”. Nada. Niente. Zilt. Zero. Bulhufas. A sequ√™ncia de d√≠gitos de pi √© aleat√≥ria.
Mas, pera√≠. Como assim, aleat√≥ria? Pi √© um n√ļmero perfeitamente bem definido: a raz√£o entre o comprimento e o raio di√Ęmetro de uma circunfer√™ncia. Al√©m disso, h√° procedimentos para calcul√°-lo: algoritmos capazes de gerar a sequ√™ncia (s√£o algoritmos infintos, que t√™m de ser reexecutados indefinidamente, mas essa √© outra hist√≥ria).
Ent√£o, resumindo: temos uma sequ√™ncia de n√ļmeros que obedece a uma defini√ß√£o simples e clara, que √© gerada por algoritmos determin√≠sticos e que… √© aleat√≥ria. A busca por um padr√£o em pi √© antiga e at√© hoje n√£o obteve sucesso.Talvez haja ciclos que se repetem a cada 10 trilh√Ķes de d√≠gitos? Quem sabe?
Para mim, ao menos, esta √© apenas mais uma prova de que processos determin√≠sticos gerados por mecanismos simples podem produzir resultados imprevis√≠veis, como o quadrilion√©simo d√≠gito de pi. De algum modo, √© verdade que o “n”-√©simo d√≠gito j√° est√° codificado, impl√≠cito, no algoritmo. Mas, da mesma forma, √© verdade que o √ļnico jeito de conhecer esse d√≠gito √© fazer todas as contas e chegar at√© ele. N√£o h√° como prev√™-lo sem despender o esfor√ßo de obt√™-lo. Mas a√≠, claro, j√° n√£o se trata mais de previs√£o.
Nesse aspecto, pi talvez seja at√© mais “livre” que a maioria das pessoas.

SUS torra R$ 7 milh√Ķes em placebo

Ou, para ser exato, R$ 6.998.249,00. Esse √© o valor aplicado pelo Sistema √önico de Sa√ļde, em 2008, em homeopatia, acupuntura e moxabust√£o (que eu n√£o sabia, mas √© o aquecimento dos pontos de acupuntura). E ei, isto n√£o √© uma den√ļncia exclusiva: o Minist√©rio da Sa√ļde √© que est√° alardeando os n√ļmeros, com indisfar√ßado orgulho.
T√°, R$ 7 milh√Ķes n√£o √© tanto assim (s√≥ consertar a lamban√ßa do Enem custou pelo menos cinco vezes isso), mas com esse dinheiro dava para comprar 27 milh√Ķes de seringas descart√°veis para aplica√ß√£o de insulina.
S√≥ para lembrar, em meados de 2009, um posto de sa√ļde de Vit√≥ria (ES) passou a recomendar aos diab√©ticos que reutilizassem suas seringas, porque o material estava em falta.
Imagino que o gasto de dinheiro p√ļblico nessa placebagem toda tenha algum efeito positivo (al√©m do efeito placebo propriamente dito) na medida em que ela mant√©m as pessoas visitando o m√©dico, evitando carne vermelha, comendo verduras, fazendo atividade f√≠sica e evitado estresse excessivo.
Mas a desonestidade intelectual embutida nesse neg√≥cio de “Pr√°ticas Integrativas e Complementares” (isso √© “Medicina Alternativa” em burocrat√™s) √© algo que clama aos c√©us.

Jornalista precia saber física?

Nestes dias está rolando a segunda fase da Fuvest, que agora retornou ao esquema de obrigar todo mundo a fazer prova de todas as matérias nesta etapa, em vez de apenas as disciplinas geralmente consideradas mais afeitas a cada curso específico.
Quando eu prestei vestibular pra USP, picossegundos ap√≥s o Big Bang, o esquema era parecido: na segunda fase, todo mundo fazia prova de tudo, mas o peso das notas variava de acordo com a carreira escolhida — se bem me lembro, jornalismo tinha concentra√ß√£o em portugu√™s, geografia e hist√≥ria.
Naquela √©poca a gente fazia duas provas ao dia. Lembro-me bem da dobradinha geografia/matem√°tica, se n√£o por outro motivo, porque naquele dia eu estava p√©ssimo — n√£o de sa√ļde, mas psicologicamente — e essas duas provas foram as piores do meu vestibular. Sa√≠ da sala do exame sabendo que tinha feito merda e, talvez, perdido ali a minha vaga.
O que em salvou, garantindo-me o inenarr√°vel prazer de frequentar a Escola de Comunica√ß√Ķes e Artes da Universidade de S√£o Paulo por quatro anos e meio? A prova de f√≠sica, na qual acertei tudo. S√©rio.
Claro, tive notas muito boas em hist√≥ria, portugu√™s e reda√ß√£o, mas at√© a√≠ todo mundo tamb√©m tinha tido, certo? Afinal, a disputa era por jornalismo. Minha nota de geografia era um peso me puxando para baixo, sem d√ļvida, mas a de matem√°tica era quase irrelevante — porque, assim como todo mundo, na m√©dia, tinha ido muito bem na reda√ß√£o, todo mundo, na m√©dia, tamb√©m tinha metido os p√©s pelas m√£os em matem√°tica. Mas at√© a√≠, todo mundo, na m√©dia, tamb√©m tinha metido os p√©s pelas m√£os em f√≠sica. Mas eu n√£o. Bom, resumindo: entrei. Em pen√ļltimo, mas entrei.
√Č prov√°vel que, com o novo esquema da segunda fase, esse tipo de situa√ß√£o volte a ocorrer: a nota de uma disciplina considerada “de fora” da √°rea do curso servir como uma esp√©cie de crit√©rio de desempate: se todos os, digamos, 40 primeiros candidatos s√£o uniformemente bons escritores, os 30 melhores f√≠sicos (ou qu√≠micos, ou bi√≥logos, ou matem√°ticos) entre eles levam a vaga.
Uma questão: esse tipo de desempate é justo? Afinal, jornalista precisa saber balística? Historiador precisa saber o que é o ciclo de Krebs? E para que diabos um publicitário precisaria saber somar e multiplicar matrizes?
Diga-me, quantas vezes depois do vestibular você precisou aplicar a fórmula de Báscara?
As quest√Ķes acima trazem embutidas duas premissas: a primeira √© uma vis√£o instrumentalizada do conhecimento: se eu n√£o vou pregar pregos, n√£o preciso de um martelo; se eu n√£o vou construir motores, n√£o preciso estudar termodin√Ęmica.
A segunda, √© uma vis√£o conteudista da ci√™ncia: estudar biologia √© decorar uma lista de organelas; estudar matem√°tica √© aprender a mec√Ęnica de certos tipo de opera√ß√£o; e assim por diante.
Atuando em conjunto, as duas premissas levam ao resultado conhecido: se matemática é decorar como somar senos e cossenos, e se minha profissão não requer o uso intensivo de trigonometria, então eu não preciso estudar matemática.
Mas matem√°tica √© muito mais do que isso (assim como f√≠sica, biologia, qu√≠mica, etc, s√£o muito mais que as aplica√ß√Ķes “tecnol√≥gicas” cobradas no vestibular).
Voltando √† pergunta que d√° t√≠tulo √† postagem: jornalista precisa, sim, saber f√≠sica, do mesmo jeito de engenheiro precisa saber hist√≥ria, por exemplo. Mas provavelmente n√£o precisa de todo o conte√ļdo que se lhe √© transmitido no ensino m√©dio, cobrado no vestibular e esquecido logo depois.
Do jeito que as coisas est√£o hoje, temos adolescentes que estudam qu√≠mica a ponto de aprender a distribuir corretamente el√©trons em n√≠veis qu√Ęnticos dentro do √°tomo, mas que n√£o s√£o capazes de desconfiar que pode haver algo errado no uso da homeopatia.

Back in business!

Depois de uma longa aus√™ncia (algu√©m a√≠ ainda lembra que muito tempo atr√°s, numa gal√°xia muito distante, havia um blog chamado Ideias Cretinas?) ditada por quest√Ķes profissionais, volto a postar.
Eu tinha um professor na faculdade que insistia que o primeiro ingrediente da credibilidade √© a periodicidade — se o leitor n√£o pode acreditar nem que o seu jornal vai sair todo dia, como ele vai acreditar no que voc√™ escreve? — ent√£o, temo ter queimado de vez minha chance de ser levado a s√©rio (que j√° n√£o era muita, dado o nome do blog e seu car√°ter an√īnimo). Ainda assim, escrevo para ver se ainda tem algu√©m a√≠. C√Ęmbio?
Bom, queria come√ßar o ano entrando um pouco na onda de previs√Ķes — no caso, previs√Ķes astrol√≥gicas. Vou colar aqui embaixo o par√°grafo de abertura de duas previs√Ķes para um mesmo signo, capric√≥rnio, uma para 2009 e outra para 2010, ambas retiradas da mesma fonte. S√≥ vou eliminar de ambas todas as refer√™ncias ao ano a que se referem. Confira:
Previs√£o 1
Este √© o ano das transforma√ß√Ķes radicais para o signo de Capric√≥rnio, principalmente para os nascidos no primeiro decanato, ou seja, entre 20 de 29 de dezembro (aproximadamente). O velho eu se desintegra, a fim de que uma nova vida possa surgir. Goste-se disso ou n√£o, os apegos precisar√£o ser trabalhados, e ser√° preciso aprender a contar consigo mesmo. Temores podem surgir, naturais em qualquer momento altamente transformador. √Č preciso se reunir com pessoas que sejam genuinamente amigas, a fim de criar uma estrutura s√≥lida de afeto e apoio. Para os capricornianos de todos os decanatos, o ano representa um ano de tomadas importantes de consci√™ncia que conduzem a um derradeiro amadurecimento.

Previs√£o 2
Absolutamente tudo est√° come√ßando a mudar em sua vida. Se voc√™ entrar em harmonia com essa mudan√ßa, poder√° se transformar em uma pessoa cada vez mais especial, poder√° constatar que voc√™ pode fazer diferen√ßa no mundo. √Č gradativa e suave a mudan√ßa, ter√° momentos mais intensos e outros que parecer√° que nada est√° acontecendo. A voc√™ s√≥ resta aceitar e compreender que, como uma lagarta saindo do casulo, voc√™ est√° se transformando em borboleta. N√£o √© o fim do mundo, √© o fim “daquele” mundo.
O desafio para os leitores √© determinar a qual ano se refere qual previs√£o. Se eu receber um n√ļmero grande de respostas e a taxa de acerto for significativamente superior a 50%, isso pode virar “paper”. Se voc√™ achar que os dois par√°grafos s√£o perfeitamente intercambi√°veis, eu o convido a ler este verbete sobre o Efeito Forer.

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