Paradoxo de sexta (37)

O da semana passada foi um paradoxo teol√≥gico, e como todo paradoxo do tipo, a solu√ß√£o mais simples √© supor que o ser a que o paradoxo se refere simplesmente n√£o existe. Caso essa sa√≠da seja bloqueada, h√° tr√™s solu√ß√Ķes:
1. O ser n√£o √© onipotente (ele nos fez o melhor que p√īde, dentro de suas limita√ß√Ķes)
2. O ser é malicioso (ele poderia ter feito melhor, mas preferiu deste jeito por que curte mandar humaninhos para o inferno)
3. O ser é misterioso (não somos capazes de entender seus motivos e/ou um dia tudo ficará claro e veremos que tudo foi para o melhor e cantaremos sua infinita sabedoria)
A solução 3 traz à tona a questão, mas então por que então não nos fez mais espertos logo de cara?, mas aí a coisa já começa a cansar.
Nesta semana, voltamos ao mundo da lógica e da matemática.
Suponha que, por algum motivo, você se veja envolvido numa aposta com um trapaceiro. (Este é um dado do problema: o cara é trapaceiro). Ele mostra a você três cartas. Uma é branca dos dois lados, uma tem um lado branco e o outro preto, a outra é preta dos dois lados.
O cara p√Ķe as tr√™s cartas num saco preto (que voc√™ inspecionou cuidadosamente e tem certeza de que estava vazio antes do in√≠cio do procedimento), mistura-as, puxa uma e a coloca rapidamente sobre a mesa.
O que você vê é um lado preto.
O trapaceiro diz: “Esta certamente n√£o √© a carta toda branca. O outro lado ou √© preto, ou √© branco. Se voc√™ estiver disposto a casar dez reais, eu tamb√©m ponho dez meus em jogo e aposto que o outro lado √© preto. Topa?”
Você sabe que o cara é trapaceiro, mas a aposta parece honesta. Onde está o catch?

E a nave espacial privada continua em seu p√©riplo…

Nesta semana o pessoal d Virgin Galactic fez uma apresenta√ß√£o do WhiteKngihtTwo, o avi√£o-lan√ßador que dever√° levar ao espa√ßo a primeira nave privada de turistas, a chamar-se SpaceShipTwo ou VSS (de “Virgin Space Ship”) Enterprise.
Só para relembrar: a equipe do engenheiro Burt Rutan havia feito história em 2004 ao lançar a primeira nave espacial tripulada financiada exclusivamente com recursos privados, a SpaceShipOne. A nave fez três voos, chegando ao limite da atmosfera terrestre e pousando de volta em segurança.
Na √©poca, o ent√£o diretor da Nasa, em meio √† crise de credibilidade causada pela explos√£o do √īnibus espacial Columbia e confrontado com a “prova de efici√™ncia do setor privado”, referiu-se √† SpaceShipOne como “um planador movido a g√°s hilariante”.
O que, subtraindo-se o veneno das palavras, é verdade. A nave de Rutan passa a maior parte do tempo planando usa NO2 como oxidante de combustível.
Mas o cara da Nasa tinha raz√£o em uma coisa: √© muito dif√≠cil comparar o que o time de Rutan fez com o que a ag√™ncia espacial faz. A complexidade de se levar um homem √† beira do espa√ßo e minutos depois faz√™-lo descer √© ordens de magnitude menor que a de lan√ßar um √īnibus espacial, ou de manter uma tripula√ß√£o de seis pessoas em √≥rbita por meses a fio.
√Č dif√≠cil saber at√© onde a Virgin Galactic conseguir√° ir — aos meus c√©ticos olhos cansados, a empresa parece ter muito marketing (oferecendo passagens gr√°tis ao espa√ßo a Stephen Hawking e William Shatner, por exemplo) e poucos feitos concretos at√© agora — mas, no momento em que o governo do EUA tem um comit√™ reavaliando toda a estrat√©gia estatal de voo espacial tripulado, √© bom lembrar que a iniciativa privada tamb√©m est√° na jogada — e n√£o apenas por meio das grandes empreiteiras da ind√ļstria aeroespacial.

Apelo ao suposto benefici√°rio

Mais uma da s√©rie, fal√°cias que a gente v√™ por a√≠. Esta √© talvez a mais insidiosa de todas as que surgem no discurso p√ļblico, porque insinua que algumas coisas s√£o importantes demais para serem atrapalhadas por algo t√£o comezinho como, por exemplo, a verdade dos fatos.
Eu a encontrei pela primeira vez na faculdade. Na √©poca, o Jornal do Campus (um jornal feito pelos estudantes de jornalismo da USP) havia publicado uma mat√©ria sobre “Os maraj√°s da USP”, apresentando alguns sal√°rios estratosf√©ricos que eram pagos a figuras do mundo administrativo e acad√™mico uspiano. Lembro-me de um professor, que eu at√© respeitava muito, esbravejar que a reportagem “fazia o jogo do (ent√£o governador) Qu√©rcia”.
Bolas, a reportagem ou estava correta ou estava errada, era ou isenta ou tendenciosa. Se era correta e isenta, e o que dizia poderia servir de argumento para o governador tomar medidas vistas como contrárias à universidade, a culpa era da universidade que havia deixado as coisas chegarem a esse ponto, não do jornal que apresentava os fatos.
Esse apelo ao suposto beneficiário lembra o cui bona (quem ganha?) das histórias policiais, a pergunta que ajuda a definir o quadro de suspeitos. Mas quando o que está em questão é uma alegação de fato, não um homicídio, o cui bona é tão relevante quanto, ao receber um telegrama com más notícias, você se preocupar com a identidade do carteiro.
Como j√° disse, essa fal√°cia √© especialmente mal√©vola porque leva as pessoas a imaginar que alguns valores, nomes ou princ√≠pios (a Revolu√ß√£o, a Livre Iniciativa, o Partido, a Igreja…) s√£o mais importantes que a verdade. E, claro, quem n√£o enxerga isso — que a causa √© mais importante que os fatos — √© um “ing√™nuo”, que “faz o jogo” dos comunistas, dos capitalistas, dos verdes, dos poluidores, dos tucanos, dos petistas, whatever.
Se voc√™ realmente acha que o fato de o l√≠der da sua causa ter cometido o crime “X” n√£o mancha a causa em si, defenda o argumento no livre mercado de ideias, mas n√£o tente suprimir “X”. E nem mudar de assunto.

Para formigas, o irrelevante é irrelevante

Um dos crit√©rios normalmente usados em Teoria da Decis√£o para definir se uma escolha √© racional ou n√£o √© a independ√™ncia de op√ß√Ķes irrelevantes. Digamos que voc√™, sendo um homem e heterossexual (leitores de outra conforma√ß√£o cromoss√īmica e/ou inclina√ß√£o afetiva, por favor, usem a imagina√ß√£o) tenha uma marcada queda por loiras magras. Eis que, numa balada, surgem duas garotas que parecem interessadas em sua pessoa — uma loira gorda e uma morena magra.
Pode ser um dilema, mas qualquer que seja a sua solução pra ele (Incluindo a de passar a noite sozinho), o fato de haver uma terceira menina disponível, uma ruiva rechonchuda, não deveria afetar a decisão que você vai tomar. Certo? Afinal, você não se sente atraído por ruivas e prefere não ficar com gordas, logo essa terceira moça, por mais inteligente e charmosa que seja é, para o seu gosto pessoal, irrelevante.
Curiosamente, no entanto, a mente humana n√£o funciona desse jeito: a presen√ßa de uma alternativa irrelevante tem, frequentemente, o poder de alterar a forma como as pessoas escolhem entre as alternativas reais. Isso acontece muito em elei√ß√Ķes: mesmo que a disputa pra valer seja entre Serra e Dilma, o fato de haver um terceiro candidato sem chances, e de esse candidato ser o Maluf ou o Gabeira, pode fazer pender a balan√ßa para um lado ou para o outro.
Nesse aspecto, o homem não é lá um animal muito racional (conte-me algo novo, dirá você). Mas as formigas, são. A constatação está no periódico científico Proceedings of the Royal Society B. Diante da oferta de dois locais razoáveis pra instalar um formigueiro, os insetos optavam por um um outro, indiferentemente. O aparecimento de um terceiro local, claramente ruim, não afetou essa distribuição.
Falando ao noticioso online Science Now, da revsita Science, um dos autores do trabalho, Stephen Pratt, especula que as formigas se comportam dessa forma porque a col√īnia, como um todo n√£o conhece todas as op√ß√Ķes dispon√≠veis: a massa dos insetos simplesmente acompanha a opini√£o das formigas batedoras, que sempre rejeitam a oferta de ninho ruim e aceitam indiferentemente a primeira oferta razo√°vel que aparece.
O que sugere que, ao menos em quest√Ķes de m√ļltipla escolha, ignor√Ęncia √†s vezes √© poder.

Porrada em J√ļpiter: o follow-up

Na semana passada, postei aqui a primeira foto divulgada do “ponto preto” que surgiu em J√ļpiter no dia 19 deste m√™s. Desde ent√£o, a Nasa at√© tirou o Hubble de seu estado de calibragem pra fazer uma foto da evolu√ß√£o da mancha:
Clique aqui para abrir a imagem.
Brincadeiras a respeito do monolito do Clarke a parte, as principais rea√ß√Ķes populares √† not√≠cia parecem dividir-se em tr√™s vertentes: (a) como ningu√©m viu este neg√≥cio chegando?; (b) isso deve ser uma coisa de alien√≠gena e (c) que bom que J√ļpiter nos protege dos grandes impactos.
O ponto (a) ajuda a ilustrar como o sistema solar √© um coisa enorme, e como tempos muito pouco controle, de fato, quanto ao que a acontece nele. Blockbusters de fic√ß√£o cient√≠fica nos acostumaram a pensar em termos de gal√°xias inteiras como e fossem quarteir√Ķes, mas o fato √© que a escala do nosso min√ļsculo sistema solar j√° √© demais para n√≥s — ao menos, no nosso est√°gio atual.
O ponto (b) √© interessante como partida pra um novo seriado de TV, mas n√£o muito mais que isso. Citando a surrada frase de Carl Sagan, “alega√ß√Ķes extraordin√°rias requerem evid√™ncias extraordin√°rias”. Pode at√© ser que o caiu em J√ļpiter tenha sido o ca√ßa TIE de Darth Vader, mas diabo, onde est√° a evid√™ncia? Um excesso de raios gama emanando da zona de impacto poderia sugerir a presen√ßa de antimat√©ria na colis√£o (ca√ßas TIE usam antimat√©ria? n√£o, nesse caso seriam os klingons…), mas ningu√©m parece ter detectado isso.
Quanto a (c), a ideia de J√ļpiter como uma esp√©cie de “guarda-costas” do sistema solar interior (isso quer dizer n√≥s, Marte, V√™nus e Merc√ļrio) se encaixa na concep√ß√£o geralmente chamada de Terra Rara — a hip√≥tese de que a vida inteligente s√≥ p√īde emergir na Terra por conta de uma s√©rie de circunst√Ęncias muito especiais, entre elas, a presen√ßa de um planeta gigante que atuaria como estabilizador e protetor contra impactos devastadores.
Mas seria isso mesmo?
Um interessante artigo em The New York Times contesta essa vis√£o. Um astr√īnomo ouvido pelo jornal, Brian G. Marsden, cita o caso do cometa de Lexell, que foi desviado de sua trajet√≥ria e jogado na dire√ß√£o da Terra… pela gravidade de J√ļpiter.
Al√©m disso, provavelmente √© a gravidade de J√ļpiter que volta e meia desestabiliza asteroides do cintur√£o principal, al√©m da √≥rbita de Marte, e os arremessa sobre n√≥s. Foi um desse caras, ali√°s, que acabou (ou ajudou a acabar) com os dinossauros.
Ent√£o, quanto ao papel protetor de J√ļpiter, o j√ļri ainda n√£o chegou a um veredicto. Talvez o efeito protetor e o desestabilizador se cancelem; talvez um supere o outro. O fato √© que a decantada atua√ß√£o de J√ļpiter como guarda-costas da vida na Terra em geral, e da civiliza√ß√£o humana em particular, parece ser mais uma daquelas hip√≥teses cient√≠ficas que acabam promovidas a “fato” no processo de divulga√ß√£o e, no fim, viram uma esp√©cie de mito moderno.

Paradoxo de sexta (36)

O da semana passada foi um dos cl√°ssicos paradoxos de Zeno escritos por Arist√≥teles — o que tenta demonstrar que √© imposs√≠vel percorrer uma dist√Ęncia qualquer, porque isso implica percorrer um n√ļmero infinito de etapas intermedi√°rias, e √© imposs√≠vel cumprir um n√ļmero infinito de tarefas num tempo finito.
Esse paradoxo j√° foi atacado por v√°rios √Ęngulos. O mais usado √© apontar a exist√™ncia daquilo que os matem√°ticos chamam de s√©ries infinitas convergentes — isto √©: uma soma de infinitos termos, tipo 0,5+0,25+0,125… de fato pode chegar a um resultado finito. No caso, 1.
Mas esse argumento, por si s√≥, √© insatisfat√≥rio. Ele soa muito como uma mera reformula√ß√£o do problema: Zeno nos diz que uma dist√Ęncia concreta qualquer pode ser quebrada em infinitas fra√ß√Ķes. A s√©rie convergente nos diz que infinitas fra√ß√Ķes podem ser somadas para gerar ma dist√Ęncia concreta qualquer. So what?
O truque est√° em aplicar o argumento da s√©rie convergente ao tempo: da mesma forma que uma curta dist√Ęncia finita pode ser dividida em infinitas etapas, cada uma menor que anterior, um n√ļmero infinito de momentos, cada um menor que o anterior, pode ser somado para gerar um intervalo de tempo finito. Assim, prova-se que a afirma√ß√£o final do paradoxo, “√© imposs√≠vel cumprir um n√ļmero infinito de tarefas num tempo finito” √© falsa. Realizar uma infinidade de tarefas um tempo finito √© poss√≠vel, se as tarefas puderem ser distribu√≠das ao longo de uma s√©rie infinita, por√©m convergente, de momentos.
O paradoxo desta semana √© o que eu chamo de Paradoxo da Cria√ß√£o Imperfeita. √Č um paradoxo teol√≥gico, e portanto s√≥ deve incomodar a quem acredita nessas coisas, mas ele √© t√£o bem sacado que n√£o resisti a apresent√°-lo. Foi proposto pelo fil√≥sofo australiano John Leslie Mackie (1917-1981), um dos meus her√≥is intelectuais (seu livro a respeito de argumentos pr√≥ e contra a exist√™ncia de Deus, The Miracle of Theism, √© um dos meus cl√°ssicos pessoais).
Esse paradoxo √© uma tr√©plica √† resposta padr√£o dos te√≠stas quanto √† exist√™ncia de mal moral no mundo (o mal natural — enchentes, terremotos, v√≠rus Ebola, etc — √© outro problema). “Mal moral” √© o mal que as pessoas fazem umas √†s outras: roubo, estupro, assassinato, pura e simples crueldade psicol√≥gica…
A noção geral, no quadro teísta, é que o mal moral é o preço da liberdade. Deus quis nos fazer livres, e ter liberdade inclui a liberdade de fazer merda.
(H√° outras quest√Ķes que daria para levantar, tipo por que a liberdade do assassino vale mais que a vida da v√≠tima, mas n√£o vamos entrar nisso aqui).
A questão que Mackie deixa é: óquei, Deus quis nos fazer livres. Por que então ele não quis nos fazer melhores? Um ser humano que sempre faça a escolha moralmente certa ainda é um ser humano livre. O fato de uma pessoa passar a vida inteira sem cometer um crime não a torna menos livre que um assaltante assassino.
O mal moral potencial pode se explicar com o fato de sermos livres, mas o mal moral concreto só se explica porque somos imperfeitos. Por que um Deus bom e onipotente criaria uma espécie deliberadamente defeituosa, que ele sabe (é onisciente também) que vai ter de castigar depois?
Cartas para a redação.

Torturando n√ļmeros e o peso da culpa pelo CO2

Um velho ditado diz que √© poss√≠vel tortura n√ļmeros at√© que eles digam exatamente o que voc√™ quer ouvir. Acho que esbarrei num caso assim: um estudo noruegu√™s que diz que, levando-se em conta o pa√≠s onde s√£o consumidos os bens, EUA. Austr√°lia a Canad√° s√£o, sim, os maiores emiss√Ķes e gases causadores do efeito estufa do mundo.
Ora, ora, ora.
O racioc√≠nio √© o seguinte: a China √© o maior emissor. Mas a ind√ļstria chinesa emite para produzir bens que ser√£o exportados para os EUA. Logo, se n√£o houvesse a press√£o de consumo nos EUA, essas emiss√Ķes n√£o ocorreriam. Logo, a culpa, no fundo, √© dos EUA.
Leia novamente o par√°grafo acima. At√© o segundo ponto (que vem depois da primeira apari√ß√£o de “EUA”) tudo o que est√° escrito s√£o verdades reveladas pelos n√ļmeros. Mas as conclus√Ķes (introduzidos por “Logo” e “Logo”) fazem sentido?
Bolas, ningu√©m encostou um rev√≥lver na cabe√ßa do governo chin√™s e disse “construa a base industrial mais suja e poluidora do mundo”, n√©? Certamente, os rednecks que lotam os walmarts do Alabama n√£o fizeram isso.
Se os mercados n√£o estivessem abarrotados de tranqueiras chinesas baratinhas feitas por semiescravos com energia suja de carv√£o, eles estariam abarrotados de alguma outra coisa, e John e Jane Smith estariam gastando suas doletas em outro lugar.
A √ļnica conclus√£o v√°lida que parece emergir do trabalho noruegu√™s √© a de que √© necess√°rio criar metas de emiss√£o para os pa√≠ses em desenvolvimento tamb√©m — porque sen√£o o que vai acontecer √© uma mera transfer√™ncia de tecnologia suja do centro para a periferia, sem impacto l√≠quido nas emiss√Ķes globais, que √© o que interessa.

Livros lun√°ticos

Perguntaram-me, numa postagem anterior, sobre quais livros já foram escritos propondo e defendendo planos de negócios (por assim dizer) que viabilizariam a presença humana sustentada em Marte e/ou na Lua.
A lista abaixo n√£o √© exaustiva, mas pretende representar um corte transversal da bibliografia. Para os de est√īmago fraco (e/ou com inclina√ß√Ķes pol√≠ticas e ideol√≥gicas mais √† esquerda) j√° aviso que muitos desses planos pressup√Ķem um sistema solar dominado por algo muito pr√≥ximo de um capitalismo laissez-faire e a revoga√ß√£o de tratados da ONU como os que declaram a Lua e os corpos celestes patrim√īnio comum da humanidade.
(O racioc√≠nio sendo, bolas, por que algu√©m investiria numa opera√ß√£o de minera√ß√£o na Lua se o terreno e o lucro n√£o seriam dele, e sim “da humanidade”?)
Os livros s√£o:
The High Frontier – Human Colonies in Space, de Gerard K. O’Neill. √Č o cl√°ssico do g√™nero, ainda que esteja ultrapassado em v√°rios pontos. O’Neill foi uma esp√©cie de Carl Sagan da coloniza√ß√£o espacial, no sentido de ter lutado muito para popularizar a ideia e vend√™-la √†s autoridades. Seus planos eram cicl√≥picos: previam a constru√ß√£o de enormes cilindos no espa√ßo, dentro dos quais vivieriam popula√ß√Ķes compar√°veis √†s de cidades inteiras.
The Case for Mars, Robert Zubrin. Zubrin √© o fundador e presidente da Mars Society, uma ONG que faz lobby para que os EUA mandem logo astronautas a Marte. Seu livro apresenta um plano para a conquista de Marte que foi canibalizado pela Nasa em v√°rios aspectos, e enfatiza um conceito, o ISRU — In Situ Ressource Utilisation, ou uso de recursos locais — que hoje est√° em praticamente todo e qualquer plano de viagem espacial que aparece por a√≠. Basicamente, a ideia √© preparar os astronautas pra se virarem com o que houver no ambiente que v√£o explorar, em vez de mandar todo o ar, √°gua, comida e combust√≠vel de que precisam diretamente da Terra.
Mining the Sky, John S. Lewis. Neste livro, Lewis apresenta o sistema solar, seus planetas, asteroides, luas e cometas como a solu√ß√£o para o esgotamento dos recursos naturais da Terra, pra a crise ecol√≥gica e para a pobreza. O argumento b√°sico √© de que qualquer plano realista para trazer a humanidade a um padr√£o de vida sustent√°vel sem assimilar os recursos do espa√ßo implicaria, basicamente, em levar a ra√ßa humana de volta aos padr√Ķes demogr√°ficos, econ√īmicos, culturais e tecnol√≥gicos da idade m√©dia — e mant√™-la assim pelos s√©culos am√©m.
Moonrush, Dennis Wingo. Este √© um livro que se l√™ realmente como um plano de neg√≥cios. O argumento de Wingo √© parecido com o de Lewis (ver livro cima), mas ele foca especialmente a Lua e √© bem mais detalhista. O subt√≠tulo √© exatamente “Melhorando a vida na Terra com os recursos da Lua”. Wingo faz uma tro√ßa impiedosa com a ideia de uma “economia do hidrog√™nio”, e apresenta os c√°lculos do dano ambiental causado por uma mina de platina — metal necess√°rio para as c√©lulas de combust√≠vel a hidrog√™nio — e conclui que a emenda acaba sendo muito pior que o soneto.
Return to the Moon, Harrison H. Schmitt. Este √© talvez o livro que carrega maior autoridade de todos os j√° citados — n√£o s√≥ seu autor, Harry Schmitt, √© o √ļnico ge√≥logo que j√° trabalhou na Lua (foi membro da miss√£o Apollo 17) como conta, ainda, com pref√°cio de Neil Armstrong. √Č uma pena, portanto, que o livro muitas vezes soe como um panfleto do Partido Republicano (pelo qual Schmitt serviu um mandato como senador). Ainda assim, a obra tem um plano de neg√≥cios e apresenta diversas propostas de reforma institucional necess√°rias para que se abra o espa√ßo √† livre iniciativa.
Living off the Land in Space, com o subt√≠tulo “Estradas Verdes para o Cosmo”, tem tr√™s autores — Gregory L. Matloff, Les Johnson e um artista-ilustrador, C. Bangs. Este livro √© basicamente um conjunto de artigos sobre como a expans√£o da humanidade pelo sistema solar pode ser feita, e os modos pelos quis essa expans√£o pode beneficiar a Terra, economica e ecologicamente. Este √© mais recente de todos os livros citados aqui, e como se v√™ no t√≠tulo, j√° assume como pressuposto o conceito de ISRU (confira a entrada sobre The Case for Mars.)

Parem as m√°quinas! Alguma coisa acertou J√ļpiter!

Uma mancha preta apareceu perto do polo sul de J√ļpiter neste fim de semana, aparentemente provocada pelo impacto de um cometa ou asteroide. Como J√ļpiter √©, basicamente, uma nuvem gigante com 11 vezes o raio da Terra, o que quer que tenha acertado o planeta para deixar uma marca tem de ser algo especial.
A imagem (o Sul est√° para cima, gente):
20090719-155537UTC.jpg
O link:
http://jupiter.samba.org/jupiter-impact.html

√Č hoje!

Chegamos, ent√£o, os 40 anos do primeiro dos seis (√ļnicos) pousos tripulados sobre a superf√≠cie de algum corpo celeste que n√£o a Terra. Uma reflex√£o interessante de se fazer √©: por que a humanidade n√£o ficou por l√°? Por que recuamos?
Como em todo evento complexo, a explica√ß√£o se d√° em camadas. A mais evidente √© a constata√ß√£o de que o Programa Apollo era, ao fim e ao cabo, um programa de rela√ß√Ķes p√ļblicas — de resgate do orgulho nacional americano, ap√≥s o Sputnik e Gag√°rin — e, uma vez tendo cumprido seu objetivo, acabou.
Mas, embutida nesta explicação há outras duas que vale a pena destacar, porque talvez tenham algo a nos ensinar quanto a oportunidades futuras:
1. Ci√™ncia n√£o √© motiva√ß√£o suficiente: A coloniza√ß√£o do Novo Mundo pelos europeus foi, proporcionalmente, mais perigosa e mais cara (em dinheiro e vidas) e eticamente muito mais question√°vel do que seria o estabelecimento de uma cidade permanente na Lua. Mas o Novo Mundo foi conquistado para produzir lucro e para aliviar tens√Ķes populacionais e sociais da Europa. A cidade lunar teria como objetivo principal fazer ci√™ncia.
Esta √© uma li√ß√£o importante: em toda grande iniciativa de explora√ß√£o de um novo territ√≥rio, a ci√™ncia vem a reboque de fatores econ√īmicos e sociais. A Lua teria sido o primeiro caso do contr√°rio acontecendo. E n√£o aconteceu.
2. A vida na Lua n√£o √© sustent√°vel: Um astro que d√° a volta em torno do pr√≥prio eixo a cada 29 dias n√£o √© exatamente um bom lugar para atividade agr√≠cola. Ainda mais se toda √°gua, fertilizante, CO2 e oxig√™nio t√™m de ser lan√ßados a partir das profundezas um fosso de gravidade a quase 400 mil quil√īmetros dali, ao custo de milhares de d√≥lares o quilo. E n√£o se sabe se abelhas e outros polizinadores iriam funcionar bem a um sexto da gravidade terrestre.
H√° uma m√≥dica bibliografia dando conta de planos para tornar a Lua economicamente vi√°vel, mas a maioria deles depende de (a) avan√ßos enormes na tecnologia da fus√£o nuclear — caso em que um tipo especial de √°tomo depositado pelo Sol na superf√≠cie lunar, o h√©lio-3, passaria a ser um recurso valios√≠ssimo, o “novo petr√≥leo” — ou (b) de investimentos pesados na ocupa√ß√£o de outros, ahn, espa√ßos do espa√ßo, como os pontos de estabilidade entre a Terra e a Lua e entre a Terra e o Sol.
O que gera a quest√£o, e por que catzo as pessoas iriam querer investir nesses pontos?
Marte, por sua vez, tem um perfil de sustentabilidade melhor. Mas fica muito mais longe. Mas, de novo, falha no ponto 1, motivação. De novo, há alguns livros até que bem persuasivos sugerindo que Marte pode dar lucro. Até agora, no entanto, ninguém quis pagar para ver.

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