Sam Harris e Fitna

Impagável a definição do autor de Carta a uma Nação Cristã para a reação dos muçulmanos a qualquer crítica a sua religião:

The position of the Muslim community in the face of all provocations seems to be: Islam is a religion of peace, and if you say that it isn’t, we will kill you.

O comentário aparece neste artigo sobre a reação “civilizada” ao filme Fitna, uma justaposição de versos do Corão e atos de terrorismo cometidos por fiéis islâmicos.

Críticos em meio à campanha de supressão desencadeada contra o filme (que já sumiu, aliás, do YouTube) se apressam em apontar que seu autor, o holandês Geert Wilders, é racista e fascista — o que me leva a perguntar, e daí? Liberdade de expressão agora é só para quem tem carteirinha de bom moço?

Blogueiros mais afeitos ao senso comum, como Pedro Dória, caem na velha lengalenga de que religião não causa violência, o que causa violência são condições sociais e históricas. Esse papo, claro, falha por duas razões:

1. Primeiro, a religião é um dos componentes da condição social e histórica;

2. Segundo, é a religião fornece estrutura, linguagem e legitimidade aos atos violentos apresentados no filme.

A ressalva que vale a pena fazer, claro, é a de que o terrorismo não é uma exclusividade do islã. Todo monoteísmo é uma bomba-relógio ideológica esperando a hora de explodir.

Discussão - 4 comentários

  1. Pedro disse:

    Fazer crítica é um direito. Mas prefiro ser criticado pelo meu ‘senso comum’ por idéias que tenho, não pelas que você acha que tenho.Primeiro: não houve reação violenta a Fitna. Não houve. Ponto. Nada.Segundo: Sam Harris está certo. E daí? Eu não disse que o Islã é de paz. Não acho que seja. O que eu disse é que a violência está pregada no Islã como está no Judaísmo e no Cristianismo. Sam Harris, diga-se, não teria nada a discordar de mim. Ele é um dos defensores dessa tese.Terceiro: o Oriente Médio é violento pacas. É instável. Lá há terrorismo. As causas são políticas. É evidente que o Islã faz parte do contexto. O monoteísmo é violento. O monoteísmo também faz parte do contexto da Europa e das Américas. Aqui não há o que existe lá. A Europa cristã já foi violenta. Havia disputa por poder. Motivos políticos. Você pode achar que as causas sejam religiosas, mas explique porque você acha. Sem argumentos, não se sustenta. O problema continua sendo disputa por poder. Política. Religião é a desculpa.Quarto: é evidente que o cineasta tem o direito de achar e dizer o que bem quiser. Eu não pedi sua censura. Por mim, os Protocolos dos Sábios de Sião deviam ser impressos e livremente distribuídos em praça pública. Quanto mais bem distribuída for a estupidez, mais fácil é desmascará-la. Agora dizer ‘é racista, e daí?’ E daí que racismo me ofende. Acho que deveria ofender a todos. Então eu levanto e acuso.Reitero: critique minhas idéias à vontade. Estão na praça que é área de discussão. Mas critique direito. Para começar, entenda o que eu disse. Não me critique pelo que você acha que penso. Apresente argumentos para discordar do que eu disse. Sem qualquer argumento que não, perdoe, os lugares comuns que você apresenta, não há discussão. É só um repetir dos estereótipos dos argumentos muito mais profundos que o Harris faz.

  2. Moc disse:

    Olá, Pedro! Bem-vindo! E obrigado pelo longo comentário. É bom ver as pessoas dedicando tempo a discutir o que escrevo…Mas vamos lá:Ponto primeiro: não houve violência física efetiva, mas houve censura, motivada pela ameaça (implícita ou nem tanto) de violência. Segundo: neste concordamos eu, você e Harris.Terceiro: Aqui realmente discordamos. A disputa pode ser por petróleo, poder ou prestígio, mas a religião é o canal que dá forma à disputa, qe determina a escolha das armas, que define a imagem que cada participante tem de si e do adversário. Ela poderia ser travada entre diplomatas, ou numa mesa de negociação comercial, ou num duelo de repentistas… Se é travada por homens-bomba, em uma linguagem de mártires, obediência cega e redenção apocalíptica, temos a religião a agradecer por isso.O anti-semitismo, que no fim está na raiz da virulência do conflito do Oriente Médio, foi um fenômeno religioso muito antes de se transformar em arma política. Finalmente, embora o monoteísmo seja um fenômeno cultural generalizado, ao menos deste lado da Polinésia, você há de convir que ele é uma força social menos influente nos EUA do que no Oriente Médio(e os EUA ainda são bastante violentos) e muito, muito menos poderosa na Europa (menos violenta que os EUA e que o Orinete Médio). Quarto: concordo com você, em termos. O problema, a meu ver, é usar acusações como “racista” ou “fascista” (ou “comunista” ou “católico”…) como desqualificadores instantâneos: o cara é racista, logo se ele disser que 2+4=6, deve ter treta aí. Até os canalhas estão certos. Às vezes.Por fim, desculpe a ligeireza da crítica contida em minha postagem original, que saiu apressada. Penitencio-me: se ia fazer, podia ter feito direito logo na primeira vez…

  3. Pedro disse:

    Moc, você está vendo a superfície do problema e quem vê só a superfície não encontra solução.Vc pode ouvir mil vezes o Osama bin Laden falando e vai contar 950 ‘Alá seja louvado’ e vai sair de lá convencido que ele falava de Deus. O problema dele, no entanto, é político. Quer o controle da Arábia Saudita.Mas mesmo o Osama não importa. Maluco sanguinário tem em toda parte. A diferença é que esse tipo de maluco no Brasil não cria filhos e, lá, ao menos durante um tempo, ele inspirou muita gente. Por quê? A primeira pista: quais os governos que mais temem o fundamentalismo islâmico? O terrorismo islâmico? Não são os EUA. Não é a Espanha. São Arábia Saudita, Egito, Síria…Se o problema é religioso, por que a maior parte dos ataques do fundamentalismo islâmico são dirigidos a países de governo declaradamente islâmico? Por um motivo muito simples. A casca de ideologia é de um discurso religioso. Mas o problema de fato é opressão política. Sob ditaduras, sob Estados policiais, as pessoas reagem com os discursos que lhe oferecem. Na Cuba de Batista e no Brasil da ditadura, foi um discurso de esquerda. Na Techecoslováquia comunista foi com um discurso liberal. Para os protestantes ingleses que foram fundar os EUA era um discurso messiânico. Mas o discurso não importa. O que importa é o desejo de terminar a opressão e ganhar liberdade.Há anti-semitismo no Oriente Médio? Claro que há. Pacas. Este racismo te incomoda, né? É claro que racismo é um imediato desqualificador. E não me importa se ele está nos Protocolos ou no Fitna. Desqualifica a obra de presto. Não é sério. Não busca compreensão. Busca caracterizar de forma estereotipada um grupo.Não digo que racistas que estão do ‘meu lado’ são legais e racistas que estão contra mim não são. O discurso racista, repudia-se por nojo. Com o viés racista, desqualificando uma cultura, você atrai uma gentinha que entende o mundo superficialmente e desperta o ódio do opositor. Frases absolutas como ‘o Islã fomenta a morte’ são como ‘os judeus controlam a economia mundial’. Por grosseiramente generalistas, não querem dizer nada e não representam qualquer verdade. Só estereótipos de ódio. Se seu objetivo é despertar o ódio do opositor, diz-se que a política que você faz é ‘política de ódio’.Que tipo de governo você faz com políticas que se baseiam na idéia de que uma cultura é fundamentalmente defeituosa?

  4. Moc disse:

    Pedro, a questão não é desqualificar uma cultura, mas apontar o que há de errado nela. Toda cultura é defeituosa: todo modo de ser e de viver pode melhorar. O que me preocupa é que o simples ato de apontar os erros, quando eles surgem sob a forma de religião, está passando a ser encarado como uma espécie de crime de lesa-civilização. As três grandes religiões monoteístas oferecem, “taylor made”, pretextos, motivos e argumentos para transformar censura, perseguição, assassinato, massacre e genocídio em atos necessários de bondade e santidade. Esses “ovos de serpente” precisam ser reconhecidos, apontados e denunciados, e os “religiosos moderados” têm de ser chamados a responder por eles.Como era aquela do Steve Weinberg? “Pessoas más cometem maldades, pessoas boas fazem coisas boas. Para levar uma pessoa boa a cometer maldades, é preciso religião”.Um filme como Fitna poderia ter sido feito, digamos, citando trechos da Torá e imagens de palestinos fugindo de ataques israelenes? Poderia, e seria algo tão merecido e verdadeiro quanto o filme feito com o Corão. Poderia ter sido feito com versos do Evangelho, das Cartas de Paulo, e imagens de atentados na Irlanda, ou da guerra civil do Líbano? Sem dúvida, e também estaria indo direto ao ponto. Ok, ideologias em princípio seculares, como o marxismo, podem se apropriar dessa técnica religiosa de transformar o respeito aos direitos humanos e o senso crítico em virtudes menores (quando não em defeitos), mas o pedigree da tecnologia é religioso. Não sei se concordo com sua avaliação de que o terrorismo islâmico voltado contra os Estados “ocidentalizados” do Oriente Médio (sauditas, egípcios) seja movido por um anseio por liberdade. O Taleban combateu a opressão soviética, e o que pôs no lugar foi muito pior. O que levou Bin Laden a se erguer contra a família Saud não foi uma rejeição à monarquia absoluta, mas o que ele viu como um aprofanação de Meca. Por que Meca? Porque é uma cidade sagrada. Por que sagrada? Porque Maomé disse. Por que Maomé disse? Porque Deus contou pra ele.Imaginemos um adolescente no Cairo, cheio de hormônios, inconformado com o desemprego, a corrupção no governo local, a preferências das meninas pelos ricos. Na falta de partidos políticos de oposição, de bailes funk, de um movimento estudantil ou de um grupo de teatro, ele adere à Irmandade Islâmica. Esse é o único canal que sua sociedade fechada lhe oferece. O mesmo pode valer para o jovem saudita e a Al_Qaeda, ou o jovem palestino e o Hamas. Mas cabe perguntar, por que esses canais estão abertos (ou menos fechados) que outros? Por que essas sociedades fechadas usam o islã como instrumento de controle social. O que exsite nesses países não é um confronto entre ditadura e islã, mas entre modelos diferrentes de ditadura islâmica.No Egito, o islamismo sancionado pelo governo mantêm a minoria cristã copta oprimida e humilhada, e você não vê um terrorismo copta internacional. Isso não quer dizer que os cristãos sejam bonzinhos, mas apenas que opressão não é uma chave-mestra para decifrar tod a charada.Radicalismo religioso tende a florescer em meio ao desespero, concordo. Mas isso não pode servir de pretexto para desqualificar a crítica ao islã — um modelo de civilização que nunca passou por uma revisão crítica como a que o cristianismo sofreu no renascimento, por exemplo.A civilização islâmica tem defeitos, assim como a civilização ocidental de hoje tem, assim como a civilização cristã que antecedeu a civilização ocidental pluralista tinha. Por que apontar os defeitos da segunda e da terceira é assunto legítimo, e os da primeira, tabu?

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