Blogagem coletiva: o cone de luz

Dizem que Copérnico, Galileu e Darwin puseram a humanidade em seu devido lugar, cosmicamente falando. Não discordo que esses caras tenham dado uma colaboração importante à causa, mas para mim o verdadeiro golpe foi desferido em 1908, quando Herman Minkowski traçou o primeiro diagrama de cones de luz.
Os cones de luz são uma consequência lógica do paper de 1905 de Albert Einstein sobre a relatividade restrita. Ao deduzir que a velocidade da luz no vácuo é imutável, independentemente do estado de movimento do observador, Einstein também deduziu algo muito importante sobre a condição humana. Permita-me ilustrar.
Pegue papel e caneta, por favor (quanto maior a folha, melhor).
No centro do papel, marque um ponto. Esse ponto vai ser o zero do nosso diagrama. Ele também marca a posição do seu cérebro, digamos, daqui a algumas décadas: mais precisamente, no instante da sua morte.
Agora, como temos um ponto zero, você já deve ter deduzido que teremos um par de eixos perpendiculares, “x” e “y”. No nosso caso, porém, eles serão os eixos “s” e “t”, de “espaço” e “tempo”. Você pode graduar o eixo “t” em segundos e o eixo “s” em segundos-luz, o que é mais ou menos a distância da Terra à Lua.
Trace em seguida duas linhas que também se cruzam no ponto zero (no seu cérebro moribundo), mas inclinadas em 45º com os eixos. Perceba que cada ponto dessa linha corresponde a pares de coordenadas como {1 segundo-luz; 1 segundo}, {2 segundos-luz; 2 segundos}, e assim por diante: basicamente, elas traçam a trajetória dos raios de luz que convergem do passado em direção ao seu cérebro (esses formam as paredes do “cone” inferior), e do seu cérebro para o futuro (as paredes do “cone” superior).
Agora, concentre-se no cone inferior, e lembre-se de que o ponto zero é o seu último instante de vida.
Pois bem.
Se a velocidade da luz é um limite absoluto para a propagação de sinais no universo, e tudo indica que é, então tudo o que você poderá aprender em toda a sua vida, tudo o que você verá, ouvirá, cheirará, provará ou experimentará, todos os lugares que você conheceu e conhecerá, todas as pessoas que você amou ou amará, tudo que você pode fazer com a sua vida, a partir de agora e até o seu último suspiro, está contido no cone inferior.
Agora, olhe pra o papel fora do cone. Não se preocupe com o futuro: o fato de que quem morre não tem mais futuro é trivial. Olhe para o papel fora do cone do passado.
Lá está tudo o que estava acontecendo no universo durante a sua vida e que você não ficou sabendo. Não porque não quis ou não se interessou, mas porque era fisicamente impossível. Lá há coisas, experiências, imagens e verdades muitas das quais já são reais agora, mas cuja luz não chegará até aqui antes que você morra.
Não importa o quanto você estude ou se esforce, quanta inteligência inata você tenha herdado de seus pais. O que está fora do cone é definitivamente incognoscível. Esta é a dimensão irredutível da ignorância humana. Este é o universo para sempre fora do alcance.

Discussão - 2 comentários

  1. Olá,
    A primeira vez que eu aprendi essa história do cone de luz o professor disse simplesmente: “Universo dentro do cone e sinais não-locais do lado de fora. Nunca tinha pensado nesse aspecto da vida e conhecimento. O mais interessante é notar que mesmo dentro do cone, mesmo sendo fisicamente viável, a informação já é tanta que não é possível absorver tudo! A ignorância já é tremenda mesmo dentro desse “pequeno” espaço. Agora, só por diversão, uma pergunta de cunho quase-filosófico: O fato de que essa informação fora do cone nunca estará disponível para mim (ou seja, na verdade nem posso dizer se ela existe ou não) me torna ignorante em relação a ela?
    Bom, me trouxe boas lembranças do curso de relatividade restrita!
    Excelente texto. Parabéns!

  2. cretinas disse:

    Acho que é seguro supor que existe alguma coisa fora do cone de luz… Por exemplo, se a teoria da inflação cósmica estiver correta, partes do universo que já foram locais no passado distante hoje são não-locais. E a energia escura também pode estar empurrando partes “reais” do espaço-tempo para fora de nosso horizonte de observação.
    Mas esta é realmente uma questão filosófica e tanto, como afirmar algo sobre o que não podemos conhecer. Diria que não podemos afirmar nada, exceto que é provável que isso exista — algo como o deus dos filósofos,suponho, mas com uma base teórica um pouco melhor!

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