Paradoxo de sext (32)

O da semana passada se resolve, creio, simplesmente notando que muitas categorias úteis para uso no dia a dia (como presente, passado e futuro) são exatamente isso, úteis para uso no dia a dia, mas não se prestam a análises lógicas detalhadas. São como os “conceitos primitivos” da geometria (ponto, reta, plano): acessíveis à intuição, bons tijolos, mas que (como tijolos) viram pó quando tentamos ver o que há dentro deles.
Acho que são situações assim que levaram Wittgenstein a concluir que não existem problemas filosóficos, o que há são imperfeições e maus usos da linguagem.
O paradoxo desta semana foi proposto por Richard Dawkins.
Imagine que todas as suas ancestrais do sexo feminino, sua mãe, avó e até a última ancestral comum com os chimpanzés — até a proto-macaca que teve duas filhas, irmãs, uma das quais entrou na linhagem da sua família e a outra cujos descendentes nunca saíram da selva (ou se saíram, foram para o zoo) — estão enfileiradas, numa sequência de quilômetros. Imagine que, numa fila paralela a essa, estejam todas as descendentes do sexo feminino da irmã de sua ancestral comum.
Agora, percorra a fila que leva até você. Veja como cada geração se liga perfeitamente, sem descontinuidade alguma, à anterior. Do humano ao proto-humano e ao proto-macaco, não há nenhuma quebra. Em nenhum momento você vê uma mãe macaca peluda e feia de mãos dadas com uma filha humana e linda. Nem mesmo entre avó e neta há diferença perceptível, nem entre bisavó e bisneta.
Agora, tendo chegado à ancestral comum, avance no tempo pela fileira dos proto-chimpanzé que até a chimpanzé que está na fila paralela, olhando para a sua mãe nos olhos. Elas são primas. De novo, nenhuma descontinuidade.
O “U” evolucionário que liga o ramo humano de sua família ao ramo dos macacos é contínuo e suave, tão sólido quanto o que o liga, digamos, aos primos que não emigraram com sua avó, bisavó ou tataravó ou quem quer que seja que tenha vindo da Itália, do Japão, de Portugal, Alemanha, pelo estreito de Bering, etc.
Então: se não há descontinuidade, se o parentesco que nos liga aos macacos é tão firme quanto o que nos liga à humanidade em geral, como é possível que sejamos espécies essencialmente diferentes?

Discussão - 4 comentários

  1. Carlos Hotta disse:

    Ah… o milagre do surgimento de novas espácies. Em algum momento, seja por barreiras geográfica, separação morfológica ou mesmo cronológica, as fileiras paralelas deixam de dar as mãos que, nesta sua metáfora significa a troca de genes. O resto é história.

  2. Elvis disse:

    As diferenças de uma geração para outra são pequenas mas existem. A premissa “não há descontinuidade” é falsa.
    O acúmulo dessas pequenas diferenças imperceptíveis leva a uma grande diferença no final, ao ponto de separar as espécies.

  3. Kim disse:

    Concordo com o Elvis que é errado colocar “não há descontinuidade”, a menos que suponhamos que o espectro de transmissão de DNA é contínuo, isto é, para um epsilon tão pequeno quanto o Siqueira, sempre existe um indivíduo entre os indivíduos I e I + epsilon – talvez o próprio Siqueira. Sob esse ponto de vista, a linha de descendência é uma suruba infinita em trechos infinitesimais.

  4. Thiago disse:

    Como Carlos salientou, assim que um grupo imigra, o ambiente torna-se diferente, a troca química entre o ambiente e o indivíduo vai pressionar mudanças genéticas. Alimentos diferentes mudarão como o metabolismo celular reage (por exemplo japoneses e irlandeses são ligeiramente diferentes em muitos aspectos biológicos), os hábitos para conseguir o alimento também ajudam na mudança fisiológica (ex. se um só caça, e o outro só planta, espera e colhe). Essas separações com o tempo resultam em diferenças cada vez maiores. Alguns proto-macacos não tiveram a mesma oportunidade ambiental que a linhagem que imigrou e sobreviveu dando origem ao que nos tornamos hoje.
    Tem algo engraçado que converso com amigos: com nosso estilo de vida sedentário e alimentação rica em gordura e açúcar, tente nos imaginar daqui 500 anos como bolas gigantes de carne que recebem alimentação intravenosa por computadores, vivendo só em função da manutenção destes aparelhos. Homo obesus.

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