Arquivo di√°rios:4 de setembro de 2017

O QUE TEM A VER: O MEU CAF√Č DA MANH√É, O P√ÉO DA POMP√ČIA E OS FUNGOS PRIMORDIAIS?

De manh√£ uma coisa muito boa √© tomar um caf√© com um p√£o quentinho rec√©m-sa√≠do do formo. Esse pequeno prazer vem desde h√° muito tempo. Existem registros de que os romanos que habitavam a cidade de Pompeia (localizada ao Sul de It√°lia, pr√≥xima da N√°poles) j√° disfrutavam dele. Pomp√©ia √© umas das cidades do mundo antigo mais famosas por ter sido soterrada durante a erup√ß√£o do vulc√£o Ves√ļvio no m√™s de agosto do ano de 79 antes de Cristo. Como sei que os habitantes de Pomp√©ia gostavam de p√£o quente? Porque toda a cidade ficou soterrada por uma camada rocha (o nome dessa rocha √© lapilli) de 7 a 8 metros de espessura. Dessa forma, dentro de um forno de umas das padarias da cidade ficou preservado um p√£o que chegou at√© os dias de hoje, podemos dizer que, ‚Äúfossilizado‚ÄĚ. Esse p√£o foi estudado por pesquisadores ingleses, que descobriram a receita e hoje em dia √© poss√≠vel fazer p√£o em casa √† moda de Pomp√©ia e desfrutar do prazer do p√£o quente. N√≥s, em casa, j√° fizemos v√°rias vezes seguindo as instru√ß√Ķes do mestre Johannes que pode ser vista no seu blog http://massamadreblog.com.br/postagem/pao-de-pompeia.

P√ÉO DE POMP√ČIA.
A. P√£o encontrado nas escava√ß√Ķes de Pomp√©ia; B. Forno de uma padaria de Pomp√©ia e C. P√£o na moda de Pomp√©ia feito em casa

Fora os p√£es ‚Äúf√≥sseis‚ÄĚ de Pomp√©ia s√£o conhecidos os moldes dos moderadores, cachorros, gatos etc, que ficaram preservados e tiveram uma morte r√°pida embora terr√≠vel, pois o vulc√£o Ves√ļvio, fica a 7 km da cidade. Essa trag√©dia aconteceu primeiro com uma enorme coluna de fuma√ßa e cinzas sendo expelida pelo vulc√£o e espalhada. A seguir os piroclastos (ou ‚Äúbombas‚ÄĚ, que s√£o fragmentos de rocha expelidos durante a erup√ß√£o) causaram o maior dano. Em Pompeia, a queda maci√ßa de cinzas causou a queda de muitos telhados e durante a segunda fase, pessoas e animais foram mortos por ficarem expostos √†s altas temperaturas da lava, mesmo que distante, ou por serem sufocados pelas cinzas, enfim um final tr√°gico para uma cidade e para muitos dos seus 12.000 habitantes.

Vulc√£o Ves√ļvio visto do porto de N√°poles (A) , vulc√£o visto das ru√≠nas de Pomp√©ia (B) ¬†e um molde de uma vitima (C). A seta vermelha em (A) e (B) indica o vulc√£o Ves√ļvio.

Os corpos dos habitantes, na verdade, n√£o podem ser considerados f√≥sseis, pois o que voc√™ v√™ s√£o os moldes feitos pelos arque√≥logos nos espa√ßos que os tecidos moles dos corpos deixaram ao se decompor. Essas camadas, por serem constitu√≠das de um material fino (como argila), permitiram que os ossos permaneceram no local, e na verdade at√© a express√Ķes dos seus rostos ficaram registradas em negativo. Assim, ao se moldar esses corpos preenchendo o molde original de cinza com resina produz-se um molde em positivo, que permite visualizar os corpos claramente, e que √© facilmente retirado uma vez endurecida a resina.

Molde de um morador morto durante a erup√ß√£o do Ves√ļvio em 79 antes de Cristo.

Enfim, voltando ao pão de Pompeia, foi possível descobrir que era utilizada uma forma de levedo que se conhece como o nome de massa madre. Essa massa se produz expondo uma mistura de água e farinha integral, em partes iguais, ao meio ambiente por algumas horas ou dias, para que os esporos de fungos (neste caso leveduras) que estão flutuando no ar caiam na mistura e auxiliem no crescimento da massa. Hoje em dia, o que se utiliza como fermento são tipos de leveduras mais selecionadas e mais efetivas.

Cabe comentar que a origem dos fungos se remonta √† Era Paleoproterozoica, ou seja, os vest√≠gios mais antigos de estruturas que podem ser atribu√≠das a fungos datam de 2.000 a 1.800 milh√Ķes de anos atr√°s e foram encontrados em camadas de rocha da Sib√©ria, pr√≥ximas ao lago Baikal. Contudo, h√° suspeitas de que fei√ß√Ķes descritas recentemente para o Cr√°ton da √Āfrica do Sul possam ser filamentos de fungos, o que remontaria a presen√ßa de fungos a 2.400 milh√Ķes de anos atr√°s.

Evid√™ncias mais seguras de fungos s√£o conhecidas para o Per√≠odo Cambriano (540 milh√Ķes de anos atr√°s). A partir do Devoniano, fungos associados a ra√≠zes, denominados micorrizas, s√£o encontrados junto √†s primeiras evid√™ncias de plantas, que por sinal est√£o belamente perseveradas silicificadas em camadas de s√≠lex na Esc√≥cia. Na bacia do Paran√° no estado de S√£o Paulo tamb√©m detectamos fungos f√≥sseis em troncos permineralizados por s√≠lica ou silicificados, neste caso, mais jovens. Outra pesquisa desenvolvida no nosso laborat√≥rio descreveu fungos epif√≠licos associados a folhas de angiospermas coletado em folhelhos da Forma√ß√£o Fonseca (a Bacia de Fonseca, estado de Minas Gerais, sudeste do Brasil) com idade ao redor de 30 milh√Ķes de anos atr√°s. Assim, vemos que os fungos t√™m um longo passado f√≥ssil, e utiliz√°-los para fazer crescer a massa do p√£o deve ter sido uma pr√°tica comum desde que o home come√ßou a fazer p√£o, ou seja o prazer de comer p√£o quentinho na primeira refei√ß√£o do dia deve ser bem antigo.