Abstrato e concreto: as duas caras de uma concreção

As concreções são aquelas bolas, bolinhas, etc. que estão presentes em muitos locais, associadas a camadas de rochas. Em geral elas são produto da cimentação diferencial de minerais como cálcio, sílica, ferro, pirita, etc. ao redor de um núcleo, por efeito de variações no meio circundante, que podem ser consequência de mudanças no pH, por exemplo. Caso do núcleo ao redor do qual acontece a deposição seja um resto orgânico, poderá ocorrer a preservação e, por conseguinte, a fossilização. Também podem ser formadas concreções nos rins ou cálculos renais, mas aí é bem mais doloroso que no caso das fossilíferas. Um tipo muito famoso de concreções são aquelas que contêm os fósseis de peixes da Formação Romualdo, do Cretáceo da bacia do Araripe. Nelas, o concreto são os fósseis e o abstrato, a interpretação de quando, como e por que. A maioria dessas concreções possui no seu interior osteíctes (peixes ósseos), em muitos casos com todo o corpo e até com músculos, como o coração, e a última refeição ainda a meio digerir dentro do estômago. No caso das concreções (ou ictiólitos) da Formação Romualdo, o mineral associado a elas é o carbonato de cálcio. Uma das explicações acerca da sua formação e abundância refere-se a episódios de mortandade em massa, como consequência de variações na salinidade, temperatura e oxigênio. Neste caso, muitos dos peixes teriam sido preservados devido à liberação de gases produzidos pela sua decomposição (principalmente metano), gerando mudanças do pH, o que que criou um micro ambiente ao redor deles, dentro de um lago hipersalino, propiciando a deposição do carbonato sobre os organismos, o que favoreceu a sua rápida preservação. A deposição do carbonato só parou na medida em que a emissão de metano cessou.

Trincheira para coleta de concreções na Formação Romualdo, as setas vermelhas indicam a localização das concreções no meio das camadas de rocha

Em diversas pedreiras de carbonatos da Formação Irati, aqui no estado de São Paulo, é possível encontrar, entre as camadas rochas calcárias, concreções de sílica cujas dimensões variam de centímetros a metros. Neste caso, as camadas de rocha correspondem à deposição de carbonato num ambiente de sedimentação marinho raso dentro um clima semi-árido. Assim, o silício que estava dissolvido nessas águas alcalinas (pH acima de 7) foi sendo depositado na forma de um gel em momentos de nível do mar mais baixo, ou de pH mais ácido devido à decomposição da matéria orgânica, que libera CO2. Podendo ser encontrados níveis mais ricos em concreções de sílica do que outros ou mesmo camadas completamente silicificadas. Algumas concreções crescem em formatos mais alongados, tocando concreções vizinhas, formando o que denominamos “bonecas de sílica”. No meio delas muitas vezes tem microfósseis, como pólens, fragmentos de carvão de queimadas, cianobactérias etc.

Outras concreções podem ser ferruginosas, ou seja, compostas por camadas sucessivas de ferro e associadas a locais com climas muito úmidos e quentes, característicos de regiões equatoriais, com a Amazônia. Outras concreções, mais familiares a nós, são os cálculos renais ou biliares, que tanto fazem sofrer aos seus donos para serem expulsos …enfim, o conteúdo e a composição são a cara concreta das concreções.

Agora, qual seria o lado abstrato das concreções? O lado abstrato está associado às interpretações que são realizadas sobre o conteúdo e os elementos que a formam as concreções, ou seja, interpretações sobre a idade dos fósseis envolvidos nas camadas, qual era o clima reinante na época da deposição, a causa da morte etc.

Concreções de osteites expostas no museu de Santana Ana do Cariri, CE

O mesmo acontece quando somente empilhamos e descrevemos camadas de rochas levando em consideração só a parte concreta, ou seja, apenas o que vemos na rocha, como minerais, fósseis etc., enquanto que outra visão, abstrata, diz respeito à interpretação do que a forma, ou seja, as inferências acerca do significado do seu conteúdo que pode variar conforme a ciência avança… e se refere a uma abstração… Assim, temos o tempo rocha ou litoestratigráfico, que é o lado concreto, e o cronoestratigráfico, que abarca concreto e abstrato… e por fim as unidades geocronológicas que são totalmente abstratas e que tratam das divisões do tempo geológico: (i) Éons (por exemplo Arqueano, Fanerozoico, etc.);

(ii) Eras (por exemplo Paleozoica, Mesozoica, etc.); (iii) Períodos (como Cambriano, Cretáceo, Quaternário, etc.) e (iv) dos seus limites, que estão relacionados a eventos geológicos/biológicos como extinções, orogenias, etc

 

**texto de autoria da Profa. Frésia

Sobre Carolina Zabini

Bióloga formada pela UEPG. Professora Doutora em Ciências, área de concentração em Paleontologia pela UFRGS. Atua com paleontologia de invertebrados (BRACHIOPODA: LINGULIDA) Devonianos da Bacia do Paraná, com ênfase em tafonomia.

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