O QUE TEM A VER: O MEU CAFÉ DA MANHÃ, O PÃO DA POMPÉIA E OS FUNGOS PRIMORDIAIS?

De manhã uma coisa muito boa é tomar um café com um pão quentinho recém-saído do formo. Esse pequeno prazer vem desde há muito tempo. Existem registros de que os romanos que habitavam a cidade de Pompeia (localizada ao Sul de Itália, próxima da Nápoles) já disfrutavam dele. Pompéia é umas das cidades do mundo antigo mais famosas por ter sido soterrada durante a erupção do vulcão Vesúvio no mês de agosto do ano de 79 antes de Cristo. Como sei que os habitantes de Pompéia gostavam de pão quente? Porque toda a cidade ficou soterrada por uma camada rocha (o nome dessa rocha é lapilli) de 7 a 8 metros de espessura. Dessa forma, dentro de um forno de umas das padarias da cidade ficou preservado um pão que chegou até os dias de hoje, podemos dizer que, “fossilizado”. Esse pão foi estudado por pesquisadores ingleses, que descobriram a receita e hoje em dia é possível fazer pão em casa à moda de Pompéia e desfrutar do prazer do pão quente. Nós, em casa, já fizemos várias vezes seguindo as instruções do mestre Johannes que pode ser vista no seu blog http://massamadreblog.com.br/postagem/pao-de-pompeia.

PÃO DE POMPÉIA.
A. Pão encontrado nas escavações de Pompéia; B. Forno de uma padaria de Pompéia e C. Pão na moda de Pompéia feito em casa

Fora os pães “fósseis” de Pompéia são conhecidos os moldes dos moderadores, cachorros, gatos etc, que ficaram preservados e tiveram uma morte rápida embora terrível, pois o vulcão Vesúvio, fica a 7 km da cidade. Essa tragédia aconteceu primeiro com uma enorme coluna de fumaça e cinzas sendo expelida pelo vulcão e espalhada. A seguir os piroclastos (ou “bombas”, que são fragmentos de rocha expelidos durante a erupção) causaram o maior dano. Em Pompeia, a queda maciça de cinzas causou a queda de muitos telhados e durante a segunda fase, pessoas e animais foram mortos por ficarem expostos às altas temperaturas da lava, mesmo que distante, ou por serem sufocados pelas cinzas, enfim um final trágico para uma cidade e para muitos dos seus 12.000 habitantes.

Vulcão Vesúvio visto do porto de Nápoles (A) , vulcão visto das ruínas de Pompéia (B)  e um molde de uma vitima (C). A seta vermelha em (A) e (B) indica o vulcão Vesúvio.

Os corpos dos habitantes, na verdade, não podem ser considerados fósseis, pois o que você vê são os moldes feitos pelos arqueólogos nos espaços que os tecidos moles dos corpos deixaram ao se decompor. Essas camadas, por serem constituídas de um material fino (como argila), permitiram que os ossos permaneceram no local, e na verdade até a expressões dos seus rostos ficaram registradas em negativo. Assim, ao se moldar esses corpos preenchendo o molde original de cinza com resina produz-se um molde em positivo, que permite visualizar os corpos claramente, e que é facilmente retirado uma vez endurecida a resina.

Molde de um morador morto durante a erupção do Vesúvio em 79 antes de Cristo.

Enfim, voltando ao pão de Pompeia, foi possível descobrir que era utilizada uma forma de levedo que se conhece como o nome de massa madre. Essa massa se produz expondo uma mistura de água e farinha integral, em partes iguais, ao meio ambiente por algumas horas ou dias, para que os esporos de fungos (neste caso leveduras) que estão flutuando no ar caiam na mistura e auxiliem no crescimento da massa. Hoje em dia, o que se utiliza como fermento são tipos de leveduras mais selecionadas e mais efetivas.

Cabe comentar que a origem dos fungos se remonta à Era Paleoproterozoica, ou seja, os vestígios mais antigos de estruturas que podem ser atribuídas a fungos datam de 2.000 a 1.800 milhões de anos atrás e foram encontrados em camadas de rocha da Sibéria, próximas ao lago Baikal. Contudo, há suspeitas de que feições descritas recentemente para o Cráton da África do Sul possam ser filamentos de fungos, o que remontaria a presença de fungos a 2.400 milhões de anos atrás.

Evidências mais seguras de fungos são conhecidas para o Período Cambriano (540 milhões de anos atrás). A partir do Devoniano, fungos associados a raízes, denominados micorrizas, são encontrados junto às primeiras evidências de plantas, que por sinal estão belamente perseveradas silicificadas em camadas de sílex na Escócia. Na bacia do Paraná no estado de São Paulo também detectamos fungos fósseis em troncos permineralizados por sílica ou silicificados, neste caso, mais jovens. Outra pesquisa desenvolvida no nosso laboratório descreveu fungos epifílicos associados a folhas de angiospermas coletado em folhelhos da Formação Fonseca (a Bacia de Fonseca, estado de Minas Gerais, sudeste do Brasil) com idade ao redor de 30 milhões de anos atrás. Assim, vemos que os fungos têm um longo passado fóssil, e utilizá-los para fazer crescer a massa do pão deve ter sido uma prática comum desde que o home começou a fazer pão, ou seja o prazer de comer pão quentinho na primeira refeição do dia deve ser bem antigo.

Sobre Fresia Soledad Ricardi Torres Branco

Possui graduação em Geografia - Facultad de Ciencias Forestales, Escuela de Geográfia (1988), mestrado em Geociências (Geologia Sedimentar) pela Universidade de São Paulo (1994), doutorado em Geociências (Geologia Sedimentar) pela Universidade de São Paulo (1998), pós-doutorado no Laboratório de Geofísica Aplicada, I. Geociências, Universidade de Brasília (2008) e Livre Docência em 2013. Atualmente é professor associado do Instituto de Geociências, Universidade Estadual de Campinas. Tem experiência na área de Geociências, desenvolve pesquisas em Tafonomia de vegetais, floras fanerozoicas da América do Sul, novas metodologias para analises paleontológicas e bioclastos associados a carbonatos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *