Tábula Rasa, Dualismo e Frankenstein

A oposição de alguns acadêmicos ao projeto de estudar o funcionamento do cérebro de jovens homicidas parece mais uma reafirmação de três velhos mitos.

O primeiro é o da tábula rasa — de que o ser humano nasce como uma “folha em branco”, e que tudo que faz, todos os erros que comete e todos os méritos que possa ter são fruto do meio em que vive e de suas relações com outras pessoas.

Essa visão, além de cientificamente frágil (como já bem mostrou Steve Pinker) deixa aberta a curiosa questão de da onde, afinal, vêm as condições ambientais e os comportamentos das pessoas que determinam o conteúdo de cada mente originalmente vazia.

O segundo é o mito do dualismo: de que os fenômenos “mentais” são diferentes dos fenômenos “físicos” de algum modo essencial; que é impossível (reducionista) descrever, ou mesmo correlacionar, o que se passa no espírito com o que ocorre no corpo. Quem diz isso, é óbvio, nunca ficou corado (e nem, por falar nisso, teve ou presenciou uma ereção).

O terceiro, e pior, é o mito de Frankenstein: de que há coisas que é melhor não saber. Tipo: se descobríssemos que todas as pessoas de olhos castanhos e que têm pêlos nas orelhas são (digamos) homicidas em potencial, isso levaria a gulags, limpeza étnica, injustiças por atacado… logo, é melhor ignorarmos esse tipo de informação!

Como portador de ambas as características, eu talvez me sentisse tentado a concordar com o raciocínio, mas a objeção ignora, claro, que o conhecimento disponível e o que a sociedade decide fazer com ele são coisas distintas. Não foi a ciência que apagou Hiroshima do mapa, foi o governo de Harry S. Truman. E ignora, ainda, o fato de que, quando é preciso tomar uma decisão, é sempre bom ter o máximo possível de informação relevante a respeito.

Como disse o ganhador do Nobel Peter Medawar, a missão da ciência é criar a oportunidade de tornar real tudo o que for possível. O que vamos fazer com as oportunidades que surgirem é uma questão cabeluda, mas abrir mão da missão é covardia, na melhor das hipóteses — ou obscurantismo, na pior.

Discussão - 2 comentários

  1. Patola disse:

    Bravo! Eu sabia que você ia publicar algo sobre essa notícia, achei um absurdo a reação contra o estudo.O melhor e mais profundo desmentido do dualismo que conheço, que segue uma análise minuciosa e com riqueza de exemplos, é em um livro do neurologista António Damásio chamado não por coincidência de O Erro de Descartes. (O link é de um sítio fabuloso que descobri – libratything.com, onde você pode cadastrar sua biblioteca e se comunicar com outras pessoas de gostos parecidos)

  2. Patola disse:

    Ok… Tentando elaborar um pouco mais, acho que além do que você disse, moc, tem também um quarto e quinto fatores, não totalmente independentes: a primeira é o estigma negativo que qualquer idéia oposta à já mencionada Tábula Rasa tem; como a Tábula Rasa foi essencial para a criação de pilares da política moderna como a Declaração dos Direitos Universais do Homem e Hitler (*1) usou e abusou de uma espécie de determinismo genético (*2) (bastante burro por sinal), qualquer coisa que lembre este determinismo vai adquirir instantaneamente uma classificação de autoritário e injusto (como se a mera descrição de algo – real ou não – fosse também a prescrição, falácia naturalista).O outro fator é o choque das assim chamadas duas culturas. Percebe que os indivíduos que reclamaram estão mais ligados às ciências humanas ou psicologia? “Psicólogos, advogados, antropólogos e representantes de ONGs de vários Estados”… Isso tem relação, por sua vez, inclusive com outro post seu.(*1) Por sua vez, Mao Tsé-Tung usou e abusou da Tábula Rasa…(*2) Não lembro onde li, mas achei fantástica: o uso da denominação Determinista Cultural para quem usa ainda os preceitos da tábula rasa para explicar qualquer coisa.

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