Em seu ótimo livro Dúvida – uma história, Jennifer Michael Hetch nota que a idéia de que a crença, ou mais precisamente, a – a crença a despeito de, ou contra a, evidência e a razão – é uma virtude salvadora é uma invenção cristã, que surge nos Evangelhos (aliás, assim como a idéia de uma eternidade de sofrimento no inferno: dizem que Jesus era um sujeito manso e compreensivo, mas uma leitura atenta das Escrituras sugere mais um tipo bipolar).

Entre os pagãos politeístas, sustenta o argumento de Hetch, o que se esperava dos fiéis era obediência ao ritual: fazer determinadas propiciações em determindas épocas e do modo correto. Já entre os henoteístas hebreus o importante era a obediência à Lei — você podia não acreditar em YHWH, desde que não tomasse seu santo nome em vão, não comesse porco ou moluscos e tivesse a genitália aparada de modo conveniente.

Para mim, só essa inovação filosófica — transformar crença numa virtude suprema, no núcleo da vida religiosa e na chave-mestra da salvação — é um desastre que assoma por cima de todos os supostos benefícios que se costumam atribuir ao cristianismo.

Não só por se tratar de uma fonte de tortura mental (acreditar nisso ou naquilo, afinal, não é um ato de vontade), mas porque a transformação da fé cega em virtude tem o efeito simétrico de converter o senso crítico em vício.

E é daí que nasceram, não só os fanatismos religiosos de ontem e de hoje, mas também os messianismos seculares de Pol Pot, Mao, Guevara e outros.

Discussão - 1 comentário

  1. Daniel disse:

    Quando um certo conjunto de crenças se acopla à idéia de que a fé (o hábito de manter essas crenças longe do filtro do pensamento crítico) é uma virtude, o indivíduo portador dessas crenças acaba funcionando como um computador infectado por um vírus. Essa analogia interessante foi criada por Richard Dawkins.Uma “armadilha linguística” que é popular nos dias de hoje: usa-se a palavra “fé” também para se referir a qualidades como “força de vontade”, “esperança” e “convicção da própria capacidade” (veja frases como “tenho fé de que serei bem sucedido nesse negócio” ou “tenho de ter fé de que vou passar no vestibular”).Evidentemente, mesmo a convicção da própria capacidade pode ser danosa quando exagerada, mas quando bem dosada pode servir como um bom estímulo (que leva pessoas a estudar, trabalhar, pensar, …).O problema é que se fala em “pessoa sem fé” tanto para se referir a ateus/agnósticos como para se referir a pessoas sem esperança, sem força de vontade.

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