Stanford e a PM do Rio

O que a morte do garoto João Roberto Amorim Soares, de 3 anos, e o escândalo da prisão de Abu Ghraib, no Iraque, têm em comum? Para começo de conversa, ambos os casos envolvem abuso de poder por parte de autoridades armadas contra cidadãos indefesos (mesmo supondo que os presos de Abu Ghraib fossem guerrilheiros ou terroristas, uma vez presos e desarmados eles estavam indefesos).
Mas, o mais interessante é que, no dois casos, as autoridades responsáveis por impor a disciplina aos agentes armados do Estado responsáveis pelo malfeito se saíram com a mesma desculpa — a chamada hipótese da maçã podre (“HMP”, pra encurtar), pela qual a corporação em si é boa, o que ocorre é que algumas pessoas más eventualmente acabam se infiltrando nela e seduzindo/arregimentando colegas de personalidade fraca. Linha de defesa semelhante, aliás, foi adotada pela igreja católica em meio aos escândalos de pedofilia.
A HMP, no entanto, é altamente problemática, como demonstrou o infame Experimento da Prisão de Stanford, realizado em 1971 pelo psicólogo Philip Zimbardo. Nesse experimento, um grupo de estudantes universitários — e estamos falando dos anos 70, com o movimento hippie, as passeatas pacifistas, etc. — foi transformado em um bando de sádicos fascistas, ao receber a tarefa de atuar como guardas de prisão.
Encapsulando o resultado do experimento em uma frase, Zimbardo costuma dizer que descobriu que a HMP deveria dar lugar ao efeito barril podre: “a idéia de que a ambientação social e o sistema contaminam o indivíduo, e não o contrário”.

Isso não significa que não existam maçãs podres por aí, mas que é preciso, também, identificar os barris podres. E se existe um candidato sério a “barril podre” no Brasil, trata-se das polícias, principalmente das polícias militares. Quem não se lembra, por exemplo, do caso da Favela Naval, em São Paulo? Há algum tempo, a revista Piauí publicou o depoimento de um professor de Educação Física que quase foi morto porque, pilotando uma moto, ergueu o dedo médio para um carro que vinha atrás com farol alto — e o carro era de polícia.
Ah, sim: reconhecer que há “barris podres” não significa isentar indivíduos de culpa ou deixar de puni-los; a impunidade, afinal, é uma das coisas que faz apodrecer o barril.

Discussão - 2 comentários

  1. Patola disse:

    Cuidado com a citação do experimento de Stanford, pois ele não foi um experimento tão bem controlado assim. Be skeptical! 🙂

  2. Moc disse:

    Oi, Patola! Grato pelo link!Reconheço que o Stanford Prision Experiment foi um caso único e, por conta disso, cheio de erros e vieses — reais ou hipotéticos — que não têm como ser verificados/controlados em repetições, mas a hipótese do Zimbardo, de que instituições podem criar ambientes tóxicos, me parece plausível o bastante para merecer ser levantada no debate sobre os excessos das autoridades policiais brasileiras.Mas, claro, como todo experimento irreprodutível, tem de ser tomado “cum grano salis”.

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