8/8/8

O Fantástico de ontem à noite — desculpe, até eu assisto uns pedaços desse negócio às vezes, principalmente quando os seriados da TV a cabo são todos repetidos demais — cometeu uma peça de numerologia a respeito do dia 8/8/8 que merece ser analisada sob, ao menos, dois ângulos.
(Para quem não sabe como a superstição “funciona”, vamos lá: os numerólogos atribuem a cada letra do alfabeto um número, geralmente seguindo o famoso “código secreto do pré-primário”: A=1; B=2; C=3, e assim por diante. Aí, pegam nomes de pessoas, países, empresas, etc., traduzem-nos de acordo com o código e somam os algarismos obitidos entre si, até chegar a um só dígito. Esse resultado teria significado místico. Exemplo: Idéias Cretinas é 9+4+5+9+3+18+5+20+9+14+1+19. Agora, onde está acalculadora… ? Ah: 116, ou 1+1+6 = 2+6 = 8. Então “8” é o número místico deste blog. Pelo que falaram no Fantástico, trata-se do número da honestidade e da veracidade. Arrá!).
Bom, a “reportagem” da Globo mostrava algumas crianças nascidas em 8/8/8 com vários oitos em suas vidas — o número do quarto em que as mães ficaram internadas (512, 5+1+2 = 8), a hora exata do nascimento (7h56 = 7+5+6=18) e assim por diante. Causa de espanto e admiração. Certo?
Nem tanto. Chegamos, agora, aos dois ângulos quem mencionei lá em cima.
O primeiro é o artificialismo das produções para televisão. Quem não trabalha com comunicação quase nunca se dá conta, mas toda reportagem para TV é produto de uma pré-produção exaustiva: antes de deslocar uma equipe composta de profissionais especialiazdos e equipamentos caríssimos para algum lugar, as empresas querem ter o máximo de certeza de que terão algo a apresentar ao final do processo.
Resumindo: tudo que você vê na TV geralmente é fruto de uma preparação que teve início, via telefone e internet, horas ou mesmo dias antes de o repórter ir a campo. Exceções, claro, são as coberturas (ao menos, as coberturas iniciais) de grandes desastres ou outros desenvolvimentos inesperados; mas essas, geralmente, começam com um cinegrafista amador, um vídeo de celular ou uma câmera de segurança.
Daí, as crianças cheias de oitos apresentadas na reportagem não foram simplesmente “encontradas”: foram ativamente caçadas, procuradas e selecionadas. Com uma preparação assim, a lei dos grandes números sempre trabalha a favor do que se quer mostrar, por mais estapafúrdio que seja.
O segundo ângulo é que o fato de uma seqüência de números de um dígito se reduzir a “8”, quando somada pelo sistema dos numerólogos é, de fato, bem grande.
Se a tabela que rabisquei no guardanapo do café da manhã estiver correta, há 45 maneiras de somar dois dígitos — dois dígitos parece ser um bom caso-teste, já que toda seqüência numerológica, não importa o tamanho inicial, cedo ou tarde se reduz à soma de dois algarismos — de forma que o resultado tenha apenas um dígito (desprezei o caso 0+0 = 0, já que não existe uma “letra zero” para os numerólogos, e os casos onde o zero seria o primeiro dígito, como 0+1, 0+2, etc).
Dessas 45 maneirias, 8, ou cerca de 17%, geram “8” como resultado. O único dígito com mais “modos de construção”, por assim dizer, é o 9, com 9/45, ou 20%. O dígito 7 tem 15% e o 1, pobrezinho, com apenas um modo de formação (1+0), tem meros 2%.
Ou seja: o esforço de produção nem precisou ser tão esforçado assim, já que as coincidências de oitos estão entre as mais prováveis criadas pelo próprio método numerológico. Pode acreditar: é o que diz o blog da honestidade e veracidade, regido pelo número 8.

Discussão - 5 comentários

  1. Daniel disse:

    O número que você obtém por esse processo sucessivo de soma de dígitos é nada mais que o resto da divisão por 9 (ou "noves fora"). Por exemplo:1765 -> 19 -> 10 -> 1e 1765 dividido por 9 dá 196, com resto 1 (dá para demonstrar que isso é sempre assim, se você quiser eu explico).Assim, dado um certo intervalo de números inteiros, temos aproximadamente 1/9 de restos 0, 1/9 de restos 1, 1/9 de restos 2, etc.Para números de dois dígitos, não é verdade que o 1 só vem do 10. Por exemplo, 64 também vai em 1:64 –> 10 –> 1.Os nove possíveis resultados da operação são equiprováveis.

  2. Daniel disse:

    Claro que o significado místico atribuído a essa operação está entre as coisas mais estúpidas que já foram inventadas na face da terra. Acho que é mais estúpido que astrologia.Essa operação de soma de dígitos depende fundamentalmente de uma convenção bastante arbitrária, a representação decimal (em base 10). Se representarmos os números em outra base, obtemos outro resultado. Sem falar que o resultado depende de muitas outras convenções arbitrárias, como o alfabeto usado, a língua usada e a ordenação das letras do alfabeto.

  3. Moc disse:

    Hmmmm… Mas o 64 (ou o 73, ou o 82, etc) passa pelo 10. Esse afunilamento em 1+0 é necessário para o resultado final 1, da mesma forma que um afunliamento em 2+0 ou 1+1 é necessário para produzir o 2, e assim por diante; no geral, cada algarismo tem um número de “funis” igual a si mesmo. Parece estranho que, mesmo assim, as somas sejam todas equiprováveis…

  4. cretinas disse:

    Comentário de Daniel (inserido manualmente por Moc)
    Mas esse afunilamento não tem qualquer efeito sobre a probabilidade. Veja, se você considera os números de 1 a 99, há exatamente 11 números com resto 1 (a saber: 10, 19, 28, 37, 46, 55, 64, 73, 82), 11 números com resto 2 (a saber: 11, 20, 29, 38, 47, 56, 65, 74, 83), 11 números com resto 3 (a saber: 12, 21, 30, 39, 48, 57, 66, 75, 84), etc; todos os 9 possíveis restos ocorrem com a mesma freqüência, de modo que se o sorteio do número inicial (de 1 a 99) é equiprovável, também os restos serão equiprováveis.
    O mesmo vale para qualquer intervalo de números naturais cuja quantidade de números é um múltiplo de 9… (se você considera um intervalo cuja quantidade de números não é um múltiplo de 9 então haverá algumas “sobras nas pontas”; por exemplo, se você usar números de 1 a 100, então o resto 1 é ligeiramente mais provável que os outros, pois aparece uma vez a mais que os outros: 12 vezes, em vez de 11).
    15 de Agosto de 2008 00:54

  5. cretinas disse:

    Certo… O fato é que a diferença de probabilidades nasce de uma condição implícita no meu raciocínio original eque leva ao afunilamento: a de que a redução da seqüência de dois dígitos a um único dígito deve se dar em uma única operação de adição.
    Mas essa condição não é necessária oa método numerológico.

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