E a tal da fronteira final?

Um tema cuja ausência sempre me chamou atenção nos debates sobre sustentabilidade é a exploração espacial. Geralmente, quando o assunto é levantado, as reações da maioria dos debatedores é de (a) dizer que isso é uma coisa fantasiosa, uma falsa promessa ou (b) que isso não é solução, já que nos transformaria num bando de gafanhotos, “indo fazer merda lá fora depois de foder com as coisas por aqui”.
O fato é que, no entanto, nenhuma das objeções realmente se sustenta. No caso da primeira, é verdade que os custos de estabelecer uma colônia na Lua, em Marte ou, mesmo, em pleno espaço (como defendia Gerard O’Neill) seria caro pra danar, mas essa é mais uma questão de definir prioridades — em que projeto faraônico vamos investir nossa grana — do que qualquer outra coisa.
Em linhas gerais, planejar transferir parte da população e da economia para o espaço não é mais fantasioso que achar que a agricultura orgânica vai acabar com a fome no mundo, ou que a civilização ocidental vai resolver cortar seus padrões de consumo milagrosamente, de boa vontade, antes que a Natureza nos force a isso.
Já a segunda objeção revela uma incompreensão do programa de exploração da “Fronteira Alta”, como dizia O’Neill: não se trata de trocar a Terra pelo espaço, mas de complementar a Terra com o espaço.
Como diz Dennis Wingo, autor de um livro sobre exploração econômica da Lua, Moonrush, quem acha que o hidrogênio é uma alternativa ecológica ao petróleo nunca viu o dano hediondo que uma mina de platina (metal usado nas células de combustível) causa ao ambiente.
A idéia, aqui, seria “exportar” crateras como Carajás ou Serra Pelada para asteróides, de resto, estéreis. Como diz John S. Lewis, autor de Minning the Sky, há NEOs (asteróides próximos da Terra, desses que às vezes ameaçam dar uma porrada das boas na gente) que contêm mais ferro do que toda a humanidade já consumiu desde a aurora da civilização.
No espaço, esses recursos poderiam ser explorados com impacto ambiental zero, com uso de energia solar que, lá fora, é abundante e existe o tempo todo — sem perdas para atmosfera, sem nuvens para refleti-la de volta.
São ideias extravagantes mas, de forma alguma, cretinas. A única objeção realmente séria que me ocorre é que elas podem ser taticamente inconvenientes: um jeito de botar as pessoas para sonhar com as riquezas infinitas do sistema solar e fazê-las parar de reciclar latinhas de cerveja.  Mas inconveniência não é motivo para desconsideração.
No fim, o mergulho na “Fronteira Alta” vai acabar se impondo, da mesma forma que a questão do uso racional dos recursos aqui na Terra, como um imperativo de sobrevivência. A dúvida é se vamos nos preparar para esse momento, ou se vamos deixar para marcar a primeira aula de natação pra quando a água já estiver batendo na bunda.

Discussão - 3 comentários

  1. André disse:

    Não sou cientista, apenas um “curioso”, mas penso que, ao minerar asteróides e trazer matéria pra cá, não corremos risco de alterar a massa da Terra e com isso, aumentar o campo gravitacional, fazendo uma “caquinha” um pouco mais séria…algo do tipo alterar a órbita da Terra, ou da Lua? Pode parecer absurdo, mas se pensarmos q o problema da poluição do ar começou com apenas uma chaminé…
    Seria possível?

  2. cretinas disse:

    Oi, André! A variação, de início, seria muito pequena para realmente fazer diferença… E se a coisa realmente pegasse impulso, no fim boa parte da massa acabaria ficando no espaço mesmo, em estações, satélites, hábitats, fábricas e coisas do gênero.

  3. André disse:

    Concordo…Se fosse pra dar uma M com coisa pequena, já estaria acontecendo com a qtd de satélites e com a estação internacional…
    Mas como consumo e marketing não dá pra prever, Torço q realmente as coisas fiquem mais no espaço do q importadas pra cá…Seria legal ver isto

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