Darwin e as igrejas

Nos últimos dias, houve uma onda de manifestações de líderes cristãos no sentido de dizer que a teoria da evolução por seleção natural é, ao fim e ao cabo, irrelevante para suas fés — ou seja, não as toca, não as enfraquece, logo não há motivo para se opor ela.
Pode ser maldade minha, mas isso tudo me soou muito como o velho estereótipo do homossexual enrustido que se desdobra em provas e manifestações de macheza, ou a criança que fecha os olhos com força e fica tentando convencer a si mesma de que não, não, não tem medo do escuro.
O fato é que Darwin acabou com o monopólio metafísico da explicação pra a vida: até ele, era muito difícil imaginar uma explicação para a existência de seres vivos em geral (e seres humanos, em particular) sem apelar para algum tipo de agência sobrenatural. A seleção natural reduziu em muito essa dificuldade, que nos dias atuais sequer existe mais.
Claro todo mundo é livre para acreditar em uma origem sobrenatural, mas essa crença não é mais intelectuamente razoável.
Adendo: acaba de chegar a notícia de que Michael Reiss, que havia proposto a inclusão do criacionismo em aulas de Ciências no Reino Unido, deixou a Royal Society. Já posso ouvir os clarins dos teoristas de conspiração criacionsitas soando o velho toque da “liberdade de expressão suprimida pela ciência oficial”… Embora eu ache que ninguém reclamaria da demissão de um professor de geografia que ensinasse que a Terra é plana.

Discussão - 4 comentários

  1. Cret,
    Tem muita politica e ideologia nessa história toda, mas:
    1. Realmente a Igreja Católica (ou seja, seus teólogos, progressistas ou não) nunca defenderam a Young Earth Theory a partir do século XIX ou antes.
    2. O fundamentalismo americano nasce no começo do seculo XX como uma reação romantica ao modernismo. A rejeição do Darvinismo era motivada principalmente por uma rejeição ao Darwinismo Social, que a maior parte dos cientistas acabava defendendo. O fundador do fundamentalismo defendia, em termos cristãos, que os pobres não deveriam ser eliminados por eugenia, que os mais fortes não tem o direito (”biologico” Nietzscheniano) de eliminar os mais fracos, que os “mansos herdarão a Terra” (lagartixas sobreviveram ao asteroide dos Dinossauros).
    3. Longe de mim defender o fundamentalismo religioso, que hoje é a principal ameaça à cultura científica. Mas é interessante conhecer o contexto histórico de seu nascimento e suas motivações politicas e emocionais, e não apenas cognitivas. Me parece que as pessoas acreditam em mitos cosmogonicos e explicações espiritualistas não porque estão preocupadas com um conhecimento cientifico do universo ou da mente humana, mas apenas por conforto frente às incertezas da vida, participação de uma comunidade com ideais comuns (igrejas, sociologicamente, são clubes ou ONGs que cobram – ou não – mensalidades).
    Ou seja, o problema do Criacionismo é mais de origem politica do que filosófica. E os Criacionistas, no começo do século XX, eramprogressistas socialmente, enquanto que a maior parte dos cientistas, com o Darwinismo Social de Galton, Pearson etc, defendiam posições elitistas e mesmo nazi-facistas.

  2. cretinas disse:

    Oi, Osame!
    É engraçado como distorções dão origem a distorções… por exemplo, o espírito de “destino manifesto” do darwinismo social nunca fez parte da teoria de Darwin, na qual ser “o mais apto” não é mérito, mas apenas contingência. E, claro, o super-homem de Nietzsche nunca foi um homem que domina os demais, e sim um homem que domina a si mesmo.
    Quanto ao fundamentalismo, ele é uma espécie de conseqüência lógica da Reforma, não? Digo, quando se elimina a autoridade da Tradição e da Hierarquia, o que resta é o Livro… E o Livro é o que o livro diz.

  3. Cret,
    Lendo o “Anticristo” de Nietzsche, um livrinho fininho que todo Nietzscheniano deveria ler, encontro que o Super Homem, na forma de “guerreiros ou bestas louras” descendente dos “bramanes”, possuiriam o direito vital de dominar os “chandalas” (os pobres, na India a casta dos intocáveis). Para Nietzsche, o Cristianismo, essa ideologia de chandalas, é a origem de todos os males “modernos”, ou seja, iluministas (sociedade sem castas, direitos humanos, democracia, feminismo, anarquismo e socialismo). Mas, obviamente, o Darwinismo hoje não é Darwinista social (embora o leigo médio em ciência ainda não se deu conta disso).

Envie seu comentário

Seu e-mail não será divulgado. (*) Campos obrigatórios.

Categorias

Skip to content

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Política de Privacidade | Termos e Condições | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


Páginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM