Superstição e religião na Science

A Science desta semana traz dois artigos interessantes sobre psicologia e antropologia: um é uma revisão de estudos sobre o papel social da religião; outro, um trabalho sobre que tipo de situação torna as pessoas mais supersticiosas.
O trabalho sobre religião é necessariamente genérico, tratando-se, como se trata, de uma avaliação de diversos estudos anteriores, mas chega a algumas conclusões interessantes:
(1) religião é um fator de coesão social e de estímulo ao altruísmo, mas esse estímulo tende a ser mais forte para “dentro do grupo” de fiéis, e muitas vezes se dá às custas de grupos externos;
(2) esses efeitos se mantêm quando o estímulo religioso é substituído por estímulos de natureza secular (num experimento, a substituição de “Deus” por uma autoridade civil, na formulação do teste, não reduziu o comportamento pró-social dos participantes);
(3) os efeitos sociais da religião tendem a ser mediados po uma espécie de “mercado” de reputações — o que vão pensar de mim lá na congregação se eu fizer isso ou aquilo (o fenômeno “sepulcros caiados”, digamos). 
Claro, nada disso diz se esta ou aquela religião é verdadeira ou falsa, mas esses resultados enfraquecem a velha linha de argumentação pró-religiosa utilitarista (“Se Deus não existe, tudo é permitido”; “Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo”, etc.). É só ter polícia eficiente e incentivar a valorização das reputações que os benefícios são os mesmos, e sem o incenso fedido.
O segundo estudo mostra que as pessoas tendem a ver padrões em imagens geradas a partir de ruído, a acatar superstições e a aceitar teorias da conspiração quando se sentem sem controle da situação — por exemplo, quando recebem notas aleatórias numa prova . Parece um resultado óbvio, mas os pesquisadores precisaram de seis experimentos engenhosos para obtê-lo, além de gastar uma grana recrutando estudantes para atuar como voluntários.
(Aliás, este é um pequeno dilema metodológico da psicologia experimental: afinal, seus resultados têm aplicação universal ou só valem pra priemiranistas de psicologia? ;-))

Discussão - 4 comentários

  1. Carlos Magno disse:

    Acho que a revista Science, ou quem elaborou o artigo, perdeu excelente oportunidade de tratar unicamente de ciências porque em matéria de pensamento de religiosos foi simplesmente caricata e bizarra.
    Se considerarmos seu primário ensaio cínico à crítica, citando a psicologia como ciência, o que muitos contestam, fica a emenda pior do que o soneto.
    O estúpido autor do artigo, demonstrou perfeitamente sua ignorância sobre o ser humano, – o religioso em tela.
    Dever ter frequentado algum grupo religioso do tamanho da sua cultura e senso de observação psicológica, entendendo perfeitamente o que não seja religioso, além de ter deixado transpirar (atchim!!) a tal definição esdrúxula das situações de altruismo.
    Quanto a precisar inventar Deus, realmente exemplificou muito bem o que seja essa aspiração humana, sem a menor dúvida. É realmente uma necessidade, um apoio, um instinto da maior procedência, mormente agora nesses tumultuados tempos céticos, quando muito bem se demonstra a invenção dos homens das ciências do Deus-Máquina – o Grande Colisor de Hádrons.
    Gostaria também de acentuar o fato fartamente notado de que para se ter sucesso em blogs de ciências, o mandamento principal é falar mal das religiões, dos religiosos, dos esotéricos, dos médiuns espíritas, ufólogos, ah, claro, e de Deus.
    Sem isso, – ô saco! – os artigos sobre ciências cairão inexorávelmente no ostracismo.
    Acho que aqui a fórmula mais uma vez se provou verdadeira, pois até eu vim para comentar.

  2. João Carlos disse:

    I beg your pardon!
    O segundo estudo mostra que as pessoas tendem a ver padrões em imagens geradas a partir de ruído, a acatar superstições e a aceitar teorias da conspiração quando se sentem sem controle da situação — por exemplo, quando recebem notas aleatórias numa prova.
    Não é teoria… Está havendo uma “conspiração” para desorientar os participantes. Isso é uma tática conhecidíssima em Guerra Psicoloógica, chamada “desinformação”.

  3. cretinas disse:

    Sim, mas eles acreditam na conspiração ERRADA!

  4. cretinas disse:

    Oi, Magno!
    Pois é, podíamos fazer um estudo sobre isso! 🙂

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