Quem tem medo da eugenia?

Óquei, a palavra carrega uma carga ideológica terrível. A idéia de controlar conscientemente as características de uma geração futura de seres humanos, sempe que aplicada em larga escala, foi usada em nome de políticas autoritárias e preconceituosas. 
Mas essa forma — autoritária e preconceituosa — é a única forma em que o conceito pode ser usado? Autoritarismo e preconceito são características essenciais da eugenia, ou se ligaram a ela por mero acidente histórico?
 Eu diria que é perfeitamente possível separar uma coisa da outra. Por exemplo: muitas práticas adotadas de forma corriqueira por gestantes mais bem informadas, como evitar tabaco e álcool ou usar suplementos de ácido fólico, podem muito bem ser consideradas “eugênicas” (e só não são chamadas assim, suponho, para evitar a associação com a eugenia autoritária de triste memória).
Qual seria a diferença — além da de grau — entre o cuidado informado da mãe durante a gestação e o cuidado informado dos pais na composição genética do embrião?
Hoje em dia, a medicina já dá aos pais algum controle sobre a vida intra-uterina do filho.
Os mesmos pais, aliás, que sempre tiveram amplo controle sobre a vida extra-uterina: escolhem qual será a religião da criança, em que escola vai estudar, quais pratos vai comer. Além disso, sempre coube aos pais escolher que genes ela terá: optar por um parceiro para gerar um filho é um cálculo eugênico, ainda que relizado, de forma inconsciente, por hormônios e codificado em regras sociais.
  Então, o que há de errado com o passo além — permitir aos pais que escolham não só o “pool” genético genérico da onde a criança sairá (que é, afinal, o genoma somado dos cônjuges) mas que selecionem genes específicos?
Acho que existem três temores envolvidos aí: o primeiro é uma forma de determinismo genético, o medo de que, se for possível escolher cada gene, será possível fabricar zumbis, criar crianças que não serão mais que reflexos despersonalizados das expectativas dos pais. Mas me parece que a interação entre gene e ambiente é um pouco complexa de mais para permitir isso.
O segundo é o temor da mercantilização da criança: ela deixaria de ser vista como um novo ser humano e pasaria a ser encarada como uma mercadoria, encomendada, fabricada e paga. MInhas dúvidas nesse caso são (a) será que já não chegamos de fato a esse ponto, mesmo sem eugenia? e (b) se essa visão mercantil se traduz em algo ruim para a criança: bebês desejados são recebidos com amor, não importa a matriz ideológica que presidiu sua concepção.
O terceiro, claro, é o medo de “brincar de Deus”. Se as pessoas começarem a ter os filhos que desejam, e não os filhos que Deus manda, isso não será um pecado horrível?
É dessa terceira objeção que surge, a meu ver, o mais forte argumento a favor de uma versão individualizada, não-preconceituosa e não-autoritária (mas talvez mercantil) eugenia: na sentença acima, “Deus” pode muito bem ser substituído por “acaso”. No fim, ou a concepção de um novo ser humano está sob o controle de alguém, ou está ao sabor do acaso. Se esse “alguém” forem os pais — e não o Estado ou o Dr. Mengele — como isso pode ser pior que o acaso?

Discussão - 8 comentários

  1. Paula disse:

    Se os pais já fazem m3$d@ direcionando a vida extra-uterina, imagina o que eles farão se puderem já começar a botar as mangas de fora na vida intra-uterina… Coitadas das crianças…

  2. Will Walber disse:

    Hahahahahahaha… Tá certo!

  3. João Carlos disse:

    Eu, cá, não tenho quase nada contra a eugenia (depois que eu nasci, é claro… 😉 ). O grande problema é: que critérios seguirá essa “eugenia”?

  4. cretinas disse:

    Sim, essa é uma boa questão. Se eliminarmos a versão fascista — onde quem decide é o governo — a bola passa para so pais. Mas, e aí? os pais poderiam fazer o que quisessem? A dúvida da Paula é bem pertinenet nesse caso…
    Um critério seria o de que nenhuma mudança seria permitida que resultasse em desvantagem, biológica ou social, para o filho. Ou: nada de criancinhas verdes, de orelhas pontudas ou deliberadamente diabéticas, surdas, cegas…

  5. Antonio Intini disse:

    Como tudo na história humana, toda revolução traz questionamentos conservadores.
    Não vejo problema algum em se manipular as características genéticas em uma criança de forma que seu organismo seja menos suscetível a doenças ou mesmo – se possível – aumentar a capacidade intelectual dos futuros seres humanos.
    Seria um mundo interessante. Talvez o próprio homem consiga fazer o que Deus não fez – um homem perfeito.

  6. Patola disse:

    Ou: nada de criancinhas verdes, de orelhas pontudas ou deliberadamente diabéticas, surdas, cegas…
    Continua difícil haver critério. Como o livro Evolution of the Sickest procura demonstrar, certas “desvantagens” – até “doenças” podem ter vantagens muito grandes em contextos diferentes. No exemplo da diabetes: pessoas diabéticas, por terem mais glicose no sangue – um poderoso anticoagulante – sobrevivem muito mais e melhor em climas extremamente gelados do que as não-diabéticas.

  7. cretinas disse:

    Oi, Patola. Eu costumava achar o argumento da variabilidade natural uma boa objeção à manipulação deliberada dos genomas individuais, mas aí me ocorreu que, se a tecnologia realmente tornar possível o tipo de intervenção capaz de montar “designer babies”, ela também será capaz de reintroduzir catacterísticas “perdidas” que venham a ser ncessárias no futuro.
    E, cá entre nós: é meio injusto forçar um brasileiro a passar a vida inteira com dieta controlada e tomando insulina só porque isso poderá, um dia, ajudar seus descendentes distantes a sobreviver na Islândia…

  8. Patola disse:

    E, cá entre nós: é meio injusto forçar um brasileiro a passar a vida inteira com dieta controlada e tomando insulina só porque isso poderá, um dia, ajudar seus descendentes distantes a sobreviver na Islândia…
    Tudo bem, mas acho que você não entendeu o “espírito” do meu questionamento: que “vantagem” é algo muito, muito relativo. Novos exemplos: o filho deve ter genes que incrementem sua atratividade na juventude, mas façam seu corpo envelhecer mais depressa? Ele deve ter grande inteligência matemática, mas ter alguma síndrome no espectro do autismo? Isso só pra citar alguns exemplos conhecidos.
    Não que eu seja contra o tipo de eugenia a que você se refere. Li dois livros – “Adam’s Curse” e “Mendel’s Demon” – que deixam bem claro que precisamos de algo pra evitar a degeneração genética de nossa espécie. E por degeneração genética me refiro a perda de informação do nosso genoma, não algum preconceito específico em relação ao fenótipo.

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