Virgindade que se perde (ou se ganha) na tradução

Já que o Natal está chegando (jingle bell, jingle bell, acabou o papel…) hoje vamos ver como um erro bobo de tradução levou ao dogma católico da Virgindade de Maria. Para começar, é preciso entender que os quatro Evangelhos canônicos — Mateus, Marcos, Lucas, João — são peças de propaganda (ou, melhor dizendo, de proselitismo) criados para “vender” o cristianismo a públicos específicos. 
A história da virgindade aparece primeiro (pode-se até dizer que apenas, já que a referência em Lucas é ambígua) no de Mateus, que é um Evangelho que tenta legitimar a figura de Jesus para os judeus, buscando justificativas para as ações do Nazareno em profecias da escritura judaica e traçando paralelos entre Jesus e Moisés e outros profetas. É nesse contexto que a história da virgindade entra — como uma bela pisada no tomate.
Basicamente, Mateus apresenta a história da virgindade como sendo um cumprimento de uma profecia do profeta hebreu Isaías: “Uma virgem conceberá e terá um filho, que chamará Immanuel…”. O fato, porém, é que não é isso o que consta do livro de Isaías. O texto hebraico original diz: “uma garota está grávida e…”.
A pegadinha: uma tradução clássica da Bíblia para o grego, a Septuaginta, realmente equivocou-se e usou parthenos (“virgem”) em vez de “garota”. Ao que tudo indica, Mateus estava usando essa versão pra cozinhar seu Evangelho.
O mais curioso é que a passagem de Isaías sequer é uma profecia messiânica. Tratava-se, apenas, de uma tentativa de acalmar o rei Ahaz de Judá, que estava com medo de invasões estrangeiras. O que Isaías diz ao rei é: “O Senhor te dará um sinal. Vê, a garota está grávida e terá um filho, que se chamará Immanuel (…) E antes que essa criança saiba aceitar o que é bom e rejeitar o que é mau, a terra diante dos dois reis que temes será devastada”. (na New Oxford Annotated Bible, tradução minha para o português).
Trata-se, evidentemente, de um prazo: antes que uma criança, que naquele dia está no venter da mãe, seja capaz de tomar uma decisão simples — aceitar um carinho e fugir de um tapa, por exemplo –, os reis inimigos serão derrotados. Tudo isso esta lá no capítulo 7 de Isaías.
A questão de por que Mateus se deu ao trabalho de tirar o verso de contexto e usá-lo como uma predição do nascimento de Jesus continua aberta ao debate.
Em seu maciço Asimov’s Guide to the Bible, Isaac Asimov especula que uma grande população de judeus helenizados provavelemente teria tido contato com os mitos greco-romanos de nascimento a partir de virgens possuídas pelos deuses, e Mateus fez o esforço extra para cativá-los: unir o mito grego à profecia hebraica deve ter parecido um golpe genial para convencer os judeus que, ciosos de suas raízes, também se viam envolvidos com a cultura helenizada da época.
O que ele não poderia ter previsto é o tamanho do dano psicológico, social e sexual causado por uma tradição que acabaria elegendo as características mutuamente excludentes de virgindade e maternidade como o ideal feminino supremo.

Discussão - 4 comentários

  1. João Carlos disse:

    Aliás, este é um dos muitos erros de tradução do aramaico, para o grego e daí para o latim, fartamente comprovados…
    Até que ponto foram “erros honestos” e até que ponto foram “contas de chegar” para adaptar uma figura mítica que servisse a diversas mitologias (coisa bem ao gosto dos romanos e seu Panteão) é uma questão em aberto.
    Ou nem tanto, se levarmos em consideração que Constantino já não acreditava que as legiões romanas pudessem manter a hegemonia de Roma por mais tempo.

  2. Preta disse:

    So podia ser cretino mesmo!

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