Negação do Holocausto

Falando em excomunhão, lembrei-me da polêmica causada pela reintegração à igreja católica do bispo Richard Williamson, que ganhou uma notoriedade indesejada ao se proclamar defensor as chamadas teses negacionistas, que negam a ocorrência do Holocausto durante a 2ª Guerra Mundial.
O negacionsimo tem várias dimensões — incluindo seu impacto emocional sobre os sobreviventes do genocídio e seu papel da justificação de políticas de extrema direita ou antissemitas — mas o que me interessa aqui é a faceta científica e filosófica do problema: primeiro, como é possível saber que um fato histórico realmente ocorreu? Como saber se a interpretação dominante de um conjunto de evidências (documentos, testemunhos, vestígios químicos, etc) é realmente a correta? E segundo, a questão da liberdade de expressão: por que os negacionsitas são perseguidos e reprimidos? Por que não dar a essas pessoas o direito de dizer o que pensam?
Para entrar na questão é importante, primeiro, definir “Holocausto” (ou “Shoá”). O termo, usado em referência ao ocorrido na guerra de 1939-1945, abarca três afirmações (aqui estou adaptando conceitos do livro Denying History, de Michael Shermer e Alex Grobman):
1. Cerca de 6 milhões de judeus foram deliberadamente mortos pelo Estado alemão.
2. Parte significativa dessas mortes se deu em câmaras de gás.
3. Exterminar os judeus da Europa foi uma decisão tomada e implementada de forma consciente pelo governo nazista e seus funcionários.
Um “negacionista” é alguém que nega pelo menos uma dessas afirmações: ele pode achar que seis milhões é um número exagerado; que as câmaras de gás eram apenas usadas para matar piolhos e carrapatos, nunca pessoas; ou que a morte dos judeus nos campos nazistas foi incidental, causada por desnutrição e doenças, e não parte de uma política deliberada de assassinato em massa.
Falando assim — e pondo o aspecto político-emocional da questão de lado — pode parecer que os negacionsitas têm a oferecer uma interpretação da história que pode ser tão “válida” quanto qualquer outra, e que a disputa deveria ser resolvida calmamente nas publicações especializadas e fóruns acadêmicos.
O problema com essa conclusão é que a tese negacionista é tão “válida” quando a de que a Terra é plana, de que a Lua é feita de queijo ou de que a evolução das espécies é um mito: assim como essas três, a negação do Holocausto depende de (a) uma reinterpretação radical da evidência, (b) de uma enorme conspiração para ocultar a “verdade” das massas e (c) de um uso essencialmente desonesto de questões ainda em aberto na historiografia e erros historiográficos já asumidos.
Por exemplo, entre as evidências de que o Holocausto ocorreu da forma como descrita na história oficial, há confissões de nazistas — de simples guardas a altas autoridades, como Eichmann, que nunca negou o Holocausto e que, quando julgado, defendeu-se dizendo que apenas cumpria ordens — fotos de pilhas de corpos, dados demográficos (quantos judeus havia na Europa antes da guerra, quantos constam como deportados para os campos de concentração ou emigrados, quantos havia depois) e depoimentos de sobreviventes.
Negacionistas costumam dizer que as confissões foram extraídas sob tortura, que os judeus que “faltam” na conta demográfica emigraram, que os depoimentos dos sobreviventes são exagerados. Mas, faz sentido afirmar que todas as confissões foram obtidas sob tortura, que confissões obtidas de diferentes pessoas, mantidas em locais separados e por diferentes interrogadores, diriam a mesma coisa?
Quanto à tese da emigração: se ela estiver correta, então cinco milhões de judeus sobreviventes da guerra (os negacionistas reconhecem menos de 1 milhão de mortos) simplesmente desapareceram da história sem deixar rastro, sem reivindicar, por exemplo, cidadania do Estado de Israel ou a reparação dos bens roubados pelo Estado nazista.
Por fim, o testemunho das vítimas pode muito bem ser o elo mais fraco da historiografia do Holocausto — cada prisioneiro, afinal, via apenas uma pequena parte do que estava ocorrendo, boatos e rumores eram constantes, e a fantasia talvez fosse a única escapatória para muitos — mas existe um grande número de depoimentos corroborados ou esclarecidos por outras linhas de evidência, depoimentos de diferentes prisioneiros que são consistentes entre si, etc.
Fenômenos históricos como o Holocausto são provados pelo que se costuma chamado de “consiliência de induções“, que é o que ocorre quando várias linhas independentes de evidência apontam para uma mesma conclusão.
Negacionsitas tendem a atacar detalhes de uma ou outra linha, apresentar o debate de questões ainda em aberto por historiadores sérios como “prova” de que esta ou aquela linha é essencialmente falsa ou fazer exemplo de linhas que a própria história oficial já se encarregou de descartar, como o mito do sabão humano. Uma conspiração torna-se necessária, porém, para explicar a solidez geral das linhas e a manutenção da consiliência entre elas. Do ponto de vista retórico e filosófico, isso não é muito diferente do que fazem os criacionsitas.
Por fim, a questão da liberdade de expressão: mesmo reconhecendo o impacto político e emocional do negacionismo, não creio que punir criminalmente, anatemizar e proscrever seus defensores seja uma solução. Reprimir ideias só serve para criar mártires e impedir o livre debate que poderia reduzir ideias falsas às devidas proporções, além de dar ao pensamento reprimido a aura de fruto proibido. Como diz um amigo, nunca houve tantos comunistas no Brasil como durante a ditadura de 64-85…

Discussão - 10 comentários

  1. É mas muitos sites e livros conseguem provar que o holocausto ou não aconteceu ou que a história esta exagerada, o problema é que em vez de atacarem as provas e ideias apresentadas o que ocorre é o ataque a pessoa, para calar ela o mais rápido possível. Desta forma fica parecendo que estão tentando esconder algo, que essa pessoa tem que ser silenciada porque sabe de mais. Os próprios defensores dos direitos humanos e as associações judaicas acabam assim dando um tiro no próprio pé.
    Até hoje não tenho opinião final sobre esse assunto, moro próximo a Dachau e qualquer dia quero ir lá para ver se chego a alguma conclusão PRÓPRIA.

  2. cretinas disse:

    Oi, Martin!
    Os negacionsitas não “provam”, eles “argumentam” — e mau, com base em dados parciais e distorções dos fatos. Mas concordo com você, a gritaria contra o negacionismo acaba tendo um efeito contrário. Se você quiser se aprofundar no assunto, o livro de Shermer e Grobman que eu cito na postagem é um bom ponto de partida.
    E olha só, Dachau não foi um campo de extermínio, mas de concentração. Os campos onde há atos de extrermínio comprovados são Auschwitz-Bikernau, Treblinka, Belzec, Sobibor, Chelmno e Majdanek. Uma coisa importante para ter em mente é que o Holocausto não se restringiu aos campos: os nazistas tinham esquadrões da morte que fuzilavam judeus onde quer que os encontrassem… Se vc der uma busca no google por “einsatzgruppe d”, verá fotos de uma dessas execuções em massa.

  3. Andros disse:

    Começo pelo final: Seu amigo precisa saber que a dita ( dura para quem enfrentou) na verdade foi o período em que mais desapareceram comunistas.
    Sobre mortandades e silêncios: Acho o presente mais nebuloso que o passado…

  4. João Carlos disse:

    Um detalhe que os “revisionistas” (“negacionistas” você os chama) costumam “esquecer” é que mesmo os campos de concentração, onde os prisioneiros eram usados como mão-de-obra escrava, eram “campos de extermínio de baixo rendimento”, por assim dizer. O termo “muselmann” não apareceu à toa…
    Também “esquecem” que os ciganos foram, proporcionalmente, atingidos ainda mais duramente do que os judeus. (E eu sempre gostaria de ver alguma crítica dirigida a uma “imprensa ciganista”…)
    Mas é exatamente com isso que eles contam: a infinita capacidade que as pessoas têm de “esquecer”…

  5. cretinas disse:

    Oi, João! O termo “revisionistas” é meio complicado de usar porque toda a história está, sempre, sob “revisão” (à luz de novos documentos, interpretações, etc). É importante distinguir entre o que é revisão legítima, parte do método científico tal como aplicado à história, e o que é simples negação dogmática.
    A distinção entre campos “de extermínio” e “de concentração” é importante porque derruba os argumentos negacionistas de não-intencionalidade (as mortes não teriam sido parte de um plano deliberado, mas fruto das condições econômicas precárias que passaram a existir na Alemanha depois que os aliados viraram o jogo da guerra) e da equivalência moral (os EUA também tiveram campos de concentração).

  6. Kitagawa disse:

    Imagino que alguém deve ter estudado a fundo a capacidade de matar dos campo de extermínio. Será que os números batem? 6 milhões são pelo menos 40 Hiroshimas! É a população duma cidade do Rio. Claro, não foram só nos campos que os judeus foram assassinados, mas imagino que o grosso tenha sido neles. Será mesmo que eles davam conta do recado?

  7. cretinas disse:

    Há cerca de 3 milhões de mortes atribuídas às cãmaras de gás nos campos de extermínio — as demais (os outros 50%) entram na conta dos esquadrões da morte da SS, que faziam a “limpeza étnica” dos territórios ocupados, e outras atrocidades.

  8. Alexssandro Duarte disse:

    O colega João Carlos levantou uma questão interessante sobre as vitimas não judiais do nazismo, os ciganos então são sempre esquecidos, se os revisionistas (a maioria neonazistas mal disfarçados)justificam até as leis anti judaicas que excluiriam os judeus da vida social alemã antes mesmo da guerra, queria ver eles usarem o mesmo argumento contra os ciganos.

  9. Fabiola disse:

    Dê uma olhada no site deste livro:
    http://www.debatingtheholocaust.com/
    O autor tenta examinar com objetividade os dois campos historiográficos, o “oficial” e os “revisionista”. Os revisionistas marcam muito mais pontos do que se esperaria e fazem perguntas críticas que os oficialistas não conseguem responder.

  10. Luís Filipe Pinto disse:

    Então e os cerca de 600.000 ciganos que foram exterminados pelos nazis…”varrem-se para debaixo to tapete”? As vidas humanas não são todas iguais em valor? Porque é que se fala tão pouco do povo Cigano? Será por terem menos poder na sociedade? Não devemos esquecer o sofrimento e perseguição a que este maravilhoso povo esteve votado durante tantos séculos. É tempo de afirmar bem alto que os Ciganos também são seres humanos e que sofreram tanto como os Judeus, têm tanta dignidade como eles e devem, por conseguinte, ser lembrados por todos! O holocausto Cigano foi uma triste realidade igual à triste realidade do Judaico.Para além disso, os Ciganos são dos poucos povos no mundo que nunca fizeram guerra a outro povo, sendo por isso considerados como um dos povos mais pacíficos de sempre na histária da humanidade! Devlèsa

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